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A cidade de São Paulo bateu um recorde no número de feminicídios, com 53 mulheres assassinadas. O crime, cometido em razão do gênero, prevê pena de 20 a 40 anos de prisão. A bancada do Linha de Frente analisa o assunto.
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NotíciasTranscrição
00:00A cidade de São Paulo nunca esteve tão perigosa para nós, mulheres.
00:04As ameaças sempre estiveram por aí, mas neste ano a capital paulista bateu um recorde triste, o de feminicídios.
00:11De janeiro a outubro foram registrados 53 assassinatos de mulheres,
00:16em casos envolvendo episódios de violência doméstica ou familiar.
00:21Isso sem contar nas inúmeras tentativas de assassinato,
00:24como o caso recente de um homem que atropelou, arrastou por um quilômetro a ex-mulher,
00:31que teve as pernas amputadas e segue internada até agora.
00:35Só para registro, desde 2015 o crime de feminicídio está tipificado no Código Penal,
00:41com penas de 20 a 40 anos de prisão.
00:45É difícil até começar a falar disso, né gente?
00:48Vou começar com a Luísa para a gente puxar esse gancho das penas,
00:52porque aparentemente não adianta ter penas de 20 a 40 anos.
00:56Não, eu sempre falo que o Poder Legislativo gosta de criar tipos penais,
01:02gosta de aumentar as penas como uma forma de demonstrar para a população
01:05de que algo está sendo feito.
01:07Mas a verdade é, quem comete o crime não para para pensar na pena
01:11que vai ser imposta a ele se cometer determinado crime.
01:14Então você pode colocar 100 anos como pena máxima, não vai frear.
01:20Isso daí é uma questão muito mais de uma educação da população,
01:25que a gente tem que tomar cuidado e adotar outras políticas,
01:28do que uma questão de pena.
01:30Óbvio, tem que ser repreendido, a pena tem que ser dura, tem que ser grave.
01:35Este é uma forma, um exemplo de ser dado.
01:38Mas a gente tem que investir em educação,
01:39a gente tem que investir em informação para a mulher,
01:41a gente tem que investir em programas que viabilizem a mulher buscar mais ajuda,
01:46às vezes buscar um asilo para ela poder dormir,
01:50se ela sair de casa e conseguir abandonar o companheiro,
01:53ela ter alguma questão de algum incentivo financeiro,
01:56não no sentido de sair reportando para ganhar dinheiro,
01:59mas muitas vezes ela depende do marido e não tem como ganhar um real
02:02se ela sair de casa com os filhos.
02:04E também mudar a base da nossa educação,
02:07porque não é aumentando pena que se combate violência doméstica contra a mulher,
02:12muito pelo contrário.
02:13Quem faz não está preocupado se vai preso,
02:15não está preocupado se vai ser processado,
02:17isso daí vem depois.
02:18Na hora que está fazendo, é o poder,
02:21é a subjulgação da mulher,
02:23é como a pessoa se sente maior e dono daquela pessoa,
02:27o que ninguém deveria se impor dessa forma em relação à outra,
02:32sobretudo em relação ao gênero.
02:34E aí eu falei que é um problema de gênero,
02:36é um problema político,
02:37porque é uma coisa que se mistura e está enraizada,
02:39além da nossa sociedade,
02:40e que parece que a gente não avança.
02:43Pois é, você sabe que eu organizo um círculo de encontros
02:46com políticos que estão desenvolvendo algum tipo de política
02:49que está dando certo no Brasil,
02:51independentemente do matiz ideológico,
02:54alguma coisa que está fazendo bem.
02:55Então pode ser na educação, na segurança.
02:57E ouvindo políticos que fizeram bons programas de segurança pública,
03:01a gente tem o Governo do Estado do Espírito Santo,
03:02Rio Grande do Sul, Piauí,
03:04são alguns dos exemplos que hoje se destacam na segurança pública,
03:07todos usando ali o que tem mais ou menos um mesmo padrão de modernidade,
03:11que é mapeamento de dados,
03:13zonas onde você tem maior número de crimes,
03:17e aí você aumenta ali o policiamento,
03:19programas sociais aliados à segurança pública,
03:22e esses governos conseguiram então bons resultados.
03:25Mas absolutamente todos eles,
03:27quando a gente conversa e diz assim,
03:28e os crimes contra a mulher?
03:30Todos reconhecem, esse é o nosso gargalo.
03:32Por que eu estou trazendo isso aqui?
03:34Porque quando todos eles dizem,
03:36esse é o nosso gargalo,
03:37a gente não está mais falando só de uma questão de segurança,
03:39a gente está falando de uma questão cultural.
03:42Nós somos um país violento,
03:44e nós somos um país que enxerga a mulher
03:48num lugar diferente,
03:51que é um lugar inferior.
03:53Você pode dizer,
03:53eu não penso assim individualmente,
03:56mas enquanto sociedade,
03:58esse tecido está colocado,
04:00e está colocado no ponto em que um jovem,
04:05que ficava com uma menina,
04:07ou seja, eventualmente se encontrava no francato,
04:09não era isso,
04:10vai para uma balada,
04:12encontra essa menina com outro,
04:13e se sente no direito,
04:15numa raiva tão grande,
04:16de atropelar essa menina,
04:18e arrastá-la por um quilômetro.
04:20Então assim,
04:21em que momento nessa cultura,
04:24você se sente no direito de fazer uma coisa dessas?
04:27E aí a Luís apontou muito bem,
04:28o punitivismo,
04:29ele não impede isso.
04:31Ele pode ser pedagógico,
04:32talvez quando a pessoa está presa,
04:33e aí vai ter que encarar a consequência do seu ato.
04:36Mas ele não impede isso, né?
04:37O que impede isso,
04:39é uma reconstrução,
04:41para você ensinar que estamos todos lado a lado,
04:44nem aqui, nem aqui,
04:45nem abaixo, nem acima,
04:46nós estamos lado a lado,
04:48na mesma esfera de igualdade.
04:50Mas quando você conversa com todo mundo,
04:52que trabalha em segurança pública,
04:54de forma técnica,
04:55eles são unânimes em reconhecer,
04:56que no Brasil a violência contra a mulher
04:59é o grande gargalo,
05:00porque ela não se trata apenas,
05:02aqui entre aspas,
05:03de violência.
05:04Ela se trata de uma concepção cultural brasileira.
05:08E aí a gente passa, né,
05:10por diversos outros assuntos,
05:12como educação,
05:13como a parte financeira,
05:16como políticas para que as mulheres
05:18consigam ali se desenvolver
05:20no ambiente de trabalho,
05:21até mesmo na parte da maternidade, né, Lia?
05:24O que dá para a gente pensar em políticas
05:27que poderiam ser efetivas de fato,
05:30não só pensando lá atrás,
05:32depois que já aconteceu,
05:33como a Luiz e a Ellen pontuaram, né?
05:35É, eu acho que vale destacar
05:37que a questão do feminicídio,
05:39ele é um complexo de questões
05:41envolvendo a mulher,
05:42que não é só um tipo da violência física
05:45que mata, né?
05:46Mas antes disso,
05:47os sinais das outros tipos de violência,
05:49violência patrimonial,
05:51violência psicológica.
05:51E tudo isso vai se somando
05:54ao ponto de chegar
05:55nesse resultado final do feminicídio, né?
05:58Então, uma das questões
05:59que a gente conversa muito
06:01no âmbito econômico
06:02é de pensar na independência financeira
06:04das mulheres,
06:05para que elas possam justamente
06:06tomar decisões,
06:08fazer escolhas,
06:09assim, se precaver
06:10numa situação de identificar
06:12esses sinais de violência,
06:13conseguir sair dessas circunstâncias
06:15sem ter a dependência
06:16do seu companheiro,
06:18companheira ali naquela situação.
06:19Agora, um outro ponto
06:21que eu queria destacar
06:22é que a política pública
06:25de segurança
06:26para as mulheres
06:27também recebeu menos recursos
06:29nos últimos anos, né?
06:30Por exemplo,
06:31no estado de São Paulo,
06:32que estava previsto
06:33na LOA de 2025,
06:35a execução na Secretaria
06:36de Mulheres aqui
06:37foi de 54% a menos
06:40do que o que estava projetado.
06:42Então, isso já mostra
06:44que não há uma vontade política
06:46também em fazer com que
06:48essa ação diminua,
06:50ou seja,
06:51há também uma necessidade
06:52de uso do recurso
06:53para a política pública, né?
06:55Então, para os centros
06:55de acolhimento,
06:57para as delegacias,
06:59para todos os sistemas
07:00que corroborem
07:02para a recepção dessa mulher
07:03e para o encaminhamento dela
07:05numa situação de segurança.
07:07Assim como também
07:08no governo federal.
07:09O governo federal executou
07:10menos de 15%
07:12do valor orçamentário
07:13previsto para questões
07:14de políticas públicas
07:16focadas em feminicídio.
07:18Então, isso é um quadro
07:19que ele está se arrastando
07:21também, né?
07:22Usando os elementos econômicos,
07:24mas para um âmbito político.
07:26Se isso não se tornar
07:27uma prioridade,
07:28se a gente não vê isso
07:29como uma ação
07:29que é necessária
07:30para o nosso país,
07:31essa situação
07:32não vai melhorar.
07:33Muito pelo contrário,
07:34a gente está vendo
07:34que ano após ano
07:35os índices de feminicídio
07:37só têm aumentado.
07:38E também o registro
07:39do feminicídio
07:40e não como crime
07:41de homicídio, né?
07:43O doloso.
07:45Eu acho que também
07:45a tipificação
07:46é importante
07:47para qualificar
07:48essa situação
07:49que é tão dramática
07:50e tão grave
07:51no nosso país.
07:52Então, acho que
07:53esse conjunto de ações
07:54faz com que fique
07:55muito evidente
07:56que sim,
07:57estamos num país
07:58muito violento
07:58com as mulheres
07:59que ainda discrimina,
08:01que martiriza,
08:02que não garante
08:03os seus direitos,
08:04mas principalmente
08:05que não viabiliza
08:06economicamente
08:07as políticas
08:07que possam precaver
08:08essa situação.
08:09Para a gente dar
08:10alguns dados
08:11de Brasil,
08:13que a situação
08:13infelizmente
08:14não é muito diferente
08:14dos exemplos
08:15que a gente deu
08:16aqui na cidade
08:17de São Paulo
08:17até agora,
08:18em 2025 até setembro
08:20são 1.075 registros
08:22de feminicídios
08:23e foram mais
08:24de 2.700 tentativas
08:26segundo dados
08:27do Ministério da Justiça
08:29e Segurança Pública.
08:30A cada dia,
08:31quatro mulheres
08:32são assassinadas
08:33no nosso país.
08:35A Lia estava falando,
08:36Nathalie,
08:36um pouco de recursos
08:37para a pasta
08:39aqui em São Paulo.
08:40Isso precisa também
08:41fazer sentido
08:42a nível nacional.
08:44Sem sombra de dúvida.
08:45Inclusive,
08:46existem estudos,
08:46eu chego a participar
08:47de alguns,
08:48da atuação das mulheres
08:50na propositura
08:51de propostas legislativas.
08:53Então,
08:53a atuação,
08:54de fato,
08:55das mulheres
08:55nesse sentido,
08:56tanto na esfera
08:57municipal,
08:58estadual
08:59e principalmente
09:00a federal,
09:01buscando trazer o recurso,
09:03trazendo esse orçamento
09:04para a própria demanda,
09:06para a própria
09:06incentivo ali
09:08às políticas públicas
09:09voltadas para a mulher.
09:10E o mais interessante,
09:11Bia,
09:12todas as propostas
09:13que a gente tem
09:13feitas por mulheres,
09:15praticamente a gente
09:17não tem nenhuma
09:17que é voltada
09:19para a política pública
09:19para a mulher.
09:21São sempre propostas
09:22voltadas ali
09:23a outros,
09:24eu diria assim,
09:24a assuntos mais masculinos
09:26do que femininos.
09:27Então,
09:27a gente mesmo tendo
09:28uma imensa dificuldade
09:30de chegar ali no poder
09:31e a gente ser ouvida,
09:32ser representada,
09:33nós não fazemos ali
09:35a política
09:35para nós mesmas,
09:37para nós mulheres.
09:38Então,
09:38é fundamental
09:38quando a gente consegue
09:39atingir,
09:40alçar esse voo ali
09:41na representatividade política,
09:43a gente conseguir
09:44trazer esse recurso
09:45para cá.
09:46Isso é fundamental
09:47a partir justamente
09:48das nossas proposições
09:49e a nossa atuação
09:50também ativa.
09:51Então,
09:52é fundamental
09:52a gente também
09:53ser muito participativa
09:54ali para poder
09:55tentar reverter
09:56e trazer esse dinheiro
09:57para a política pública
09:58voltada para a mulher.
09:59Bom,
09:59e nós estamos aqui
10:00num programa
10:01que semanalmente
10:02tem uma bancada
10:03só de mulheres
10:04trazendo essa
10:05representatividade feminina.
10:06A maioria da população
10:08é feminina.
10:09A gente fala muito
10:09que a segurança pública
10:10é um tema
10:12e um dos mais importantes
10:13para o eleitorado
10:14em 2026.
10:15Isso aparece
10:15nas pesquisas,
10:17quando as pessoas
10:18são questionadas
10:19sobre preocupações,
10:20saúde, educação.
10:21Segurança pública
10:21tem figurado
10:22entre os principais,
10:23até por isso,
10:24muitas das autoridades
10:26têm se debruçado
10:27sobre o tema,
10:28mas não sei
10:29se têm se debruçado
10:29o suficiente
10:30sobre segurança pública.
10:32para mulheres
10:33e como que isso
10:33pode impactar
10:34para um eleitorado
10:35que é majoritariamente
10:36feminino.
10:37Majoritariamente feminino
10:38e um eleitorado
10:40que vem decidindo eleições
10:42não só no seu voto,
10:43mas na influência
10:45que provoca.
10:45Isso é muito importante
10:47a gente lembrar.
10:48Nós falamos de um país
10:49em que nós temos,
10:51não vou lembrar agora
10:52o número,
10:52mas é um número
10:53muito expressivo,
10:54são mais de 5 milhões
10:55de mulheres
10:55que são chefes de família.
10:57então essas mulheres
11:00exercem uma influência
11:02sobre os seus
11:03na hora de votar
11:04e no entanto
11:06elas acabam sendo
11:07muito negligenciadas
11:09politicamente
11:10por uma questão
11:11de representatividade
11:12mesmo,
11:13a gente ainda tem
11:14uma representatividade
11:15menor
11:16e como a Nátaly pontuou,
11:17quando a mulher
11:18chega a um cargo
11:20de poder,
11:20até por uma questão
11:21de receio,
11:22porque a mulher
11:22pensa coletivamente,
11:23ela não toma uma atitude
11:24só em defesa própria,
11:26ela pensa comunitariamente,
11:29ela pensa
11:29no que é coletivo.
11:31Então é muito interessante
11:33esse contraditório
11:34do feminino
11:35na sociedade brasileira.
11:36Mas é muito importante
11:37lembrar,
11:38e aí
11:38eu venho fazendo
11:40essas pesquisas
11:41quartativas,
11:41ouvindo essas mulheres,
11:43o quanto é grande
11:45e o quanto é pragmático
11:46o voto feminino,
11:47Bia.
11:48Isso foi uma coisa
11:48que me chamou
11:49muita atenção
11:49quando eu acompanhava
11:50a eleição de 2024
11:52aqui na capital paulista.
11:53e eu gosto
11:54de dar esse exemplo,
11:55porque as pessoas
11:56acham que a mulher
11:57ela é mais emotiva,
11:58isso e aquilo,
11:59é completamente diferente
12:00na hora de votar.
12:01Quando eu ouvia
12:02de homens
12:03a seguinte coisa,
12:05olha,
12:05eu não vou votar
12:06na fulaninha
12:06porque a fulaninha
12:07foi patrocinada
12:09pelo Jorge Soros
12:10ideologicamente,
12:11enfim,
12:12todas essas histórias
12:13que a gente já ouviu.
12:14E aí você ouvia
12:15da mulher ela dizendo assim,
12:16eu vou votar
12:17no cicraninho
12:17porque é o seguinte,
12:19a minha vizinha
12:20estava há dois anos
12:21tentando creche
12:22para o filho
12:22e não conseguia.
12:23e agora ela conseguiu.
12:25Então agora eu vou
12:25votar no fulaninho
12:26porque tem vaga na creche
12:28ou porque eu consigo
12:29fazer o exame
12:30que eu estava esperando.
12:30Então o voto feminino
12:31ele é pragmático
12:32e ele influencia
12:33e seria muito bom
12:35começar a pensar
12:36mais nesse eleitorado.
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