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O governo federal voltou atrás e revogou parte das mudanças no IOF nesta sexta (23). O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse que medidas para aumentar a arrecadação nunca o agradaram. Fernando Haddad declarou que não vê “nenhum problema em corrigir rotas” e que “a alteração reduz a estimativa de arrecadação em R$ 2 bilhões”. O ministro da Fazenda também afirmou que “o recuo do IOF foi por necessidade técnica”. Nelson Kobayashi e Cristiano Vilela analisam.

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Transcrição
00:00É, um dia movimentado em Brasília, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo,
00:04deixou claro que a ideia de aumentar o IOF como medida arrecadatória nunca o agradou.
00:11Repórter Luciana Verdolim, chegando agora ao Jornal Jovem Pan, o ministro Fernando Haddad
00:14manteve parte da medida, mas afirmou que o recuo do governo sobre esse tema
00:19se deu por uma necessidade técnica. Qual seria essa necessidade?
00:24Boa noite, Luciana Verdolim.
00:25Boa noite, Tiago. Boa noite a todos.
00:30Olha, a argumentação do ministro da Fazenda é porque é preciso controlar,
00:35é preciso corrigir algumas distorções que havia dentro das regras.
00:40Isso com relação ao IOF sobre compra, por exemplo, de moeda estrangeira.
00:46Agora, o ministro teve que recuar na questão envolvendo investimentos brasileiros em fundos no exterior
00:53porque a chiadeira foi geral. Chiadeira no mercado, mesmo com o mercado fechado,
00:59chiadeira aqui mesmo no Palácio do Planalto, não foi consenso nem entre os demais ministros daqui da casa,
01:06levando-se em consideração que eles estavam avaliando que a medida era bastante polêmica.
01:09Por isso, logo cedinho, o ministro da Fazenda chamou uma coletiva para explicar,
01:15para justificar por que o governo estava recuando.
01:18E quem acompanhou foi a nossa repórter em São Paulo, a Beatriz Manfredini.
01:23A gente vai acompanhar.
01:25O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse nesta sexta-feira
01:29que o recuo em parte das medidas anunciadas para o IOF
01:33foi feito para evitar especulações
01:36e que o governo federal não tem problemas em fazer correções na rota.
01:41Em anúncio no escritório do Ministério da Fazenda, em São Paulo,
01:44no início da manhã, Haddad afirmou que o impacto do recuo é de 2 bilhões de reais em 2025.
01:51Nós recebemos, depois do anúncio de ontem, às 17 horas,
01:57nós recebemos uma série de subsídios de pessoas que operam nos mercados,
02:03salientando que aquilo poderia acarretar algum tipo de problema
02:07e passar uma mensagem que não era desejada pelo Ministério da Fazenda.
02:12Nós entendemos que, pelas informações recebidas,
02:16valia a pena fazer uma revisão desse item
02:19para evitar especulações sobre objetivos que não são próprios da Fazenda nem do governo.
02:27A alteração na regra da tributação dos fundos brasileiros
02:30que fazem investimentos em ativos no exterior
02:33foi definida durante a noite.
02:36O novo decreto foi publicado em edição extra do Diário Oficial da União
02:40na madrugada desta sexta, antes da abertura dos mercados.
02:44O ministro reforçou que as medidas anunciadas pelo governo
02:47não afetam pessoas físicas,
02:50mas, questionado sobre compras no exterior com cartão de crédito,
02:54disse que as alíquotas foram equalizadas.
02:57É uma questão de equalizar, havia muita discrepância entre tratamentos diferentes,
03:03quem tinha uma brecha, a gente fechou as brechas,
03:07então nós entendemos como um movimento correto
03:09fazer essa adequação de redução,
03:12mas corrigindo as distorções.
03:14Haddad disse que a medida de congelamento
03:16de 31,3 bilhões de reais em despesas,
03:20além do aumento do IOF,
03:22são duras, mas na direção correta.
03:24Sobre o diálogo com o Banco Central,
03:27o ministro da Fazenda disse que não cabe à instituição
03:30interferir na decisão.
03:32Ele garantiu que mantém contato constante
03:35com o presidente do BC, Gabriel Galípolo,
03:38sobre assuntos diversos,
03:39mas que o decreto não passa na minuciosidade pelo banco.
03:46É bom a gente lembrar, né, Tiago,
03:48que, da mesma forma, o ministro até falou,
03:51que da mesma forma que o governo não questiona,
03:54não interfere em decisões lá do Banco Central.
03:58Fato é que toda essa questão levantou,
04:01inclusive, questionamentos, uma boataria,
04:04dando conta de problemas, né,
04:06de um relacionamento entre Fernando Haddad
04:08e Gabriel Galípolo, lá do Banco Central,
04:11que foi, inclusive, número dois,
04:13foi secretário executivo do Ministério da Fazenda.
04:16O ministro Fernando Haddad faz questão de ressaltar
04:18que não, que os dois conversam normalmente,
04:20mas que um não precisa ficar dando satisfação para o outro.
04:24A gente tem a declaração do ministro para acompanhar.
04:28Eu converso com o Galípolo frequentemente
04:30e eu disse a ele que nós íamos tomar medidas
04:33em relação à despesa, em relação à receita,
04:36mas, conforme eu respondi,
04:39a minúcia do decreto não passa pelo Banco Central.
04:44Então, não há uma análise criteriosa,
04:47medida a medida,
04:48de decisões do presidente da República
04:50no Banco Central.
04:52Não é esse o procedimento.
04:53O grande problema é que ontem à noite,
05:00depois daquela entrevista coletiva
05:01em que as medidas foram anunciadas,
05:04o Ministério da Fazenda informou
05:06que o presidente do Banco Central
05:07tinha sido, de forma antecipada,
05:10avisado dessas mudanças,
05:12o que Gabriel Galípolo negou.
05:14Ele, inclusive, deixou bem claro
05:16que não gosta desse tipo de estratégia
05:18de aumento do IOF.
05:20A gente tem a declaração que foi dada hoje
05:22no evento da Fundação Getúlio Vargas.
05:25Eu tomei conhecimento do tema específico
05:28que deu, não foi bem recebido,
05:31vamos dizer assim,
05:32o IOF sobre remessas ali,
05:34assim como todo mundo
05:35na entrevista coletiva.
05:40Foi ali que eu tomei conhecimento
05:41sobre esse detalhe do anúncio ali.
05:46Mas quando ele faz menção sobre revisão
05:49ou sobre negociação,
05:52é porque acho que em debates anteriores,
05:55muito tempo atrás,
05:57em qualquer momento se discutia
05:58a alternativa do IOF
06:00como alternativa para a persecução da meta,
06:04eu, pessoalmente,
06:06para o Zão e o FMI,
06:06nunca tive muita simpatia sobre a ideia,
06:09para não dizer que eu não tenho mesmo,
06:11não acho, não gostava da ideia.
06:14Não gostava da ideia.
06:15E funcionando naquela linha,
06:17que o ministro explicou bem,
06:17no passado ter dito que não gostava da ideia,
06:21não tem nenhum tipo de,
06:22não implica nenhum tipo de ingerência
06:24ou reflexo sobre o que a fazenda deve fazer.
06:28O Gabriel Galipo evitou criticar o ministro da Fazenda,
06:36Fernando Haddad, diretamente.
06:37Pelo contrário, afirmou que o ministro deve ser elogiado
06:41por rever a decisão de aumento da tributação
06:43poucas horas depois do anúncio.
06:46Agora o ministro está dizendo que não houve aumento do imposto,
06:50mas quem tem viagem marcada para o exterior,
06:53quem vai comprar moeda estrangeira,
06:55vai pagar mais IOF a partir de agora.
06:58Verdade, bem lembrado, Luciana.
07:00Bom, e um dia agitado em Brasília,
07:02daqui a pouco a gente volta a se falar.
07:03Luciana, vou chamar já os nossos comentaristas,
07:05os dois aqui no nosso telão,
07:07o Nelson Kobayashi e também o Cristiano Vileira
07:09daqui a pouquinho aqui com a gente.
07:11Ô, Koba, a questão é a seguinte,
07:12é melhor louvar que o governo recuou de uma medida
07:16que seria talvez impopular,
07:18poderia prejudicar a própria população,
07:21alguns itens ainda foram mantidos,
07:23como a própria Luciana destacou,
07:24ou é necessário mais uma vez
07:27falar sobre os erros de comunicação do governo.
07:32Boa noite para você, Kobayashi.
07:34Boa noite, Tiago.
07:35Boa noite, Cristiano Vilela.
07:37E não tem nada a se elogiar, não.
07:39É claro que os aliados do governo
07:41usam essa estratégia de falar
07:43de que o governo não tem compromisso com o erro,
07:45de que rapidamente atendeu as vozes do mercado financeiro,
07:48mas tudo isso é um atestado
07:51de que mais uma vez agiu assodadamente,
07:53apressadamente se antecipando
07:56a conversas que poderiam ter acontecido antes.
07:59Se isso tudo fosse melhor planejado,
08:02e nós estamos falando do Ministério da Fazenda
08:04e, portanto, uma grande estrutura
08:06que teria condições e tem muito
08:07muito pessoal, muita estrutura
08:11para planejar com antecedência
08:13uma medida como essa,
08:15certamente se tivessem feito isso corretamente
08:17não precisariam recuar, voltar atrás.
08:19Isso é atestado de mau planejamento.
08:21Isso é atestado de falta de preparo
08:25para o anúncio da medida
08:26e em desencontro com muitos outros aliados do governo.
08:29Então, o governo, na verdade, mais uma vez,
08:31não é a primeira, é mais uma de tantas outras vezes,
08:34volta atrás depois de agir assodadamente
08:36em matérias de economia,
08:39o que muito interessa a toda a população.
08:42Ô, Vilela, isso lembra um pouco
08:44o anúncio que o governo fez
08:45que colocou a história do imposto de renda no meio,
08:48lembra?
08:49E aí causou muita polêmica.
08:50Nesse caso, é o IOF que caiu
08:52como uma bomba nessa discussão, não é isso?
08:55Bem-vindo, boa noite para você.
08:56Exatamente, Thiago.
08:59Uma ótima noite a você, a Kobayashi
09:01e todos que acompanham o Jornal Jovem Pan.
09:04Olha, mais uma atrapalhada do governo,
09:06não é a primeira e, pelo visto,
09:08não deve ser a última.
09:10O governo vem, faz um anúncio,
09:12um anúncio que é feito ali já na noite
09:15e na noite mesmo volta atrás em alguns pontos.
09:18Hoje, logo pela manhã,
09:20antes dos mercados abrirem,
09:22é obrigado a já dar algum posicionamento
09:24no sentido de fazer com que não haja ali
09:27uma grande subida do dólar,
09:29um grande despencar da Bolsa de Valores
09:31e acaba, claro, com isso conseguindo conter
09:34qualquer movimentação.
09:36Mas do estrago do ponto de vista político,
09:38do ponto de vista de imagem,
09:40esse já está feito.
09:42Até porque quando se trata de relação com o mercado,
09:45quando se trata de questões que envolvam finanças,
09:48que envolvam valor de moeda e tributação,
09:51um aspecto é muito importante,
09:53a previsibilidade.
09:55E o mercado realmente não aprecia
09:58países onde não se tenha previsibilidade,
10:01onde não se possa fazer planejamento
10:03da sua organização financeira.
10:05O Cobain, acho que quero perguntar agora
10:07sobre a relação do ministro da Fazenda
10:09com o presidente do Banco Central.
10:11Os dois trabalhavam juntos no próprio ministério,
10:13Gabriel Galípolo saiu para o Banco Central
10:16e depois virou o presidente da instituição.
10:19Será que é o primeiro estresse entre os dois,
10:22nesse caso, pelo menos publicamente,
10:24que nós saibamos?
10:26Sim, mas não deixa de ser uma relação
10:27com efeitos políticos também, né?
10:29Então interessa também ao Gabriel Galípolo
10:31passar uma mensagem ao mercado
10:33de que continuará agindo autonomamente,
10:37independentemente,
10:38de que não tem ali nenhum tipo de vínculo
10:41com as pessoas do governo,
10:42porque essa foi a promessa do presidente Lula
10:45e é nisso que o mercado precisa acreditar.
10:49Então tem também o aspecto de passar
10:51uma mensagem importante.
10:52Se o Galípolo nessa situação elogia
10:55e endossa as medidas do governo
10:57e vai na contramão do que pensa o mercado,
11:02a mensagem passada seria muito pior
11:04e a reação do mercado também poderia acarretar
11:07em alta do dólar, em baixa dos investimentos,
11:11ou seja, é tudo muito bem planejado,
11:14ali só tem pessoas inteligentes, viu, Tiago?
11:16É, agora é interessante, não é, Vilela?
11:17Porque ele diz que é contra aumentar o IOF
11:20para elevar a arrecadação,
11:22só que ele fala isso pisando um pouco em ovos,
11:24cheio de dedos, fala um pouco lá do passado, né?
11:27Porque é uma relação ainda muito próxima
11:30com o governo, por mais que haja,
11:32como o Kobayashi falou,
11:34essa necessidade de ter um distanciamento.
11:36Tem dúvida, existe um elemento político aí envolvido
11:41com relação ao presidente do Banco Central
11:44e ele é muito zeloso por esse elemento político,
11:47até porque o seu antecessor sofreu
11:49na frigideira do governo durante dois anos.
11:52Então ele tem essa ciência,
11:54mas ele faz questão muito bem
11:56de colocar realmente a sua posição contrária
11:59a esse tipo de aumento de impostos
12:01que só prejudica especialmente o setor do turismo no Brasil,
12:05os setores financeiros de uma forma geral,
12:08os investimentos, enfim,
12:09ataca o aspecto da previsibilidade,
12:12como eu já comentei.
12:13É uma medida realmente muito ruim
12:16para um governo que não está deixando de gastar.
12:18É um governo que vai gastando cada vez mais.
12:21Então esse cenário, ele é muito ruim para a economia
12:23e faz questão de frisar a sua posição
12:26muito bem o presidente do Banco Central.
12:29É, e Kobayashi, daqui a pouco a gente vai conversar
12:31com o ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles,
12:33e ele tem uma frase que é interessante,
12:35que governo que gasta muito
12:36não necessariamente vai crescer muito.
12:39Muito pelo contrário, talvez, não é, Kobayashi?
12:42A questão é a qualidade do gasto, né, Tiago?
12:44Não é nem a quantidade, mas a qualidade.
12:47Este governo especial fala muito
12:48de que alguns investimentos
12:50não podem ser entendidos como gasto.
12:52A questão é que esses investimentos
12:53estão sem retorno.
12:55Nesse meio do caminho,
12:56de onde sai o dinheiro,
12:57de onde chega o dinheiro,
12:58a gente vê muitos desvios, tá?
12:59E a história do INSS,
13:00parece que a gente está acompanhando recentemente,
13:03as emendas parlamentares sem transparência,
13:05que o ministro Flavidino
13:06está cuidando como relator no STF,
13:08ou seja, são algumas dessas notícias
13:10que a gente tem acompanhado recentemente
13:12para demonstrar a falta de qualidade do gasto.
13:14Essa é a principal questão
13:17que deve ser a preocupação
13:19em relação ao gasto público,
13:20a qualidade, e, ultimamente,
13:22a gente não tem visto
13:22tanta qualidade assim nos gastos do governo.
13:25E para a gente fechar essa discussão inicial,
13:27Vilaela,
13:27a postura,
13:29o posicionamento
13:29do ministro da Fazenda,
13:31Fernando Haddad,
13:31ele, claro,
13:32por ser um político também,
13:34ele fala com todas as palavras,
13:37questão técnica,
13:38é uma questão de prudência,
13:40mas será que ele convence?
13:43Olha, é muito difícil, viu, Tiago?
13:44Até porque não é um caso pontual.
13:47Não é a primeira vez que isso acontece,
13:49desde o início do governo,
13:50já foram muitas atrapalhadas.
13:52No início, o ministro da Fazenda
13:54até se comportou como sendo o adulto na sala,
13:57diante das atrapalhadas
13:59de outros setores do governo.
14:00Mas o fato é que ele acaba com isso,
14:04demonstrando uma fraqueza
14:05e demonstrando uma incapacidade
14:07de construir pontes em relação ao mercado.
14:10Então, o mercado, nos últimos tempos,
14:12deixou de ter tanto zelo
14:14pela figura de Haddad
14:16como sendo um grande interlocutor,
14:18um defensor dos seus interesses,
14:20e passou a olhar com desconfiança
14:21o ministro da Fazenda.
14:23E esse episódio,
14:24ele vem justamente no sentido
14:26de aprofundar essa distância,
14:29aprofundar a fragilização
14:31das relações entre o ministro e o mercado.

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