00:00E olha, a China confirmou estar avaliando propostas dos Estados Unidos para negociar as tarifas comerciais impostas entre os países.
00:09O especialista em relações internacionais e professor visitante da Universidade da China, Marcos Vinícius de Freitas,
00:16se junta a nós aqui no Jornal da Manhã para explicar os desdobramentos dessa guerra comercial.
00:23Bom dia, professor. Seja bem-vindo ao Jornal da Manhã.
00:26Bom dia, é um prazer conversar com vocês sempre.
00:28Professor, esse acordo, primeiro os Estados Unidos colocou em imposto uma tarifa muito alta para a China,
00:37a China devolveu com uma tarifa ainda mais alta, agora os dois dispostos a ir a conversar, o que deve sair dessa próxima reunião?
00:47O que a gente viu em todo esse processo foi que os chineses, contrariamente àquilo que muitos países fizeram,
00:55de alguma forma peitaram aí os Estados Unidos ao afirmar basicamente de que uma tarifa de 145% não é uma tarifa,
01:05não é uma tarifa utilizada no sentido de você querer buscar aí uma relação comercial,
01:13mas nada mais é do que efetivamente um embargo à China, um embargo econômico à China.
01:20E os chineses entenderam que não é isso que deveria ser feito, não é assim que se faz comércio internacional,
01:28e também não é dessa forma que funciona toda a estrutura de comércio internacional organizada desde 1945.
01:36Então eles colocaram muito claramente de que voltariam à mesa de negociação se e somente se os Estados Unidos
01:45viessem com uma tarifa que fosse economicamente viável, no sentido de fazer com que os norte-americanos
01:53entendessem que 145% não é uma tarifa e isso não, e 245% menos ainda, não é?
02:02Então por esta razão que o que nós observamos foi justamente esta intenção dos chineses de dizer
02:08sim, vamos negociar, mas a partir do momento em que haja seriedade no discurso.
02:14E obviamente que o presidente Trump, o governo americano, tentou anunciar várias vezes que estavam aí,
02:20que os chineses estavam entrando em contato, e o governo chinês todas as vezes negou isso
02:24justamente para dizer que o objetivo deles é somente negociar a partir de um nível de razoabilidade.
02:32Professor, bom dia. Nós acompanhamos inclusive a matéria do Alex Rufo, mostrando todo o potencial chinês,
02:38o senhor conhece muito bem, evidentemente, tem aquela tabela gigante do Trump, vários países ali,
02:44mas o centro da questão é justamente a China, evidentemente isso fica claro.
02:49E a capacidade de reação chinesa, o senhor está falando um pouco sobre isso, demonstra que é uma briga,
02:54a gente fala do cachorro grande, né? Quer dizer, então de fato, é o morde a sopra e agora,
03:01inclusive o ministério chinês garante que os Estados Unidos procuraram então para negociação.
03:06Então, mais ou menos vai ser assim, né? Aquela postura do Trump negociador,
03:10como se ele fosse da iniciativa privada ainda dentro do governo,
03:14mas para forçar essa negociação e trazer alguma coisa para os Estados Unidos, bom dia mais uma vez.
03:20Bom dia, é um prazer em ser o Marcelo. Ah, Marcelo, então vamos pensar assim, duas coisas importantes, né?
03:26Na reportagem do Rufo, eu achei importante enfatizar essa questão tecnológica que ele aborda tão bem,
03:33justamente porque, nesse aspecto, a China entende que precisa ter liderança,
03:38porque a última vez que houve uma grande revolução industrial, os chineses estavam atrasados.
03:43Eles não se atualizaram na primeira revolução industrial, justamente porque tinham um problema ali
03:50de uma dedicação muito grande a uma atividade que não era industrial e, com isso, eles perderam
03:56e sofreram todas as consequências de um país que se esperava que fosse o líder na questão da revolução industrial.
04:03E é por essa razão que os chineses estão aí, nesse sentido, buscando permanecer à frente do processo
04:11de inovação tecnológica, particularmente nesse cenário de quarta revolução industrial.
04:16Então, isso é um aspecto grande.
04:18Em segundo lugar, o que a gente nota é que os Estados Unidos estão tentando justamente conter a China
04:23porque o país mais industrializado do século passado foram os Estados Unidos,
04:29no anterior foi o Reino Unido e agora é a China.
04:31E o que a gente observa é que o país mais industrializado
04:34tende a ser aquele que é o principal do sistema comercial e do sistema internacional.
04:40Então, os norte-americanos, por medo de perder hegemonia, estão aí criando uma série de entraves
04:45no sentido da tecnologia chinesa e no sentido de fazer com que os chineses percam aí a sua relevância no cenário global.
04:54E os chineses também dizem uma coisa interessante, viu, Marcelo?
04:58Que é o seguinte, quando dois elefantes brigam, quem sofre é o solo.
05:02Então, o que nós vemos é que o mundo inteiro está sendo afetado justamente por essa briga dos Estados Unidos com a China
05:09e pelo fato de que, nesse processo todo, nós podemos criar, e o resultado já começa a ser previsto
05:19pelo Fundo Monetário Internacional, uma crise global, uma recessão global justamente em razão dessas medidas adotadas pelo presidente Trump.
05:27Então, é preocupante, mas os chineses não querem alterar essa linha de manter-se à frente no processo tecnológico,
05:35manter-se à frente no comércio internacional e, obviamente, fazer com que o presidente Trump entenda
05:41que conduzir um país não é conduzir um negócio.
05:45E a forma de negociar com países, e principalmente países do tamanho da China, com a sua história civilizacional, é um pouco diferente.
05:57Converso muito sobre isso aqui, até antes do Trump, sobre a posição da China e dos Estados Unidos.
06:03Alguns analistas entendem que a China já está na frente, já é a grande potência do mundo,
06:07excetuando, evidentemente, o poder bélico norte-americano e também o poder político.
06:13Durante todo esse tempo, os Estados Unidos fizeram, com vários países, uma ligação muito forte.
06:19Mas, economicamente e industrialmente, que é o resultado, estaria na frente.
06:24E que o Trump, e eu fico com essa ideia, é de que ele descobriu isso.
06:30E ele está fazendo um papel importante para tentar conter a China nesse processo inevitável
06:36de se tornar a grande potência econômica do mundo.
06:40Ele vai conseguir, professor?
06:43A impressão que eu tenho é que não, né?
06:46Justamente porque você pode dizer, José Maria, que é um pouquinho pouco e tarde nesse processo todo.
06:54Mas a gente não pode deixar de levar em consideração que, eventualmente, isso aconteceria, viu, José Maria?
07:00Porque, até 1820, a economia chinesa era a maior economia do mundo.
07:07Então, mesmo com a Revolução Industrial, a China e a Índia,
07:12claro que a Índia com condições econômicas bem diferentes daquilo que você observa na China,
07:16mas a China sempre foi a maior economia global.
07:19Se nós pensarmos na questão da Rota da Seda, você tem aí produtos chineses sendo levados para a Europa,
07:26e não o contrário.
07:27Então, não é uma anomalia.
07:30A anomalia, de fato, é o Ocidente ter aí uma prevalência econômica,
07:36em razão do tamanho da China, do talento que os chineses construíram ao longo do tempo.
07:40Mas existem dois fatores aqui que eu acho que são complicados para o presidente Trump resolver.
07:47Em primeiro lugar, quando nós olhamos para a questão da infraestrutura que os chineses construíram aí
07:54ao longo dos últimos 50 anos, que, como foi abordado anteriormente, não tem aí equiparação globalmente falando.
08:03Então, isso dá para a China uma vantagem muito importante nas cadeias globais de distribuição.
08:10Em segundo lugar, e aqui a gente não pode deixar de levar em consideração,
08:13é a alta produtividade chinesa em razão de um nível educacional que cresce cada vez mais.
08:20A China investe sobremaneira na questão educacional,
08:25e isso começa a ser um problema também para os Estados Unidos,
08:28que, apesar de ter as melhores universidades do mundo,
08:31no processo da educação coletiva,
08:35começa a notar que os chineses conseguiram elevar a sua educação a um patamar muito competitivo.
08:41E uma grande diferença que existe, não é, Zé Maria, só para levar em consideração também,
08:47é que, embora a situação econômica dos Estados Unidos seja ainda muito boa,
08:52é um dos poucos países que enfrenta, nos últimos anos,
08:56um problema de diminuição da expectativa de vida.
09:00Isso é um sinal péssimo para um país desenvolvido.
09:02E, no caso chinês, o que nós notamos é justamente o contrário.
09:06Então, existem vários fatores, e é por essa razão que as medidas do presidente Trump
09:10podem aí criar um empecilho temporário,
09:13mas a impressão que nós temos é de que é difícil,
09:17como o Napoleão Bonaparte dizia, né,
09:19depois que o Leão levantar, vai ser muito difícil contê-lo,
09:23e a impressão que a gente tem é nesse sentido.
09:26Professor, bom dia.
09:28Já são algumas semanas dessa suposta guerra tarrifária, né,
09:32muitas narrativas, mas nada muito concreto.
09:37Objetivamente, é possível nós respondermos
09:40quem está vencendo essa batalha,
09:43se nesse momento os Estados Unidos levam vantagem,
09:47ou se neste momento a China leva vantagem?
09:52E nós observarmos, não é,
09:56aquilo que nós temos em relação comercial,
09:59A China tem ali uma vantagem justamente
10:05porque construiu um relacionamento positivo
10:09com mais de 140 países e territórios.
10:12E os Estados Unidos, de fato, tem poucas coisas
10:15a comercializar com a China.
10:17Eu sempre gosto de lembrar
10:19que dos cinco itens mais importantes
10:22do comércio China e Estados Unidos,
10:25em três delas, o Brasil é concorrente,
10:28seja na questão de grãos, petróleo e de gás.
10:33Então, nós temos aí uma possibilidade
10:35que é uma benção, ao mesmo tempo
10:37que nós podemos substituir
10:40os Estados Unidos neste processo,
10:42mas também podemos ser muito prejudicados
10:44porque, como Trump distribui ações
10:47assim à torto e à direita,
10:49pode ser que respingue algo negativo
10:52para o Brasil em razão das medidas
10:54adotadas pelo presidente Trump.
10:55Mas o que a gente nota neste cenário
10:58é de que a China tem uma vantagem muito grande,
11:01embora o governo americano tenha dito
11:03que quem fornece é o que o vendedor,
11:07é o que é o prejudicado numa guerra comercial,
11:09justamente porque o comprador
11:11pode parar de comprar e dar o calote.
11:14Mas o que a gente nota é que os chineses
11:15tomaram aí uma série de medidas
11:18para evitar que houvesse o pior.
11:20Uma delas é diminuir paulatinamente
11:24o peso comercial dos Estados Unidos
11:27nas exportações chinesas.
11:30Antigamente, a China vendia muito mais
11:33para os Estados Unidos,
11:35mas paulatinamente os chineses fizeram aí
11:37uma redução, tanto na sua exposição
11:40quanto à compra de títulos dos Estados Unidos,
11:43assim como fizeram várias medidas
11:45no sentido de permitir um comércio bilateral
11:48utilizando não somente os dólares,
11:51e aí a gente vê até mesmo
11:53o enfraquecimento do dólar
11:54neste processo de trocas coletivas.
11:57Então, o que nós notamos é que,
11:59diferentemente de Washington,
12:02Pequim adotou uma série de medidas
12:04se preparando para isso.
12:05Então, é difícil dizer
12:07quem é o vencedor numa guerra comercial,
12:09mas o que nós notamos é que,
12:11diferentemente daquilo que o presidente Trump fez,
12:14os chineses seguiram aquela
12:15grande lição de Sun Tzu,
12:17que é, antes de você entrar numa guerra,
12:20a coisa mais importante
12:21é você conhecer bem o seu inimigo.
12:24E a impressão que nós temos
12:25é que os chineses se movimentaram
12:27no sentido de conhecer bem o inimigo
12:29e darem aí os passos corretos
12:31nesse processo todo.
12:33Obrigada, professor Marcos Vinícius de Freitas,
12:36pelas suas análises aqui no Jornal da Manhã.
12:39Tenha um bom domingo.
12:41Muito obrigado para vocês também.
12:42Excelente dia.
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