00:00Queria pedir para começar, compartilhar com a nossa audiência, sua análise, sua reflexão sobre esse movimento de Donald Trump, do governo norte-americano,
00:11deslocamento de navios de guerra para a costa da Venezuela. A justificativa é intensificar o combate ao tráfico de drogas. É disso que se trata?
00:21Nós podemos imaginar que isso vai um pouco além. Primeiro pelo tipo de operação, ou seja, deslocar navios para uma costa já tem uma característica um pouco de um certo cerco de um embargo,
00:36ou seja, eles vão agir diretamente contra traficantes internacionais ou eles estão preparando algum tipo de operação que vá além disso, ou seja, ou é só uma ameaça.
00:48É algo um pouco inusitado porque as intervenções americanas mais recentes na América Latina sempre foram mais pontuais e ligadas a operações terrestres.
01:00Nunca teve essa preponderância ali de uma movimentação naval e isso assusta.
01:07São navios de grande porte com uma capacidade de destruição que é considerável.
01:14Lembrando que Caracas é basicamente uma cidade costeira, ou seja, muito acessível.
01:20Então, é como se o regime de Maduro tivesse com uma arma apontada para eles ali a todo momento.
01:28Fazendo uma analogia, seria como se a capital do país estivesse no Rio de Janeiro se fosse no Brasil.
01:35Exatamente.
01:36Tá certo. Vou chamar também o Carlos Podio para fazer essa reflexão inicial na abertura do Visão Crítica.
01:42Pode, o que a gente precisa considerar a partir da determinação da gestão de Donald Trump, o envio desses navios de guerra para a costa da Venezuela,
01:53sinalização de força, um recado, um alerta, o que mais?
01:57Eu acho que é um pouco disso tudo e reflete também a visão do Donald Trump de uma certa militarização de alguns problemas.
02:07A gente vê isso não apenas no campo externo, mas no campo doméstico.
02:11Ele mandou, por exemplo, forças militares para Los Angeles.
02:14Ele está militarizando agora a segurança em Washington, na capital dos Estados Unidos.
02:20E agora enviando esses navios que são navios de guerra, são destroyers que eles estão enviando para o Caribe, né?
02:26E, portanto, são navios que têm um potencial bastante grande de guerra mesmo, né?
02:34Por exemplo, são navios que foram usados para enviar mísseis quando Donald Trump, no seu primeiro mandato, atacou o governo da Síria, né?
02:42Tem mísseis Tomahawk lá.
02:44Então, e normalmente essas questões de tráfico de drogas, por exemplo, que grande parte do tráfico de drogas é feito por via terrestre e não por via naval,
02:54mas eles têm navios, é bem verdade, isso é tratado pela guarda costeira.
02:59Ou seja, há formas de tratar a questão do tráfico de drogas pelas formas convencionais.
03:05Agora o Donald Trump tomou uma série de medidas para militarizar esse processo.
03:09Dentre elas, está isso que foi mencionado na reportagem, de denominar cartéis como organizações terroristas, né?
03:18Então, por que ele está fazendo isso?
03:20Porque isso justifica a utilização de ferramentas militares para lidar com essas ameaças, né?
03:27Não faz muito sentido porque essas organizações são organizações criminosas, mas não organizações terroristas, né?
03:35Os terroristas, eles têm como finalidade criar terror para promover algum tipo de mudança política.
03:43Organizações criminosas, como cartéis, têm como finalidade o lucro, né?
03:47Então não faz tanto sentido, do ponto de vista de, digamos, de definição, tratar como organização terrorista.
03:55Faz sentido, do ponto de vista de você colocar dentro de um determinado ordenamento jurídico nos Estados Unidos,
04:01que justifica a aplicação e o uso de ferramentas militares, que é, afinal de contas, uma linguagem que o Donald Trump vem utilizando
04:10para tratar a questão da imigração, de cartéis, etc.
04:13Ele fala que os Estados Unidos estão sendo invadidos, que são inimigos, né?
04:17É toda uma linguagem de guerra que o Donald Trump utiliza e agora nós estamos vendo essa retórica sendo transformada em ação.
04:25Pois é, esse é um aspecto importante, quero até passar para o Alexandre Pires para trazer essa análise sobre a mudança de status, né?
04:35Essa denominação dos cartéis como organizações terroristas e aí Donald Trump consegue usar o aparato militar para promover o enfrentamento a esses grupos criminosos.
04:47Tem um pouco disso também, mas muitos acabam observando, olhando para além dessa situação, né?
04:54Tem um foco também na figura de Nicolás Maduro.
04:58É, quando o Trump faz essas alterações jurídicas, elas são necessárias para o sistema americano.
05:06Ou seja, tudo que ele fez até agora, ele tem que ter ali um embasamento jurídico.
05:12Então, ele tem que criar um estado de emergência nacional para mexer nas tarifas,
05:16ele tem que redefinir o governo Nicolás Maduro como um governo narcoterrorista,
05:25tem que mudar os cartéis para organizações para permitir a mobilização desse aparato.
05:29Ele precisa estar amparado pela legislação, né?
05:31Exatamente.
05:32Existe uma legislação americana que está sendo mobilizada e usada de modo até um pouco engenhoso, né?
05:39Com várias críticas.
05:40O próprio sistema jurídico americano estava derrubando várias dessas ações.
05:44Agora, houve uma mudança pela decisão da Suprema Corte.
05:48Vai ser mais difícil você ter um efeito nacional dessas liminares locais.
05:54Ela vai ter, no máximo, um efeito ali.
05:56Mas, no caso internacional, muito mais difícil.
05:59Ou seja, então, quando ele classifica como organização terrorista,
06:03ou eu acho que até um pouco mais grave, né?
06:05No caso da Venezuela, não existe um governo legítimo.
06:10E o que existiria seria o chefe de um cartel.
06:13Ou seja, então, um chefe de um cartel que teria usurpado o poder.
06:19E aí, claro, haveria uma relação com o terrorismo,
06:24porque ele teria usado aquilo para tomar o poder político e colocar a população como refém.
06:30Então, são vários recursos retóricos que têm um impacto jurídico,
06:35mas que têm um efeito prático.
06:36Qual é o efeito prático?
06:37Ele pode mandar três destroyers para a costa da Venezuela
06:42e colocar, talvez, o governo Maduro ali num clinch,
06:47podendo ser alvo de uma operação especial.
06:50Então, tudo isso que parece um pouco artificioso
06:54tem um fundamento dentro do sistema americano.
06:57O que preocupa o mundo, porque qual é o limite?
07:01Ou seja, o governo poderia ser derrubado como qualquer outro governo opositor.
07:06Ou seja, os Estados Unidos já fizeram várias intervenções
07:10tratando o outro governo como um governo opositor, de esquerda, e atuando.
07:15Agora, os recursos são maiores.
07:18Ou seja, existem novas sinalizações jurídicas.
07:21É um novo mundo que o Trump está criando,
07:23inclusive para o sistema político e jurídico americano.
07:27Dadas as circunstâncias e as sinalizações,
07:31pode você vislumbra a possibilidade de escalonamento,
07:35a possibilidade de um conflito.
07:37Você entende que essas movimentações poderiam indicar uma ação pontual.
07:44E talvez o foco, o objetivo, seja destituir ou capturar Nicolás Maduro.
07:50Vamos lembrar, o professor Alexandre lembra desta criatividade jurídica
07:57que está sendo utilizado pelo governo americano.
07:59Uma das legislações que estão sendo confirmadas pelo Donald Trump,
08:04pelo governo do Trump, utilizadas para esse caso,
08:07e utilizadas em outros casos para questões de imigração doméstica nos Estados Unidos,
08:12é uma legislação de 1798,
08:16chamado o Ato contra Inimigos Estrangeiros.
08:20Essa é uma legislação que não foi utilizada por nenhum presidente da era moderna norte-americana,
08:25uma legislação do século XVIII,
08:27que está sendo desenterrada para esse tipo de ação.
08:31Muito bem.
08:32Quando a gente volta, portanto, para o mundo do século XVIII e XIX,
08:35nós temos um mundo que é o mundo pré-Primeira Guerra Mundial,
08:39um mundo dominado por impérios,
08:40um mundo dominado por áreas de influência.
08:43E me parece que é um pouco este mundo que o Donald Trump tem em mente.
08:47Não à toa, quando ele foi inaugurado presidente,
08:51um dos presidentes americanos que ele citou com muita frequência
08:54é o McKinley, presidente do fim do século XIX nos Estados Unidos,
08:59associado à guerra com a Espanha,
09:01em um momento que os Estados Unidos captura territórios da Espanha,
09:04incluindo as Filipinas, que viram uma colônia norte-americana.
09:08É o grande momento imperial dos Estados Unidos.
09:10Nós temos, portanto, este contexto histórico.
09:14Se a gente olhar as declarações do Donald Trump,
09:17de anexar o Canadá, da Groenlândia, do Canal do Panamá,
09:22das ações que ele vem tomando contra o Brasil,
09:24e agora enviando esses destróis para a Venezuela,
09:27nós vemos um padrão,
09:29num período muito curto do governo Donald Trump,
09:32de olhar para o hemisfério ocidental,
09:34para as Américas, para o continente americano,
09:37como algo similar a uma área de influência dos Estados Unidos.
09:42Então, é isso que explica até um pouco,
09:44não é muito o tema da nossa conversa,
09:46mas como ele trata a guerra da Ucrânia.
09:47Ele olha para a Ucrânia como uma área de influência da Rússia.
09:50Então, as grandes potências, na visão do Donald Trump,
09:54que é uma visão que não leva em consideração
09:56instituições internacionais,
09:58o direito internacional,
09:59alianças tradicionais dos Estados Unidos,
10:02é uma visão de área de influência.
10:05Então, o que nós estamos vendo com esta ação na Venezuela,
10:08é o Donald Trump fazendo uma coisa concreta
10:11a uma retórica que ele já vem utilizando.
10:14Se a partir disso vai vir algo mais,
10:16ou seja, se ele pretende invadir a Venezuela,
10:19ou se ele pretende derrubar o Nicolás Maduro,
10:21aí nós estamos diante de um novo cenário.
10:23O Donald Trump se encontrou com o Zelensky
10:26e ficou muito positivamente surpreso
10:30ao saber que a Constituição ucraniana
10:32cancela as eleições porque a Ucrânia está em guerra,
10:36está sendo invadida.
10:37O Donald Trump olhou para o Zelensky e falou assim,
10:39nossa, então quer dizer que se a gente estivesse em guerra,
10:41eu também posso cancelar as eleições por aqui?
10:43Ele se interessou muito por isso.
10:45Então, talvez interesse para o Donald Trump
10:48arrumar algum tipo de conflito,
10:49que seria muito pouco custoso para ele na Venezuela,
10:52mas que seria algo bastante importante
10:55do ponto de vista da história da América Latina
10:58e de intervenções, particularmente naquela região do Caribe,
11:01que é onde historicamente tem se envolvido
11:05de forma bastante grande,
11:07invadiu praticamente todos os países
11:09lá no entorno do Caribe.
11:12Então, também traz memórias históricas
11:14que não podem ser descartadas.
11:17Não sabemos, portanto, qual vai ser o resultado,
11:19o que vai acontecer, se isso é só um processo,
11:21mas se a gente olha de novo a retórica,
11:24o contexto,
11:25aquilo que a administração Trump tem mostrado,
11:28eu acho que há razões para a preocupação.
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