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No programa Na Real desta quarta (17), contamos a história de Noemi, uma mulher que sofreu um caso de racismo no seu primeiro dia na Drogasil. Com a participação da historiadora Dandara Suburbana e do Dr. Florentino Britto, analisamos a importância da denúncia, as consequências do caso e como as empresas podem criar um ambiente verdadeiramente inclusivo.
Confira o Na Real na íntegra em:
https://youtube.com/live/empX4vymQag

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Transcrição
00:00Eu quero que a Dandara entre um pouquinho agora nesse assunto, Dandara.
00:04Eu imagino que você deve estar até um pouco emocionada.
00:07Eu vi pela sua reação ao ouvir a história da Noemi,
00:10porque é uma história de muitas mulheres negras pelo Brasil.
00:14Nossa, sim.
00:16Quero dar boa tarde a todas as pessoas que estão nos ouvindo.
00:19E boa tarde aqui também.
00:21Agradecer pela oportunidade.
00:25Meu bem.
00:26Nossa, né?
00:27A gente está muito emocionado aqui.
00:29Eu não sei vocês que estão assistindo, mas assim,
00:31a gente não está conseguindo, a gente nem quer disfarçar,
00:35porque a gente é humano, né?
00:38E é impossível não ser atravessado com essa história da Noemi.
00:41Não é possível não sentir essa dor e não se indignar com tudo isso que aconteceu, né?
00:49É muito recorrente, é muito comum.
00:51Nós passamos por isso sistematicamente.
00:53São diversas violências, né?
00:54Noemi estava relatando.
00:55Tem o racismo, tem, enfim, o assédio no ambiente de trabalho.
01:00Tem um componente misógino.
01:02Sim.
01:03Tem um ataque aos próprios direitos trabalhistas.
01:06Porque a gente...
01:07As mulheres têm direito.
01:09As pessoas têm direito a engravidar.
01:11Sim.
01:11É um direito.
01:12Você tem direito a engravidar, tirar sua licença,
01:15ter a sua saúde preservada.
01:17Então, como que você...
01:19A pergunta que eu faço pra quem está em casa é
01:22como você reconstrói a vida,
01:25a vida profissional,
01:28a sua saúde psíquica, física, mental,
01:30após tantos ataques e tantas violências.
01:33Não há dinheiro, indenização,
01:36que dê conta de reparar
01:37a violência que a Noemi passou.
01:41Não há dinheiro que dê conta de reparar isso.
01:43Não há, e muito menos, uma nota de desculpas
01:46que dê conta de reparar isso.
01:49Então, é muito grave o que a gente tem aqui.
01:51São denúncias muito graves, né?
01:54E eu também fico impressionada
01:55como que a rede social, muitas vezes,
01:57se torna o espaço que, ao invés de acolher a vítima,
02:01nós revitimizamos.
02:02Sim.
02:03Porque as pessoas continuam atacando
02:05com perguntas infundadas,
02:07questionando as mulheres.
02:10Principalmente as mulheres negras
02:11são sempre questionadas.
02:12Sim.
02:13Mas por que denunciou agora?
02:14Tá querendo like, viu?
02:15Vê se uma pessoa que foi submetida
02:18a todas essas violências
02:19a ponto de pensar...
02:22A gente tá no setembro amarelo, gente.
02:24É.
02:24Não pode ser só um discurso vazio
02:27que a gente tá postando em rede social.
02:28Não pode ser só um argumento vazio
02:30de marketing de empresa.
02:32Assim como também
02:33a questão da reparação racial
02:35e da luta antirracista.
02:36Não pode ser apenas uma narrativa vazia.
02:39É preciso ter ações efetivas.
02:41Então você perde um bebê.
02:45Sim.
02:46Chega a pensar
02:46em não continuar viva.
02:50Pra não falar o nome, né?
02:51Que gera uma série de gatilhos
02:52tendo esse cuidado.
02:54E como que a gente repara isso?
02:57E aí as pessoas ainda estão cobrando
02:59achando que você quer likes, views.
03:00Imagina.
03:01Tudo que as mulheres negras querem
03:03é ter vida com dignidade.
03:05É conseguir chegar no emprego,
03:07fazer a sua função, trabalhar,
03:09entregar o que tá ali no compromisso
03:11quando você assina a carteira.
03:13E conseguir ficar viva.
03:15Então é uma luta, Márcia,
03:16por algo muito básico.
03:18É.
03:18Que a luta por vida,
03:20por dignidade humana
03:21é o básico do básico.
03:24A gente tá lutando pra ser humanizada,
03:25ser vista enquanto pessoas,
03:27enquanto gente.
03:29E ainda tem pessoas que dizem
03:30que o racismo é mimimi,
03:32que isso não existe.
03:33Ainda tem pessoas que,
03:34quando ouvem relatos como esse,
03:36falam
03:36Ah, mas eu também sofri discriminação
03:38no ambiente de trabalho.
03:39As pessoas zoavam meu nariz,
03:41me chamavam de branca azeda,
03:43de leite coalhado.
03:45Eu já ouvi isso,
03:46o doutor deve ter ouvido também.
03:47Como se isso fosse possível.
03:48Racismo reverso.
03:50E como se isso fosse possível
03:51de comparar.
03:52Não dá, é.
03:53Uma coisa é você sofrer
03:54algum tipo de discriminação
03:56por conta da sua aparência física,
03:58do seu fenótipo.
03:59Outra coisa é você não ter
04:00o direito à vida,
04:02ao trabalho.
04:03É você não ter o direito de existir.
04:05É você não ter o direito de engravidar.
04:08Isso não é só
04:10Ah, meu cabelo,
04:11estão zoando meu cabelo
04:12porque o meu cabelo
04:13ele é muito loiro,
04:15muito vermelho.
04:16Não, estão zoando o cabelo
04:18porque o cabelo atinge
04:19um lugar profundo
04:20da autoestima
04:21da gente não poder existir.
04:25Então,
04:26são coisas muito graves
04:27que a gente está vendo aqui.
04:29De pessoas que não conseguem emprego,
04:31a gente tem vários índices,
04:32mulheres negras,
04:33que tentam entrar
04:34em vagas de emprego
04:35a tal da boa aparência
04:36do mercado de trabalho.
04:38Na verdade,
04:39sempre foi um racismo disfarçado.
04:41Sim,
04:42e você vê que no vídeo,
04:43Dandara,
04:43ela coloca
04:44está escurecendo
04:46a nossa loja.
04:47A cota já cumpriu.
04:48É isso.
04:49Eu recebi mensagens
04:50depois que eu coloquei
04:51o caso da Noemi
04:52no meu Instagram
04:52e uma das moças
04:53me contou o seguinte.
04:55Márcia,
04:55eu não consegui nem deixar
04:56o currículo
04:57em uma loja
04:58porque quando eu entrei
04:59sendo negra,
05:01a moça disse pra mim,
05:02não, não, não,
05:02a nossa cota aqui
05:03já cedeu,
05:04já foi.
05:06Você não combina
05:06com a estética da loja?
05:08Nossa.
05:08Não combina com o programa?
05:10São argumentos recorrentes.
05:12O que é não combinar
05:13com o programa?
05:14Não combinar com a estética?
05:15Nós não queremos
05:15mulheres negras associadas
05:17à nossa marca
05:18e à nossa empresa.
05:19Que é isso também
05:20que essa gerente fala.
05:22E aí,
05:22quando a empresa
05:23dá uma nota e diz
05:24nós temos um número
05:25grande de funcionários,
05:26temos políticas
05:27de ação afirmativa,
05:29não basta,
05:30independente de,
05:31não vamos nem entrar
05:32no mérito
05:32se é verdade ou mentira,
05:34mas não basta
05:35você contratar
05:36pessoas negras.
05:37Porque se for contratar
05:39pessoas negras
05:40pra que elas não tenham
05:40o direito de ter um filho
05:42e pra elas morrerem...
05:43Serem humilhadas, né?
05:44Serem humilhadas,
05:45maltratadas,
05:46violentadas,
05:47agredidas e oprimidas
05:48a ponto delas não quererem
05:49estarem vivas,
05:51por favor.
05:52Nem contrate.
05:53É isso.
05:54Porque não é sobre isso
05:55que a gente está falando.
05:56Inclusive,
05:57eu quero que o doutor
05:58coloque então
05:58o que seria importante
06:00essas empresas terem
06:01pra prevenir casos
06:03como esse.
06:03Porque o que a Danara
06:04está falando
06:05é muito importante.
06:06Não é sobre contratar,
06:07é sobre preparar
06:08toda a gestão
06:09com essa cultura,
06:11né?
06:12Nova,
06:13com um preconceito
06:14que infelizmente
06:14está enraizado em todos.
06:16Então precisa de um
06:17letramento racial
06:19para gestores.
06:21E isso poucas empresas
06:22ainda fazem.
06:23Não é isso, doutor?
06:23Eu estou emocionada
06:24com a sua frase.
06:25Exatamente isso.
06:25É isso mesmo.
06:26Eu estou emocionada
06:26com as histórias que estão aqui.
06:28São várias microagressões.
06:30Sim.
06:30Várias microagressões.
06:31Mas o discurso,
06:32o relato da Noemi
06:33é impressionante
06:34porque começou
06:34e não parou.
06:36Eu só queria fazer
06:36uma observação
06:37que nas oportunidades
06:39que a moça fez,
06:40se manifestou no processo,
06:42ela nega.
06:43E quando ela não consegue
06:44mais negar,
06:44ela fala,
06:44mas foi uma brincadeira.
06:45E ela ainda disse
06:45que é amiga.
06:46Nem conhecia a Noemi.
06:48Então assim,
06:48mas essa desculpa,
06:49esse argumento
06:50é muito prático.
06:51Recreativo.
06:52É muito prático,
06:54é muito de quem faz isso.
06:56Olha,
06:56mas foi sem,
06:57é uma brincadeira,
06:58mas não posso mais brincar.
06:59A questão da cota,
07:00mas eu vi inclusive
07:01esse comentário
07:02no seu perfil.
07:03Quer dizer,
07:03virou teto então.
07:05A pessoa usa uma parte
07:06da verdade
07:07para atacar também.
07:08No tocante ao letramento racial,
07:10para nós que estudamos
07:11esse tema,
07:12é a maior ferramenta,
07:14tanto para as vítimas
07:15entenderem,
07:16porque às vezes não é.
07:17Então entender a situação
07:19às vezes não é.
07:20Mas quando é,
07:21a gente identifica.
07:22Nem tudo é.
07:23Mas quando é,
07:24assim como é a questão
07:24do machismo,
07:26assim como é a questão
07:26da homofobia,
07:27quando é,
07:28a gente precisa ouvir.
07:29E aí é o primeiro passo
07:30para a empresa.
07:31Ouvir a vítima
07:32de forma humanizada,
07:34de forma atenta.
07:35É óbvio,
07:36eu preciso compatibilizar
07:37com outros elementos.
07:38No caso do Anemite,
07:39um vídeo.
07:40Sim.
07:41Vídeo que foi disseminado
07:42no grupo de WhatsApp.
07:43Então assim,
07:44não dá para falar que
07:44eles não sabiam
07:45do que estava acontecendo.
07:46E eu tendo também
07:48a afirmar o seguinte,
07:49se realmente aquela informação
07:50que eles passaram
07:50da quantidade de pessoas negras,
07:51existisse,
07:52aquilo talvez não
07:53tinha acontecido com ela.
07:54Sim.
07:55Porque a gente está falando
07:55de uma outra cultura.
07:57Então existe um complicador
07:58nisso aí.
07:59E tem também um outro ponto
08:00que a Noemi me contou.
08:01A empresa recorreu
08:02em todas as instâncias.
08:03negando, negando, negando, negando,
08:06negando, negando.
08:07Se eles estivessem respeitosamente,
08:09reconhece,
08:10você quer ser antirracista?
08:12Reconhece.
08:13Exato.
08:13Reconhece.
08:13Já aconteceu.
08:15Vamos tomar tais previdências
08:17em relação à funcionária.
08:20Eu não sou do partido
08:21de mandar embora.
08:22Porque ela vai para um outro lugar
08:23e vai fazer isso novamente.
08:24A não ser que a pessoa
08:25realmente não tenha condições.
08:26Mas é obrigação da empresa
08:28tratar daquela pessoa.
08:29Que seja,
08:30que faça parte da cultura,
08:31da missão da empresa.
08:32Então a forma,
08:33o letramento racial
08:34é a grande ferramenta.
08:35E em decorrência
08:36do letramento racial
08:36a gente tem as políticas
08:37de diversidade,
08:38de inclusão,
08:39que vão ajudar
08:41a melhorar aquele ambiente.
08:43Um ambiente diverso
08:44é um ambiente
08:45que traz performance
08:46para a empresa.
08:47E traz tranquilidade
08:49para o trabalhador.
08:50De poder saber
08:50que vai para o seu trabalho
08:52onde ele fica
08:52a maior parte do dia
08:53e não vai ser agredido
08:54todos os dias.
08:56Então, letramento racial
08:58e SG diversidade.
09:00E aí, gente, é isso.
09:01A empresa não cuidou
09:02da vítima
09:03que dirá
09:04cuidar da agressora.
09:06Eu ia perguntar
09:07para a Noemi
09:07sobre isso.
09:08Tem muita gente
09:09questionando
09:10por que não expõe
09:11essa mulher?
09:12Não expõe essa agressora?
09:13Nós ficamos sabendo
09:14que ela foi, sim,
09:15demitida.
09:16Mas algo muito recente
09:18depois que o caso teria
09:19vindo à tona
09:20nas redes sociais.
09:22E, assim,
09:23você como mulher
09:25você nunca quis
09:27denunciá-la
09:29de forma criminal, né?
09:30Foi apenas
09:31no âmbito da empresa.
09:32Por que que você
09:33ainda não decidiu
09:34fazer isso, Noemi?
09:36Eu tenho uma crença
09:37de valores,
09:38princípios.
09:39Eu sempre falo
09:39para todo mundo
09:40que o meu espelho
09:41é Jesus Cristo.
09:42Então,
09:43todo mundo merece
09:43uma segunda chance.
09:45Eu espero do fundo
09:45do meu coração
09:46que ela esteja arrependida
09:47por tudo que ela tenha feito.
09:49Que ela seja um ser humano
09:50melhor,
09:50uma pessoa melhor.
09:51Ela já está sendo prejudicada.
09:52porque eu não quero
09:54prender uma pessoa
09:55por algo que eu acredito
09:56do fundo do meu coração
09:57que a pessoa possa ser melhor.
09:59Reconhecer
10:00onde ela está errando.
10:01Ela nunca te procurou
10:02para pedir perdão?
10:03Não, nunca.
10:03Ninguém, ninguém.
10:04Nem a empresa, né?
10:05Ela nem a empresa.
10:06Nem a empresa.
10:06Só postou essa nota
10:07e ninguém nunca
10:09veio falar nada comigo.
10:10Então, assim,
10:10eu acredito que se eu for atrás
10:12de processar criminalmente,
10:14ela vai perder o CRF dela,
10:16ela vai ser presa.
10:17Então,
10:18ao meu ponto de vista,
10:19eu não preciso chegar ao extremo.
10:21É igual eu falei
10:22para as pessoas
10:22que estavam atacando muito,
10:23disseminando ódio.
10:24O intuito não é isso.
10:26A pauta não é essa.
10:27A gente não tem que lutar por isso.
10:29A gente tem que lutar
10:29para isso nunca mais acontecer.
10:31Para as pessoas entenderem
10:32que isso é errado.
10:33E para a gente não se colocar
10:34nessa posição
10:35que é normal,
10:36que vai acontecer.
10:37Não é para acontecer.
10:38Esse é o ponto.
10:39Não é para acontecer.
10:40Agora,
10:41tem uma coisa importante
10:42de dizer,
10:43inclusive que está na fala
10:44da Noemi,
10:45em relação ao CRF,
10:46é que os conselhos profissionais,
10:48eu fui assessora política
10:49há muito tempo
10:50de um conselho profissional,
10:51que é o CRES,
10:51que é o Conselho Regional
10:52de Serviço Social.
10:53Os conselhos profissionais
10:54têm código de ética.
10:56Você precisa seguir
10:57código de ética.
10:59Então,
10:59quando isso acontece,
11:00muitas vezes,
11:00uma denúncia feita
11:02no conselho profissional,
11:03também orientando as pessoas
11:06em casa,
11:06para além da denúncia crime,
11:08tem também as denúncias
11:09dentro do conselho profissional,
11:11que elas visam o quê?
11:13Orientar aquele profissional
11:14e também garantir
11:16que ele não continue atuando,
11:18reproduzindo esse tipo
11:19de violência.
11:20Porque a questão,
11:22Noemi,
11:22é que essa pessoa
11:23fez isso com você,
11:24mas pode fazer
11:25com várias outras pessoas.
11:27Quantas pessoas
11:28ainda podem
11:29passar por essa pessoa,
11:31trabalharem com essa pessoa
11:32e sofrerem essa violência?
11:35Por isso que é muito importante
11:36dizer o quanto
11:37que é fundamental
11:38a coragem
11:39que você está tendo,
11:40porque é preciso
11:40muita coragem
11:41de trazer isso
11:43ao público
11:44e comentar isso,
11:45porque isso fortalece
11:46muitas pessoas
11:46que às vezes
11:47não sabem como agir,
11:49não sabem o que fazer.
11:50A gente sabe também
11:51em termos de justiça,
11:53né, doutor,
11:53o quanto que é morosa,
11:55o quanto que a gente
11:55não tem acesso
11:56às vezes aos códigos
11:57desse sistema
11:59para poder acessar
12:00e garantir direitos.
12:01Então,
12:02é muito importante
12:03que as pessoas saibam
12:03que elas têm
12:04como aliado
12:06esse processo judicial,
12:08essa forma,
12:08esse meio
12:09e também os conselhos
12:10profissionais
12:10têm também
12:11como averiguar isso,
12:13porque a gente
12:14não pode deixar
12:15que uma profissional dessa
12:16continue fazendo isso
12:17com outras pessoas.
12:18Você está aqui,
12:18você está viva,
12:19minha irmã,
12:20e que bom
12:20que você está viva,
12:22mas você podia
12:22não estar.
12:23Várias outras mulheres
12:24negras
12:25não sobreviveram.
12:27Doutor,
12:28aproveitando a fala
12:29da Dandara,
12:31de que forma
12:32a gente pode denunciar?
12:34Em primeiro lugar,
12:35sempre
12:35num canal
12:36que exista na empresa,
12:38documentando isso.
12:39A primeira coisa
12:39é sempre falar
12:40com a empresa.
12:42Via de regra,
12:43o canal de ética
12:43ou o canal de ouvidoria,
12:44ele está acima
12:45daquela gestão.
12:47Então,
12:48vou notificar.
12:49Não deu certo,
12:50aí realmente procurar
12:51a justiça.
12:51No caso da justiça
12:52de trabalho,
12:52é o local
12:53em que,
12:54quando se tratar
12:55de uma relação
12:55de trabalho,
12:56é o local
12:57onde vai ser resolvida
12:58aquela situação.
12:59Ou,
13:00eventualmente,
13:00também no criminal,
13:01se a pessoa
13:02se sentir.
13:02Porque a pessoa
13:03que tem que solicitar
13:05a abertura
13:05e o prosseguimento
13:06desse processo,
13:06ela pode,
13:07num primeiro momento,
13:08abrir o boletim
13:08de ocorrência,
13:09mas ela precisa
13:10exteriorizar
13:12o desejo
13:12de prosseguir.
13:13Ela precisa fazer
13:14a representação,
13:15que pelo jeito
13:16que eu entendi,
13:16você não fez
13:17representação.
13:18Boletim de ocorrência
13:18você chegou a fazer também?
13:19Não.
13:20Tá joia.
13:20Então,
13:20tudo bem,
13:21não tem problema.
13:21O fato de não ter
13:21feito boletim de ocorrência.
13:23Então,
13:23é sobre isso.
13:24Uma coisa que é importante,
13:25que eu gostaria de citar também,
13:26e dar os parabéns mesmo
13:28nessa situação trágica,
13:29é que o processo dela
13:30trouxe para nós
13:32do Poder Judiciário,
13:34estudando sobre isso,
13:37uma percepção
13:38de que o Poder Judiciário
13:39está aceitando
13:41falar sobre isso agora.
13:42porque,
13:42veja bem,
13:42eu sou de uma época
13:44em que era difícil você,
13:46o delegado reproduzir
13:47a palavra racismo,
13:48ele achava que não existia
13:50o promotor,
13:51o juiz,
13:52e hoje,
13:53a gente vem numa toada
13:54tentando ajudar
13:55o Poder Judiciário
13:56a entender
13:57que isso existe,
13:59a legislação
13:59já vem acompanhando,
14:01então,
14:01assim,
14:01denunciar,
14:02não tem jeito,
14:03é denunciar diretamente
14:04com a empresa,
14:05se não tiver um canal
14:06de ética,
14:07ou um órgão,
14:08por exemplo,
14:08sindicato,
14:09ou então judicializar.
14:11É importante isso,
14:12né,
14:12que ele falou,
14:12porque em relação
14:13até o nosso Judiciário
14:15não está ainda
14:16completamente pronto
14:17para receber esses casos,
14:19então,
14:19o caso da Noemi,
14:20uma vitória,
14:20dá força para outras mulheres
14:22que estão vendo agora a gente
14:23a denunciar também.
14:25A gente está aqui
14:26não só para mostrar
14:27o caso da Noemi,
14:28a gente está aqui
14:29para te ajudar,
14:30você que está aí
14:31do outro lado,
14:31que já foi vítima
14:32de algum tipo de violência
14:33assim dentro do trabalho,
14:35ou em qualquer lugar,
14:36a você levar isso a público,
14:38porque o seu caso
14:38não é único,
14:39isso precisa mudar,
14:40a nossa sociedade
14:41precisa evoluir
14:42e você pode fazer
14:43parte dessa evolução
14:44já cobrando pelos seus direitos,
14:46não é isso, Dandara?
14:47Não, fundamental
14:47e também parte desse avanço,
14:50grande parte desse avanço,
14:51a gente deve
14:52aos movimentos sociais,
14:53a gente deve
14:54ao movimento
14:54de pessoas negras,
14:56porque esse movimento
14:56de pessoas negras
14:57com todas as denúncias
14:58históricas que a gente
14:59tem feito
15:00e que resultaram também
15:02em leis e ações,
15:03como a gente tem,
15:03por exemplo,
15:04a lei de cotas raciais
15:05que inclusive
15:06vira um deboche,
15:07na palavra ali
15:09da gerente,
15:09que ela fala
15:10que aqui não tem cota,
15:11as pessoas têm
15:12um preconceito muito grande
15:13com as cotas,
15:14estereótipos muito grandes,
15:15a cota é uma reparação histórica
15:17para uma população negra
15:19que não teve acesso direito
15:21a mercado de trabalho
15:23no pós-abolição,
15:24que não teve direito
15:24à escola,
15:26à escolarização,
15:27que chegou muito tardiamente,
15:29então não é um presente
15:31a cota,
15:31a cota é um direito
15:32histórico conquistado
15:34por pessoas negras
15:35no Brasil.
15:36A lei 10.639,
15:38atualizada pela 11.645,
15:40que é do ensino
15:41de história e cultura
15:42afro-brasileira
15:43e indígena
15:44dentro das escolas,
15:46então são conquistas também
15:47desse movimento
15:48de pessoas negras
15:49em diversos aspectos
15:51coletivos,
15:51instituições,
15:52que têm se mobilizado
15:54para dizer
15:54o racismo existe,
15:55primeiro reconhecer
15:56o racismo,
15:57e também denunciar
15:59e oferecer
16:00para as pessoas
16:00outras maneiras,
16:01outras formas
16:01que a gente pode lidar
16:02com as consequências
16:03nefastas do racismo
16:05na sociedade brasileira.
16:06Então os movimentos sociais
16:07às vezes ficam
16:08num lugar muito estereotipado,
16:10as pessoas olham,
16:11agora está muito chato,
16:12tudo é chato,
16:13tudo é racismo,
16:15olha as consequências
16:16do racismo,
16:17olha o relato
16:19que nós temos aqui hoje,
16:20esse é um relato,
16:21gente,
16:21de dezenas,
16:22e eu sempre falo,
16:23as pessoas que morrem
16:24elas não estão aqui
16:25para contar a história,
16:26somos nós
16:27que estamos vivos e vivas
16:28que fazemos esses relatos
16:29e construímos também
16:31uma memória
16:32e um imaginário
16:32nesse Brasil
16:33de reconhecer
16:34o lugar de existir
16:35de pessoas negras.
16:36Não dá para normalizar,
16:37gente,
16:38não dá para achar
16:39que as humilhações
16:40cotidianas racistas
16:42são normais,
16:43que é assim mesmo,
16:44que não vai ter jeito,
16:45tem jeito sim,
16:46olha o sistema judiciário
16:47tendo transformações,
16:48olha as universidades
16:49tendo transformações,
16:51olha a nossa escola básica
16:52mesmo com todos os desafios
16:53tendo transformações,
16:55então a gente precisa
16:56falar sobre isso,
16:56e as empresas
16:58assumirem isso
16:58como compromisso real,
17:00não pode ser apenas
17:01número
17:02para uma divulgação,
17:03não pode ser apenas
17:05uma nota,
17:05não pode ser apenas
17:06para garantir
17:07o consumo de pessoas negras,
17:09porque se nós somos
17:11a maior parte
17:11da população do Brasil,
17:13saiu agora
17:13os dados do censo
17:14do IBGE 2022,
17:16a população negra
17:16é a maioria
17:17das pessoas no Brasil,
17:18significa que
17:19quem frequenta
17:19as drogarias
17:20e farmácias,
17:21quem gasta dinheiro lá,
17:23somos nós,
17:25então é o nosso dinheiro
17:27que está lá,
17:28mas aí a gente tem
17:29os nossos corpos
17:30humilhados
17:31e maltratados,
17:33passar um paninho
17:34não é demérito nenhum,
17:36limpeza,
17:37auxiliar de serviços gerais,
17:39limpeza,
17:39não é demérito
17:39para ninguém,
17:41mas nós mulheres negras
17:42podemos estar
17:42aonde nós quisermos,
17:44a gente pode passar
17:45um paninho,
17:46a gente pode ser professora,
17:47a gente pode ser advogada,
17:49advogado,
17:50a gente pode ser
17:51o que a gente quiser,
17:52e com respeito,
17:54porque o que a Noemi
17:55dá aqui é um exemplo,
17:56que mesmo sendo
17:57humilhada e maltratada,
17:58ela ainda tem empatia
18:00e cuidado
18:01com a supervisora
18:02que a está humilhando,
18:03então a gente aprendeu
18:06como a gente deve ser educada
18:07e como tratar os outros,
18:09a gente tem a nossa ética
18:11que vem de casa,
18:12que vem de família,
18:13que vem de berço,
18:14porque mães negras
18:15criam muito bem
18:16os seus filhos,
18:17até por medo
18:18de toda a violência
18:18que eles podem sofrer,
18:20mães negras ensinam
18:20seus filhos
18:21a serem educados,
18:22a tratar bem as pessoas,
18:23porque a gente tem
18:25uma sociedade muito violenta.
18:26Eu quero que a Noemi fale
18:28sobre isso,
18:29sobre as consequências
18:30dessa situação
18:31na sua vida,
18:32como que você
18:33se reconstruiu
18:35para voltar
18:36ao mercado de trabalho
18:37depois que tudo isso
18:38aconteceu,
18:39e como que você fez
18:42dessa história
18:43uma válvula propulsora
18:46para você continuar viva,
18:48como foi o seu processo
18:51depois disso,
18:51porque eu sei que você
18:52trocou de universidade,
18:54você resolveu estudar
18:56outra coisa,
18:57conta para a gente
18:57por favor.
18:58Eu lembro que eu
18:59comecei a estudar farmácia
19:00porque brilhou meus olhos
19:02de primeiro instante,
19:03eu falei,
19:03eu quero ser farmacêutica,
19:05eu quero ser gerente
19:05de farmacêutica,
19:06que lá você vai crescendo,
19:07crescendo,
19:08eu quero fazer a diferença,
19:09eu falei,
19:09eu vou fazer a diferença,
19:11só que com os ataques,
19:13com tudo que vinha acontecendo,
19:15e depois desse episódio
19:16do quase suicídio,
19:16o meu esposo,
19:19ele conversou bastante comigo,
19:20ele ficou até um pouco
19:21assustado,
19:22ele falou assim,
19:23vai doer o que eu vou te falar,
19:25parece um pouco de egoísmo,
19:26porque eu te amo,
19:28você é tudo para mim,
19:29você poderia ter pensado
19:30um pouquinho em mim,
19:30em nós,
19:31então foi com terapia,
19:34foi pensando nas coisas,
19:35foi pensando no meu casamento,
19:37eu larguei a área,
19:38eu falei,
19:38eu não quero mais ir para a minha vida,
19:40então quando eu casei,
19:41ele falou assim,
19:42fica em casa,
19:43pensa no que você quer fazer da vida,
19:45pensa no que te faz bem,
19:46e foi aí que eu fui fazendo
19:48as coisas aos poucos,
19:49fui buscando mais a Deus,
19:51que nossa,
19:51isso foi maravilhoso para mim,
19:53a terapia com a doutora Ana,
19:54ela é excelente,
19:57e gente,
19:57a única coisa que eu tenho
19:58para falar para as pessoas,
19:59é para não aceitarem,
20:00não se ficarem colocando
20:02nessa posição,
20:02nesse lugar,
20:03porque a gente é tudo,
20:05a gente é ser humano.
20:06Você voltou a trabalhar?
20:07Voltei,
20:08agora eu trabalho em um hospital.
20:09Eu gosto da área da saúde,
20:11gente.
20:11Você gosta da área da saúde?
20:12Eu gosto da gestão de pessoas.
20:14Entendi,
20:15você faz RH,
20:16ou se formou já?
20:17Estou cursando em RH.
20:18Estou cursando RH.
20:19E agora,
20:20olha só,
20:22ela vai ser uma gestora de pessoas.
20:24Olha que potência!
20:27Uma liderança fantástica.
20:28Uma liderança que vai dar exemplo
20:31para as outras.
20:33Então,
20:33tudo que fizeram com você,
20:34você não vai fazer igual.
20:36Jamais!
20:37Né,
20:37Noemi?
20:38Que lição você tirou disso tudo?
20:41O principal foi sobre amor.
20:44Nossa,
20:45essa é a palavra que eu tenho para tudo.
20:47Em tudo,
20:47independente do que aconteça,
20:49gente,
20:49eu coloco amor.
20:50Porque quem podia nos julgar,
20:53nos amou.
20:53Então,
20:54me independente de qualquer coisa,
20:56a justiça vem dele.
20:57A gente tem a justiça da terra,
20:58óbvio,
20:59para fazer as nossas justiças.
21:01Mas a de Deus não falha.
21:02Não se acredita muito nela, né?
21:04Demais,
21:04demais.
21:05Porque tudo que eu achava
21:07que eu não ia vencer,
21:08que eu não ia conseguir,
21:09eu estou conseguindo.
21:10Ele tem me ajudado em tudo.
21:11A minha fé tem alcançado
21:13e movido montanhas.
21:14Inclusive,
21:15ter que reviver
21:16tudo isso, né, gente?
21:17De novo.
21:18E ter que falar sobre isso.
21:20Eu imagino que não é fácil
21:21para alguém que teve
21:22que enfrentar
21:23e ter essa força.
21:24Por isso que muitos
21:25não denunciam, né?
21:26Exatamente.
21:27Aquilo que você falou
21:27do detrimento racial
21:28parte, inclusive,
21:29do policial,
21:30do delegado.
21:31Assim como acontece
21:32no caso de violência
21:33contra as mulheres,
21:34que tem um acolhimento.
21:35No caso das questões racistas,
21:37raciais,
21:38é necessário também
21:38esse acolhimento.
21:39Você vai ser uma gestora.
21:41A sua experiência como gestora
21:42vai ser outra.
21:43Para além do que você
21:44está aprendendo na universidade.
21:46Então,
21:46a gente tem um trabalho,
21:47por exemplo,
21:48com as polícias,
21:49com o Ministério Público,
21:50com o Poder Judiciário.
21:51E tem um documento,
21:52eu preciso falar
21:53desse documento,
21:53Marcia,
21:53que chama
21:54Protocolo com Julgamento
21:56com Perspectiva de Raça e Gênero.
22:00É um guia
22:01para os juízes.
22:02Infelizmente,
22:03no Brasil,
22:03só 13% dos juízes
22:05são pessoas negras.
22:0613% apenas.
22:08É um guia
22:09para os juízes negros
22:10e não negros
22:11de como tratar
22:12questões
22:13que envolvam o racismo.
22:15Será que aconteceria
22:16com uma outra pessoa
22:17de forma tão reiterada
22:19se fosse uma pessoa
22:20não negra
22:21e as consequências disso?
22:23Então,
22:23é uma informação
22:24que nos acalenta.
22:26Verifica que em 2024,
22:28não foi em 2004,
22:29quando a lei chega,
22:30nem em 2003,
22:31mas agora.
22:32Mas antes tarde do que nunca.
22:33Esse guia está disponível?
22:34Sim,
22:35o CNJ.
22:35É o CNJ,
22:36é o órgão auxiliar
22:37do Poder Judiciário
22:38para todos os juízes do Brasil
22:39para eles se guiarem
22:40toda vez
22:41que houver um processo,
22:42inclusive foi utilizado
22:43no processo da Amelie também,
22:45questões que,
22:47falou de racismo,
22:49eu preciso ter um olhar diferenciado.
22:50Falou de mulher,
22:51eu preciso ter mais diferenciado ainda.
22:53Então,
22:54acho que é importante
22:54que a gente se debruce
22:55sobre esse tema,
22:56que a gente se qualifique,
22:57que a gente se letre racialmente
22:58para que a gente entenda
23:00uma questão do dia a dia
23:01sob o ponto de vista racial.
23:02Um apagamento,
23:04um silenciamento,
23:05uma exclusão,
23:06um xingamento.
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