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  • há 18 horas
Transcrição
00:00Como hoje é quarta-feira, vamos repercutir esses assuntos agora na nossa coluna Olhar do Amanhã.
00:19E vamos receber doutor Álvaro Machado Dias, professor da Unifesp, neurocientista futurista e colunista
00:28do Olhar Digital sobre esses assuntos e outros. Vamos lá.
00:34Olá, boa noite, doutor Álvaro Machado Dias. Seja muito bem-vindo. Tudo bem?
00:40Tudo ótimo. Muito boa noite, Marisa.
00:42Doutor Álvaro Machado, como nós vimos aí, temos a presença em peso de CEOs de grandes empresas de tecnologia nessa
00:52viagem.
00:53Eu queria começar perguntando até que ponto a presença desse grupo de CEOs na comitiva do presidente Trump
01:02revela as reais intenções de Trump nessa viagem, nesse encontro com o presidente Xi Jinping.
01:10Pois é. Essa imagem do Air Force One pousando em Pequim, com Musk, Shenzhen Huang, Cook, Fink, Schwarzman a bordo,
01:23sabe, essa coisa de CEOs e não exatamente de comitiva de governo, não é uma cena protocolar, não é um
01:31negócio comum.
01:32Na minha leitura, é um momento em que o tecnoabsolutismo, o termo que eu cunhei para justamente traduzir esse momento
01:40em que as empresas de tecnologia se fundem ou eventualmente até impõem seus interesses acima dos interesses de Estado,
01:49é um momento, enfim, que o tecnoabsolutismo, ele deixa de ser simplesmente determinado por afinidades ideológicas
01:58e passa efetivamente a operar com a própria lógica de Estado, né.
02:03Então, trocando em miúdos, a diplomacia americana, como a gente pode ver aqui,
02:08ela não está simplesmente sendo influenciada pelas big techs, ela está sendo executada por elas.
02:15Isso não é convencional.
02:17E eu acho que, assim, o caso que melhor ilustra isso é do Shenzhen Huang.
02:23Olha só, ele não ia, originalmente ele não tinha sido convidado, mas a imprensa começou a ecoar esse papo dele
02:31não estar na comitiva.
02:33E todo mundo sabe que, assim, né, NVIDIA é o backbone do mundo da IA.
02:38Enfim, aí o Trump, o que ele fez?
02:41Ele ligou para o Shenzhen Huang, convidou-o e o Huang pegou uma conexão no Alasca.
02:48Olha que coisa mais curiosa, como você gosta de dizer.
02:52Quer dizer, não é uma agenda desenhada pelo Departamento de Estado, mas pelas repercussões de mídia, né,
02:58sobretudo redes sociais.
02:59É uma coisa, assim, diferente do que a gente esperaria.
03:03E aí, qual que é o ponto, né, Marisa?
03:06Cada setor desses, cada CEO, tem um interesse um pouco diferente.
03:11E a convergência, no final das contas, é uma convergência muito mais ligada ao desejo transacional,
03:20à vontade de vender para os chineses, trocando em miúdos,
03:24do que propriamente por um tipo de alinhamento estratégico mais amplo.
03:28Então, os Estados Unidos não estão, nesse momento, negociando em torno de uma estratégia americana, por assim dizer,
03:37mas sim em torno de uma carteira de empresas, pelo menos é a minha leitura, tá?
03:41E eu acho que isso, onde isso fica mais explícito?
03:46Fica explícito numa frase que o Trump falou, né, ele pediu para o Xi, antes de embarcar,
03:51que deixasse, né, que se abrisse para que essas pessoas brilhantes pudessem fazer sua mágica.
03:58Do your magic.
03:59Essa é a própria expressão quando você quer dizer que, enfim,
04:02você precisa comprar uma tecnologia ou simplesmente instalar um aplicativo para que ele faça a sua mágica.
04:10Ou seja, aqui a rivalidade com a China, ela deixou de ser um projeto civilizacional
04:18ou estratégico, propriamente, e nesse momento está muito mais parecendo uma espécie de barganha, tá?
04:27Uma posição que, na minha visão, para resumir e encerrar, é sobretudo de fraqueza.
04:32O que, aliás, foi comentado no New York Times e no Washington Post, na minha opinião, com boa dose de
04:39razão.
04:40Pois é, realmente é uma imagem que impressiona, não é?
04:44A comitiva de Donald Trump é bastante diferente.
04:48Agora, doutora Álvaro, a criação de um mecanismo de diálogo envolvendo a EIA
04:54poderia ser suficiente, digamos assim, para reduzir a grande desconfiança que existe entre os dois países, né,
05:01de espionagem, troca de informações, enfim.
05:04É possível imaginar que algum tipo de acordo sobre o tema
05:08possa efetivamente sair do papel a partir desse encontro?
05:12Então, todo mundo fala isso, né, aliás, é assunto recorrente.
05:17Veja, existem mecanismos de diálogo em torno da EIA entre Estados Unidos e China de 2024, importantes, tá?
05:25É que, assim, o Biden e o Xi se encontraram em, onde foi?
05:30Woodside, lá nos Estados Unidos, e aí rolou uma rodada de debates que, enfim, avançou depois.
05:38E o saldo é nulo, tá?
05:41E nada aconteceu.
05:43E eu, portanto, nesse sentido, não creio que qualquer acordo que possa ser firmado
05:48vai ter relevância efetiva nessa unidade anárquica que é o mundo como um todo, o mundo real.
05:57Por quê, né?
05:58Então, é uma questão estrutural bem simples.
06:01Olha só, um instrumento de redução de desconfianças, tá, entre as partes,
06:06o que ele pressupõe?
06:07Ele pressupõe que você consiga monitorar isso.
06:12Então, o tempo da Guerra Fria, discussão em torno de combustíveis fíceis, né,
06:19o desenvolvimento de armas atômicas, todo esse papo, né?
06:23Por que que essas coisas eram viáveis?
06:26Porque observadores conseguiam quantificá-las.
06:29Mas como é que você faz isso no mundo da EIA?
06:32Quando eu ouço essas análises de que esses acordos tendem a resolver,
06:36enfim, as fricções, reduzir até a chance de guerra em Taiwan, etc.,
06:41eu fico pensando, tá bom, mas qual que é o mecanismo que você vai fazer?
06:46O que você vai inspecionar?
06:48Quantos GPUs são produzidos?
06:49Como que os modelos estão sendo treinados?
06:52Não tem nenhum sentido nada disso.
06:54Então, nenhum tipo de convenção tradicional tende a dar conta dos desafios do mundo da inteligência artificial.
07:02Consequentemente, eu não acho que vai funcionar.
07:05Tem outra coisa, tá?
07:06A gente estava falando agora sobre o quanto essa comitiva americana é uma comitiva comercial e dispersa
07:13e que, num certo sentido, reflete uma fraqueza do ponto de vista de estratégia de Estado.
07:19Mas como é que uma comitiva como essas vai estar alinhada a um acordo com os chineses
07:27que seja aceitável do lado deles?
07:30Pela primeira vez eles estão na posição de força nessa relação.
07:33Também é difícil, percebe?
07:34O empresário que está indo até a China, ele está indo para vender.
07:38Então, ele não está indo para fazer uma barganha defensiva.
07:42Então, se por definição as barganhas não podem ser defensivas, o poder de barganha foi embora.
07:47Então, eu não acho duplamente que a esperança americana vá nessa direção, não.
07:53Agora, doutor Álvaro, vamos falar um pouquinho sobre Taiwan, que também está aí em evidência.
08:01Essa posição ambígua dos Estados Unidos em relação a Taiwan é sustentável a longo prazo, na sua opinião,
08:08ou inevitavelmente será um ponto de atrito, digamos assim, com o governo da China?
08:16Eu diria que os dois lados têm posições ambíguas em relação a Taiwan.
08:20A China é mestre nessa ambiguidade, uma ambiguidade tensa, que torna a vida de quem mora em Taiwan um pesadelo.
08:28Então, também não vamos limpar a barra do chinês de maneira nenhuma, assim, como se...
08:31Eu não estou dizendo que você está fazendo isso, mas eu não limpo de maneira nenhuma.
08:34Agora, olhando do ponto de vista americano, que é um ponto de vista muito mais próximo do nosso,
08:40do ponto de vista de entendimentos, de lógica do Ocidente, qual que é o lance?
08:46Taiwan sempre funcionou sob duas condições, do ponto de vista de sustentação lógica.
08:52Primeiro, a indiscutível superioridade militar americana, inclusive no próprio Pacífico Ocidental.
08:58E a segunda, a baixa disposição dos chineses de entrarem num conflito mais forte pela dependência do mercado americano.
09:07As duas coisas deixaram de ser tão verdade, tá?
09:10Então, assim, os chineses investiram muito no crescimento das suas forças armadas,
09:16muito em armas autônomas, muito em uma lógica de pequenas embarcações autônomas,
09:24que poderiam, supostamente, ir anfíbias, que poderiam participar de uma invasão.
09:30Então, os exercícios de invasão são feitos constantemente.
09:34E, enfim, os chineses estão muito mais bem preparados.
09:38Os americanos estão num momento particularmente fraco,
09:41pelo gasto imenso do arsenal de reserva americano no Irã.
09:48dentro de uma lógica em que também o envolvimento indireto,
09:53e, em certo sentido, direto, mas cada vez menor,
09:56na Ucrânia também consome uma parte desse arsenal.
09:58Então, assim, não há posição de força.
10:01E, do outro lado, tem essa questão de que os chineses ampliaram muito o mercado
10:05e as tarifas do Trump também não ajudaram nesse sentido, né?
10:10Porque não só os chineses já estavam preparando um movimento nessa direção,
10:15como, efetivamente, vários países que, enfim, tinham ressalvas
10:19em relação ao envolvimento mais forte com os chineses.
10:22Afinal das contas, acabaram abraçando essa hipótese
10:25dado o custo da oportunidade imposto pelas tarifas americanas.
10:30Agora, tem um negócio que eu acho que, assim,
10:34a gente também tem que pensar, do outro lado, que é uma outra história,
10:37que, assim, há décadas atrás, o lance, né, em torno de Taiwan
10:43era o quê? Autodeterminação, né, era a ordem liberal mundial,
10:51era a contenção.
10:53Essas variáveis, elas também estão meio que descendo pelo ralo, né?
10:58Ordem liberal internacional, assim, ela é respeitada pelo Trump
11:04em que momento? Percebe? É difícil contenção, autodeterminação.
11:10O sujeito pintou a Venezuela com o mapa americano
11:14e publicou na rede social.
11:17São coisas assim, tem o caso da Groenlander, né?
11:20É difícil essa defesa do ponto de vista de legitimação.
11:23Então, há uma outra esfera que não é tão prática,
11:26mas que conta, que é da legitimação simbólica,
11:29que é a legitimação no tabuleiro geopolítico,
11:33que também eu acho que ela precisa ser levada em consideração.
11:36Ou seja, trocar em miúdos.
11:40Se o Trump pode, enfim, subtrair o presidente da Venezuela,
11:47sob, enfim, não importa o argumento,
11:50e prendê-lo, levá-lo para os Estados Unidos,
11:52e depois pintar o país como se ele fosse um Estado americano,
11:59chamar o presidente do Canadá de governador,
12:02em alusão ao fato do Canadá também,
12:04eventualmente, se reduzir a um Estado americano,
12:07e assim por diante,
12:08qual que é a legitimidade para se alegar
12:11a defesa da autodeterminação taiwandesa?
12:14É nenhuma.
12:15Então, eu acho que isso acabou também enfraquecendo
12:18por esse outro lado.
12:19Agora, se falar em conflito inevitável,
12:23também é se falar de uma maneira um pouco fatalista,
12:26no meu ponto de vista, tá?
12:27O conflito bélico não é o único desfecho,
12:33mesmo quando a situação é acirrada.
12:36Eu acho que a gente pode até dizer
12:40que é uma tendência cada vez mais provável,
12:44mas tendência não é destino, né, Marisa?
12:47Agora, guerras, no final das contas, são escolhas.
12:49E do ponto de vista chinês,
12:51isso também está muito claro.
12:52Uma guerra como essa também tem muitos custos
12:55dentro da própria geopolítica
12:58da Ásia asiática,
13:00na relação com o Japão,
13:02na relação com a Coreia,
13:04enfim,
13:05ela acaba significando um acirramento
13:08e um inconsequente isolamento chinês,
13:12que também é contraprodutivo nesse momento.
13:14Então, eu acho que, assim,
13:16não necessariamente as coisas vão nessa direção,
13:18mas que o balanço de forças em torno de Taiwan,
13:21ele está mudando um pouquinho,
13:22e isso para mim me parece claro.
13:24Pois é, então teremos que aguardar aí os próximos dias,
13:27até para poder dizer o que será o resultado
13:30dessa reunião, de forma positiva ou mais negativa,
13:33ainda para os Estados Unidos.
13:34Só acompanhando mesmo os próximos dias.
13:37Doutora Álvaro Machado Dias,
13:38muitíssimo obrigada pela sua participação aqui hoje,
13:41em mais uma coluna Olhar do Amanhã.
13:43Semana que vem teremos mais.
13:46Eu que agradeço,
13:46agradeço todo mundo que nos acompanhou nesse papo intenso,
13:49espero que vocês tenham gostado,
13:50e até a quarta que vem.
13:51Até, boa semana, doutor Álvaro.
13:53Boa noite.
13:55Boa noite, Marisa.
13:56Tá aí, pessoal,
13:57doutor Álvaro Machado Dias,
13:59em mais uma coluna Olhar do Amanhã,
14:01aqui no Olhar Digital News.
14:03Doutor Álvaro Machado Dias,
14:05que é professor da Unifesp Neurocientista Futurista
14:07e colunista do Olhar Digital News.
14:10Volta na semana que vem,
14:12na quarta-feira,
14:13com mais temas por aqui.
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