No Direto ao Ponto desta segunda-feira (05), o ex-presidente do Banco dos Brics, Marcos Troyjo, analisa a nova fase da crise política na Venezuela após a ofensiva dos Estados Unidos e a prisão de Nicolás Maduro.
O especialista defende uma postura pragmática para a diplomacia brasileira. O especialista afirma que, diante do embate entre EUA e Venezuela, o "Brasil precisa buscar os seus próprios interesses", avaliando os impactos geopolíticos e econômicos que essa ação traz para a América Latina e para a soberania nacional.
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00:00As limitações, qual é o papel, por exemplo, de um país, qual é o espaço de um país emergente como o Brasil diante dessas situações?
00:07Bem, o Brasil precisa, antes de tudo, buscar os seus próprios interesses.
00:11Então, o que é o interesse do Brasil? Se você quisesse, por exemplo, se você perguntasse, me perguntasse a Marcos, qual você acha que é o principal interesse do Brasil?
00:18Eu diria que ia chegar ao ano de 2040, portanto, daqui a 16 anos, com uma renda per capita semelhante à das economias mediterrâneas.
00:24Mas, chegou lá em 2040, a valor presente, o Brasil tem uma renda per capita de 25, 26 mil dólares, que é renda per capita de Portugal, eu acho que seria esse um objetivo interessante.
00:35Então, você passa a medir a relação custo-benefício daquilo que você faz em política externa, em política econômica, para saber se você está nesse caminho ou não.
00:45Que é, no certo sentido, o que muitos países que tiveram uma emergência importante nesses últimos 70 anos fizeram, tá certo?
00:51Se você pegar a Alemanha e o Japão, no pós-segunda guerra mundial, eles se preocuparam mais com o seu desenvolvimento interno, do que em, digamos assim, costurar, curar os males do mundo.
01:03Se você pegar a China, de 1978, naquele momento que deu em Xiaoping, começa a inserção da economia chinesa na economia global.
01:11Até muito recentemente, os temas do desenvolvimento interno econômico da China tiveram prevalência sobre vários outros.
01:17Eu estava, por exemplo, servindo na delegação do Brasil na ONU em Nova Iorque, quando, eu não me lembro se foi em 98, 99, no contexto da crise dos Balcãs,
01:29houve um caça americano, que acho que estava com o GPS errado, deu um tiro de míssil, que acabou pegando na embaixada da China em Belgrado.
01:38Os chineses, obviamente, fizeram todo o esforço retórico, mas isso não tomou a precedência sobre aquele que era o grande objetivo chinês, que era o desenvolvimento econômico.
01:49Eu acho que é isso.
01:51Qual que é o nosso grande tema agora?
01:53O nosso grande tema é aumentar as nossas exportações, é um mundo muito protecionista,
01:56por outro lado, é muito comprador de coisas onde a gente tem vantagens comparativas,
02:00tem todo esse tema da atração dos investimentos dos minerais críticos.
02:05Você tem essa relação entre gastos do governo e aquilo que deve ser, me parece, uma política fiscal mais realista.
02:13Essas são as prioridades nacionais, tá certo?
02:15A gente não pode se, eu acho, estender demasiado numa crise que, claro, nos diz respeito, mas nós temos outras prioridades.
02:25Mas uma ação como essa dos Estados Unidos faz a gente abandonar um pouco a pretensão de ser uma potência regional?
02:31O Brasil é uma potência regional.
02:33Tem uma coisa linda, né, da língua portuguesa e de outras línguas latinas,
02:36que nos permite usar a palavra potência e a palavra poder, né?
02:42O Brasil é uma potência.
02:43Veja o seu território, veja a sua capacidade de geração energética, veja a produção do seu agro, né?
02:48O tamanho do nosso... nós somos uma potência.
02:50Veja o nosso tamanho populacional, 212 milhões de habitantes.
02:54O Brasil é uma potência.
02:56Agora, nós estamos num momento, você pode gostar do governo atual ou não gostar do governo atual,
03:01eu acho que nós estamos num momento em que a voz do Brasil está sendo muito ou pouco ouvida.
03:05Sim.
03:05Tá certo?
03:07Você teve a reunião dos BRICS no ano passado, sediado no Brasil.
03:10O presidente da China não veio.
03:12O presidente.
03:12Você teve a conferência do clima em Belém há algumas semanas.
03:16Não veio um chefe de governo do Mercosul.
03:19Aliás, não veio nenhum chefe de governo dos BRICS, onde o Brasil está.
03:22Sim.
03:22É verdade.
03:23E, enfim, aquele pronunciamento de ontem, né?
03:27Acho muito pouco... gerou muito pouca repercussão.
03:30Então, nós estamos num momento de, digamos assim, déficit da projeção do Brasil no exterior.
03:36Vai lá, Piper.
03:36Então, você falou em defesa de interesses.
03:41No pronunciamento do presidente Trump, no sábado, ele cita 16 vezes a palavra petróleo,
03:49nenhuma vez democracia e literalmente jogou para esse canteio a Maria Corina.
03:56Ou seja, diferente das... de tradicionais incursões americanas, né?
04:03E outro dia estava lendo lá o protocolo Jacarta, né?
04:07Que traço um histórico de todas elas, né?
04:10Dos anos 50 até os 80, mais ou menos.
04:13Em todos aqueles momentos, em todas aquelas ações, pelo menos como moldura havia a desculpa
04:21de se implantar democracia em si, enfim, levar mais liberdade para aqueles países e tal,
04:30mesmo que lá se implantasse algum tipo de ditadura que via de regra o que ocorria.
04:35Dessa vez, não.
04:37Dessa vez, não há nenhuma preocupação em se destacar a democracia,
04:42mas sim insistir na questão do petróleo.
04:47Você acha que, por conta disso, a gente vai ver um momento em que a Venezuela
04:52vai ter, provavelmente, algum governo que seja um teleguiado de Washington
04:59para realmente facilitar a questão da exploração energética
05:03e dare-se um movimento, enfim, em defesa de Maria Corina e seus apoiadores?
05:11Vamos lá, Fábio.
05:13Primeira observação.
05:16É verdade que houve muitas incursões americanas de 45 para cá,
05:21apenas para ficar no período mais recente, né?
05:24Aliás, hoje o Brian Winter, que é lá do America Society,
05:27é um sujeito que conhece muito a América Latina, muito o Brasil,
05:30e diz que os últimos 35 anos de pouco interesse
05:33e nenhuma intervenção dos Estados Unidos na América Latina
05:36é a exceção e não a regra,
05:37que a regra é mais intervenção do que menos.
05:41Mas, de qualquer maneira, se você olhar para países
05:43que mudaram de patamar, de 45 para cá,
05:46e não só na nossa região, mas no mundo,
05:49todos eles têm uma característica em comum,
05:51que é relações construtivas com os Estados Unidos.
05:54Você teve uma guerra na Península Coreana.
05:55Um lado teve relações construtivas com os Estados Unidos,
05:58o outro não.
05:59Um prosperou.
06:00Veja o caso de Alemanha e Japão.
06:02Veja o caso de Singapura.
06:03Veja o caso da China desde 1978.
06:06Em 79, o governo americano oferece
06:08cláusula de nação mais favorecida
06:09para as exportações chinesas, tá certo?
06:13O principal destino do investimento estrangeiro americano
06:16no período de 2001 até 2020,
06:20que quando a Covid-19 realmente começa a pegar,
06:24não é a Europa, não é a África,
06:26não é a América Latina, não é o Japão,
06:28é a China.
06:29Então, enfim, mais uma vez,
06:30essa história de algum tipo de relação construtiva
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