00:00Porque o Irã enfrenta, há pelo menos duas semanas, uma onda de manifestações contra o governo e o regime dos ayatolás,
00:08que vêm sendo reprimidas essas manifestações com violência pelas forças de segurança do Estado.
00:15Inicialmente motivados pela crise econômica e pela inflação pra lá de elevada,
00:21os protestos se expandiram rapidamente para diferentes setores da sociedade.
00:26E o mercado já sente os impactos dessas manifestações, uma vez que o preço de produtos do agro, petróleo, já apresentaram alta nos últimos dias.
00:36A gente recebe aqui no Fast Money, numa ligação por videoconferência, uma entrevista à distância,
00:44o professor de Relações Internacionais na Faculdade Rio Branco, o Sidney Leite,
00:49para comentar sobre o que podemos esperar dessas manifestações que já impactam o mundo.
00:57Professor Sidney Leite, seja muito bem-vindo e particularmente um prazer reencontrá-lo.
01:03Há anos não nos falávamos, fiquei muito feliz em saber que poderíamos retomar o nosso contato aqui no Fast Money,
01:10no Times Brasil, licenciado exclusivo CNBC.
01:12Claro, professor, eu vou pedir aí pra gente começar com um certo exercício de futurologia.
01:21Estamos vendo as manifestações crescendo, as repressões cada vez mais violentas.
01:27Tem um outro componente que é o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dizendo
01:31manifestantes, aguentem firme, ampliem aí a sua força, que a ajuda está chegando.
01:37Uma mensagem completamente enigmática e abre a pergunta mais importante de todas nesse momento.
01:43O que é que pode vir a acontecer?
01:46Na sua interpretação, professor Sidney, o que deve ser esta ajuda dos americanos está chegando?
01:53É que depois do dia 3 de janeiro, com a ação dos Estados Unidos militar na Venezuela,
01:58acho que a gente pode esperar de tudo e mais um pouco da gestão Donald Trump.
02:02Mas queria saber da opinião do senhor.
02:04Marcelo, a recíproca é verdadeira, é um grande prazer voltar a conversar com você
02:11e um excelente ano de 2026.
02:14Veja, você me faz perguntas que implicam em eu inserir o se e fazer previsões em relação à história.
02:30Veja, o povo iraniano não tem medo de ir pra rua.
02:32Nós temos aí, digamos, momentos cíclicos em que a população, parte dela, foi para as ruas protestar.
02:43Portanto, não estamos falando de um fato novo.
02:45É provável que agora a proporção seja maior, porque inclusive a gente está no início desse processo.
02:55Então, as manifestações de rua se constituem uma tradição, eu diria, do povo iraniano.
03:01Mesmo no regime anterior do Reza Palev, também existia essa estratégia de ir para as ruas, de reclamar.
03:15O que pode acontecer?
03:16Veja, por enquanto, essa população que vai para as ruas não está armada.
03:21Então, dificilmente a gente derruba um governo.
03:24A gente tem na história um governo que caiu, principalmente no Oriente Médio,
03:30sem que houvesse, digamos, adversários, opositores que pegassem em armas.
03:38Então, por enquanto, nós não temos aí nenhum ponto fora da ordem.
03:44O que muda, e aí a sua sensibilidade de analista das relações internacionais é fundamental,
03:50que está embutido na tua pergunta, o contexto internacional é outro.
03:56O contexto internacional hoje é muito mais conflitivo, tenso,
04:04e nós temos uma liderança nos Estados Unidos,
04:08obviamente a gente pode fazer mil questionamentos,
04:12mas é uma liderança que, ao contrário, por exemplo, de Obama, de Biden,
04:19ela é uma liderança muito atuante,
04:24uma liderança que quer ganhar um protagonismo.
04:29Estou falando do governo Trump.
04:31Então, da mesma forma que nós vimos uma ação...
04:35Aliás, primeiro, no Irã, não podemos esquecer que os Estados Unidos bombardearam
04:39ali, onde provavelmente se envolvia o projeto,
04:46aliás, um dos centros de desenvolvimento do projeto nuclear iraniano,
04:50e houve um bombardeio liderado também por Trump,
04:54e o episódio mais recente da Venezuela.
04:57Há dois prêmios que o governo Trump está correndo atrás,
05:02e às vezes a gente não se dá conta disso.
05:06O primeiro é Cuba.
05:08Recolocar Cuba sob a órbita área de influência dos Estados Unidos.
05:13Uma preocupação muito maior, inclusive, fica a Venezuela.
05:15E o segundo, eu colocaria quase o mesmo nível, é o Irã.
05:20Retomar o Irã sob a área de influência,
05:23sobre a esfera de influência dos Estados Unidos.
05:27Agora, professor Sidney, respeitando o DNA do nosso canal aqui,
05:31que sempre tem um olhar apurado para as finanças, para os negócios,
05:36quando a gente fala de Irã, obviamente, o cuidado com o povo,
05:40a turbulência política, a repressão do regime,
05:44que desde 1979 tem uma ação mão de ferro,
05:49mas olhando para esse aspecto econômico,
05:52o Irã tem o litoral virado para o Estreito de Hormuz,
05:57que comanda muito o fluxo do petróleo e da marinha mercante.
06:02Então, um eventual travamento do Estreito de Hormuz,
06:07como uma resposta do governo para gerar uma confusão internacional,
06:12é possível.
06:13Agora, a minha pergunta ao senhor é se isso é provável acontecer,
06:16porque, olhando para a economia do Irã, que está em frangalhos,
06:20a moeda local chamada Rial,
06:22R$ 1,4 milhão vale R$ 1,00.
06:27Eles estão nesse processo que a gente conhece muito bem de hiperinflação.
06:31Quer dizer, um impacto econômico num país duramente sancionado pelo Ocidente
06:35seria, possível é, mas seria provável,
06:39um estrangulamento do Estreito de Hormuz
06:42para causar uma confusão econômica mundial?
06:45Olha, eu diria que esta ameaça esteve muito mais próxima
06:52de sair do nível provável para uma ação nesse sentido
06:59durante o conflito entre Irã e Israel,
07:03que houve, inclusive, a atuação dos Estados Unidos.
07:07Eu penso que fechar o Estreito de Hormuz é, talvez, a última arma
07:14que seria utilizada pelo regime da República Islâmica,
07:21que ele colocaria em prática.
07:24Porque isso teria desdobramentos e abriria, digamos,
07:30uma fonte de legitimidade, inclusive de apoio internacional,
07:33de uma ação militar norte-americana contra o Irã.
07:41Então, você tem razão.
07:44É algo possível de fazer?
07:46É.
07:47Mas é muito pouco provável.
07:50O Irã, o regime iraniano, ele tem alguns mecanismos de defesa,
07:56e aí é muito caro o conhecimento da geopolítica e da geografia, né?
08:01O Irã é, desde a época do Império Persa,
08:04uma região inóspita, das mais quentes do planeta,
08:10com desertos e com montanhas, fazendo uma espécie de muralha natural,
08:15que eu não diria que impede, mas dificulta muito,
08:19por exemplo, uma invasão por terra.
08:21Tanto que as ações que foram feitas contra o Irã foram ações feitas por mísseis,
08:27foram ações aéreas, né?
08:31E tem um elemento complicador, né?
08:33É possível que não a guarda revolucionária, né?
08:37Que é a principal força militar e de repressão do regime, né?
08:43Mas que as forças armadas, elas podem até sacrificar o Ali Khamenei,
08:48a República dos Aetolás, para permanecer no poder, né?
08:52Então, são várias possibilidades, Marcelo.
08:55Então, é como se as janelas estivessem abertas, né?
09:00E, me apropriando de uma expressão que eu gosto muito do analista americano Robert Keegan, né?
09:07É o retorno da história.
09:08A história voltou com força total.
09:11Pois é, exatamente, professor Sidney.
09:14Também aprendi com outro historiador, que a história, além de cíclica,
09:18ela é helicoidal, né?
09:20Ela dá uma volta e um passo à frente.
09:23A gente pega o que aconteceu em outras épocas,
09:25coloca no contexto e espera alguma coisa que potencialize aquilo que a gente já viu acontecer.
09:32A gente tem certeza que contará, contaremos com vossos conhecimentos em outras oportunidades
09:39para a gente voltar a tratar desse assunto, porque ainda muita coisa tem para acontecer no Irã.
09:46Sidney Leite, professor de Relações Internacionais na Faculdade Rio Branco,
09:50a quem eu publicamente faço os meus agradecimentos aqui.
09:53Professor Sidney, prazer revê-lo.
09:54Até uma próxima.
09:56Até uma próxima.
09:57Um forte abraço.
09:58Tchau, tchau!
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