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  • há 4 meses
Filho de um diretor de fotografia da indústria cinematográfica, Erh Ray herdou a vocação para a direção de arte, mas a direcionou para o mercado publicitário. Nesta entrevista ao podcast A Ideia, ele relembra a chegada ao Brasil aos sete anos de idade, a carreira em agências no Sul do País até chegar a São Paulo e comenta sua relação com o mercado da moda.

Categoria

Pessoas
Transcrição
00:00Olá, eu sou Isabela Lessa e você está acompanhando a Ideia, podcast do Meio e Mensagem,
00:05em que eu converso com pessoas de diversas origens, diversas áreas,
00:09para saber das ideias que regem seus negócios e suas trajetórias.
00:13Meu convidado de hoje é imigrante de Hong Kong, na China.
00:17Ele trabalha com publicidade há mais de 25 anos, já trabalhou em agências no sul do país,
00:22já criou a própria agência e hoje ele é CEO e CCO, Chief Creative Officer da BTC Ravaz.
00:30Estou falando de Air Race, seja muito bem-vindo.
00:33Eba, prazer. Obrigado pelo convite.
00:36A gente que agradece.
00:37É uma delícia estar aqui.
00:43Valeu, Air. Vamos lá. Vamos começar sobre como você veio parar no Brasil?
00:48Bom, o meu pai, ele trabalhava na área de cinema em Hong Kong, né?
00:55Eu nasci na China, né? E a gente veio para o Brasil há muito tempo atrás, né?
01:02Muito tempo mesmo, né?
01:04Meu pai chegou aqui na época, na década de 70, ele veio trabalhar aqui
01:09e acabou se apaixonando pelo Brasil e ficando, né?
01:13Então, eu vim pequenininho, com sete anos de idade, já meio alfabetizado chinês,
01:20mas com uma nova cultura pela frente.
01:25E eu vim parar em São Paulo, né?
01:27A gente ficou um ano em São Paulo e aí pintou uma oportunidade.
01:30Na verdade, o que aconteceu com meus pais foi...
01:32Meu pai veio comercializar filmes.
01:35Na época, filme chinês não era esse boom que é hoje, né?
01:40Filmes chinês passavam em cinemas junto com filmes pornográficos, assim, né?
01:47Era bem decadente na época e ele não sabia disso.
01:51Então, se deu mal, né?
01:53E acabou tendo que criar um plano B, né?
01:57E ele foi convidado para abrir um restaurante chinês em Porto Alegre.
02:01E aí a família toda se mudou para Porto Alegre e a minha infância toda foi no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.
02:09Então, eu cresci em Porto Alegre, eu estudei em Porto Alegre, eu me formei em publicidade em Porto Alegre, né?
02:17E de lá eu acabei vindo para São Paulo em 94.
02:21Então, uma historinha rápida aí para contar.
02:24E o seu pai, ele fazia exatamente o quê no cinema?
02:27Ele era diretor de fotografia.
02:28Diretor de fotografia.
02:29Diretor de fotografia em cinema.
02:31Então, ele trabalhou com o Jack Chan, ele trabalhou com todos esses grandes nomes, né?
02:36De artes marciais.
02:40E foi legal, assim.
02:41Hoje ainda meus tios, hoje ainda continuam, né?
02:45Atuando na área de cinema.
02:47Eu acabei de ver essa semana que um dos meus tios está participando de um reality de Fórmula 1 em Hong Kong.
02:55Então, a gente acompanha, né?
02:57A gente tem alguns amigos e familiares ainda na indústria de cinema em Hong Kong.
03:04Lá na China, lá em Hong Kong.
03:06E de onde que veio essa imersão do seu pai com o cinema?
03:13Como começa essa história?
03:15Você sabe disso?
03:16Eu acho que o que acontece, assim, como a indústria de cinema em Hong Kong é uma indústria muito forte,
03:25como na Índia e como nos Estados Unidos, né?
03:28E ele, muito novo, ele nasceu em Hong Kong e o meu avô já trabalhava na área.
03:37Então, era uma coisa que, passando de pai para filho, né?
03:43E quem sabe, se eu estivesse morando lá, eu não estaria também nesta área, provavelmente.
03:49Então, é um trabalho muito encantador, né?
03:52A área de cinema, a área de entretenimento, né?
03:56E eu acho que, num por acaso, eu acabei parando e trabalhando em publicidade,
04:02que é um pouco, tem um pouco a ver com esse DNA, talvez criativo, de fazer coisas acontecerem, né?
04:11E você cresceu acompanhando, você se recorda do seu pai trabalhando de set de filmagem?
04:19Isso permeou, assim, a sua infância?
04:21Eu tenho memórias, assim, de algumas cenas, né?
04:27Porque eu tinha sete anos de idade, né?
04:29E eu acho que a minha infância mudou muito, né?
04:32Imagina você, uma criança, até, de repente, convivendo com a indústria de cinema,
04:38mas, de repente, sai de um país, vai para um novo país,
04:42e esse novo país completamente diferente, né?
04:46Todos os ocidentais aprenderam uma nova língua, nova cultura.
04:51Então, eu acho que eu me lembro muito mais da minha infância no Brasil, né?
04:56Do que na minha infância na China, né?
05:00E você compartilha desse amor do seu pai pelo cinema?
05:03Gosto de cinema, de ver filmes?
05:05A gente continua, eu sim, eu gosto, mas, assim, eu acho que é óbvio, né?
05:11Que é um prazer de hobby, né?
05:16Eu não sou um adicto de cinema, né?
05:19Eu sou um usuário, assim, eu sou um bom consumidor de entretenimento de cinema.
05:25Óbvio que eu acho que, assim, o DNA te traz sempre tendo um novo olhar,
05:33ou um olhar mais crítico para algumas coisas, mas, eu acho que o dia a dia é, assim,
05:39esse convívio é normal.
05:40Gosta de cinema chinês?
05:43Ah, eu acho que sim, né?
05:45Eu gosto, eu gosto de...
05:46Mas, eu acho que, até por mais dessa convivência, vamos dizer assim, no ocidente,
05:53eu sou mais...
05:53É difícil, tem alguns momentos que eu me paro e penso assim,
05:57porque eu sou chinês, nascido na China, mas eu me sinto muito mais brasileiro, né?
06:04A minha vida toda foi aqui no Brasil.
06:06A maior parte da sua vida foi aqui no Brasil.
06:08No começo, teve esse choque cultural forte de, meu Deus, o que é isso?
06:13Eu acho que para criança, não, né?
06:15Você vem pequeno, você...
06:17A criança, ela absorve muito rápido a cultura, né?
06:21Eu sei que eu aprendi a falar português muito rápido, né?
06:25E lá na China, na jardim de infância, eu já aprendia inglês.
06:35Fazia parte, vamos dizer assim, do currículo escolar do jardim de infância, ter inglês.
06:42Então, acho que isso ajudou também, vamos dizer assim, a verbalizar a língua ocidental.
06:47Mas aí você veio com a sua família para São Paulo e daí vocês mudaram para Porto Alegre.
06:53Porto Alegre.
06:53Daí, quando foi essa volta para São Paulo?
06:57Foi para estudar?
06:58Foi já trabalhando?
07:00A volta foi em 94 e eu vim trabalhar diretamente na DM9.
07:06No Sul, eu me formei em publicidade, na PUC, né?
07:10Eu trabalhei nas principais agências do Sul, né?
07:14Como escala, upper, centro e na OGV, né?
07:20Na época era standard, né?
07:22OGV.
07:24E eu me formei lá, eu trabalhei.
07:27Minha primeira área foi produção fotográfica, não existia ainda, né?
07:32Era no estúdio, né?
07:35Então, e eu fui me desenvolvendo mais na área, vamos dizer assim, de direção de arte,
07:42porque eu trabalhava na área de produção e eu acabava recebendo os layouts, né?
07:48E a gente tinha que produzir os layouts.
07:51Em algum momento eu disse, puta, eu prefiro fazer o que está sendo criado do que produzir.
07:57Então, eu acabei indo para a área de criação e me desenvolvi na criação no Sul.
08:03E a partir dali eu fui crescendo, eu acabei virando diretor de criação na agência.
08:11E você sabe, né?
08:12O Sul, sempre os gaúchos mirando no mercado nacional, né?
08:17Não só o Sul, né?
08:18Eu acho que qualquer mercado fora do eixo, na época Rio-São Paulo e muito mais São Paulo.
08:23Todo mundo queria estar em São Paulo.
08:25Então, o desejo de todo, vamos dizer assim, imigrante era estar em São Paulo nas principais agências.
08:32E aí, toda vez que a gente vinha para São Paulo, eu vinha para São Paulo,
08:36eu colocava a pastinha, e na época era a pasta, né?
08:39Debaixo do braço, para rodar a pasta pelas agências aqui em São Paulo.
08:43E, normalmente, aqui em São Paulo, sempre tinha um gaúcho em alguma agência.
08:50Ou um gaúcho ou um baiano, né?
08:52Então, a gente recorria aos amigos, aos conhecidos, para mostrar a pasta.
08:57E foi numa dessas, de mostrar a pasta, que eu fui contratado na DM9.
09:01E, dando um passo atrás, como é que você decidiu fazer publicidade?
09:05Sempre soube?
09:07Não, porque, assim, imagina assim, filho de imigrante, né?
09:12Para quem conhece liberdade aqui em São Paulo, se você for numa mercearia ou num restaurante,
09:19você vê um chinesinho ali ajudando a família.
09:23Era exatamente que eu, assim, filho de imigrante.
09:25Trabalhava toda semana, finais de semana, ajudando a família.
09:29Então, imagina para os pais de um imigrante, é ter o filho um engenheiro, um médico, né?
09:38Profissões, vamos dizer assim, mais bem estabelecidas ou conceituadas, vamos dizer assim.
09:44E eu fui me desviando para um lado que eu cheguei a estudar arquitetura.
09:51Eu fiz dois anos de arquitetura.
09:53E aí eu acabei desistindo da arquitetura, porque, em algum momento, eu acabei me envolvendo em estúdio fotográfico,
10:02eu acabei me envolvendo mais na área de comunicação.
10:05E aí me despertou a vontade de seguir na área de comunicação e acabei fazendo direção de arte,
10:13porque, justamente, o meu primeiro estágio, que foi na ONGV, eu entrei como na produção gráfica.
10:20E na área de produção gráfica eu era o cara que produzia as fotos.
10:24Então, tinha essa relação estúdio, fotografia, imagens, né?
10:29Muito até uma relação, talvez, intrínseca da família, né?
10:36E, a partir dali, eu fui me desenvolvendo mais para a área de direção de arte.
10:42E os seus pais te apoiaram nessa empreitada de estudar publicidade?
10:47Ah, no começo eles não entendiam, né?
10:49No começo, de novo, né?
10:51Filho de imigrante, fazendo publicidade, soa estranho, né?
10:55Todo sonho, vamos dizer assim, de um pai imigrante, os pais imigrantes, é seu filho médico, advogado, engenheiro, né?
11:03De novo, as profissões mais estabelecidas, assim.
11:08E falar que ia fazer arquitetura.
11:11A arquitetura ainda era quase uma licença para um lado mais artístico.
11:19E acabaram aceitando, porque eles viram que, rapidamente, eu fui me desenvolvendo nas agências, né?
11:27O estágio que eu entrei, eu fui crescendo dentro das agências.
11:33E, automaticamente, eles apoiaram, né?
11:36Eu achava assim, putz, o cara gosta do que está fazendo.
11:39Está crescendo, está surtindo efeito.
11:41E foi uma infância, vamos dizer assim, não vou dizer dura, né?
11:48Mas é muito exigente, né?
11:51Porque eu trabalhava, imagina assim, eu estagiava durante o dia nas agências.
12:00Aí, no intervalo do almoço, eu ia para o meu restaurante, dos meus pais, para ajudar a trabalhar.
12:05E, ao mesmo tempo, eu aproveitava, passava de graça, aquela história toda.
12:11Voltava à tarde para a agência, né?
12:14Continuando o estágio.
12:16E, terminando o estágio, na agência, eu ia para a faculdade.
12:20Então, eu ia à faculdade, era de noite e até à tarde da noite.
12:23Então, era um ciclo muito, entre aspas, puxado.
12:27Isso, 24 por 7.
12:29Porque, quando eu não trabalhava durante a semana, nos finais de semana, eu trabalhava ajudando a família.
12:35Então, foi uma infância que me ensinou muito a disciplina, o jeito de lidar até com clientes, né?
12:45De lidar com pessoas e desenvolver essa coisa de, não de empreendedor, né?
12:53Porque o imigrante é meio empreendedor, né?
12:56É verdade.
12:57Você fazia o que no restaurante?
12:59Ficava lidando com os clientes?
13:00Ajudava na cozinha?
13:02Eu, sabe, o busboy, né?
13:04O cara que limpava uma mesa, arrumava.
13:09Coisas fáceis para um jovem, né?
13:13Um jovem aprendiz, né?
13:14Ficava no caixa, ajudava minha mãe, né?
13:17Levava cardápio para as mesas, né?
13:21Então, a parte mais leve, vamos dizer assim.
13:23A parte pesada, óbvio.
13:24Mas foi passando os anos e as responsabilidades aumentavam, né?
13:30E em relação à publicidade, lá no começo, quando você era estudante ainda, quais eram
13:35as suas referências no mercado publicitário?
13:38Olha, imagina, há muito tempo atrás, né?
13:42Eu me formei em 88.
13:43Então, podem fazer os cálculos aí, né?
13:46Tinham poucas referências.
13:50Não existia internet, né?
13:52Imagina, não existia celular.
13:55As referências eram livros, né?
13:57E viagens.
13:58Então, as pessoas viajavam, traziam livros para o Brasil.
14:02E os livros eram onde a gente se alimentava de referências.
14:06Existia, para os mais velhos, provavelmente vão lembrar, né?
14:10O Black Book.
14:11Existia um anuário chamado Black Book, onde eram portfólios de ilustradores, fotógrafos,
14:19roteiristas, imagens.
14:22Mas como eu sempre fui muito, vamos dizer assim, curioso, e a oportunidade de ter referências
14:30sempre atualizadas, eu ia para o aeroporto de Porto Alegre.
14:35E no aeroporto, nas bancas de revistas nos aeroportos, no aeroporto de Porto Alegre,
14:41eles importavam revistas estrangeiras, né?
14:44Então, e aí, dali eu aproveitava, vamos dizer assim, as informações, a direção de arte,
14:53a tipografia, as imagens.
14:55Então, eu lia desde revistas de moda, né, até revistas de engenharia, vamos dizer assim.
15:05Então, tudo que, vamos dizer assim, era um olhar de fora, né, para você poder aproveitar
15:12e aprender um pouco esse mundão que hoje o acesso é num piscar de olhos, né?
15:20Mas naquela época você tinha que ir atrás da informação, ir buscar a informação.
15:27Então, toda vez que a gente podia, a gente viajava, né, e nessas viagens voltava com
15:33a meia dúzia de livros, né, e esses livros eram quase nossas fontes de informação e de
15:42preciosidades, né?
15:43E você falou que cursou dois anos de arquitetura.
15:47Isso.
15:47E aí, o que fez você desistir e ir para a publicidade?
15:52Começou a ficar uma coisa muito técnica, né, muito, vamos dizer assim, a parte de...
16:03A parte, vamos dizer assim, mais científica, assim, né?
16:05Eu sentia que, em algum momento, eu queria desenhar, eu queria fazer as coisas, mas a parte mais
16:12lógica, ou a parte mais de engenharia, a parte mais de cálculo, não me apetecia, assim.
16:20Era muito de humanas, né?
16:22É, eu achei que em algum momento, sabe, eu acho que, e também conhecendo pessoas, eu tive
16:29amigos que estavam trabalhando com a área de fotografia, você acaba sendo influenciado, né?
16:35E eu acho que foi um pouco disso também, né?
16:38E você falou uma coisa interessante sobre como antes a gente buscava as informações,
16:42hoje a gente tem...
16:44Você pode tentar se isolar, mas vai chegar, né?
16:47De alguma maneira você vai impactado, né?
16:49E isso tem impactado todas as áreas, toda a sociedade.
16:54Não é diferente com a publicidade, evidente.
16:56Hoje as referências estão por toda parte, né?
17:00Tem ali rede social, tem muito conteúdo nos streamings, enfim.
17:07Como que você vê essa ausência de não ter que buscar informação, né?
17:14Como é que isso está transformando o fazer publicitário para o bem e para o mal?
17:20Eu acho que, sim, hoje a gente está sendo impactado por uma informação, às vezes, desejada e indesejada,
17:2624 por 7, né?
17:29E cabe a gente saber equilibrar isso, né?
17:33Um pouco da sua cultura pessoal, um pouco da sua disciplina, né?
17:38Às vezes, sem querer, você percebeu que passou horas e horas em redes sociais
17:44ou olhando vídeos, né?
17:49Em YouTube, TikToks da vida.
17:53E eu acho que cabe a gente também saber ter o momento do olho no olho, né?
18:01Do bate-papo, né?
18:02Do contato físico, né?
18:06E eu acho que depois que você cria família, né?
18:10Tem filhos, você tem que passar isso também para dentro de casa, né?
18:16Então, ter uma cultura, disciplina, de saber dar um basta, não é um basta, né?
18:25Mas saber esse equilíbrio, né?
18:27Porque eu acho que é importante, não tem como evitar.
18:29Você não tem como fugir, né?
18:31É o seu celular que está na mão, 24 por 7, novamente, falando, né?
18:36É muito atentador, né?
18:39Chega a ser um vício em alguns momentos, né?
18:43E como é que você tem que saber equilibrar esse vício
18:50ou essa fome pela informação
18:55ou não querer ficar ausente, né?
18:58É ter um convívio com pessoas que entendam da mesma maneira, né?
19:04E que queiram dividir esses momentos únicos de conversas, né?
19:09De bem-estar, né?
19:12Até porque eu acho que isso, em algum momento, tem consequências até na saúde mental, né?
19:20Mas é difícil, né?
19:21Esse equilíbrio, né?
19:23Aquela história que a gente fala, assim,
19:25quem tem que dar educação não são só os professores nas escolas,
19:29mas é em casa, né?
19:30Então, parte muito da sua educação dentro de casa,
19:34de como é que você passa para os seus filhos,
19:36como é que você aprende, né, dos seus pais, né?
19:39Eu acho que isso é um pouco da disciplina.
19:43Não disciplina é uma palavra tão rígida para ser disciplina,
19:46mas é uma maneira de viver mais leve, né?
19:51E eu sei que esse impacto hoje acaba refletindo no seu dia a dia,
19:58no seu trabalho, né?
19:59Tendo momentos de estresse, momentos de saber dosar.
20:05Eu acho que é sempre o bom senso, né?
20:08Eu acho que o equilíbrio, o bom senso precisa fazer parte nas nossas vidas, né?
20:12Isso vale também para a criação publicitária.
20:14Total, total.
20:15Hoje com AI, né?
20:18Sendo parte já do cotidiano das agências, de um criativo,
20:22imagino que isso seja fato, né, também na BTC Ravaz.
20:26Como é que é essa cultura de dosar as coisas, né?
20:32Para buscar referências que não fiquem restritas.
20:35Eu tento sempre falar, não só para os criativos, né?
20:41Para todos que hoje, para você saber lidar muito bem com o AI,
20:47só depende do seu repertório.
20:50O repertório você não aprende no AI.
20:53O repertório você aprende vivendo, tendo experiências, né?
20:58E experiências não falam de estar na rua, né?
21:04De presenciar coisas, de tocar, viajar, sentir cheiro, né?
21:12Eu acho que existe uma verdade que, sim, eu consigo aprender a fazer algo olhando um vídeo, né?
21:24E o acesso a essa informação é infinito, né?
21:29Eu acho que pela internet você consegue aprender a fazer uma arma, né?
21:34Assim como você consegue fazer uma receita que você nunca imaginou em poder cozinhar.
21:40Mas cadê aquele momento de se sujar na cozinha, né?
21:45Ou de dar errado, né?
21:49Em função de que você teve que testar numa temperatura, ou num fogão, ou numa panela.
21:54Porque cada panela aquece o prato de uma maneira diferente.
21:59Então, os erros, o improviso, né?
22:03A gente passou por um momento de pandemia, vamos dizer assim,
22:07onde todo mundo aprendeu a lidar digitalmente, né?
22:11Com os calls, né?
22:13Com aprender a pedir comida, aprender a viver de uma maneira mais sozinho, vamos dizer assim.
22:23E eu acho que compartilhar essas experiências com pessoas, né?
22:28Pra mim é fundamental, né?
22:30E eu vejo que os jovens estão cada vez mais isolados, né?
22:36Do que compartilhando experiências.
22:39E eu acho que isso é necessário, né?
22:41Eu, pelo menos, eu aprendi dessa forma e eu acho que é uma forma saudável, né?
22:50Imagina assim, né?
22:51Quando a gente tá fazendo um call, né?
22:53Um call, um fala e todo mundo, né?
22:56Te escuta ou te ouve, né?
22:58Mas a relação é diferente, né?
23:01Então, durante, no momento de pandemia,
23:05talvez a gente teve que aprender a ser blogueiro.
23:09Porque no momento que eu olho para a tela, é uma coisa.
23:13No momento que eu olho por uma lente, é outra.
23:16Porque quando eu olho por uma lente, eu tô tentando olhar nos seus olhos.
23:20É uma relação meio estranha, né?
23:21Então, como é que eu olho pros olhos sem poder olhar pras telas?
23:26Então, é uma conversa meio maluca aqui, mas tem um pouco disso, né?
23:31É como eu tenho que transmitir uma verdade, um papo, um problema, né?
23:41Então, eu acho que, voltando ao AI, o AI é um pouco das experiências que você adquiriu.
23:47E aí, eu acho que os jovens dos dias de hoje não estão tendo essas experiências, né?
23:56E eu acho que a gente tem que provocar essas experiências.
23:59Desde experiências acadêmicas, né?
24:02Porque eu vejo, às vezes, até pelo meu final, eu prefiro aprender no YouTube, né?
24:08Mas o aprender numa classe onde você tem várias pessoas, de várias culturas, de vários DNAs, né?
24:18A diversidade, vamos dizer assim, faz você criar ou ter respostas, eu pelo menos acredito assim, melhores, né?
24:28É diferente do que uma sala de aula no Teams, né?
24:31É, porque tem uma coisa que eu acho que é importante, né?
24:36E a gente que é da área de criação, né?
24:38O improviso é fundamental, é o drible, né?
24:43O drible, você não aprende, né?
24:46O drible é uma coisa de instinto, né?
24:50Agora, no momento que você repete o drible, deixa de ser um drible, né?
24:54Vira fórmula, né?
24:56Então, eu acho que tem muito dessa maneira de como você também se soltar, né?
25:02De poder, poder...
25:03Eu acho que a criação é um pouco disso, né?
25:05De experimentar, de até de errar, né?
25:10E a gente tá cada vez mais entrando nas caixinhas das fórmulas para não errar, né?
25:17E é difícil, né?
25:20Essa fórmula ou esse percentual de erro é necessário.
25:26É algo que você sente falta na publicidade de maneira geral, assim?
25:29Eu acho que sim, o dia a dia tá...
25:32Como a gente tá sendo muito cobrado também por resultados e cada vez mais, né?
25:38O erro ou tentar, vamos dizer assim, não nos induzir ao erro, mas provocar fórmulas novas
25:49é justamente aquela coisa assim, qual é a ideia boa?
25:54A ideia boa é aquela que você falou assim, puta, por que eu não tive essa ideia antes?
25:59Porque é tão simples, é tão fácil, mas teve um olhar, alguém teve esse olhar.
26:04E aí eu acho que tem um pouco disso, assim, puta, eu quero fazer coisa que...
26:08Por que eu não pensei nisso antes?
26:10Tava na minha cara.
26:11Então é um jeito de ver diferente, é um jeito de atuar diferente.
26:15Eu acho que é um jeito que...
26:17Onde a ideia, que é o nosso papo aqui, é assim, é...
26:22Ela não vê, é...
26:23Baixou o Espírito Santo e, né?
26:25Tem aquela frase, né, né?
26:27Que é 1% inspiração e 99% de transpiração.
26:30Sim, eu acho que você tem que exercitar.
26:33Você tem que fazer.
26:33Você tem que percorrer um caminho, às vezes, mais difícil, né?
26:39Até para a primeira ideia que você teve, ter até um crash test.
26:44É verdade, mas eu tive que estressar um pouquinho o exercício de criar, né?
26:51Quando você começou a se desenvolver como criativo, você já sempre trabalhou como dupla?
26:57Quando você foi para a direção de arte?
27:00Sim.
27:01Eu acho que a nossa escola de publicidade brasileira foi muito da dupla, né?
27:07Um criativo, onde tinha o redator e o diretor de arte.
27:11Quando eu cheguei em São Paulo, a minha primeira dupla, né?
27:14Foi a Mariana Contabiano, né?
27:19E eu acho que conviver e trabalhar com ela foi muito bom para mim, né?
27:26E eu acho que tem uma coisa que é muito importante também dizer assim, né?
27:30Hoje, é você aprender a trabalhar com o pensamento de uma mulher, né?
27:39Conviver com uma mulher e entender como ela pensa no momento em que o mundo está tão, né?
27:45discutindo a igualdade de gênero, esse convívio faz você criar também de uma maneira diferente.
27:56E eu acho que eu tive a felicidade de começar, né?
27:59Trabalhando na Demi9 com a Mariana, né?
28:04E isso me ajudou muito a desenvolver minhas aptidões de direção de arte.
28:13E na Demi9 era uma máquina de produzir muitas coisas, né?
28:17E foi lá que você fez um dos cases mais célebres da sua carreira e também da publicidade nacional,
28:23que são os bichinhos da Parmalat, que recentemente voltaram à tona na campanha de outra marca,
28:29uma espécie de paródia da Nostmilk.
28:32Eu queria relembrar um pouco esse momento de criação da campanha.
28:37Vamos lá.
28:39Ano que vem, a campanha completa 30 anos.
28:43Gente, 30 anos.
28:45E ela continua viva e atual.
28:47Mas eu acho que eu queria colocar um ponto assim.
28:50Há 30 anos atrás, a internet estava começando, né?
28:55Então, e foi um momento muito especial dentro da Demi9,
29:00onde teve um ano, aquele famoso ano sabático da Demi9,
29:05para quem não conhece, ficou sabendo.
29:07Então, a Demi9 não inscreveu nada naquele ano.
29:11E a Demi9 financiou os criativos a se desenvolverem.
29:18Olha, você quer fazer um curso de cinema?
29:20Ok.
29:21Você quer viajar para conhecer estúdios, trabalhos?
29:25E foi numa dessas viagens na Demi9.
29:29Eu tinha um apelido na Demi9, que era Airlines, né?
29:32Porque...
29:32Airlines?
29:33Airlines.
29:33Eu tinha um apelido na Demi9, que era Airlines, né?
29:38Então, sempre que tinha alguma novidade, alguma coisa...
29:41E eu acho que como eu estava sozinho em São Paulo,
29:43eu não tinha família aqui,
29:45então eu estava muito disponível lá.
29:47E foi numa dessas viagens...
29:50Imagina assim, eu ia...
29:52Porque quando você gosta do que você faz,
29:54você sai, você está trabalhando sempre, né?
29:56E numa dessas viagens, eu estava dentro de uma livraria em Nova York.
30:02E, de novo, eu estava olhando livros desde arte contemporânea
30:07até livros de crianças, infantis.
30:12E na sessão de livros para crianças,
30:15eu vejo uma coleção de livros de crianças fantasiados.
30:21E eram muito fofinhos.
30:23E eram muito simples, assim, né?
30:24Era um fundo infinito, ou era um fundo temático,
30:28onde eram...
30:29Ah, eram crianças fantasiadas de peixes.
30:33Então, era a vida marinha.
30:35Crianças fantasiadas de fazendinha.
30:38Crianças fantasiadas de empregos, né?
30:42Profissões.
30:43E eu achei muito fofa.
30:44Puta, legal.
30:45Uma coisa boba, simples, mas...
30:48Você sabe quando você tem esse olhar?
30:50Puta, eu acho que tem alguma coisa aqui.
30:51E, naquele momento, eu olho
30:54quem é o fotógrafo, quem publicou o livro.
30:57E eu fui atrás do fotógrafo.
31:00O fotógrafo se chamava Tom Arma.
31:02E esse fotógrafo também produzia material
31:05para aquela marca de cartões postais,
31:08que era Hallmark.
31:10Então, eu fui atrás dele.
31:11Ele tinha um estúdio em Nova York.
31:13E aí, enxerido, fui lá.
31:15Me apresentei.
31:16Pô, queria conhecer.
31:17Gostei do seu trabalho.
31:18E ele, super receptivo.
31:20Que legal, bacana.
31:21E a gente criou uma relação muito boa
31:23nesse período.
31:26E ele falou assim,
31:27putz, me dá o seu portfólio,
31:30o seu material.
31:30E, na época, ele me deu alguns cromos.
31:33Para quem não sabe, negativos, filmes.
31:35Cromos.
31:36E eu trouxe esse material para o Brasil.
31:38E aquilo que eu te falei.
31:42A gente colecionava muitas referências.
31:46Os diretores de arte, principalmente,
31:48precisavam de referências.
31:49Imagina assim, não é hoje no chat
31:51que você pede
31:53eu quero um homem amarelo
31:55sentado em cima de um cavalo branco
31:58coçando a cabeça
32:00num planeta azul.
32:04E essa imagem sai.
32:05Mas, antigamente,
32:06eu tinha que pegar todos esses pedaços.
32:09E a gente montava no Photoshop.
32:12Era um trabalho muito artesão.
32:17E como era um trabalho muito simples,
32:22muito meigo,
32:23eu acho que tem uma simplicidade muito bacana.
32:27A gente trouxe para o Brasil essas fotos.
32:32E, em algum momento,
32:33pintou um briefing,
32:35que era de Parmalat,
32:36a gente tinha acabado de ganhar conta de Parmalat,
32:39de uma campanha para leite integral.
32:43Ok.
32:44E aí, leite, criança,
32:46vem aqueles insights.
32:47Eu tenho uma imagem aqui que é legal,
32:50que são crianças fantasiadas de bichos,
32:53filhotes, né?
32:54Filhotes, leites,
32:56tem alguma coisa aqui.
32:57Aí, pego o layout,
32:58pego um dos bichos ali,
33:00coloco uma caixinha de leite.
33:01E, naquela época,
33:05a gente imprimia, né?
33:06Não ficava só na tela.
33:07A gente imprimia,
33:08colocava na parede,
33:10fazia a campanha,
33:11a gente ficava olhando,
33:12pensando em títulos,
33:13em conceitos.
33:15E, em uma dessas...
33:17Nesses layouts,
33:18estavam em cima da mesa,
33:19e o Nizam passa pela mesa,
33:22aquele jeitão dele sempre,
33:23o que vocês estão fazendo, né?
33:25E aí, quando ele olha para o material,
33:27ele...
33:27Por que eles...
33:29De verdade, assim,
33:30isso aqui, né?
33:31Por que nós somos mamíferos?
33:32E ele solta essa, assim, né?
33:35Aí, que estava eu, ele, né?
33:37O Zé Henrique,
33:38na época, meu dupla.
33:40E, dali,
33:41começamos a desenvolver a campanha,
33:42e nasceu aí a campanha dos mamíferos.
33:45E a campanha dos mamíferos,
33:46ela nasceu de um poder,
33:48não só da ideia, né?
33:50Mas também na mídia, né?
33:55Numa época que não se falava tanto de mídia,
33:58né?
33:59Mas a Demi-9 tinha essa pegada de mídia muito forte,
34:03e ela foi lançada em todas as quartas capas
34:06das publicações da Editora Abril.
34:09Então, imagina nas bancas de revista,
34:12e na época, quem viveu, né?
34:15O momento...
34:15Eu me lembro.
34:16O auge da Editora Abril,
34:18nas bancas...
34:19Então, imagina nas bancas de revistas,
34:21todos os títulos das revistas da Abril,
34:24na quarta capa,
34:25tinha uma imagem dos mamíferos.
34:28Então, virou capas colecionáveis.
34:31E foi dali que a coisa começou, né?
34:35Engatinhando para um sucesso
34:36que a gente não imaginava, né?
34:39Mas eu acho que foi o poder dessa mídia
34:40impulsionando essa ideia,
34:42e aí a gente foi para a televisão.
34:46foi feito o primeiro filme, né?
34:50Esse primeiro filme foi dirigido,
34:53infelizmente, semana...
34:55Agora faleceu o Dodi,
34:57foi dirigido pelo Dodi,
34:58junto com o gordo Ricardo,
35:00Ricardo Carvalho.
35:01E dali nasceu um filme
35:04onde tinha crianças,
35:07algumas receitas meio básicas, né?
35:09Crianças, música, né?
35:12A música criada pelo Mineiro e Campanelli,
35:16e uma imagem simples
35:20de uma criança segurando uma caixa,
35:22e dali nasceu a campanha.
35:25E depois vieram os colecionáveis, né?
35:27Os bichinhos de pelúcia.
35:29Aí foi para a TV.
35:31E para a TV foi um boom, assim, né?
35:33E aí, de novo, né?
35:34Eu não sei se hoje esse boom seria da mesma forma,
35:38mas naquela época foi só...
35:39Imagina, se era mídia impressa e televisão, né?
35:43Algumas mídias que a gente desenvolveu na época,
35:46que também não existia,
35:47a gente fez capa de caderno no jornal,
35:52que ninguém fazia,
35:53e sequencial em jornais também,
35:56que ninguém fazia, né?
35:57Então, foi um impacto muito grande.
36:01E eu falo assim, né?
36:02E virou meme.
36:04E o que é virar meme há 30 anos atrás?
36:06É você estar no caceta, né?
36:09Aí, no caceta, começam a fazer paródia.
36:11Aí você é convidado, né?
36:13Eu me lembro, eu fui no programa do Gugu.
36:17Imagina eu, né?
36:18Com todas as crianças, né?
36:21Fantasiados.
36:22Então, eu fui no programa do Gugu.
36:24No Domingo Legal.
36:24No Domingo Legal.
36:25E saiu no Fantástico.
36:29Saiu na Vejinha, na Veja.
36:32Então, o negócio virou uma bola de neve.
36:35E dali a gente falou assim,
36:36putz, isso aqui tem alguma coisa muito forte, né?
36:40E aí vamos criar uma promoção.
36:42Na época, tinha essa coisa de tentar trazer produtos de fora.
36:48E aí a gente conseguiu, né?
36:49Com um parceiro importador chinês, né?
36:54De produzir as pelúcias.
36:58Para você ter uma ideia, naquela época, as pelúcias...
37:02Não existia no mercado brasileiro, nacional,
37:05essas pelúcias fofinhas, tipo Disney.
37:08Eu falo referência porque a referência que a gente tinha há 30 anos atrás
37:12que voltava da Disney com um monte de pelúcias fofinhas, né?
37:15E não existia essa, vamos dizer assim, até de material, assim, né?
37:21Então, e a gente produziu...
37:23Acho que a primeira leva foram 10 mamíferos, né?
37:28E, entre aspas, colecionáveis.
37:31E era uma promoção para ficar três meses no ar.
37:34E esses mamíferos terminaram em três semanas ou duas semanas.
37:42Foi um sucesso, onde havia filas e filas para troca.
37:47E a mecânica, imagina, a mecânica era 20 códigos de barras de qualquer produto da Parmalat,
37:55mais oito reais.
37:56Na época, oito reais era quase o dólar um por um, né?
38:00Então, 20 códigos mais oito reais, você podia escolher um mamífero.
38:05A primeira leva terminou em menos de dois meses.
38:09Foram 500 mil pelúcias em dois meses.
38:14Só que aí a coisa foi tracionando, foi tracionando.
38:19E a promoção durou quase dois anos e meio, né?
38:23E, para você ter uma ideia, foram trocados mais de 15 milhões de pelúcias.
38:29Então, é um número assustador, né?
38:33Eu acho que não conheço uma promoção que jurou esse engajamento tão grande, né?
38:44Onde as pessoas chegaram a roubar e assaltar caminhões da Parmalat,
38:50achando que tinham pelúcias dentro.
38:52Então, era muito engraçado.
38:53Você via inclassificados, as pessoas revendendo, mercado paralelo, né?
38:59Era uma febre.
39:02Você mencionou que a campanha, ela continua atual.
39:06Não à toa, ela foi parodiada, ela foi trazida à tona recentemente na campanha do Not Milk.
39:13Você acompanhou esse episódio?
39:16É, eu acompanhei o episódio.
39:18A gente é muito cuidadoso, né?
39:20Eu acho que, assim, foi construído uma marca, né?
39:27E os mamíferos fazem parte dessa marca, né?
39:31Eu entendo a paródia, eu entendo a maneira como eles colocaram,
39:36mas dando informações meio duvidosas, né?
39:40Do quanto o leite faz bem ou quanto o leite faz mal.
39:43Ou a paródia pela paródia, porque já fizeram outras paródias também, né?
39:51E todas as vezes que fizeram essa paródia de um jeito errado,
39:55ou de um jeito de depreciar a outra marca,
39:58e aí eu acho que cabe conar, que eu acho que é, né?
40:03Acho que foi da maneira como a gente entendeu que deveria recorrer, né?
40:09Para que se não se repetisse isso, né?
40:13Porque se constroem valores, se constroem marcas.
40:16E eu acho que, imagino o quanto foi investido, né?
40:20Nessa história toda de construir uma marca tão importante
40:23que está no coração das pessoas, né?
40:26E que tem um poder de estar aí, até hoje.
40:30Por isso que, em algum momento eu fico feliz,
40:33porque ela é sempre relembrada, ou ela é sempre desafiada,
40:36vamos dizer assim,
40:38mas eu gosto quando é da maneira correta, né?
40:41Eu gosto quando falam de lá, quando os mamíferos cresceram,
40:45e tiveram adolescentes que não cabiam mais na roupinha,
40:50mas eu acho que sempre pensando no lado positivo da propaganda, né?
40:57Eu entendo a maneira da guerrilha, né?
41:03Mas eu também entendo que a gente, como comunicadores,
41:07ou como responsáveis de fazer uma comunicação tão...
41:13E para mim, principalmente, né?
41:14Porque faz parte da minha história,
41:16e não da minha, né?
41:17Mas da minha, da Parmalat, né?
41:19De sempre preservar o que a gente construiu, né?
41:23E preservar e cuidar dos mamíferos, né?
41:25O que que hoje define uma boa ideia, na sua opinião?
41:28É diferente do que anos atrás?
41:30Uma boa ideia publicitária?
41:34Eu acho que, antes de mais nada,
41:35uma boa ideia é ter que vender.
41:37Tem que dar resultado, né?
41:39Tem que atingir os objetivos, né?
41:41Eu sempre falo, né?
41:43Se não, é arte.
41:45E a gente faz publicidade, né?
41:47E uma boa ideia em publicidade é obter resultados, né?
41:51No qual a gente foi desafiado.
41:54Ter uma boa ideia é um pouco daquilo que eu falei, né?
41:58É pensar, bom, como é que eu não pensei isso antes, né?
42:01Pela simplicidade, pela maneira.
42:04E o brasileiro tem, né?
42:06Esse, esse, essa força, né?
42:10De sintetizar, às vezes, num comercial,
42:12ou numa imagem, uma boa ideia, né?
42:15E eu, eu, eu acho que é o agente transformador do nosso negócio, né?
42:21Onde tudo está sendo, virando dados, ou virando commodity, né?
42:31Eu acho que a ideia é onde, é o twist, né?
42:34É a cereja do bolo onde faz a diferença,
42:37onde transforma, onde talvez é o grande valor,
42:41principalmente das empresas de comunicação hoje.
42:44E qual que é a melhor ideia que você já teve?
42:48Eita!
42:50Ai, gente, assim, é, é, são, não dá pra dizer uma só, né?
42:55Eu acho assim, dentro da publicidade, é, sim,
42:59eu acho que Mamíferos foi uma das maiores ideias
43:02que eu talvez eu presenciei e participei, né?
43:05Não foi só minha, né?
43:07Mas, é, é, foi o todo, né?
43:12Assim como o iDigital do Itaú, né?
43:15Que tá até hoje, eu acho assim,
43:16são ideias que estão, que têm uma vida,
43:19que são duradouras, que eu não vou dizer que é pra sempre,
43:22mas, assim, ela está presente, né?
43:26Transformar o banco, né?
43:28De ter uma imagem, onde você faz essa imagem,
43:32as pessoas aí conheçam, que é um banco digital, né?
43:35Onde, numa época que ninguém falava ainda da vida digital, né?
43:40De ter esse calor no coração quando você vê os mamíferos da Parmalade, né?
43:48Mas também, eu acho que um dos trabalhos mais recentes que eu faço na agência, né?
43:54Porque é que nem safras de vinhos, né?
43:57Cada ano você tem uma garrafa lá, uma edição especial.
44:05Então, é difícil você falar assim, puta, melhor a ideia, né?
44:08Agora, a ideia ruim tem vários, né?
44:10A ideia ruim a gente vai fazendo e só que a gente não publica, a gente não põe no ar, né?
44:15Qual que foi a pior ideia ou o pior erro que você cometeu na profissão?
44:20Ah, eu acho que o pior erro é sempre desafiar um pouco, né?
44:27O que a gente vem fazendo, né?
44:32É difícil falar de um, assim, porque, assim como o acerto e o erro,
44:37numa profissão como a nossa, é muito também resultado coletivo, né?
44:43Não é mais como antigamente que tinha um autor da ideia, ou criativo, né?
44:49Hoje, hoje, hoje a gente virou muito mais colaborativo, hoje a gente ficou muito mais...
44:54Eu sei que estou fugindo, talvez, da pergunta, né?
44:58Mas eu acho que é preciso errar, né?
45:02Para a gente fazer os fine tunes, né?
45:04E hoje, esse fine tune é possível, né?
45:07Você corrige uma rota durante uma campanha, né?
45:11Mas e falando de carreira, assim, teve alguma coisa...
45:15O que você considera que foi o grande acerto da sua carreira?
45:18Em termos de decisão, né?
45:20De negócio, de trajetória...
45:22Eu acho que de estar com pessoas certas.
45:26De escolher parceiros.
45:28De escolher duplas, criativos, empresas, né?
45:33No momento que eu saí de Porto Alegre e fui contratado e convidado para trabalhar numa agência,
45:40como a Demi9 foi uma grande escolha na minha vida.
45:46Poderia dizer simplesmente, não, prefiro ficar no Sul, né?
45:50Então, aceitar esse desafio, né?
45:53E escolher uma agência e ficar nela durante um bom período e desenvolver a sua carreira nela.
46:01Porque durante os meus...
46:04Eu fiquei quase nove, dez anos na Demi9.
46:07E nesse período eu recebi outras propostas.
46:11Eu recebi convites.
46:12Mas, sabe, você também tem que acreditar numa empresa que confiou em você.
46:18Né?
46:18E eu acho que isso foi acontecendo.
46:24E aí teve um momento, sim, teve um momento que talvez não era mais necessário ou as, vamos dizer assim,
46:32as ambições não estavam alinhadas dentro da Demi9, né?
46:37E eu saí e aí eu montei a minha própria agência, que foi a Borguer, né?
46:43Onde eu e o Zé montamos uma história, né?
46:46Eu sempre falo, nascemos de um zero absoluto, né?
46:50No fundo de quintal da minha casa, onde nós criamos uma agência, na qual depois ela foi vendida, né?
46:58E depois eu saí.
46:59Então, são ciclos, né?
47:01São ciclos que você precisa escolher o momento certo de entrar, o momento certo de sair, talvez.
47:08E entender, né?
47:12O momento de vida de cada um também.
47:14E você teve algum grande, tem algum grande arrependimento na sua carreira?
47:21Eu não sei, eu não te digo arrependimento, né?
47:25Mas é a dúvida de ter feito a escolha que eu decidi, né?
47:32Porque em momentos quando eu recebi outras propostas, era um caminho novo que eu ia escrever.
47:40É aquela história que eles falam, né?
47:44Eu prefiro me arrepender por coisas que eu fiz do que eu não fiz, né?
47:50Mas é difícil, porque eu escolhi, eu escolhi ficar.
47:53Eu escolhi não optar por uma outra opção.
47:57Então, é difícil eu dizer para você, assim, se eu me arrependo.
48:02Eu acho que eu não me arrependo de nada.
48:03Eu sou muito feliz pelas decisões que eu tomei durante esses anos, né?
48:08Onde eu trabalhei nessa indústria, trabalho nessa indústria, né?
48:12Eu sou muito feliz pelas decisões que, às vezes, até eu demoro um pouco mais do que eu deveria,
48:21mas é justamente para mim ter a certeza, né?
48:25Tem algumas pessoas que falam para mim, assim,
48:28Pera, mas, puta, você devia ter feito isso antes.
48:31Eu falo assim, puta, mas eu queria ter certeza, né?
48:33Porque tem aquela história, né?
48:35Que eu acho que, eu pego sempre para mim, assim,
48:38O timing da pessoa física é completamente diferente do timing da pessoa jurídica.
48:45E você tem que saber lidar com esses dois times, né?
48:50Porque nem sempre a pessoa jurídica vai entender o seu timing, né?
48:56E você, como pessoa física, você acha que você se vitimiza,
49:02Você coloca sua ambição perante uma empresa,
49:06E eu acho que esse equilíbrio ou esse entendimento,
49:11Às vezes, você precisa sentar e observar, né?
49:16O cenário todo.
49:17E falando de outro assunto,
49:20Você tem um interesse, você acompanha bastante o universo da moda.
49:26Qual que é a relação que você vê entre moda e publicidade?
49:30Legal.
49:32Bom, voltando lá atrás, imagina eu, assim, no aeroporto,
49:36Consumindo revistas.
49:38E eu consumia muito revistas de moda.
49:41Por que revistas de moda?
49:43Porque revistas de moda, a cada ciclo, a cada coleção,
49:47Imagina cada meson, né?
49:49Ou cada marca, ela precisa se reinventar ou trazer uma coleção nova.
49:53Então, ela precisa trazer uma novidade.
49:55E foi nas revistas de moda que eu aprendi muito a ter esse olhar de reciclar ou de criar algo novo ou de provocar algo que não foi feito.
50:08E o engraçado é que, quando eu entrei na DM9, o Nizam, naquele momento, conhecia muitos amigos, vamos dizer assim, no mundo da moda, né?
50:23E ele acabava falando, putz, vamos fazer a campanha do Reinaldo, da Glória.
50:31São pessoas, vamos dizer assim, que eram bem marcas brasileiras da moda.
50:35E na agência ninguém queria fazer campanhas de moda.
50:38Porque o diretor de arte, naquela época, até hoje, assim, que moda, putz, mas é só a imagem, né?
50:45Não tem título, não tem conceito, é só a estética.
50:49E eu acabava eu pegando, né?
50:52E eu acabei convivendo muito com esse mundo, com as pessoas, com os produtores, com os fotógrafos, né?
51:01E quando a gente ganhou a conta de C&A, naquela época, né?
51:05A gente começou a trabalhar com fotógrafos conceituados globalmente, né?
51:11Estou falando de Walter Sheen, de Helmut Newton, de nomes grandiosos da moda global para uma marca nacional.
51:23E aí, de novo, eu fui convivendo com a indústria da moda, junto com a indústria, vamos dizer assim, da publicidade.
51:31Que é um mundo, são mundos paralelos, que elas se convivem, mas, de certa forma, são coisas completamente diferentes.
51:38Então, eu criei uma relação muito forte com os editores de revistas de moda, né?
51:46Eu era muito amigo do Andréa Carta, né?
51:51Da Patrícia hoje, que toca a Bazar, naquela época a Vogue.
51:55Então, tinha muita gente que a gente exercitava um pouco o olhar publicitário através da moda.
52:04E você continua próximo a esse mundo, de certa forma?
52:07E, de certa forma, eu acabo convivendo ainda com essa turma toda, né?
52:12E você bebe nas referências, assim, de outros universos, como da moda, para se manter inspirado no dia a dia?
52:20Porque lá atrás a gente falou um pouquinho sobre como a gente é sobrecarregado de informações e, sendo um CEO de uma agência e também se CEO, é uma sobrecarga mental, né?
52:33O que você faz para desopilar, para se manter inspirado, para renovar as ideias?
52:37Olha, eu, talvez, eu acabo sendo fiel nas minhas fontes, né?
52:48Sim, o mundo da moda é uma fonte, né?
52:52O mundo da arquitetura é uma fonte, né?
52:56Arquitetura e decoração é uma fonte.
52:58O mundo do...
53:02Não que eu goste de automobilismo, mas eu trabalhei muito sempre com indústrias de carros, né?
53:09A parte de automóveis, eu sou muito próximo.
53:14Então, são referências, né?
53:16Referências, não só, vamos dizer assim, de consulta, mas do dia a dia, né?
53:23E eu gosto muito de viajar, né?
53:28Quem não gosta?
53:29Eu estou falando, mas assim, mas a viagem faz com que você fique um pouco com as antenas abertas de uma outra maneira, né?
53:40Você, quando você viaja, você aprende a ver a cultura, o DNA das pessoas, o jeito não só da arquitetura, do design, do comportamento, né?
53:59Eu adoro, assim, ir para os restaurantes e ver como é que os caras fazem o cardápio, né?
54:04Eu gosto de ir no museu para ver os manuais, os guias, a direção de arte da própria arquitetura, de mostrar onde estão as coisas, os cartazes, os pôsteres.
54:20Pelo fato de ser diretor de arte, né?
54:23O olhar, assim, a tipografia, né?
54:27Esse cuidado, né?
54:29Eu acho que esse cuidado da estética, esse cuidado da relação, do serviço, né?
54:39Eu cuido muito disso, eu gosto, né?
54:43Eu faço parte, assim.
54:45Eu falei assim, talvez se um dia eu quisesse fazer alguma outra coisa, talvez eu gostaria de ter um hotel, né?
54:52Porque no hotel você exercita isso, né?
54:54O atendimento, mas o design, né?
54:57O serviço, então tem muito nesse olhar.
55:01Quem sabe um dia teremos um hotel do Airway?
55:05Vamos lá, quem sabe?
55:07Mas sabe que eu desenhei um hotel, né?
55:09Eu desenhei um Emiliano.
55:10O Emiliano, né?
55:12O arquiteto Arthur Casas, que é um grande amigo também, me convidou para fazer toda a parte de direção de arte do hotel, né?
55:20E o Emiliano está aí há mais de 30 anos também, né?
55:23E tem toda a programação visual.
55:25Então, eu tenho um...
55:26Tem um pé.
55:27Eu tenho um pé, né?
55:28Ali na hotelaria.
55:29E você voltou, falando em viagem, né?
55:31Você voltou para Hong Kong?
55:33Sim.
55:34O mais recente agora foi uma viagem muito legal, que eu voltei com o meu pai, com a minha mãe, com o meu irmão.
55:40Então, a família, não sem meus filhos, sem minha esposa, mas a família, vamos dizer assim, o núcleo, né?
55:47A base do núcleo, a gente voltou para Hong Kong para comemorar os 90 anos dele.
55:53Então, foi muito bonito, né?
55:55Eu levei meu pai, a gente comemorou com os familiares em Hong Kong.
56:01Foi bem emocionante.
56:02Foi emocionante até para ele, né?
56:05De rever toda a família e foi muito legal.
56:10E qual que é a sua comida chinesa favorita?
56:12Ah, eu adoro.
56:15Jinsun, né?
56:16Para quem não sabe, jinsun é tipo tapas chineses, assim, né?
56:22São vários pratos pequenos de variedades, desde dumplings, de pratos de carne, desde pé de frango, né?
56:34Até amundas.
56:35Então, jinsun, acho que é um dos meus preferidos.
56:38Quem quiser dicas de jinsun, difícil aqui em São Paulo, tem algumas casas que tem, né?
56:44Então, pode...
56:45Dá dica aí, tem alguma de cabeça?
56:48Não, de jinsun em São Paulo tem poucos, tá?
56:51Tem poucos, na Liberdade tem poucos.
56:53Tem um que chama Figueirinha, né?
56:56Que é a Liberdade, que talvez é um dos que tem mais variedade, né?
56:59Fora esses, assim, eu acho que pato laqueado, né?
57:04É um outro prato muito especial, muito bom, né?
57:07Então, eu gosto, eu gosto muito da comida chinesa, né?
57:11E aí eu acho que a gente não pode negar as origens, né?
57:15Bom, e com essas dicas gastronômicas, a gente chega ao fim do nosso podcast.
57:19É, muito obrigada pela sua participação.
57:22Obrigado por um papo mais solto, de entender um pouco das minhas origens, né?
57:29Da minha história.
57:31Eu acho que são quase 30 anos aqui em São Paulo fazendo um trabalho sério, né?
57:38Com muitos amigos, com o Mei Mensagem sempre me apoiando, né?
57:46Eu acho que é bom falar, né?
57:47É legal, a gente...
57:49Eu acho que o Mei Mensagem sempre acompanhou a minha carreira durante esses anos todos.
57:54E obrigado.
57:56Obrigado aí pelo convite.
57:57Obrigada, Hera.
57:58Até a próxima.
57:59Até.
58:00Confira outros episódios de A Ideia nas plataformas de Mei Mensagem,
58:04na nossa página do YouTube ou em qualquer agregador de podcast.
58:08Os episódios são gravados no Content Club, em São Paulo.
58:11Até a próxima.
58:12Tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau, tchau
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