00:00O Grupo Fictor entrou com um pedido de recuperação no Tribunal de Justiça de São Paulo
00:06com o objetivo de reorganizar as operações e garantir o pagamento das dívidas
00:11estimadas em cerca de 4 bilhões de reais.
00:16Esse pedido acontece após o grupo tentar comprar o Banco Master
00:20um dia antes da liquidação da instituição financeira.
00:24Vamos saber dos impactos desse pedido de recuperação judicial
00:28com o economista e professor de mercado financeiro da UNB, César Bergo,
00:35a quem eu agradeço a participação aqui na nossa programação, em especial aqui no Fast Money.
00:42Professor Bergo, eu vou chegar com o cerne da questão, por quê?
00:46Por mais que nós estejamos falando de uma operação financeira,
00:50isto já está inflamando as páginas da cobertura policial,
00:57ou seja, isso já passa a ser mais uma questão judiciária do que uma questão econômica em si.
01:04Essa contradição, uma empresa que depois diz que está devendo 4 bilhões de reais,
01:11tem um prejuízo de 4 bilhões, quer comprar um outro banco 24 horas antes,
01:17todo mundo já entendeu aqui essa linha do tempo?
01:21Claro que isso vai ser um forte argumento para a acusação no âmbito do judiciário
01:27para dizer, olha, já tinha aqui mais um forte indício de uma operação fraudulenta.
01:35Isso eu estou fazendo as minhas elucubrações.
01:37Queria saber do senhor a sua interpretação, uma vez que entende muito mais disso do que eu.
01:43Boa tarde mais uma vez, professor.
01:45Boa tarde, Favala, é um prazer estar com você aí.
01:48Se a gente lembrar um pouquinho, na segunda-feira anunciou que o Fictor ia comprar o Master,
01:53e no dia seguinte, pela manhã, o Banco Central então liquidou o Master,
01:58além do que havia aquela operação também de complice zero da Polícia Federal.
02:02Bom, essa questão do Fictor já vem desde o início de 2025.
02:06Algumas suspeitas com relação às operações que ele conduziu,
02:09isso mostra a fragilidade desse mercado, sobretudo considerando que ali tinha uma asset,
02:15uma gestora de recursos, que a Fictor é uma holding, e entre elas tinha uma asset.
02:20Então, isso demonstra uma fragilidade da regulação e do controle da fiscalização também.
02:26Porque para chegar a um banco, você tinha até informações que haveria investidores árabes aí envolvidos,
02:33ou seja, é uma trama muito bem descrita, em que acabaria resultando em alguma coisa,
02:40como você bem falou, ia sair das páginas de economia e ir para a praça da polícia.
02:45Então, eu não vejo nenhuma surpresa, porque cada dia surge um fato novo,
02:50essa questão da liquidação do Banco Master.
02:54Mas mostra uma fragilidade muito grande do sistema,
02:57e os órgãos reguladores têm uma responsabilidade muito grande,
03:00porque não basta você importar uma estrutura de investimentos americano.
03:05O sistema americano é totalmente diferente do sistema brasileiro,
03:08sobretudo do ponto de vista jurídico.
03:10Então, muitas vezes, essas empresas acabam caminhando de uma maneira ali na linha tênue,
03:15que separa a imprudência, a omissão do dólar e da má-fé.
03:21Então, eu vejo nesse sentido, alguns investidores,
03:24me parece que a maioria dos investidores da Fictor são investidores qualificados, profissionais,
03:29mas não tenho a menor dúvida que criam uma fragilidade muito grande
03:32para a gente saber e as outras empresas que estão atuando nesse segmento,
03:37sobretudo do crédito corporativo, Favale.
03:39A grande preocupação é que é um meio de financiamento de empresa,
03:43e isso é positivo, sobretudo num cenário de juros alto.
03:48Então, você poderia buscar no mercado de capitais algumas alternativas.
03:52Mas o que estamos vendo agora aumenta a insegurança, a incerteza,
03:55porque essa empresa ficta é aquela que quer comprar o Banco Master,
03:59como você bem mencionou.
04:00Então, fica uma coisa muito estranha, ainda mais a montagem toda,
04:05se a gente for acompanhar o que está acontecendo com o Banco Master,
04:08e também o Banco de Brasília e outras instituições,
04:13de fato, é preocupante e, sobretudo, mostra essa fragilidade
04:16no setor de regulação e autorregulação do nosso mercado financeiro.
04:20Pois é, professor Bergo.
04:21A partir dessa sua primeira resposta, vamos olhar para frente,
04:24porque o que aconteceu, a gente já entende, faz parte da acusação,
04:29a defesa está apresentando o seu lado,
04:32mas a regulação, ela já existe, né?
04:36Só pensar no micro, eu, o senhor e as milhares de pessoas
04:40que estão nos assistindo do outro lado da tela,
04:42para comprar um carro, um imóvel,
04:44até para fazer um crediário num grande magazine,
04:48tende a apresentar credenciais para provar que se vai conseguir pagar aquele bem,
04:55seja um liquidificador, um automóvel ou um imóvel.
04:59Agora, um banco que vai comprar o outro,
05:01também tem que apresentar as suas credenciais
05:04para provar a capacidade de liquidação da compra, do crédito e tudo mais.
05:11Então, os mecanismos já existem, onde que eles falharam agora?
05:15É porque foi tudo, eles são menos públicos do que, por exemplo,
05:20os dados necessários à entrega de um certificado de imposto de renda
05:25que eu tenho que fazer para comprar um imóvel, por exemplo.
05:28Onde que está, né?
05:29Eu estou perguntando isso para a gente pensar daqui para frente,
05:32para que casos como esse não se repitam.
05:34Mas, Favale, você coloca uma situação muito delicada.
05:39Quando o ministro da Fazenda chega na televisão
05:42e diz que os fundos deveriam ser cuidados pelo Banco Central,
05:46aí abre realmente uma interrogação muito grande.
05:48Porque nós temos a CVM,
05:50que deveria estar olhando a questão de fundos de investimentos,
05:53o Banco Central cuidando do mercado financeiro,
05:55mas parece que isso não aconteceu.
05:57E houve uma sofisticação muito grande.
06:00Isso é ruim porque os investidores querem correr risco também,
06:03querem ter maior retorno.
06:04Isso é natural.
06:05Mas aproveitar a situação para criar veículos de investimentos
06:09totalmente fora do padrão.
06:11Então, o que a gente vê hoje no mercado
06:13é necessário uma regulação mais firme.
06:17Infelizmente, acaba o bom pagando pelo mal.
06:20Porque houve um aproveitamento dessa situação,
06:23como você bem mencionou.
06:25Veículos importantes no mercado de capitais
06:28foram mal utilizados.
06:30Como você coloca aí, existe aquela sociedade de participação.
06:32você não sabe nem quem está lá dentro.
06:35Como houve aquele carbono zero,
06:36como surgiu aí aquelas questões, aquelas denúncias
06:39de utilização de bancos de investimento,
06:41naquela situação de financiamento do crime.
06:44Então, é necessário, nesse momento,
06:46como você bem falou, olhar para frente,
06:48melhorar nossas normas de regulação, fiscalização,
06:52porque é como falou a Polícia Federal,
06:55complice zero.
06:56Nós estamos, assim, assustados.
06:57Isso aumentou muito o risco, né?
06:59E os investidores, eles não vão atuar no mercado
07:02onde você tenha esse nível de operações
07:05que colocam sob dúvida, inclusive, os ativos, né?
07:09Aquela história, Favalho.
07:11Você está com um punhado de ativos podres no mercado,
07:13de repente, começa a valer alguma coisa.
07:15Não tem milagre, né?
07:17Você tem um banco de Santa Catarina
07:18que foi fechado há não sei quantos anos.
07:20Pegaram os ativos lá, jogaram para 10 bilhões.
07:23Então, isso é falta de fiscalização, Favalho.
07:25Então, não tem a menor dúvida
07:27que os órgãos reguladores levaram esse tranco,
07:30vou dizer dessa forma, esse termo chulo,
07:33porque eles têm que realmente agir
07:35e evitar que empresas mal intencionadas
07:37atuem no mercado.
07:38Essa Fictor mesmo cuidava até de alimentação também,
07:41é uma holding, né?
07:42Então, ela acaba pegando, enganando as pessoas, né?
07:45Já tinha muita reclamação com relação
07:47a recebimento dos investimentos.
07:50Então, não tem a menor dúvida,
07:51você coloca uma situação muito importante
07:52porque os órgãos de regulação
07:55têm que funcionar e ir rápido,
07:57porque senão acaba trazendo uma incerteza
07:59muito grande para o nosso mercado.
08:01E é isso.
08:02Para a gente encerrar, professor Bergo,
08:03é aí que eu queria chegar,
08:05puxar mais do chão da realidade.
08:07Porque uma coisa é nós discutirmos
08:09em instâncias mais altas
08:10entre banqueiros e instituições brasileiras
08:15que têm a função de fiscalizar isso.
08:17Trazendo isso num nível mais baixo,
08:20não do banqueiro,
08:20não do banqueiro,
08:21mas do correntista,
08:23do investidor,
08:24pessoas como eu, o senhor,
08:25e as pessoas que estão nos assistindo aí
08:27atrás das nossas múltiplas telas,
08:30é o seguinte,
08:31o quanto sobra de confiança?
08:33Porque um correntista
08:34que tem baixa renda
08:35ou alguém que tem um dinheiro
08:37para aplicar
08:38alguém de mais alta renda,
08:40escolhe o banco XYZ,
08:42a corretora YZ,
08:45por confiança,
08:46por prerrogativas,
08:49por...
08:51Me fugiu a palavra,
08:53mas eu vou achar aqui...
08:54Fidúcia.
08:57Exatamente.
08:58E prestígio.
08:59Agora, para recuperar a confiança
09:02daqui para frente,
09:03o que o governo
09:04e o que as instituições
09:06que ainda mostram a sua fidúcia,
09:09palavra que vem do latim de confiança,
09:11ainda para manter
09:13uma certa confiança
09:15no nosso sistema financeiro?
09:18É interessante, Favar,
09:19você colocar essa situação
09:20porque a própria norma
09:22divide os investidores,
09:23profissionais,
09:25os investidores qualificados
09:27e aquele investidor como nós
09:29que estamos colocando
09:31nosso dinheiro na confiança
09:32no mercado,
09:33tanto de capitais
09:33como mercado financeiro.
09:35Então, é necessário
09:36que essas normas
09:37sejam mais claras,
09:38mas no sentido
09:38de fiscalização também.
09:40não pode deixar
09:41simplesmente correr a coisa.
09:43Ah, porque é qualificado
09:44eu não vou regular.
09:46É porque é profissional
09:47eu não vou regular.
09:48Porque esses fundos
09:49que nós estamos fazendo
09:50e comentando
09:51são fundos que formaram
09:52um volume de recursos
09:53muito grande
09:54e acabam atraindo
09:56pequenos investidores
09:57que acabam entrando
09:58o que a gente chama
09:58de incautos.
10:00São pessoas que acreditam
10:01numa situação,
10:02entram e depois
10:03têm um prejuízo consolidado.
10:05E muitos deles,
10:06inclusive,
10:07nós vimos isso,
10:08usam o fundo
10:08garantidor de crédito
10:09como garantia,
10:10quando na realidade
10:11eles tinham que dar
10:12a garantia,
10:13eles tinham que oferecer
10:14essa garantia.
10:15Então, começa a usar
10:16o sistema
10:17em favor de situações
10:18realmente esdrúxulas,
10:20como nós vimos agora.
10:21Então, é rápido
10:22e urgente
10:23que as autoridades,
10:26até para dar
10:27uma tranquilidade
10:27no mercado,
10:28como você bem colocou,
10:29né?
10:29Porque, assim,
10:30o banco só existe
10:31em função da fidúcia.
10:33Existe aquele risco
10:34que a gente chama
10:34de risco de reputação,
10:36risco de imagem.
10:37Então, esse risco
10:38está zero,
10:39pelo visto.
10:40Então, o nosso mercado
10:41financeiro precisa,
10:42de fato,
10:43de uma fiscalização
10:44e evitar situações
10:45como essa,
10:46que são notadamente
10:47situações que estão
10:49caminhando
10:49no lado errado
10:51do mercado financeiro.
10:53Professor Bergo,
10:54obrigado.
10:55Era essa palavra
10:56que eu estava procurando
10:56aqui na hora
10:57que eu patinei.
10:58É reputação.
11:00E aí tem até
11:01uma música que fala
11:01isso aqui,
11:02ou é um pouquinho
11:03de Brasil e aíá, né?
11:05Alguém puxa o pino
11:07da granada
11:07e ela vai estourar
11:09no colo de outrem, né?
11:10No caso dessa quase
11:12entidade espiritual
11:13que a gente fala
11:13todo dia,
11:14o FGC,
11:15o Fundo Garantidor
11:15de Crédito.
11:16Alguém vai ter que pagar
11:17um cheque
11:18que não era dele.
11:19Professor Bergo,
11:20essa discussão
11:20não se encerra aqui.
11:21A gente ainda terá
11:22muitas oportunidades
11:23para falar sobre isso.
11:25Espero que seja
11:25uma novela
11:26com um final feliz
11:27para quem, por exemplo,
11:28está esperando
11:28um retorno
11:29de um ressarcimento.
11:32Conversei aqui
11:33com o professor Bergo.
11:34Muito obrigado
11:35mais uma vez, professor.
11:36Até uma próxima oportunidade.
11:39Grande favário,
11:40um grande abraço
11:41e até a próxima.
11:41Até a próxima.
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