00:00Thales, conta um pouco da sua história, eu pesquisando um pouco sobre você e não sabia que você foi criado pra sua avó, né?
00:08E que vem de uma família muito simples.
00:10Super.
00:11E nasceu em Minas.
00:12É, no interior de Minas, uma cidade chamada Carangola.
00:15Eu sou o filho da tradicional família brasileira, que é o pai separado da mãe.
00:20Certo.
00:21E aí vai ser criado pela avó.
00:23A mãe solo?
00:25Já solo quando você nasce?
00:26Não, não. Na verdade o meu pai era casado com a minha mãe.
00:29Eles se separaram quando eu tinha ali uns 5 anos de idade.
00:33E aí meu pai era muito novo, minha mãe também.
00:36Minha mãe devia ter uns 18 anos quando me teve, meu pai uns 20 e nada.
00:39E aí acabou que eu fui criado pela minha avó.
00:42Por isso que eu fiz a brincadeira de tradicional família brasileira, né?
00:45Porque no final do dia, o que eu vejo que acontece hoje, como principalmente aconteceu aqui no Brasil,
00:51que houve um afastamento do cristianismo,
00:54então as famílias perderam muito aquele negócio de termos que ficar juntos, né?
00:59Então, no catolicismo, por exemplo, a gente acredita que uma vez que você casou, não existe separação.
01:05E eu vejo uma visão objetivista em cima dessa crença católica.
01:09Porque imagina assim, você é mulher.
01:11Se o teu marido vira pra você e fala assim, olha, a gente nunca vai se separar.
01:16Não existe isso na minha vida.
01:17Isso com certeza vai te dar muito mais segurança, porque eventualmente você é casado.
01:20Pelo amor de Deus, eu saio correndo, imagina.
01:23Eu tô presa? É uma prisão ou é uma coisa beita?
01:25Ah, tá. Então você quer que teu marido separe de você?
01:27Não quero nada. Só quero que eu não tenha uma condenação.
01:30Você não acha que isso é uma coisa um pouco determinista?
01:32Ser casado com teu marido é uma condenação?
01:34Não. É que eu acho que a condenação é você ficará.
01:36Vai dar merda.
01:37Olha só.
01:39Ah, mas ele que tem medo de mim.
01:41Tranquilo.
01:41Você que bota o pau na mesa lá.
01:44Não, mas assim, a minha pergunta pra você é, será que isso não é determinista demais?
01:49Você precisa ter essa definição, olha, nunca vou me separar?
01:54Eu acho que sim.
01:55Eu acho que, inclusive, quando a gente pega as famílias brasileiras, né,
01:59que elas começaram a, de fato, se afastar do cristianismo e se separar muito,
02:03o que que gera?
02:03Gera uma geração de pessoas desfuncionais.
02:07Se você cresce afastado da figura do pai e da figura da mãe,
02:12você vai ser desfuncional.
02:13Eu sou desfuncional de várias formas.
02:15De que formas?
02:16De N formas.
02:17Quando você cresce afastado de um pai, de uma figura masculina,
02:21ou de uma mãe de uma figura feminina,
02:22você tem algumas desfuncionalidades.
02:24Então, se você tá crescendo próximo da tua mãe,
02:27vocês mulheres têm um poder muito grande,
02:29que é o poder da empatia, é o poder da intuição.
02:32A feminilidade é muito importante pra masculinidade.
02:35Então, uma mulher que faz um bom trabalho de criação do seu filho,
02:40o seu filho vai ser alguém que vai sempre respeitar e muito outras mulheres,
02:45que vai ser uma pessoa mais empática, que vai ser uma pessoa mais intuitiva.
02:48E agora a mesma coisa pra figura masculina.
02:50Quando você foi criado pela sua avó e pela sua mãe,
02:54você sente que tem esse lado dessa energia feminina bem explorado e desenvolvido em você?
03:00Acho que não. Acho que, na verdade, é o contrário.
03:02Por quê?
03:02Porque a minha figura de referência, apesar de eu ter minha avó muito próximo,
03:06minha avó é uma mulher muito forte.
03:08Porque a minha avó, ela se separou do marido também.
03:11Então, é uma mulher que se fez sozinha, criou o meu pai mãe solo, sozinha.
03:17Então, ela ficou com uma força muito grande.
03:19Minha avó tinha uma energia masculina muito grande.
03:20Perfeito.
03:21Então, minha avó era muito brava.
03:23Minha avó corria atrás de mim com chinelo e dava na minha nuca.
03:25Não tinha conversa, sabe?
03:26E a minha figura de referência de criação ali foi o patrão dela.
03:30Que, como a minha avó era uma senhora muito pobre, né?
03:33Ela é empregada doméstica desse homem.
03:35Ela tinha, inclusive, três funções ali.
03:37Ela é empregada doméstica dele.
03:39Ela era faxineira de um colégio estadual.
03:41E ela vendia natura.
03:42Só que esse homem, Jorge Rocha, que eu carinhosamente passei a chamar de avô,
03:48ele foi muito generoso comigo.
03:51Me permitiu morar na casa dele, junto com a minha avó.
03:54Não só me permitiu morar na casa dele, porque eu me tratava como filho.
03:57Sim, eu sou católico, então eu realmente acredito na presença divina.
04:00Isso, pra mim, é providência divina.
04:02Esse homem ter deixado eu morar na casa dele, sendo que eu era o neto da empregada,
04:06e me tratar como filho, tipo, não tem explicação, sabe?
04:10Não acho que é o acaso que aconteceu ali.
04:12E ele se tornou a referência, pra mim, masculina.
04:15E ele, sim, era um homem extremamente masculino, muito forte.
04:18Foi pra Segunda Guerra.
04:19Era um homem muito culto.
04:21Eu acho que o meu interesse por filosofia, por me aprofundar em termos complexos,
04:26vem desse avô.
04:27Pra você ter ideia, ele lia, pra mim, história romana.
04:31Em vez de ficar lendo livrinho,
04:32daí tava pra dormir e falava, vou te contar agora a história de Nero.
04:35Por que ele não foi um bom líder?
04:37Aí me contava a história de Nero.
04:38Vou te contar agora sobre Júlio César.
04:40Então, eu cresci nesse lar.
04:42Então, apesar de crescer em um lar separado,
04:45eu encontrei um alento ali junto com a minha avó
04:48e com o seu patrão que eu chamei de avô.
04:51Você considera um lar?
04:53Ainda que aquele núcleo que te criou
04:56não fosse um núcleo familiar,
04:58vamos dizer, padrão comum, como você falou, né?
05:02A mãe casada com o pai que cria um filho.
05:04Então, você foi criado já numa estrutura diferente,
05:08inclusive, onde o seu pai, né?
05:10O avô, tinha uma posição hierárquica muito clara,
05:14porque ele era patrão da sua avó.
05:15Exato.
05:16Você acha que, em algum lugar,
05:18isso construiu algumas das percepções que você tem
05:21em relação ao que é o papel masculino, feminino?
05:24O que a mulher deve fazer?
05:27O que o homem deve fazer?
05:29Você acha que isso teve algum impacto?
05:31Acho que sim.
05:31Tudo que a gente passa na vida
05:34acaba construindo um pouco das nossas certezas,
05:37aquilo que a gente acredita.
05:38Mas um outro ponto sobre mim é que
05:40eu sou uma metamorfose ambulante, né?
05:42Então, eu já usei dois brincos de argola,
05:44tinha cabelo grande e era vocalista de banda de rock.
05:47E, pô, tive uma foto do Lula pregada na minha geladeira.
05:51E não tem problema de mudar, então?
05:52Não tem problema nenhum.
05:53Eu não tenho nenhum compromisso.
05:55Agora, eu já estou...
05:55Eu não tenho nenhum compromisso com absolutamente nada
05:58que não seja a verdade.
05:59Eu estou em busca da verdade ao longo da minha vida.
06:02Por isso que gosta de filosofia.
06:03Não, eu adoro filosofia, né?
06:05Por isso que eu preciso mergulhar em história e em filosofia.
06:08E exatamente através dessa minha busca da verdade,
06:11que eu tive a coragem de mergulhar profundamente
06:13em história e filosofia,
06:14e descobrir que nós, eu, você, somos extremamente operados pelo sistema.
06:18A gente é muito operado pelo sistema.
06:19O sistema educacional é feito para nos operar.
06:22O Brasil é uma grande mentira.
06:24Esse Brasil, o repúblico que a gente vive, é uma grande mentira.
06:26Em que sentido?
06:27Você sabia que o teu país, ele é fruto de um golpe
06:29que aconteceu em 15 de novembro de 1889?
06:31Já te contaram isso na escola ou não?
06:34Contaram ou não?
06:35Não, né?
06:36Vou te contar a tua história, então, do teu país.
06:40Maio de 1888, a Princesa Isabel,
06:42uma das mulheres mais fodas que já passaram pelo mundo,
06:46brasileira, filha de Dom Pedro II,
06:48ia ser a próxima imperatriz brasileira,
06:50ela extingui o quê?
06:52A escravidão no Brasil, certo?
06:54A lei áurea, que é algo que nunca deveria ter existido.
06:56Já começa por aí, né?
06:57Mas pressionada e por um movimento político, certo?
07:00Pelo contrário.
07:01Ela foi pressionada a não extinguir.
07:03Sim, perfeito.
07:04Ela foi pressionada a extinguir.
07:08Não extinguir.
07:08Porque é o seguinte, vou te falar aqui que era o Brasil na época.
07:12Você tinha uma oligarquia que era composta pelos barões do café, certo?
07:16E você tinha o exército que estava voltando da guerra do Paraguai,
07:21querendo prestígio.
07:23Você é fazendeira.
07:25Você tem lá tua mão de obra escrava.
07:27Custo de fazendeiro, basicamente, é o insumo para plantar e mão de obra, né?
07:31Se alguém vira e fala assim, agora eu vou extinguir a escravidão.
07:33O que acontece com teu negócio?
07:34Margem de contribuição, destrói.
07:37Você acha que esses caras iam pressionada para fazer o quê?
07:40Mas aqui, né?
07:40Mas fora, ela foi pressionada a fazer esse movimento.
07:44Não, não foi isso que aconteceu.
07:45Na verdade, é o seguinte, ela queria, de qualquer jeito, extinguir a escravidão.
07:50Na verdade, Dom Pedro queria há muito tempo para fazer esse negócio.
07:52Não existia ambiente político no Brasil.
07:54Então, você tinha os barões do café, a oligarquia brasileira,
07:57junto com o exército brasileiro,
07:59que eles, conjuntamente, decidem que a família real vai ter que sair do país.
08:06E decide do dia para a noite.
08:07O Marechal Deodoro, do dia para a noite, ele dá um golpe de Estado.
08:10Não avisa para ninguém.
08:11A monarquia no Brasil era ócum cur.
08:14O público, eu, você, na época, a população, queria a monarquia.
08:18É verdade que você é fã da monarquia e prega até a monarquia ser um sistema de operação melhor do que a democracia?
08:29Eu sou fã de verdade e de dados.
08:31Então, quando a gente pega os maiores IDHs do mundo hoje, todos são monarquias, né?
08:34Então, a gente pega Japão, a gente pega Austrália, a gente pega Suécia.
08:39É tudo monarquia.
08:40Então, eu sou um cara data-driven.
08:42O negócio é dados.
08:43Então, você pode me falar o lê-lê-lé que você quiser.
08:45Eu vou olhar dado e eu vou chegar em uma conclusão com base na verdade.
08:50Então, pô, por que uma monarquia é melhor?
08:52É muito simples.
08:53Imagina que você tivesse três filhos dentro da tua casa, tá?
08:56E você e teu marido falam assim, vamos instaurar aqui uma república, uma democracia na nossa casa.
09:01Seus filhos são crianças, cinco, seis, sete anos.
09:04Vamos votar, qual vai ser a alimentação da nossa casa?
09:06Vai ser pizza, hambúrguer, sorvete.
09:08Vamos votar, vamos dormir tarde ou vamos dormir cedo jogando...
09:10Vamos jogar videogame até tarde ou vamos dormir cedo?
09:12Não, vamos jogar videogame até tarde.
09:13Tua casa vai virar um pandemônio.
09:14A monarquia, ela bota a ordem.
09:18Então, você é a rainha da tua casa, teu marido seria o rei e o monarca daquela casa.
09:22Não tem como os seus filhos de cinco, seis, sete anos debater contigo qual é a regra da tua casa.
09:27Porque eles não têm capacidade pra tanto.
09:29Então, vamos lá.
09:30Então, vamos lá.
09:30Então, vamos lá.
Comentários