00:00O senhor consegue identificar essa trajetória quando que se teve um turning point, se teve algum momento na nossa história recente em que isso realmente houve essa virada, a gente se rendeu, a sociedade se rendeu a esse identitarismo, a essa deturpação até da semântica da própria língua portuguesa?
00:27O senhor tem uma trajetória política na esquerda e em determinado momento o senhor se desiludiu com a esquerda, se desiludiu com o PT, especialmente em termos de partido, e passou a ser um crítico do partido, de suas lideranças, como o senhor acabou de mencionar o Lula, mas isso no seu caso também, o senhor tem uma linha cronológica no tempo da sua própria experiência de vida.
00:52O senhor consegue identificar esse momento, essas coisas coincidem? Em que momento foi plantada a semente dessa deturpação que nós estamos colhendo agora?
01:07Primeiro só esclarecer uma coisa, que eu não mudei nada. Desde 1970, quando eu rompi com a esquerda autoritária, uma esquerda stalinista, trotskista, leninista, etc.,
01:29e fiz uma opção por uma esquerda democrática, eu mantenho isso até hoje. Não fui eu que mudei. Eles é que mudaram.
01:38Que viam posando em democratas e de repente o autoritarismo se instaura.
01:44Com o PT a coisa foi uma decepção monumental, porque o partido que se apresenta como
01:49vamos renovar a política no Brasil, nós somos o partido da ética na política, e aí vai fazer o que fez?
01:59Joga tudo no lixo, todo o ideário que pensava, todos os princípios de ética, joga tudo no lixo,
02:07e aí quer que a gente faça de conta que não aconteceu nada?
02:09Não pode. Inclusive, quando hoje o Lula volta, mas o Lula volta sabendo, ele sabe muito bem
02:17que o Brasil está onde está por culpa do PT.
02:22Não é uma coisa de foi Temer, foi isso, foi aquilo.
02:26A crise econômica e política começou com o PT, e moral.
02:33Agora, um momento onde isso se impôs no Brasil.
02:36Isso vem o seguinte, depois da queda do muro de Berlim e da desintegração da União Soviética,
02:48a esquerda perdeu o pé no mundo.
02:51Ela ficou girando a vácuo.
02:54E vai acabar adotando essas coisas das lutas de minorias.
03:02Esquece classes sociais, esquece transformação do mundo.
03:05Então, isso se concentra em sexo, raça, essas coisas.
03:10Passa a ir para esse lado.
03:12Isso triunfa na Universidade Norte-Americana, em todo o sistema universitário americano,
03:18com milhões de dólares financiando isso, através da Fundação Ford,
03:24que era um braço mais cultural, assim, vamos dizer, do Departamento de Estado e da CIA.
03:33Isso faz parte da política do Estado americano.
03:36E a Fundação Ford formulou e viabilizou, na prática, o triunfo do identitarismo nos Estados Unidos.
03:45É do sistema universitário que isso vai para a mídia e para o grande empresariado.
03:51Até porque essa garotada que hoje dirige grandes empresas, ali na década de 70, nos Estados Unidos, 80,
03:58estudou nessas universidades, foi educado no identitarismo.
04:01E, ao mesmo tempo em que a Ford, a Fundação Ford, que capitaneou esse processo da burguesia americana,
04:11ela olhava esse negócio do multiculturalismo, do identitarismo, como um remédio vital para o capitalismo mundial.
04:23E a esquerda foi nessa coisa.
04:25Tanto que, no Brasil, você vê hoje, isso é exportado para a mídia, para o empresariado nos Estados Unidos.
04:33E de lá vem para cá, a começar pelo sistema universitário brasileiro,
04:38que também é totalmente financiado por montanhas de milhões de dólares da Fundação Ford.
04:45Isso, especialmente no começo dos anos 90, é injetado em ONGs, em programas,
04:53pega lideranças jovens, traz um movimento negro,
04:57arranja instâncias de consagração intelectual,
05:01vai ser professor, vai ter bolsa nos Estados Unidos, publica livro, traduz livro.
05:05Que é uma velha tradição da CIA, foi a CIA que traduziu,
05:09uma editora ligada à CIA que traduziu e publicou em inglês
05:13a integração do negro na sociedade e classe do Florestan Fernandes,
05:17que era um expoente da sociologia marxista brasileira.
05:20Os caras sabem jogar e jogam duro.
05:23E aqui no Brasil financiaram Deus e o mundo, como financiam até hoje.
05:27E as coisas mais variadas, a Fundação Ford, através de ONGs internacionais,
05:32chegou a financiar aquela comissão de defesa dos índios lá no Roraima,
05:38na época da demarcação da Raposa Terra do Sol.
05:42Então vem isso, o empresariado cai, entra nessa história com...
05:46Wall Street foi para a esquerda, no certo sentido.
05:49Quando passa a bancar Al Gore e Barack Obama, é uma guinada.
05:55Wall Street abandonou o Partido Republicano.
05:59Foi para a esquerda, foi para a coisa do Partido Democrata.
06:04Isso tudo vem para o Brasil.
06:06O empresariado brasileiro hoje, com esse negócio de ESG,
06:11que é um ajuste do capitalismo a essa encruzilhada mundial,
06:18que é lida por aquele cara que criou o Fórum Mundial de Davos.
06:23Ele fala que tem que resolver a encruzilhada racial do século XXI.
06:28E eles pensam o mundo em termos americanos e exportam isso,
06:34obrigam o Brasil a pensar o nosso país como se aqui fosse os Estados Unidos,
06:40uma nação dividida em pretos e brancos, em confronto e tal.
06:43E todo empresariado e a mídia, a grande mídia, entra nisso.
06:47A Folha de São Paulo, a Rede Globo, Magazine Luiza,
06:52essas coisas todas se tornam porta-vozes e praticantes do identitarismo.
06:56cria uma grande unanimidade que asfixia a discussão do assunto.
07:02Música
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