- há 4 minutos
No programa de hoje, discutiremos o fenômeno da ostentação de uma vida "falsa" nas redes sociais. Convido a psicóloga Giselle Martins, a confeiteira Cleni e a influenciadora Soninha para uma conversa franca sobre as motivações e consequências desse comportamento. Suas perspectivas e experiências certamente trarão luz a esse assunto tão relevante. Vamos refletir juntos sobre a importância de vivermos de forma autêntica e consciente, sem nos deixarmos levar pelas aparências.
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NotíciasTranscrição
00:00Agora a gente vai falar do caso da mulher que ficou conhecida como a golpista da Ilha do Boi.
00:06Gente, esse assunto rendeu, né? Deu o que falar.
00:10Josi Campos Alves, de 45 anos, ela fazia compras em lojas de luxo com cheques sem fundo,
00:18ou então dizia não ter crédito no cartão, ou até mesmo que o limite do Pix já havia sido bloqueado
00:24naquele dia,
00:25mas que garantia que depois ia pagar. E assim, com muita lábia, né? Aquela lábia sedutora,
00:33ela conseguiu aplicar golpes que, segundo a polícia, somam um milhão de reais.
00:39Na casa dela, na Ilha do Boi, foram apreendidos sapatos, bolsas, quadros, outros artigos também de decoração, obras de arte,
00:47tudo o produto que ela levou e não pagou, minha gente, é?
00:51Josi está presa desde o dia 7 de dezembro, após ela ser indiciada pela polícia civil.
00:58E agora, ela vai responder sete vezes pelo crime de estelionato e crimes contra o patrimônio, tá?
01:07O advogado de defesa da Josi disse que o caso dela não pode ser enquadrado como estelionato,
01:14que, na verdade, ela sofre de uma doença e tem compulsão por compras. Vamos ver.
01:21É um comportamento que, desde lá de trás, a gente percebe que ela tem uma compulsão pela compra.
01:28A gente já havia conversado muito, em diversos momentos, sobre isso.
01:32E a minha visão é que tudo culminou por conta dessa compulsão pela compra que ela tem,
01:39que é um problema clínico, né? Ela não reconhece como crime.
01:42Ela não reconhece. No entendimento dela, ela comprou, as pessoas deram possibilidades dela pagar,
01:51não precisava pagar à vista, e ela vinha pagando.
01:54E aquilo que, em algum momento, ela não conseguia pagar, ela até devolvia.
01:58Tem vários casos, inclusive desses que foram incluídos nesse atual processo dela,
02:02tem vários que ela devolveu os produtos.
02:04Então, na cabeça dela, na concepção dela, ela não pratica crime.
02:08Ela está comprando e ela paga.
02:12Ah, nem tudo que ela comprava, ela pagava.
02:15A gente sabe de várias histórias.
02:17E ela ainda ostentava nas redes sociais, tá?
02:21Mostrava uma vida luxuosa, as custas aí do prejuízo dos outros.
02:26E quantas pessoas hoje também vivem de aparência, hein?
02:30Bora botar o pé no chão?
02:31E viver com o que a gente pode.
02:34Esse vai ser o nosso assunto agora.
02:35Vem cá, vamos bater um papo sobre...
02:37Senta aí na sua casa, na sua sala, no seu trabalho, onde você estiver,
02:41porque aqui eu recebo a psicóloga Gisele Martins.
02:43Boa tarde, obrigada pela sua participação.
02:46Cleni Mel, que é confeiteira, também vai dar a opinião dela pra gente.
02:50Junto com a Soninha, que é influenciadora também, super querida.
02:54Também gosta muito de comprar, né, Soninha, você?
02:57Gosto bastante.
02:57Boa tarde, Betta.
02:58Boa tarde, seja bem-vinda.
02:59Boa tarde, pessoal.
03:00Gosto bastante.
03:01Mas assim, esse caso específico, eu acho o cúmulo do absurdo.
03:05Porque eu acho que ostentar, todos nós ostentamos, que nada mais é do que exibir.
03:10A minha profissão mesmo é me exibir.
03:12É ostentar o que eu como, o que eu compro, o que eu viajo, mas desde que seja por mérito
03:17meu.
03:18Certo?
03:19Não acho errado trabalhar a semana inteira, chegar no final de semana, ou até mesmo numa segunda,
03:25porque às vezes eu trabalho no final de semana.
03:27E ir numa praia, pegar um tiragostinho, um caranguejinho, tomar um negocinho e postar.
03:33É uma ostentação, mas eu estou fazendo com o meu dinheiro, o dinheiro do trabalho suado que eu tive.
03:39Por exemplo, a viagem que eu tive para o Rio de Janeiro.
03:43Eu queria muito de avião, mas não cabia com o meu bolso.
03:46Queria o quê? Empurrando a rodinha, a mala, aquela coisa que o aeroporto proporciona.
03:52Mas não cabia no meu bolso a passagem.
03:54Então, eu fui o quê? De busão.
03:56Eu, minha mãe e a galera.
03:57A mala foi jogada lá atrás, amassou tudo, foi uma coisa.
04:00Não foi o que eu esperava, mas era o que eu podia pagar.
04:03E mesmo assim, eu postei.
04:05Eu poderia simplesmente chegar de manhã, porque você vai à noite e chega de manhã, né?
04:11Poderia dar boa noite, os garotos estão indo dormir.
04:13No outro dia, bom dia, Rijota, no piscar de olho, olha onde eu estou.
04:18Só que não foi no piscar de olho, foi no perrengue de um ônibus.
04:21Então, assim, eu postei a ostentação lá na Copacabana, comendo biscoitinho Globo.
04:27Ano novo, no Rio de Janeiro, né?
04:29Natal, Natal.
04:29Natal no Rio de Janeiro.
04:31Natal, comendo biscoitinho Globo, tomando um drink.
04:33Mas eu mostrei o perrengue.
04:34Então, acho que não acho errado você ostentar, mas deixe que seja com o seu dinheiro, né?
04:40E você, Cleninha, qual é a sua opinião sobre um caso como esse?
04:43Você está um pouco assustada, né, Cleninha?
04:44É, porque tudo hoje é doença.
04:48Eu cometo um delito, uma inflação, compro e não pago e tenho uma doença.
04:54Eu não consigo enxergar como doença.
04:57Eu também gosto de postar tudo, tanto que eu tenho dois perfis na internet,
05:01o meu de confeitaria e o meu de boca no trombone.
05:05Posto tudo, só que eu posto também.
05:07Hoje mesmo eu já fui lá, falei, gente, ó, estou sumida aí porque eu não estou bem, não, tá?
05:10Coisa que está meio brocochona, eu não estou bem.
05:12Mas agora eu já estou bem e estou aqui na TV.
05:14Então, a gente tem que viver uma vida de realidade.
05:19É como Soninha falou.
05:21Tem gente que olha, está tudo bonito, mas você não sabe o perrengue que foi para chegar ali e estar
05:27bonito.
05:28E só que é o glamour, né?
05:30Só o glamour, só a coisa boa.
05:32É bonito postar um bolo, eu estou vendo ali um bolo maravilhoso que depois eu quero aprender a fazer.
05:37Só que para ela chegar naquele bolo ali, quanta louça não vai ter para lavar depois?
05:43Isso aí ninguém vê.
05:43Quantos e quantos testes, né?
05:45É o caso daquele meme que postam muito, todo mundo vê...
05:51Quem vê o close e não vê corre.
05:53Os gole que eu bebo, mas não vê o tombo que eu levo, um negócio assim.
05:58Quem vê close e não vê corre, né?
06:00Quem vê, entendeu?
06:02Então, por trás disso tudo, tem uma vida real.
06:06Agora, eu só estou assustada ali do advogado falar que ela sofre de uma doença.
06:11Eu vou ficar quieta.
06:12Vamos saber, então, né?
06:14Esses casos de compulsão, quem acaba comprando demais.
06:17Porque a gente vê que as redes sociais impulsionam muito isso, né?
06:21A ostentação.
06:22E a ostentação está diretamente ligada ao que?
06:26A consumo.
06:27Isso vai aumentando e pode chegar a esse ponto, Gisele?
06:31Boa tarde.
06:31Boa tarde.
06:32Pode chegar.
06:34Existe transtorno da compulsão?
06:37Não existe.
06:38Existe transtorno de controle do impulso especificado, compulsão por compra.
06:45Que é o quê?
06:46A dificuldade de controlar o impulso.
06:49Ah, mas é todo mundo?
06:51Não, né?
06:51Porque eu compro demais que eu tenho transtorno.
06:54E aí a gente precisa ali olhar os critérios do DSM, checar direitinho, fazer uma avaliação.
06:59Aí é outra história.
07:01Por que a gente compra tanto?
07:03Porque a gente quer mostrar, Roberto, uma realidade que não é nossa.
07:07Que é mostrar aquilo que é interessante para o outro no desejo de ser aceito, no desejo
07:14de ser acolhido, no desejo de ser reconhecido.
07:18Então, eu mostro uma pessoa que eu não sou, na intenção de ser recebida pelo outro.
07:25Porque o outro pode ser que não receba aquilo que eu tenho para mostrar.
07:30Então, se eu quero ser sua amiga, então eu vou estudar tudo de jornalismo.
07:35Porque é um jeito que eu tenho de me aproximar de você.
07:37E assim são os desdobramentos daqueles que querem ostentar os carros, as roupas, as viagens, as joias, as maquiagens.
07:47Porque ela quer ser aceita naquele determinado público, com aquelas determinadas amizades, frequentar aqueles locais.
07:57Então, como é que eu vou frequentar um local de luxo, com um carrinho de 1970?
08:04Não vou ser aceita.
08:06Não vou conseguir frequentar.
08:07Mas se eu comprar um carrão 2024, a chance de ser aceita por aquele público que gosta de carrão, que
08:14gosta de carro novo,
08:16que de carro de não sei quantos cavalos, é muito maior.
08:19Mas ostentar uma vida que não tem, acho que essa pessoa está um pouco deslocada da realidade dela.
08:24Então, é isso que eu estou dizendo, Rô.
08:27Ela está deslocada da realidade porque ela quer viver algo que não existe.
08:32É como se fosse uma atriz, um ator, que encarna um personagem.
08:37Eu vou encarnar um personagem rica.
08:40E aí eu me comporto como tal.
08:43Então, eu dou golpes, eu compro, eu clono cartão, eu faço estelionato, enfim.
08:49Pratica diversos comportamentos desfuncionais e duvidosos para encarnar aquele personagem.
08:57Agora, se o sujeito tem dinheiro e pode ostentar comprando aquilo que, como a nossa amiga influencer colocou,
09:05fruto do seu trabalho, aí é outra coisa.
09:09Comprar as coisas com o seu dinheiro não é pecado nenhum.
09:13Muito pelo contrário, né?
09:14É reconhecimento daquilo que você trabalhou, daquilo que você batalhou.
09:18Então, agora eu posso comprar.
09:20Agora, se eu compro sem poder, Roberto, eu preciso dizer, esconde ali um vazio existencial muito grande.
09:29Precisaria de uma ajuda psicológica e, muitas vezes, psiquiátrica.
09:34Porque esconde esse vazio que a pessoa tenta preencher colocando itens exteriores, que é o quê?
09:43Comprando aquilo que ela gosta, aquilo que traz senso de pertencimento.
09:47Olha só o comentário da Noabia Santos, ela diz, eu vivo minha realidade, eu compro quando posso, viajo quando eu
09:54puder e, assim, vivo feliz, né?
09:56Não preciso ostentar uma realidade que não é minha.
10:00Você faz as suas aquisições de que forma?
10:03Você tem um pé no chão, Soninha?
10:05Eu tenho, super.
10:06Até demais.
10:07Às vezes, eu deixo de viver certos momentos, adquirir certas coisas, porque eu odeio dividir prestação.
10:14Não gosto.
10:14Eu gosto de me organizar e pagar.
10:17Por exemplo, recentemente, em dezembro, final de novembro para dezembro, eu me dei um carro que eu queria muito, que
10:24era um sonho.
10:25E eu fiquei um mês e não contei para ninguém e o meu trabalho, e eu gosto de compartilhar tudo,
10:32mas eu não contei para ninguém e soube quem me viu, assim, sem querer.
10:36Eu fiquei, ai, meu Deus, será que eu vou postar?
10:39Será que, ai, o que vão pensar?
10:41Nossa, lá, está ostentando, está se achando.
10:44Só que eu fiquei, passou um mês, eu fiquei, não, eu vou postar sim, porque eles veem que eu trabalho
10:50muito.
10:51Eu trabalho praticamente de segunda a segunda.
10:53Então, por que eu posso postar o processo e eu não posso postar a conquista?
10:58Sendo que foi mérito meu, exclusivamente meu, do meu trabalho.
11:01Vou postar sim.
11:02Ai, postei, foi um sucesso, foi muito legal.
11:04Inclusive, está lá, vamos assistir, tá, gente?
11:05Até porque essa é a soninha, né?
11:07Essa é a soninha.
11:08E você, como é que você lida com as suas vontades quando você quer adquirir algo novo, Clenir?
11:13Então, Roberta, eu tive uma decisão muito forte na minha vida há uns anos atrás, que eu acabei com o
11:20cartão de crédito.
11:22Duas.
11:22Porque eu estava percebendo que eu só vivia endividada.
11:27É tipo, você passa a ver um vestido na promoção numa vitrine, aí você tem um cartão de crédito, você
11:34compra, mas você esquece que depois você tem que pagar a fatura.
11:37Então, eu acabei com isso na minha vida e eu compro aquilo que eu posso.
11:41Agora, em matéria de postar, eu não acho ostentação a gente postar não.
11:47Sabe por quê?
11:47Porque a gente trabalha muito e quando a gente trabalha, posta trabalhando e depois posta o fruto do trabalho, eu
11:55penso que nós estamos influenciando pessoas a trabalhar para conquistar aquilo também.
12:00E isso tem sido cada vez mais frequente, principalmente com as redes sociais, né?
12:06Em que momento que a ostentação se torna preocupante, Gi?
12:11A gente tem mais um minutinho para encerrar o programa aqui, a matéria.
12:13Quando começa a ter prejuízos, quando você compra e não consegue mais pagar, quando a compra é maior do que
12:22aquilo que é prioritário, água, luz, aluguel, escola dos filhos, alimentação.
12:27Quando isso começa a ficar prejudicado pela ostentação, pela dificuldade do controle dos impulsos, pare.
12:36Corte o cartão de crédito.
12:38Pegue uma tesoura, corte o cartão, compre o que você pode no débito.
12:42É uma postura radical, mas é o que resolve para quem tem dificuldade do controle de impulso.
12:49É não ter mais o cartão de crédito.
12:52Usar no débito.
12:54Pode comprar, passa, pagou.
12:56Não pode, não passa e não compra.
12:59Ó, interessante que estávamos nós três aqui cochichando aqui.
13:02Soninha também falou que você também fez isso.
13:05Não tem prestação.
13:06Não tem prestação.
13:07Eu também não.
13:08Não, não tem.
13:09E eu tenho mais sossego, assim.
13:11Se eu tenho, eu compro.
13:12Eu me presenteio com aquilo que eu quero.
13:15Se eu não tenho, passo reto.
13:17A vontade passa.
13:18Ou se organiza para conquistar, né?
13:21À vista.
13:22Boa.
13:23Né?
13:23Que é o que você faz também, né?
13:25Sim.
13:25Tá certo, gente.
13:27Ó, obrigada pela participação de vocês.
13:29Obrigada, Gi.
13:30Obrigada, Clemen.
13:31Soninha, ó, obrigada.
13:32E eu sei que você quer ficar aqui nos bastidores que tem um bolo delicioso.
13:35Eu acho que eu não vou poder, não.
13:36Ah, não vai perder.
13:37A Clemen já exprou a vontade.
13:38Eu também.
13:39Eu posso.
13:40Mas guarda para mim que eu pego depois.
13:41Pode deixar.