00:00As siderúrgicas dos Estados Unidos enviaram uma carta ao representante comercial americano
00:05questionando a compra das minas de níquel da Anglo-America no Brasil por uma mineradora chinesa.
00:11A associação que representa o setor pediu ao governo Trump que levante preocupações junto à Brasília.
00:17O argumento é que as instalações a serem adquiridas incluem operações integradas de mineração e de refino.
00:22Juntas, as reservas brasileiras e indonésias, já dominadas por Pequim,
00:27representam quase metade dos recursos totais de níquel do mundo.
00:31O Brasil tem a terceira maior reserva de níquel do planeta, atrás da Indonésia e da Austrália.
00:36O metal é essencial para a produção de aço inoxidável.
00:39A produção dos chamados minerais críticos, como lítio e terras raras,
00:43é um ponto de atrito também entre Estados Unidos e China.
00:46Sobre as queixas dos empresários americanos, a gente vai conversar agora com o Ronaldo Carmona,
00:51que é professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra, a ESG,
00:55e também especialista do SEBRI, o Centro Brasileiro de Relações Internacionais.
01:00Bom dia, professor. Seja muito bem-vindo aqui ao Real Time.
01:04Bom dia, Marcelo.
01:06Satisfação estar aqui contigo e com todos os amigos aqui da Real Time.
01:10Já que a gente tem falado muito sobre soberania nos últimos tempos,
01:13eu queria começar perguntando o seguinte.
01:15Os Estados Unidos têm o direito de reclamar de um negócio feito entre duas empresas privadas aqui no Brasil?
01:20Olha, na verdade, nós precisamos contextualizar esse problema num enquadramento mais amplo.
01:28O governo do presidente Trump tem tido uma postura diferente dos governos anteriores
01:35no que diz respeito, digamos assim, ao uso de questões estratégicas em relações entre empresas privadas.
01:45Nós acabamos de ver, por exemplo, a compra de 10% da Intel,
01:51um grande conglomerado privado americano, por parte do governo americano,
01:57assim como outras iniciativas nesse sentido.
02:01Então, de fato, no que são interesses estratégicos dos Estados Unidos,
02:05a gente tem visto uma postura bastante proativa do governo Trump
02:09no que diz respeito às relações entre privados.
02:13Além disso, nós podemos dizer que hoje a questão dos chamados minerais críticos e estratégicos,
02:20eles absolutamente já não são mais uma questão que são definidas apenas pelas relações de mercado,
02:27ou seja, pelas relações entre oferta e demanda,
02:31ou pelas relações estritamente de mercado.
02:35Na verdade, pelo papel que esses minerais críticos têm tido, digamos assim,
02:40para o surgimento de uma moderna economia,
02:44para a consecução da transição energética e para a realização de um conjunto de novas tecnologias
02:52que estão emergindo no âmbito dessa quarta revolução industrial que a gente vive,
02:57então há uma corrida das grandes potências pelo domínio dessas fontes de abastecimento desses minerais.
03:06Então é nesse contexto que a gente precisa ver essa disputa que se anuncia
03:11em relação a essas imensas reservas de níquel que o Brasil possui.
03:17Eu entendo a sua análise aqui, professor,
03:21porque obviamente o senhor disse aí como é que tem sido a postura dos Estados Unidos,
03:24mas eu queria voltar naquela questão inicial,
03:27eles têm o direito de reclamar disso, e eu não digo só o direito do ponto de vista jurídico,
03:31porque assim, se isso era um ativo de fato estratégico para os Estados Unidos,
03:36por que as empresas de lá não entraram na briga para fazer esse investimento aqui no Brasil?
03:40A China se dispôs a fazer isso,
03:42por que não houve um posicionamento talvez um pouco mais agressivo do ponto de vista comercial
03:47dos americanos para fazer investimentos desse tipo,
03:51em vez apenas de reclamar de algo que já está sendo celebrado aí entre duas empresas?
03:55E lembrando que a China tem feito investimentos muito mais vultuosos na América Latina
04:00do que os Estados Unidos, que sempre trataram essa região aqui com certo desdém, não é?
04:06Olha, essa é uma boa questão, por que os americanos não se mobilizaram,
04:10visto que eles estão de olho, obviamente, nas nossas reservas, né?
04:14Aliás, os Estados Unidos estão absolutamente de olho em todas as reservas de minerais críticos mundo afora.
04:21Vamos ver o que aconteceu na Ucrânia, né?
04:23Até agora, a única coisa que andou na Ucrânia,
04:26do ponto de vista dessas tentativas de acordo de paz do Trump,
04:31é exatamente um acordo de minerais críticos que foi firmado pelos Estados Unidos com a Ucrânia.
04:36No que diz respeito à sua pergunta, ou seja, por que as empresas privadas americanas não se mobilizaram,
04:42isso é uma questão que o próprio Instituto do Ferro e do Aço, né?
04:47Que está demandando junto à USTR essa questão, deveria, enfim, explicar, né?
04:56Afinal de contas, há sim um ativismo dos Estados Unidos a respeito dessa questão.
05:00Mas, na minha opinião, Marcelo, a questão aqui é outra, né?
05:04Ela tem mais a ver, digamos assim, com as questões de como o Brasil vai lidar com esse fato
05:11dele ter essas extensas reservas altamente cobiçadas, né?
05:17Já que nós estamos falando de níquel, né?
05:19Vamos nos lembrar aqui, como você próprio disse,
05:21que o Brasil tem a terceira maior reserva de níquel do mundo, né?
05:25E veja o que está acontecendo com as outras reservas.
05:28A primeira reserva é exatamente a reserva da Indonésia, né?
05:32E veja o que aconteceu com a Indonésia no que diz respeito ao manejo das suas reservas de níquel, né?
05:39A Indonésia, já há cerca de dois ou três anos,
05:43ela impôs um controle de exportações das suas reservas de níquel
05:48e, mais do que isso, associou esse controle de exportações
05:52exatamente a investimentos que agregassem valor à produção do níquel,
05:59que impusesse, então, a estruturação de cadeias produtivas no âmbito nacional da Indonésia.
06:06Isso é o que fez o primeiro produtor de níquel, né?
06:09E, como esse movimento, a gente vê vários outros mundo afora.
06:13Então, a questão central aqui, eu acho que mais do que analisar essa disputa
06:19entre Estados Unidos e China, e europeus também, que é um fato, né?
06:24É a gente, nós brasileiros, fazemos uma reflexão sobre como nós vamos manejar
06:31essas riquezas que são altamente centrais, não só do ponto de vista da geopolítica,
06:37mas também da economia ou da nova economia global nesse ingressar aqui,
06:43desse segundo quarto do século XXI.
06:46É, a China fez isso também, né?
06:47Ela colocou as terras raras, por exemplo, na mesa de negociação, os imãs também.
06:52Você acha que o Brasil ainda está muito tímido em relação a isso?
06:54Deveria, por exemplo, fazer algo parecido com o que fez a Indonésia?
06:58Olha, não tenha dúvida.
06:59Tendo em vista que não se trata, como eu disse aqui ao início, né?
07:02De uma questão de mercado estritamente, mas de uma questão altamente estratégica,
07:08evidentemente que o Brasil tem que ter essas valorações, né?
07:11Aliás, a própria China, ontem, ontem, uma notícia bastante recente,
07:17ela noticiou, inclusive, a intensificação dos controles de exportação
07:21no que diz respeito aos imãs de terras raras.
07:24Bom, no caso brasileiro, eu acho que vai se formando cada vez mais um consenso
07:30de que nós não podemos ter uma visão apenas de livre mercado
07:35a respeito desses ativos brasileiros, né?
07:39Eu tenho visto, inclusive, pessoas do próprio mercado, né?
07:43Esse fim de semana, um artigo de um dirigente de um grande banco brasileiro
07:48falando sobre como o Brasil precisaria, digamos assim,
07:54ter uma consideração de que não é o caso da gente promover exportações brutas
08:01de commodities de minérios, né?
08:04De que nós precisamos atuar pela conformação de cadeias industriais,
08:09cadeias produtivas.
08:10Isso é um representante de um grande banco, né?
08:13privado brasileiro.
08:16Então, assim, cada vez mais vai se tornando uma visão amplamente majoritária
08:23de que é preciso o Brasil reformar a sua legislação no que diz respeito
08:28ao controle desses minerais, né?
08:31Incluindo restrições ao acesso a esses minérios de uma forma bruta,
08:38de uma forma sem agregação de valor, que é uma tendência mundial, né?
08:44Todos os países que têm as grandes posses dessas reservas,
08:48eles estão exatamente indo por esse caminho.
08:51Professor, a gente já falou aqui que o níquel é usado na fabricação de aço,
08:54mas eu queria que o senhor explicasse para a gente
08:56por que esse metal está se tornando, então, tão estratégico,
08:59está entrando nessa disputa geopolítica?
09:02Que tipo de indústria, por exemplo, o Brasil poderia atrair aqui para o nosso país
09:06para poder processar esse níquel que a gente tem?
09:09Olha, o níquel, além da possibilidade de fazer, de melhorar a qualidade do aço, né?
09:16E dos laminados em geral, né?
09:18Ele também tem uma aplicação muito importante para baterias, né?
09:25Então, uma modalidade, uma das rotas tecnológicas na área de baterias
09:30é exatamente o aprimoramento de baterias a partir do níquel, né?
09:34Além disso, enfim, eu poderia citar aqui vários outros exemplos, né?
09:39De como esse é um dos materiais mais importantes.
09:42E o que nós estamos falando, né?
09:44É que, segundo a argumentação da empresa concorrente, né?
09:50Que perdeu para a empresa chinesa, né?
09:52Que é uma empresa sediada na Holanda,
09:56dirigida por um cidadão turco,
09:58de que a China, então, com essa aquisição,
10:02ela passaria a controlar em torno de 60% das reservas mundiais de níquel, né?
10:10Então, isso é algo altamente expressivo, né?
10:14E, na verdade, quem tem, digamos assim,
10:17que tirar proveito dessas imensas reservas de níquel
10:21e de todos os outros minerais críticos estratégicos,
10:23é o Brasil, né?
10:25No que diz respeito à sua soberania
10:28e ao seu projeto de industrialização, né?
10:31Eu tenho defendido, Marcelo,
10:32que o Brasil, na verdade, ele pode utilizar
10:35essas suas reservas, né?
10:37De níquel, de terras raras
10:38e de tantos outros minerais estratégicos, né?
10:42Urânio, etc.
10:44Para utilizar como um instrumento
10:47para alavancar os seus interesses em outras áreas, né?
10:51Agora mesmo, nós estamos submetidos
10:53a sanções econômicas duríssimas
10:56por parte do governo Trump, né?
10:58Nós precisamos,
11:00dado que isso é o interesse dos Estados Unidos,
11:02exatamente perceber
11:03como isso pode ser um instrumento
11:07para alavancar os nossos interesses
11:10relacionados a essas sanções americanas
11:13que nós estamos sofrendo
11:16exatamente nesse momento atual.
11:18Professor Ronaldo Carmona,
11:19da Escola Superior de Guerra,
11:20muito obrigado pela sua participação
11:22hoje aqui no Real Time.
11:23Bom dia.
11:25Obrigado, bom dia.
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