00:00Quando acontece uma execução como essa, é uma prova de força, é uma demonstração de força sim,
00:07porque foi ali em plena via pública, numa ação extremamente agressiva, de uma forma trágica,
00:15e coloca a sociedade de novo nesse debate intenso de como lidar com o crime organizado.
00:21E o governo da capital, o governo de São Paulo, do governo do Estado, tem uma responsabilidade muito grande,
00:27tem atuado e colocado aí a sua preocupação com esse tema, só que a gente tem, né, Bia,
00:34uma questão muito enraizada, muito estrutural das organizações criminosas.
00:39Para vocês terem uma ideia, o ex-delegado Rui, ele foi responsável, ele foi um dos grandes combatedores,
00:44um dos grandes atores que enfrentou o PCC, enfrentou o primeiro cômodo da capital de uma forma muito corajosa aqui em São Paulo.
00:53Todos nós aqui lembramos de 2006, do momento em que a gente teve aí,
00:58o São Paulo parou por conta do primeiro comando da capital, de vários ataques que aconteceram e demonstrações de força,
01:04em que ele foi responsável, ele foi na época, né, como delegado, responsável por organizar ali, né,
01:11uma atuação, uma força-tarefa que uniu a polícia civil, a polícia militar, a polícia científica,
01:17para enfrentar a altura facção. Então, realmente, ele era uma autoridade que tinha um X nas costas, né,
01:23que tinha ali um alvo, com certeza, por ter mexido de forma muito forte com a estrutura
01:30e prejudicado a atuação do crime organizado do PCC aqui em São Paulo.
01:34Então, esse tipo de autoridade, Bia, esse é um outro debate que está envolvendo essa discussão,
01:41precisa de uma proteção extra. Eu acho que isso chocou a todos nós.
01:44Por que ele não tinha uma escolta? Por que ele não andava num carro blindado?
01:48Por que ele não tinha proteção para ele e para a sua família?
01:51Então, essa é uma questão que, com certeza, vai ser alvo de debate.
01:55A gente precisa de medidas mais concretas em relação a isso.
01:58Agora, Luísa, para a gente também continuar a rodar já essa primeira conversa,
02:03quando acontece uma morte como essa, é um recado, certo, que uma organização criminosa está passando?
02:09Dá para a gente entender o que desse recado?
02:12Bom, primeiramente, boa tarde. Um prazer estar aqui de novo na bancada feminina.
02:16Boa tarde a todos os colegas.
02:19É um recado, sim. O que acontece, né?
02:22Autoridades como o doutor Rui, eles são formalmente jurados de morte por essas organizações.
02:28E não só ele, outros combatentes também ao crime organizado acabam acontecendo.
02:33E a organização, ela não esquece o que aconteceu.
02:35Então, se lá em 2006 juraram ele de morte, os anos vão passando, mas essa jura não foi deixada de lado,
02:43porque ele não está numa atuação mais ativa, nem nada disso.
02:46E a facção faz questão de executar e cumprir o que foi prometido, justamente como uma forma de você coibir atuações tão precisas de novas autoridades.
02:56Então, eles querem mostrar, a gente fala, a gente faz.
03:00Não importa quanto tempo passe, uma hora você vai baixar a guarda.
03:04Uma hora isso vai acabar acontecendo.
03:06Uma hora você não vai estar com a escolta, uma hora você não vai estar com o seu carro blindado.
03:10E eles vão executar, vão falar, a gente prometeu.
03:13Você fez, agiu de uma forma a combater o nosso sistema, a nossa facção.
03:19A gente prometeu, a gente está cumprindo.
03:20Então, não só ele, como diversas outras autoridades, tem esse X nas costas, igual pontuou muito bem a Luana.
03:28Jess, o que a gente pode dizer do recado, então, também para o governador de São Paulo?
03:33Relembro aqui que nas últimas semanas, com outras operações ali que aconteceram contra o PCC,
03:38até a nível nacional, o governador veio, trouxe ali denúncias que ele estava já fazendo desde 2023, 2024,
03:45disse que São Paulo vai enfrentar.
03:47Isso passa uma mensagem que São Paulo está enfrentando, que não está, ou que uma coisa anda junta com a outra?
03:53Excelente ponto.
03:53Eu acho que passa uma mensagem.
03:55A realidade é que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, tem sido combativo,
04:00também na figura do secretário de Segurança, Guilherme de Ritch, em relação ao crime organizado.
04:04Isso faz com que a gente entre num cenário que está mais parecido, infelizmente, muitas vezes,
04:09com uma guerra entre esse grupo, que é um grupo que representa o povo, que é o grupo do Estado,
04:14e o próprio crime organizado, que se vê acuado e começa com cada vez mais ações como essa.
04:21E aí, dentro disso, a gente precisa entender que, quando a gente olha para o PCC,
04:26ou até mesmo para o Comando Vermelho, para operações que desmembraram ações que não estão só no tráfico,
04:32que estão no sistema econômico, que estão nas fintechs, que estão nos postos de gasolina,
04:37que estão em espaços comuns e tidos até como um espaço, como posso dizer, com uma lógica mais de legalismo.
04:45Então, quando a gente mostra isso, a gente precisa entender que o tempo do crime mudou
04:49e a forma como ele opera mudou, se, por assim dizer, se tornou mais inteligente
04:55em relação à artimanha de se entrar no Estado, e que isso é um grande perigo
04:59que o governador Tarcísio de Freitas está comprando para defender.
05:03E aqui, a gente também precisa lembrar que existe um trabalho do Ministério Público de São Paulo,
05:08das Forças de Segurança de São Paulo, ao longo de muito tempo, e o Rui era parte deste trabalho.
05:13Devemos honrar a memória dele, lembrando dos profissionais, dos delegados, dos policiais,
05:19dos promotores, que se colocam em risco todos os dias para combater algo que é muito mais perigoso
05:26do que a gente imagina. E a gente entra numa discussão, que é a situação da proteção continuada,
05:31mesmo fora do cargo. E aqui eu quero pegar a figura do excelente promotor Lincoln Gacchia,
05:36que tem um trabalho muito bom dentro disso, e relembrar que quando Lincoln Gacchia, em 2026,
05:43Bia, no ano que vem, ele já pode se aposentar. Quando ele for se aposentar,
05:47ele não tem, segundo a legislação atual, direito à segurança.
05:51Tal como o Rui não teria, mas não teria nem sequer solicitado.
05:55E o que é a grande questão aqui? Em um país que gasta tanto com privilégios,
05:59salas VIPs em aeroportos milionárias para autoridades, com tantas coisas assim,
06:04a gente precisa olhar para quem tem nos honrado e coloca a sua vida em risco quando sai,
06:09por conta de ter combatido o crime organizado.
06:11Lincoln Gacchia já foi claro, ele não irá se aposentar, ele não vai sair,
06:16porque ele não pode sair sem segurança privada.
06:19E tem uma proposta na mesa ali do Ministério da Justiça, que é a lei antimáfia.
06:24E a lei antimáfia, ela tem um trecho que estende a segurança continuada
06:28para vítimas, para testemunhas, para autoridades que combateram e combatem o crime organizado.
06:36E isso é muito importante para dar essa sensação, mais do que de segurança,
06:40mas também para o fato, para esses grupos saberem que se eles o fizerem,
06:43provavelmente serão pegos. Então isso também é um fator de coibir.
06:47E a gente precisa pressionar para que essa lei antimáfia passe por várias razões,
06:50não só essa, mas também memória do próprio Rui e de tantas e tantas outras autoridades
06:55que foram executadas pelo crime organizado.
06:58E a partir disso, como a Jess citou e as meninas também,
07:02agora o governador de São Paulo estuda propor uma escolta automática,
07:07que não precise dessa solicitação.
07:09Aí queria entender agora da Luciana sobre essa proposta, se faz sentido,
07:14o que mais pode ser feito nesse sentido, Lu?
07:17O ponto precisa ser colocado aqui. Nós temos que encarar o PCC não como organização criminosa,
07:25e sim como máfia, que o poder que eles têm em mãos é muito maior do que se imagina.
07:35Pensar numa proteção continuada, eu entendo, sim, necessário,
07:39porque o doutor Rui, lá em 2005, quando aconteceram lá os primeiros ataques,
07:44ele trabalhava na quinta delegacia de roubo a banco do DEIC aqui em São Paulo,
07:49e ele foi um dos grandes responsáveis por reduzir os assaltos,
07:54os roubos a bancos que nós tínhamos no Estado.
07:56Ele combateu fortemente.
07:59Ele, quando foi para a Praia Grande, ele estava como secretário
08:02com uma meta de reduzir uma taxa de 15 milhões lá de despesas anuais,
08:07que envolvia o quê? Substituição de frotas de carros que são abastecidos através de gasolina
08:12por carros elétricos e outras coisas mais que ele estava implantando.
08:16E aí ele mexeu diretamente onde? Com essa organização criminosa.
08:21O que aconteceu com ele tem que servir de exemplo,
08:24porque quem... Eu sou advogado.
08:26O que eu mais tenho é contato com colegas que são delegados de polícia
08:31e que eles têm medo até que descubram onde eles moram,
08:34se eles têm filhos, se eles não têm.
08:36E a pergunta que eles sempre fazem para eles próprios é
08:39quando isso aqui acabar, o que será de nós?
08:42Então, como a Jess muito bem colocou, muito dinheiro é gasto,
08:46a gente vê aí emendas PIX, uma série de situações onde o dinheiro é desviado,
08:52não tem controle, não tem regras para administrar isso,
08:55que podem perfeitamente, sim, serem destinados para a proteção de delegados,
09:01de juízes, de promotores que passam anos, décadas,
09:05defendendo os interesses da população, do próprio Estado
09:09e principalmente dos nossos políticos,
09:11que fecham os olhos para essa classe que tanto vai às ruas no dia a dia
09:19para defender a população.
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