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No nosso programa discutiremos um tema delicado: a disputa por herança. Recebo o advogado José Eduardo Coelho, a psicóloga Aline Hessel e Lenir Bonifácio para uma conversa esclarecedora sobre as complexidades e desafios envolvidos nesse processo.
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NotíciasTranscrição
00:00No começo de janeiro, o Brasil se despediu aí do ex-jogador e treinador Zagallo, que morreu aos 94 anos.
00:08E 20 dias depois da morte do ídolo do futebol, gente, uma briga pela herança de Zagallo, isso veio a
00:16público,
00:17tá dando uma treta danada entre os irmãos, entre os filhos, na verdade, né?
00:21Zagallo deixa aí cinco filhos.
00:23E quando o testamento foi aberto, uma surpresa.
00:26É, na hora de dividir os bens, o ídolo do futebol deixou claro o desejo de destinar mais da metade
00:35de todos os seus bens para o filho caçula, o Mário César.
00:39Ele receberá 62,5% da herança, enquanto os outros três filhos, o Paulo Jorge, a Maria Emília e a
00:50Maria Cristina,
00:51dividirão os 37,5% restantes em partes iguais.
00:56Zagallo fala no documento que teve uma profunda decepção com os outros filhos e que na reta final da vida,
01:05o único que se preocupou e cuidou dele foi o filho caçula.
01:10E olha aqui, o patrimônio do Zagallo, meu amigo, minha amiga, é avaliado aí em 15 milhões de reais.
01:18E os outros herdeiros, o que eles já fizeram? Já entraram na justiça, né?
01:22Agora, cá entre nós, vamos trazer para a nossa realidade.
01:25Não importa, né? Se é muito dinheiro, ou se é pouco, se é rico, ou se é pobre, na maioria
01:30dos casos, a divisão termina em quê?
01:33Fala para mim, em briga, não é verdade?
01:35E esse vai ser o nosso assunto de agora.
01:38Aqui no nosso estúdio, eu recebo o advogado Eduardo Coelho Dias, famoso Zedul.
01:43Obrigada pela sua participação, Zedul. Boa tarde, viu?
01:46Boa tarde, Roberta, boa tarde. É sempre um prazer estar aqui.
01:48Prazer é todo nosso.
01:49Aline Hess, eu estava com saudades da senhora, viu? Seja bem-vinda de volta.
01:55Obrigada.
01:55Obrigada a você, viu?
01:57E Lenir, que está passando por uma situação que já já ela vai contar para a gente, com os irmãos,
02:02o pai faleceu há um tempo atrás.
02:04Mas antes, você que tem uma história, né, aí também, dessa divisão dos bens,
02:10quando você ouve um caso como esse do Zagalo, qual é a sua opinião sobre essa situação, Lenir?
02:16Boa tarde.
02:17Boa tarde, Roberta. Boa tarde, todos os ouvintes.
02:20A gente fica triste, né, com a situação dessa, porque os direitos são iguais.
02:26Eu creio que os direitos teriam que ser para todos, não só para um.
02:32Na divisão, eu creio que deveria dividir por partes iguais para todos.
02:37Então, vamos tirar essa dúvida com ele, que está aqui para isso.
02:40Zedô, esse caso aí do Zagalo, né, mais da metade, 62,5%, pode isso?
02:47O que diz a lei sobre a partilha da herança?
02:51Bom, a primeira coisa que a gente tem que entender é a seguinte.
02:55Enquanto a pessoa está viva, não se discute herança.
02:57É um direito dela, e é um direito daquela pessoa que a gente chama no direito de autor da herança.
03:03É um direito do autor da herança dispor de até 50% do seu patrimônio da forma como ele bem
03:10entender.
03:11Aquele que tem os chamados herdeiros necessários, o que a lei vai dizer que são herdeiros necessários?
03:17É o ascendente, o descendente e o cônjuge.
03:20Quem tem ascendente, descendente e cônjuge, pode dispor de até 50% do seu patrimônio em testamento,
03:29pode fazer doação para outros herdeiros, pode fazer tudo.
03:32E o que vai ser dividido no que a gente chama de legítima é a outra metade do patrimônio.
03:38Então, quando a gente ouve falar assim, ah, o filho ficou com 62,5% do patrimônio.
03:44Vamos esclarecer que ele ficou com 50% do testamento, e o fato dele ter sido nomeado em testamento
03:51não o impede, não o retira da concorrência sucessória em relação aos demais.
03:57Então, ele vai ter uma herança testamentária e vai ter uma herança legítima.
04:02Somando as duas, porque cada um vai ficar com 12,5% naquela divisão, ele vai ficar com um montante
04:09maior.
04:10A lei permite, e eu vou te dizer mais, Roberta, nós aqui no Brasil estamos até atrasados,
04:16porque em grande parte dos países desenvolvidos do mundo,
04:20a pessoa pode dispor de até 100% do seu patrimônio em testamento.
04:26Aqui é que nós temos essa situação do direito ainda proteger a descendência, proteger a família.
04:34Com o Código Civil de 2002, passou a proteger também o cônjuge, mas em outros países não tem isso não.
04:41Você tem que fazer o testamento e você pode dispor livremente.
04:44Aqui, tendo ascendente, descendente ou cônjuge, só pode dispor de 50% do patrimônio.
04:51E aí os filhos dele já estão até contestando isso, né?
04:55Qual é a chance de conseguirem, Zedô?
04:58Olha, a menos que tragam alguns elementos que a gente não conseguiu saber,
05:02porque a gente está ouvindo isso pela imprensa,
05:05o jornalista não é obrigado a saber de detalhes jurídicos, né?
05:09Então a gente nunca pode ter uma certeza absoluta do que está acontecendo.
05:14Mas a grosso modo, falando de forma genérica,
05:17se a lei autoriza a doação ou a instituição de cláusula testamentária de até metade do patrimônio,
05:26e se não ultrapassou essa metade, é perfeitamente válido esse ato e é perfeitamente normal.
05:33Aliás, deveria ser mais praticado.
05:35As pessoas tinham que ter o hábito maior de fazer o testamento.
05:39Mas sabe o que acontece, Roberto?
05:41Acontece muito do seguinte, todos os filhos, cada um deles,
05:45se julgam mais merecedores da herança por motivos diversos.
05:49O que não ficou perto do pai acha que é merecedor porque foi afastado,
05:54porque não ficou tanto tempo.
05:56O mais velho acha que é merecedor porque, de alguma forma, esteve ali.
06:00O mais novo se acha merecedor porque não usufruiu tanto dos valores do pai com o mais velho.
06:09Cada um se acha, por motivos diferentes, mais merecedor.
06:13E aí dá essa briga.
06:14O que a gente tinha que pensar na vida?
06:16Cada um fazer a própria vida, né?
06:18Cada um cuidar da constituição do próprio patrimônio e não ficar esperando o pai morrer.
06:24Chega a ser um absurdo a gente admitir que os nossos pais possam valer mais mortos do que vivos.
06:31Isso, para mim, é assim, é inadmissível, mas, infelizmente, a gente vê muito nos fóruns, nas brigas e é lastimável.
06:39E é de arrepiar ouvir uma fala dessa, né?
06:41Aline, aí uma família que, às vezes, é unida, que se encontra, que celebra as conquistas,
06:49de repente, se vê tretada e são brigas que perduram anos.
06:55Por quê?
06:56Independentemente se é rico ou se é pobre.
06:58Por que que falar de herança dá tanto conflito assim?
07:01Olha, Roberta, eu acredito que envolva aí muitos tabus, muitas crenças pessoais, muitas crenças familiares,
07:09que faz com que, justamente, as pessoas não queiram falar sobre esse assunto
07:14e o ideal seria o que fosse conversado ainda em vida, né?
07:18Então, muitas vezes, as pessoas acham que, ah, se eu for falar da herança do meu pai,
07:22eu estou querendo que meu pai morra.
07:23Ou a mãe acha que, se for falar sobre esse assunto, é porque os filhos estão desejando a morte.
07:27Não.
07:28É necessário a gente se preparar para a velhice.
07:31É necessário a gente se preparar para a morte também.
07:34Então, seria muito interessante e evitaria muitos problemas
07:37se essas conversas fossem feitas ainda em vidas.
07:41Ainda enquanto aquelas pessoas que vão deixar algum valor ou algum bem,
07:47isso fosse conversado, fosse deixado por escrito o desejo daquela pessoa,
07:51porque também não adianta apenas falar, né?
07:54Existe a lei e a lei vai ser seguida da forma como ela tem que ser seguida,
07:58mas existe o desejo daquela pessoa.
08:01Então, a sugestão que eu dou, uma forma que a gente pode ter para minimizar, evitar,
08:07diminuir as chances desses conflitos, é as pessoas conversarem mais sobre isso.
08:12Pai, mãe, qual é o seu desejo com relação à sua herança?
08:16O que você deseja fazer com o seu dinheiro?
08:18Ainda é um direito daquela pessoa, mas é importante se conversar sobre isso.
08:23Onde você tem dinheiro?
08:24O que você deseja fazer?
08:26Não só com a doação de órgãos, que muitas vezes a gente fala, né?
08:29Mas com o que quer que seja feito com aquele dinheiro, com aquelas posses.
08:33E esse é um direito, pelo menos 50% daquilo que a pessoa tem,
08:38é um direito dela de fazer o que ela quiser.
08:40Se ela quiser vender tudo e doar, assim como a gente vê muitas pessoas com muito dinheiro, né?
08:46Doando, ela tem esse direito de, pelo menos aqui no Brasil, como o doutor falou, a 50%.
08:51Então, o diálogo e a conversa com todos ainda em vida e documentar os seus desejos,
08:57acredito ser a melhor forma de evitar essas tretas e esses conflitos.
09:01Olha só, Maricilda Borges está aqui com a gente, ó.
09:04Estou vendo aqui os comentários, ela diz, conheça seus irmãos no inventário, essa é a certeza.
09:08Marquinho Brasil também participa aqui no nosso Facebook, ele diz,
09:12tem filhos que depois que crescem e saem de casa, não dão a mínima para os pais.
09:16Depois, quando eles morrem, né?
09:18Quando os pais morrem, aí os filhos vêm requerendo direito, né?
09:21Que não tem essa opinião dele.
09:24Eliane também participa com a gente, ela diz, correto, o falecido sabe o que passou,
09:29tem que ter essa condição, porque o pai vivo, ninguém ligou.
09:34Rogério, eu falo, estou super de acordo com a fala do advogado, enfim, daqui a pouquinho
09:38eu vou voltar a ler os comentários, mas vamos ouvir agora a história da Leny,
09:42que também tem passado por uma situação delicada quando o assunto é herança, né Leny?
09:48É, pessoal, não é fácil mexer com isso, mas eu acho assim, que a gente tem que,
09:53quando não consegue resolver no diálogo, nós temos que levar para a justiça,
09:59foi o que eu fiz.
10:01Eu, quando eu vi que meus irmãos, eles começaram a brigar para não ter morte,
10:08essa separação, né?
10:09Inclusive, minha mãe passando mal, o que eu fiz?
10:12Eu levei para a justiça, procurei a defensoria pública e procurei um advogado e falei com eles,
10:19bate um documento aí, como eles estão emprestados na casa, que eles não têm o direito.
10:25Então, e deixar a minha mãe tomar essa decisão.
10:30Ela pode tomar essa decisão e, se ela não puder, eu como procuradora dela,
10:34eu posso tomar essa decisão de vender ou de fazer alguma coisa?
10:38Será que eu posso?
10:40Aí falei com a advogada, a advogada bateu um documento e chamou os meninos lá, né,
10:46os da confusão, e bateu um documento como eles estão emprestados.
10:52Eles não estão morando, não é deles, mas a confusão não para por aí.
10:57E é isso, né, Zé Du? Todas as partes têm que estar de acordo para que algo possa ser feito
11:03com aquele bem que o pai deixou.
11:05Se um contestar, falar assim, não, não vai vender o imóvel, não pode, né?
11:10Essa é a lei aqui no Brasil.
11:11É mais ou menos isso. O que acontece?
11:13Nós temos duas formas de inventário, de se fazer o inventário aqui.
11:17O inventário que a gente chama de administrativo, o inventário de cartório e o inventário judicial.
11:22O inventário administrativo, ele pode ser feito quando as pessoas são maiores e capazes e quando há consenso.
11:29É muito mais rápido.
11:31Você, em determinados casos, Roberta, consegue liquidar um inventário desses com menos de um mês.
11:38Entendeu? Dependendo da situação, da agenda do cartório e tudo.
11:42Agora, quando não há consenso, quando as partes não concordam com a forma de divisão,
11:48aí não tem jeito. Tem que ir para o judiciário e a gente sabe que tudo é um pouco mais
11:52demorado.
11:53Agora, estava ouvindo a psicóloga falando sobre essas questões, vendo a questão de briga.
11:58Existe uma coisa que a gente chama no direito de planejamento sucessório,
12:03que é uma forma extremamente saudável da gente lidar com essas questões,
12:08de prevenir conflitos e de dar o direcionamento adequado para a herança,
12:13para o patrimônio que a gente constitui.
12:15Vamos pensar, por exemplo, naquela pessoa, e aqui, Roberta,
12:19tanto faz se é rico, se é remediado, se é pobre, não importa.
12:23Vamos imaginar aquele filho menor que ainda depende do aporte financeiro do pai
12:28para pagar uma escola, até mesmo para sobreviver porque não tem condição de trabalho e tal.
12:32Você pode, você tem ferramentas no direito para reservar algum montante para aquela pessoa especificamente.
12:40Você tem forma de distribuir em vida, você tem várias maneiras de lidar com a transmissão do patrimônio em função
12:48da morte.
12:48Isso custa dinheiro?
12:49Nada é de graça, né?
12:51Antigamente a gente dizia que só o relógio trabalha de graça.
12:54Hoje em dia você tem que pagar a bateria, não é assim?
12:56Então, tudo tem custo.
12:57Você tem, na transmissão de bens, você tem o imposto de transmissão.
13:01Você tem um custo, porque um bom planejamento sucessório, você vai precisar de contar com um bom profissional
13:06que não vai ficar, né, cobrando, vai cobrar compatível com o benefício que vai oferecer.
13:15E, então, assim, é recomendável que a pessoa pense.
13:21Antes da pandemia, Roberta, nós tínhamos um problema danado de falar sobre a morte,
13:27de falar isso que ela disse aqui agora.
13:28Parece que com a pandemia, com a gente percebendo que a morte existe, como dizia o Cazuza, né?
13:34Eu vi a cara da morte, ela estava viva.
13:37A partir daí as pessoas estão começando a entender que esse tipo de coisa que está acontecendo
13:42com a família do Zagallo acontece com todas as famílias.
13:46O comportamento vem mudando, né?
13:48O ouvinte disse aí, conheça os seus irmãos no inventário, né?
13:51Conheça a sua namorada quando casar com ela, conheça a sua esposa quando separar
13:56e conheça seus irmãos quando o papai e a mamãe foram embora, né?
14:00E é uma pena, mas infelizmente é assim.
14:02Teve outro testamento polêmico também, lembra?
14:04Do rei Pelé.
14:06Antes de morrer, Pelé deixou 70% dos bens para os filhos e 30% para a mulher.
14:12A Márcia Occhi.
14:13Mas o Pelé, gente, pode ter aí uma nova herdeira, viu?
14:16A empregada doméstica Maria do Socorro, 60 anos, acredita ser filha do Pelé.
14:23Luta para ser reconhecida pela família e dá a primeira entrevista mostrando o rosto.
14:29Porque é muito triste você não saber quem é seu pai.
14:35A justiça acaba de receber um pedido para a exumação do corpo do rei do futebol.
14:41Eu não estou correndo atrás desse exame por causa de dinheiro.
14:47Para mim, tanto faz ser o Pelé ou outra pessoa que não tenha dinheiro.
14:54Um novo e polêmico capítulo na novela da herança bilionária do melhor jogador de todos os tempos.
15:03Edson Arantes do Nascimento, o rei Pelé, morreu aos 82 anos, em 29 de dezembro de 2022.
15:12Maria do Socorro falou sobre esse drama que vive desde que tinha 13 anos.
15:18A minha tia foi quem me falaram que ela encontrou com ele, Pelé, no Maranhão, São Luís.
15:27E aí eles tiveram um encontro, num evento, e aí aconteceu o que aconteceu.
15:33Ela conta que desde pequena se achava muito diferente dos outros quatro irmãos, todos brancos, e questionava a mãe.
15:41Inclusive eu cheguei a perguntar para ela se eu era filha dela mesma.
15:45Ela falou que era, né?
15:47A família, muito pobre, vivia no Piauí.
15:51Ela trabalhava de doméstica.
15:53Comecei a trabalhar com 9 anos.
15:55Ainda adolescente, ela quis saber quem era o pai verdadeiro.
16:00Foi de 13 a 16 que eu resolvi saber quem era meu pai.
16:05Então a minha mãe me falou que era o Pelé.
16:10Pelé não teria ficado sabendo da gravidez.
16:13Ela nunca chegou a contar, então, ao Pelé que ela tinha engravidado.
16:18Foi uma...
16:19Não, ela não chegou a esse ponto, não contou para ele.
16:22Maria do Socorro diz que logo depois veio trabalhar como doméstica em São Paulo.
16:28A mãe faleceu em 1998.
16:31Mas ela nunca tirou da cabeça a ideia de ter um pai.
16:36Para mim não importa que seja com dinheiro ou sem dinheiro.
16:40Você se acha parecida com o Pelé?
16:44Acho um pouco.
16:46O nariz, porque o nariz da minha mãe é bem afilado.
16:49O cabelo, o jeito do rosto, comprido, né?
16:53Esses aspectos aí, eu acho.
16:56Ela seria a oitava descendente do rei.
16:59No primeiro casamento com Rosemary dos Reis, em 1966, Pelé teve Kelly, Edinho e Jennifer.
17:08Kelly teve quatro filhos e Edinho duas meninas.
17:12No segundo casamento, com a Síria Seixas, nasceram o gêmeo Joshua e Celeste.
17:18A filha Flávia, de 54 anos, é de um relacionamento extraconjugal.
17:24A filha mais velha, Sandra Regina, que Pelé não reconheceu, também era de um namoro dele nos anos 60.
17:32Sandra faleceu de câncer.
17:35Desde 2016, Pelé estava casado com Marcia Occhi, com quem não teve filhos.
17:41A filha de Assíria, Gemima, foi aceita na família como filha sócio-afetiva do rei, portanto, também herdeira.
17:50Mas Maria do Socorro só tomou coragem, em 2019, para entrar com um processo de reconhecimento de paternidade.
17:58Você sabia quem era o Pelé?
18:01Não, já tinha ouvido falar, mas muito pouco, né?
18:04Na época, meu interesse mesmo maior era só saber quem era meu pai para que eu pudesse tirar meus documentos.
18:13Só que eu não queria tirar como filha de mãe solteira.
18:19Pelé foi comunicado pela Justiça, que pediu teste de DNA, mas isso não chegou a acontecer.
18:26Ele foi convocado para fazer o exame e eu vim de lá do Piauí, só que ele não pôde comparecer.
18:35Eu fiquei lá esperando e ele não compareceu.
18:38Ele deixou registrado no seu testamento que ela poderia ser filha dele, poderia e ia ficar guardando o resultado do
18:46DNA.
18:47E já deixou já separada a parte.
18:50Se ela for a filha, ela passa a ter o direito de fazer parte do inventário.
18:55Porque ele mesmo, já tendo consciência, já tendo deixado até no inventário, não providenciou o material genético para que na
19:02época fosse feito esse exame.
19:04Mas ele se ofereceu para que fosse feita a coleta na casa dele.
19:09Então, vão repercutir esse caso também do Pelé aqui no nosso bate-papo.
19:12Zé Du, e nessa situação que a gente viu aí, quando surgiu o filho depois, como é que fica?
19:18Roberta, o direito das sucessões é uma caixinha de surpresa, né?
19:22Bom, eu estava falando que você só pode dispor de 50% do seu patrimônio se você tem ascendentes, descendentes
19:29ou cônjuge.
19:30No caso, tem descendentes, qualquer testamento vai ser aplicado exclusivamente com relação à parte distante.
19:37E com relação à parte legítima, você tem que reservar o patrimônio.
19:42Existem algumas ações judiciais, reconhecimento da paternidade, chamada ação de petição de herança, enfim, tem vários instrumentos jurídicos para lidar
19:51com isso.
19:51Mas sim, a partir do reconhecimento da paternidade, a partir do momento que ela ostenta a condição de parente, consequentemente
19:58de herdeiro, passa a ter aquele direito.
20:00E tem um detalhe, o reconhecimento da paternidade não tem prescrição, ou seja, eu posso interpor uma ação dessas muito
20:09tempo depois e que ela tem a validade.
20:13Agora, Aline, o que a gente vê é que a orientação é conversa sobre esse assunto antes, aí tá.
20:20Aí a gente também vê orientações de quando faz o testemunho, mesmo fazendo, mesmo deixando expressa a vontade, a gente
20:30vê esses conflitos acontecendo, né?
20:33Ou seja, conversando ou não conversando, que é o caso aí também do Zagal, os conflitos acontecem sim, seja às
20:40vezes por um pano de prato, seja pela louça da mãe, que uma falou,
20:44ah, mas eu sempre falei que eu ia querer a louça da mamãe, né?
20:47Como que pode, até esses pequenos, essas situações miúdas, como evitar isso?
20:53Olha, Roberta, eu acho que muitas vezes a gente espera que a vida seja sem conflitos.
21:01E eu acho que você acabou de dar um exemplo de uma situação que eu acho que é inevitável.
21:05Acho que são poucas as famílias, ou quando tudo está muito bem esclarecido, entre todos, que não há um conflito.
21:12Porque aí a gente está falando de alguns elementos muito emocionais, onde há uma sensibilidade, onde as pessoas perderam uma
21:18pessoa querida,
21:19muitas vezes, né? E que não queria que aquilo tivesse acontecido.
21:23E projetam, às vezes, em objetos, em bens, em coisas, o afeto àquela pessoa que se foi, emoções com relação
21:32àquela pessoa que se foi.
21:33E acaba misturando as coisas, confundindo um pouco as coisas.
21:37E aí, entrando em relações de irmãos, que a gente sabe que, inevitavelmente, conflitos já existem,
21:44se torna meio que uma bombinha relógio mesmo, que a tendência é conflituosa.
21:50Então, acho que, além de todas essas preparações documentadas, conversadas,
21:56é uma preparação emocional no sentido de que, provavelmente, teremos alguns conflitos.
22:02Estejam abertos para flexibilizar, estejam abertos para abrir mão de certas coisas,
22:09ressignificar certas coisas, né? E o conselho, certamente, que eu vou puxar a sardinha para o meu lado,
22:14é um aconselhamento, um acompanhamento psicológico, que isso pode ajudar a desatar certos nós aí,
22:21que acabam atrasando e prorrogando um sofrimento desnecessário.
22:24Lenine, na sua família, chegou também a esse ponto? De uma louça, o talher, o pano de prato, as panelas?
22:31Chegou. Começaram a brigar o ponto de tomar. Cada um tomou uma parte, um ficou com a casa,
22:36ou tomou a ou, tomou a chave, no ponto de que nem os outros irmãos não entram na casa.
22:43Então, nós abrimos mão, deixamos assim, deixa eles lá.
22:47E o que mais briga é aquele que sumiu 25 anos, desapareceu, só apareceu porque foi chave...
22:55Apareceu porque procuraram no programa aí, um programa que teve, então ele apareceu e tomou posse da casa.
23:03E não tem mais o que fazer, tomou posse, mas o documento está lá.
23:08Zé Du, tem perguntas aqui, o Edson quer saber, e quando a pessoa morrer em dívida, os filhos também têm
23:16que pagar a dívida do pai?
23:18Não, não, na verdade quem paga a dívida do autor da herança é a própria herança.
23:23Como é que funciona?
23:24E o pai não deixa a herança?
23:25Bom, aí os credores, então, vão ter um certo prejuízo.
23:29Porque o que acontece?
23:30A dívida morre junto?
23:31É que a dívida morra, mas se ela não tiver uma outra garantia, dificilmente você consegue receber.
23:36Porque como é que funciona o processo de inventário?
23:38Você apura o patrimônio daquela pessoa, os bens que aquela pessoa tem,
23:42abate a dívida, os tributos que incidem sobre a transmissão e só esse restante, só essa sobra que você divide.
23:51Então, primeiro, paga as dívidas.
23:53Não havendo dinheiro para pagar a dívida, é o que a gente chama de inventário negativo.
23:56A lei estabelece que as dívidas do falecido são suportadas pelas forças da herança, ou seja, pela própria herança.
24:04Olha só o comentário aqui da Fabrícia, ela diz que a avó dela morreu há muitos anos.
24:09E quando estava internada ainda, implorou por uma visita de um dos filhos.
24:13Ele não foi, viu, gente?
24:14E quando a avó morreu, o que ele fez?
24:17Ele foi até a casa dela, anotou no papel tudo o que tinha na casa dela, até um guarda-roupa
24:23velho.
24:23É a situação parecida aqui com o que a Lely também acabou de contar, Aline.
24:28A gente nunca se sabe o que passa na cabeça do outro, no pensamento, no coração da outra pessoa.
24:35E o que a gente percebe é que quando essa esfera ainda vai além dos filhos, vão para os netos,
24:41para os cônjuges,
24:42aí que vira uma confusão generalizada, né?
24:45Não espere bom senso.
24:46Eu acho que essa é uma excelente dica, uma excelente orientação.
24:52Então, infelizmente, a gente vê situações como essas, onde a questão do que é direito ou o que não é
24:58direito,
24:58não cabe, infelizmente, a nós, quem vivenciou aquela família, a julgar isso.
25:03Ah, a lei vai estar lá e a lei vai se fazer valer.
25:07Então, acho que nessas situações, muitas vezes, é engolisseco, é ter que lidar.
25:12Porque se ele é um filho legítimo, independente de ter ficado anos sem visitar,
25:17independente de ter recusado a visita daquela senhora no leito de morte,
25:22ele vai ter o direito pela lei, por mais injusto que os outros filhos acham.
25:26Mas aí, reforço a ideia.
25:28Se há essa preparação antes, em fazer um documento, em fazer algo que deixe claro o desejo daquela senhora,
25:34seria uma forma de fazer uma justiça, entre aspas, pelos outros filhos.
25:39Mas, ainda assim, a gente vai ter que lidar com pessoas difíceis, com relações difíceis,
25:43com pessoas adoecidas, mentalmente falando.
25:46E aí, realmente, vai ser uma caixinha de surpresa e tenha estômago para encarar o que tiver que encarar.
25:52Agora, é interessante quando a gente diz o seguinte, converse sobre esse assunto antes,
25:56mas só conversa não basta de nada, né, Zé Du?
25:59Não, tem que cumprir as formalidades que a lei exige.
26:02Então, o testamento, por exemplo, é cheio de formalidades.
26:06E a falta de uma daquelas formalidades pode invalidar o testamento.
26:10Então, por quê? Porque a manifestação de vontade...
26:12E outra coisa, a vontade, quando a gente fala de um testamento, de um planejamento assessório,
26:18não é a vontade dos herdeiros, não é a vontade do autor da herança,
26:22é daquele que construiu o patrimônio.
26:23Porque foi ele que batalhou para chegar até aqui, ali, foi ele que batalhou.
26:28Então, a vontade que vai prevalecer é a dele.
26:30Claro que o consenso entre os herdeiros, como a nossa querida psicóloga nos disse aqui,
26:35vai facilitar muito a transmissão, mas a vontade que tem que prevalecer é a do autor da herança.
26:42Seu pai deixou alguma vontade?
26:44É importante isso que ele falou.
26:46Ele não deixou, mas a minha mãe, ela tem alguns desejos, então eu achei importante essa fala dele.
26:54E os filhos estão cientes desse desejo da sua mãe?
26:58Não, porque ela só falou para mim.
27:00Porque, para evitar mais briga, mais confusão, então deixa assim.
27:06Então, eu achei importante essa fala e também procurar os direitos na justiça, fazer esse inventário, vai ser muito legal.
27:14E registrar, né?
27:15E registrar tudo.
27:16Para que essa vontade dela seja realmente oficializada, para evitar mais conflito ainda que a gente sabe, né?
27:24Acontece.
27:26Obrigada pela participação de todos vocês, Aline Hess, Edu, Lely, que fique tudo bem na família, tudo em paz, viu?