00:00Eu só acho que a tendência hoje do Brasil é que a política, ela descambe, passe a descambar na violência,
00:08se originou da violência, e agora, diante de tanta polarização, de tanta maluquice,
00:14de tantas decisões de todos os lados, medidas arbitrárias,
00:24você acha que a gente está indo no caminho da violência mesmo?
00:27Aqui citando o exemplo do Roberto Jefferson, que recebeu a bala até com granada de efeito moral,
00:35jogando na polícia uma figura como o Roberto Jefferson, que saiu lá do petismo,
00:40foi o pivô do Mensalão, veio parar no bolsonarismo, sendo reabilitado por ele,
00:47passando no meio disso por uma prisão, sendo condenado e tal, e sendo reabilitado pelo bolsonarismo,
00:52e incorporando esse discurso messiânico, da religião com a política, para onde a gente vai?
00:59Você acha que a tendência é desembocar realmente na violência?
01:02Tem algum caminho alternativo? O que podemos fazer?
01:06Olha, primeiro eu queria acrescentar naquela tua questão do politicamente correto,
01:13que é uma coisa que eu fiz, que eu coloquei na edição de 2020 ou 2019, não lembro mais,
01:18é que o politicamente correto atravessou o gradiente político.
01:25O politicamente correto hoje está na mão de qualquer direita liberal,
01:30na mão dos patrocinadores, na mão das grandes empresas,
01:33o politicamente correto hoje está no compliance, quer dizer,
01:37não é mais algo eminentemente associado à esquerda.
01:41Acho que isso é um fato importante,
01:43inclusive para reforçar a ideia dessa direita de pessoas que se sentem excluídas
01:51dos mecanismos de pensamento público,
01:53reforçar a associação entre sociólogo e banqueiro.
01:57Certo? Sociólogo e banqueiro é tudo farinha do mesmo saco,
02:01do ponto de vista dessas pessoas.
02:03Agora, isso que você acabou de falar,
02:05eu acho que uma pergunta em questão,
02:09que às vezes não vem de cara na nossa cabeça, é a seguinte,
02:11essas pessoas hoje identificadas como extrema-direita,
02:17ou identificadas com o bolsonarismo,
02:22com esses comportamentos mais violentos,
02:24é importante entender que essas pessoas,
02:27elas não se veem como antidemocráticas,
02:30elas veem a democracia como um sistema capturado por uma certa elite.
02:37É assim que elas se veem.
02:39Como elas associam a democracia?
02:43Inclusive por falta de repertório de teoria política histórica.
02:47Como elas associam a democracia?
02:49A um regime, ao caráter procedimental da democracia,
02:53que é a eleição enquanto tal,
02:55a questão quantitativa,
02:58aquela ideia um pouco rudimentar
03:04que a democracia é o regime do povo,
03:07e só isso,
03:09e não veem a democracia como um regime
03:11de um equilíbrio complicado
03:14entre poderes distintos,
03:16elas não se veem como antidemocráticas.
03:20Elas veem a democracia brasileira
03:22submetida a um garrote,
03:26que esse garrote é constituído
03:28pelo poder judiciário,
03:32pela inteligência pública,
03:34e pelo poder econômico,
03:36na sua maior parte,
03:37pelos grandes empresários.
03:39E ela se vê excluída disso.
03:43É por isso que
03:44você pode ver pessoas por aí
03:46que votam no Bolsonaro,
03:49evangélicos ou não evangélicos,
03:51e quando você fala para elas
03:53que elas são antidemocráticas,
03:55elas acham um absurdo,
03:57porque elas acham
03:58que elas estão defendendo a democracia.
04:01E elas estão sendo obrigadas
04:03a atos dramáticos,
04:05porque o sistema institucional
04:07da democracia está todo cooptado,
04:10aí entra uma dose de conspiração no meio,
04:13de mente conspiratória,
04:14está todo cooptado
04:17por algumas pessoas
04:18que elas descrevem
04:20como vai do jornalista
04:22ao sociólogo ao banqueiro.
04:24Todo cooptado nesse.
04:26E ao juiz,
04:27como eu ia esquecer disso.
04:28E ao juiz.
04:29Então,
04:30é muito louco, Cláudio,
04:32porque é quase como se
04:33esse movimento da extrema-direita
04:37e os bolsonaristas,
04:39é quase como se eles
04:40fizessem uma leitura
04:41de luta de classes.
04:43Certo?
04:44Eles são uma classe oprimida,
04:47tá?
04:47Eles estão combatendo
04:49contra o regime opressor,
04:50que não levam em conta
04:52o que eles querem,
04:53o que eles pensam.
04:55Eu não preciso concordar
04:56com o que eles pensam
04:57para entender
04:58o que eles estão fazendo.
04:59É isso que está faltando
05:00na inteligência pública.
05:02E isso faz com que
05:03a inteligência pública
05:05acabe
05:06se deslizando
05:08para uma posição
05:09que, às vezes,
05:11chega a ser
05:12a borda do ridículo,
05:14da forma como está
05:15se comportando, certo?
05:17Então,
05:18quando se me pergunta
05:19se o Brasil pode descambar
05:21para uma situação violenta
05:22na política,
05:25ele pode descambar
05:26para um nível mais alto
05:27de violência não institucional
05:29na exata proporção
05:32e que esses grupos
05:34não encontrarem
05:35representação institucional.
05:37Então,
05:38por exemplo,
05:38eles formarem
05:40um Senado
05:41majoritário
05:43que é
05:44um poder,
05:46um poder da República,
05:48um subpoder
05:49dentro do poder legislativo
05:50da República,
05:51que pode,
05:52por exemplo,
05:53colocar freios
05:54no STF,
05:56é uma forma
05:57dessa demanda
06:00violenta deles,
06:01que a política
06:02é sempre violenta,
06:03encontrar representação.
06:04Então,
06:06ao contrário
06:07do que a maior parte
06:08dos filósofos,
06:10cientistas políticos,
06:11sociólogos
06:12e jornalistas
06:13falam por aí,
06:14o aumento
06:15da presença
06:16de elementos
06:17que representam
06:18esse grupo
06:19no Senado
06:20deve ser visto
06:21como uma forma
06:22de acomodação
06:23da violência política,
06:25certo?
06:26Acomodação,
06:27porque se esses grupos
06:29se veem representados
06:30por figuras
06:32que podem ter
06:34um efeito
06:35de freio e contrapeso
06:36no que eles enxergam
06:38como excesso
06:39do judiciário,
06:41isso significa
06:41uma acomodação
06:42no sistema
06:43de pesos
06:43e contrapesos.
06:44Pode evitar
06:45a violência
06:46não institucional,
06:47que é a pior
06:48que existe,
06:50porque aí
06:50destrói
06:51o tecido social,
06:53destrói a economia,
06:54produz uma
06:55insegurança
06:56generalizada.
06:57Então,
06:58a situação
06:59hoje é
06:59essa população
07:01está buscando
07:02espaço
07:03para o cotovelo,
07:04como se fala.
07:05Eles estão buscando
07:06espaço
07:07para o cotovelo.
07:08Eles querem
07:09encontrar a representação
07:10e dizer,
07:10olha,
07:11nós estamos aqui,
07:12a gente pensa
07:13desse jeito,
07:14a gente não quer
07:14que vocês olhem
07:15para nós,
07:16como um bando
07:17de gente ignorante,
07:18burra,
07:19pré-histórica,
07:20que não sabe
07:21comer e se comportar
07:22à mesa, não.
07:23A gente tem representante
07:24e a gente vai fazer
07:25o que a gente
07:26pensa valer
07:27e a democracia
07:27é isso,
07:28um regime de conflito.
07:31A gente vai
07:35ser um regime de conflito.
07:36E aí
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