- há 2 dias
Por que adolescentes passaram a ocupar postos na linha de frente do tráfico de drogas.
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NotíciasTranscrição
00:00Eu recebo especialista em segurança pública, Rusley Medeiros. Obrigada mais uma vez pela sua participação, Rusley.
00:05E também o psicólogo, Diemerson Saqueto. Obrigada, Diemerson, também pela sua presença aqui no Fala Espírito Santo.
00:11Seja sempre bem-vindo, viu?
00:14Rusley, queria começar com você, né?
00:16Hoje a gente percebe, como a gente já falou aqui, que esses adolescentes estão atuando na linha de frente.
00:23Antigamente, a gente via ele sendo o aviãozinho ali embaixo, fazia algum serviço para o traficante, o chefão.
00:31Agora não, eles estão indo para a linha de frente.
00:33E isso preocupa, né? O que vem fazendo mudar essa movimentação desses adolescentes no mundo do crime?
00:39Boa tarde, Roberta. Boa tarde a todos que nos acompanham no Fala Espírito Santo.
00:42De fato, Roberta, a gente tem visto esse aumento da participação de jovens, de adolescentes no mundo criminoso, né?
00:48Isso acontece basicamente por quê? Porque eles não se sentem pertencidos a esse grupo social que eles estão inseridos, né?
00:55Então, eles acham que entrando para o mundo do crime...
00:59Vou só pedir para trocar. Vamos inverter aqui o microfone. Isso, obrigada.
01:03Pronto. Boa tarde a todos aí que nos acompanham no Fala Espírito Santo.
01:06Então, Roberta, a gente tem visto justamente essa situação, né?
01:09Esse aumento dos adolescentes e dos jovens nas práticas criminosas.
01:15Isso acontece justamente por quê? Porque nós temos questões muito importantes envolvidas, né?
01:21A primeira questão dela é quando nós falamos desse pertencimento.
01:25Esse jovem, esse adolescente, ele já não se sente pertencido a essa sociedade geral.
01:30Então, eles acabam encontrando dentro do mundo do tráfico de drogas, dentro do mundo criminoso,
01:34uma perspectiva de crescimento, o que eles não encontram fora, né?
01:39Então, isso leva para eles uma condição de, olha, é melhor eu entrar para o mundo do crime
01:43que vai ser mais fácil eu conseguir alcançar aqueles bens materiais,
01:49aquele reconhecimento social que, eventualmente, eu teria caso eu conseguisse galgar,
01:56que eu conseguisse crescer aí dentro dessa situação.
01:59Então, a gente tem visto justamente essas questões, Roberta,
02:01de que esses jovens, esses adolescentes se sentem empoderados na prática criminosa.
02:07E, é claro, nós temos uma legislação também que ela é muito permissiva ao ponto de,
02:13olha, esses criminosos, quando adolescentes, quando jovens,
02:16eles ficam muito pouco tempo envolvidos nessas práticas de medidas socioeducativas, né?
02:22E medidas protetivas também, quando menor de 12 anos.
02:25Mas essa situação a gente precisa dar uma estudada.
02:28É claro que isso a curto prazo, a longo e a médio prazo,
02:31a gente precisa de políticas públicas capazes de fazer com que esses jovens e esses adolescentes
02:37retomem para essa perspectiva de uma sociedade mais segura e que o acolha,
02:41para que eles possam visualizar ali na frente uma condição de alcançar,
02:47eventualmente, questões aí dentro da própria sociedade em que eles estão inseridos, Roberta.
02:50Você falou dois pontos importantes que eu já quero repercutir aqui com o Jameson,
02:54que é a sensação de pertencimento, a importância disso e também da legislação.
02:59Você também tocou nesse ponto.
03:00Mas, Jameson, explica para o pessoal de casa, não é a primeira vez que a gente debate esse assunto aqui,
03:05sobre essa importância, dessa sensação de pertencimento.
03:08O que isso quer dizer na prática?
03:11O que isso representa para esse adolescente?
03:14Boa tarde, Roberta.
03:15Boa tarde a todos.
03:17Gente, o fenômeno da violência não é um fenômeno isolado, de forma alguma.
03:21A gente começa a tentar perceber que esse pertencimento dos jovens é muito maior do que uma psicologia individual.
03:31O próprio Freud dizia isso.
03:32Toda psicologia é, antes de tudo, uma psicologia social.
03:36Então, o que acontece?
03:37O que vem antes?
03:39A violência ou a fome?
03:42O que vem antes?
03:43A violência, a depressão ou as condições materiais?
03:48A gente sabe que as condições psicológicas, elas são posteriores às questões materiais.
03:56Então, se a gente está falando de uma sociedade, de uma casa, de uma situação global,
04:02que está falando, está versando sobre fome, falta de oportunidade para os jovens,
04:07descrédito dos processos educacionais.
04:10Porque, antigamente, o pai, que era pobre, dizia o seguinte,
04:13na minha família foi assim, dizia o seguinte,
04:15olha, eu não tenho nenhuma herança para te dar, mas eu vou te dar a educação.
04:19E a gente tinha aquela perspectiva de que a educação que a gente ia receber
04:23ia produzir em mim uma cidadania, um senso de cidadania,
04:27que ia me colocar mais próximo daquela sociedade.
04:30Hoje, não.
04:31Estudar não está querendo dizer mais nada.
04:33Então, essa perda de referência,
04:37acrescida dos problemas materiais,
04:39a falta de políticas públicas,
04:41o problema crônico que a gente tem visto de desemprego e falta de oportunidades.
04:46Isso tudo gera uma situação de violência,
04:50produz uma violência,
04:51e esse jovem fala,
04:53opa, qual é o mundo que eu pertenço?
04:56O que vai me ser dado depois daqui?
04:59Onde que eu vou me situar?
05:01E aí ele fica lá, cabeça vazia, oficina do diabo.
05:06O coleguinha chega e fala,
05:07vamos fazer um corre?
05:09Vamos ganhar alguma coisa?
05:11Você não está fazendo nada?
05:12Ninguém te dá nada?
05:14Qual a esperança que você vai ter nessa educação que você está recebendo?
05:17E, obviamente, que ele começa a ser captado.
05:21Ele começa a ser trazido para essa zona,
05:23e aí, no tráfico,
05:24ele cria uma relação de possível pertencimento.
05:27Mas vamos lembrar, Roberta,
05:29a gente viu acontecer ali uma fala de um desses jovens,
05:32era uma pedra de crack e R$ 50.
05:35Uma pedra de crack e R$ 50, o que é?
05:39Não é nada.
05:40Então, está faltando política pública e oportunidade para esses meninos.
05:44Só que tem muita gente em casa agora, acompanhando o programa,
05:47prestando atenção nessa sua fala de emissão,
05:48pensando assim, mas a violência sempre existiu, né?
05:51Eu também cresci, assim, nesse meio,
05:53mas não fui por esse caminho.
05:54O que que explica essas escolhas?
05:57Que uns conseguem,
05:58mesmo com toda dificuldade que o pai e a mãe têm,
06:01que acordam cedo para trabalhar,
06:02e as crianças ficaram ali também brincando,
06:05abandonadas na praça,
06:07e o pai e a mãe precisando dar duro,
06:08e a avó tentando ajudar, cuidar do filho.
06:10Alguns vão para o caminho certo e outros não.
06:14São redes.
06:16Redes de valores,
06:18redes de princípios,
06:21oportunidades.
06:21Você pensa assim,
06:22por mais que o solo seja arenoso,
06:25que você pense assim,
06:25não, não vai dar certo essa família.
06:27Ela dá.
06:28A gente tentou culpabilizar há muito tempo
06:31uma dita família,
06:32e falava assim,
06:33isso aí é porque ele é fruto de uma família desestruturada.
06:37Não.
06:38Não é isso.
06:40Existem espaços e maneiras de viver
06:42em que esse sujeito vai para um lado ou para o outro.
06:45Porque também teria o menino da classe média alta,
06:48que recebeu tudo,
06:49e que também foi para o mesmo caminho.
06:51Então, não vai ser a miserabilidade ou a falta,
06:55mas é um conjunto de situações,
06:58que vão permitir que aconteça alguma coisa,
07:01que vá para um caminho que a gente fala que é um caminho errado.
07:05Então, não é nem 9, nem 90, nem 8, nem 80.
07:10É um conjunto muito grande de fatores que vão influenciar isso daí.
07:14E olha só, agora eu vou conversar por telefone
07:16com uma moradora de uma dessas comunidades
07:19onde um desses ônibus foi incendiado.
07:22E ela vê esses meninos,
07:24a gente chama de meninos,
07:26porque são crianças, são adolescentes,
07:28entrando cada vez mais cedo para o tráfico.
07:32Não é isso?
07:32Obrigada pela sua participação.
07:33E é claro que por questões de segurança,
07:35nós não vamos revelar a identidade.
07:38Obrigada, viu, pela sua participação.
07:39Ele saiu muito.
07:41Boa tarde.
07:43Obrigada pelo espaço também.
07:46No caso, é verdade, né?
07:48Cada vez, adolescentes e crianças mesmo,
07:53cada vez mais novos,
07:54têm entrado para esse caminho.
07:56E é uma tristeza, né?
07:57Eu, no caso, já trabalhei com projeto social.
08:01Crianças que eu já dei aula,
08:03hoje em dia é muito triste a gente ver entrando nesse caminho
08:06para poder buscar poder, né?
08:08Eu acho que a palavra que eles mais querem,
08:10na verdade, é poder.
08:12Eles querem ter a honra de ser chamados,
08:15que está à frente desse caminho, né?
08:17Ser chamados gerentes.
08:19Altos padrões lá dentro do tráfico.
08:23Ou seja, eles querem seguir essa carreira.
08:26Se tornou um sonho para essas crianças.
08:29Isso, exatamente.
08:30É um sonho.
08:31Ali eles veem a possibilidade de, talvez,
08:34por mais que enganosamente, mudar a vida da família,
08:38de comprar algo para eles.
08:41Antigamente, eles queriam comprar um tênis.
08:43Hoje, eles querem comprar casa, comprar carro.
08:45E ali eles veem a oportunidade.
08:47Não sabendo que, infelizmente,
08:50não tem uma perspectiva de vida muito grande,
08:53mas é um dinheiro imediato.
08:55Eles querem dinheiro logo.
08:57E é ali que eles conseguem, né?
08:58E como você bem disse agora para a gente, né?
09:01Que você já deu aulas, né?
09:04Já teve esse relacionamento direto com muitos desses meninos.
09:07A gente sabe qual é o futuro deles, né?
09:10Que o final, só tem dois finais para eles.
09:12Ou acaba preso, ou acaba morto.
09:15Você se deparou com muitas histórias assim?
09:18Nossa, muitas.
09:19Muitas.
09:20E é muito triste.
09:21As mães, como falam às vezes,
09:24a família não quer...
09:26Claro que a família não quer aquele futuro para o filho,
09:29mas acaba que por falta de oportunidade,
09:32por falta, às vezes, de um projeto social
09:34atuando na comunidade para poder resgatar aquelas crianças,
09:37o tráfico acaba resgatando, né?
09:39O tráfico acaba abraçando.
09:43E aí acontece de deles entrarem nesse caminho
09:46e acontecer as consequências, né?
09:49Que é a morte ou a cadeia.
09:50E é muito triste.
09:52Já acompanhei vários enterros,
09:53várias crianças que eu acompanhei,
09:56hoje em dia são adultos, mas estão presos,
09:59que a família sofre, né?
10:01A família sofre, eles sofrem,
10:03e seus filhos vão acabar sofrendo, infelizmente,
10:05se não houver uma intervenção, né?
10:08E qual é o impacto disso,
10:10já que você disse aqui, né?
10:12Que você já presenciou vários enterros.
10:14Qual é o impacto disso nessa geração,
10:17nessas crianças, nesses adolescentes,
10:19quando eles perdem um colega, um amiguinho?
10:23Como é que é isso?
10:24Como é que fica?
10:24Como é que é essa dor, né?
10:26Porque eles têm essa noção de todo esse perigo?
10:32Eu creio que é meio que,
10:34quando eles entram para esse caminho,
10:35é meio que uma lavagem cerebral.
10:37Eu prefiro enxergar dessa maneira.
10:40Porque eles, como eu falei,
10:42eles querem poder,
10:43eles querem conquistar as coisas
10:46que talvez demorariam mais
10:47se ele seguisse o caminho correto.
10:51Então, é como aconteceu, né?
10:53Muitos agem com revolta,
10:56muitos querem vingar
10:58e querem partir para cima do Estado.
11:01E, às vezes, eles não pensam
11:03em simplesmente sair daquilo ali.
11:04Eles não enxergam a realidade
11:05de que aquilo ali vai acontecer
11:07com qualquer um que continuar naquele caminho.
11:09Eles querem a revolta.
11:10e acabam que continuam no mesmo caminho
11:13e continuam a mesma tristeza de sempre.
11:15Sempre jovens morrendo,
11:17jovens indo presos,
11:18famílias sendo destruídas, né?
11:21Acaba acontecendo isso.
11:23Mas é o seguinte,
11:23se você puder,
11:24continue com a gente aí na ligação.
11:26Daqui a pouquinho eu volto a falar com você.
11:28À medida que a gente foi batendo um papo,
11:30eu fui vendo sua expressão aqui, Rusley,
11:32o quanto você foi concordando, né?
11:34Até porque a gente já repercutiu
11:37isso aqui em outros momentos.
11:39Como é o papel hoje
11:42desses adolescentes
11:43quando eles são aliciados para o tráfico,
11:48cooptados,
11:48eles começam como?
11:49E como é que eles vão galgando?
11:52É, Roberta.
11:52Infelizmente, a gente tem visto justamente essa situação.
11:55Então, eles entram ali
11:56justamente para fazer aquele papel braçal, né?
11:59De fato, do mundo criminoso, né?
12:01Então, é aquele que vai lá
12:02e vai atrás daquilo que o chefe está pedindo, né?
12:05Porque o gerente do tráfico está pedindo, né?
12:07Fazer aquele papelzinho que você mesmo disse no início, né?
12:10De aviãozinho, né?
12:11Então, ele começa ali a tomar esse sentimento de,
12:15olha, eu começo a me sentir pertencido,
12:16porque o gerente, ele sabe disso, né?
12:18Ele sabe que ele começando a dar um pouquinho de poder ali,
12:21um pouquinho de poder aqui,
12:22esse sentimento de pertencimento
12:24vai trazer esse adolescente para o lado dele.
12:26Então, ele começa sempre na base ali.
12:28Só que essa base, Roberta, ela vai sendo progredida, né?
12:32A gente, de fato, tem ali uma empresa, né?
12:35Então, existem os níveis.
12:36Então, ele vai subindo de nível
12:38dentro daquela organização criminosa, né?
12:41E vai ganhando espaço.
12:42E quando ele ganha espaço, né?
12:44A nossa colega aí por telefone trouxe essa palavra
12:47que é muito importante.
12:49Na cabeça dele, na perspectiva dele,
12:51ele vai também ganhando poder.
12:53E quanto mais poder ele vai ganhando,
12:56mais forte ele vai se sentindo, né?
12:58Então, inclusive, a gente tem visto o aumento,
13:01inclusive, das expressões violentas desses adolescentes, né?
13:05Eles vão se sentindo empoderados,
13:07vão sabendo também, né?
13:09De que caso aconteça alguma coisa,
13:11a gente tem visto que eles retomam, né?
13:14Retornam para o processo das medidas socioeducativas,
13:17justamente porque é muito pouco tempo, né?
13:19E as medidas socioeducativas, de fato,
13:22estão trazendo aí à tona essa responsabilidade,
13:26mas, principalmente, tornando ele pertencente
13:28a esse outro lado social, que é o lado positivo, né?
13:31Então, a gente precisa ficar muito atento a essas questões.
13:34Então, ele vai entrando ali devagar, né?
13:37Se sentindo ali minimamente pertencido
13:39e vai ganhando poder.
13:41E esse poder vai levando a ele a chegar,
13:44inclusive, a nível de gerente, né?
13:46Como a gente já tem visto,
13:48a gente já noticiou, inclusive aqui, Roberta,
13:50daquele caso, né?
13:51Daquele menino de 15 anos,
13:52que ele já era o gerente do tráfico de drogas,
13:55inclusive muito violento, né?
13:57Então, isso, infelizmente, vem acontecendo.
13:59Mas o doutor Jameson trouxe uma situação importantíssima, Roberta,
14:02que é a ideia da educação, né?
14:05Nós temos um pensador chamado Adorno,
14:06que ele fala justamente disso.
14:08Essa emancipação que a educação traz.
14:11Então, a gente precisa, de fato,
14:12dessas políticas públicas.
14:14Esses dias, a gente estava até conversando, né, Roberta,
14:16daquela perspectiva de que,
14:17nessas comunidades,
14:18as crianças precisam brincar nas vielas, né?
14:21Porque não há espaço para elas brincarem.
14:23Não há local para elas brincarem.
14:25E aí, a gente quer que a resposta,
14:28que a conclusão seja diferente?
14:29Não tem como, né?
14:30A gente precisa mudar a base
14:32para que, daqui a pouco,
14:33a gente consiga encontrar jovens e adolescentes
14:36capazes de se sentir pertencido
14:37justamente nessa comunidade,
14:39nesse âmbito social positivo, né?
14:42Porque ele vai encontrar o poder,
14:43não lá na droga,
14:45não lá no tráfico,
14:46mas ele vai encontrar o poder aqui,
14:47dentro da sociedade,
14:48que vai acolhê-lo
14:49e vai fazer com que ele, de fato,
14:51esteja sentido pertencido
14:52nesse ambiente social que nós estamos.
14:55E olha só,
14:55a gente está falando aqui também de adolescentes
14:58que são reincidentes, né?
15:00Já tem passagem pela polícia.
15:02Esse que foi apreendido,
15:04que estava vindo do Rio de Janeiro,
15:05ele estava escondido lá na Rocinha,
15:07estava vindo do Rio de Janeiro para cá
15:09para coordenar mais um novo ataque,
15:12mas a polícia conseguiu agir a tempo, né?
15:15A percepção que a gente tem
15:17é que eles não querem mais sair desse mundo do crime.
15:21O que que explica isso?
15:22Mesmo depois que entrou,
15:24mesmo depois vendo o amigo ter um final trágico,
15:28ou preso ou morto,
15:29ainda assim, né?
15:31Eles só querem saber do poder.
15:32O que que explica isso, Jameson?
15:34O que que essa relação de poder causa
15:35na mente do ser humano?
15:38Quem não quer ser reconhecido?
15:41A gente fala de um lugar do anonimato,
15:44de que a gente quer ficar escondido das coisas,
15:46não, mas a gente quer se sentir amado.
15:49Talvez a base de toda a psicologia clínica
15:52seja que as pessoas desejam ser amadas.
15:55E aí, este afeto,
15:57esse mundo da afetividade,
15:59fala de um lugar de reconhecimento.
16:01Então, se eu estou na sociedade,
16:04eu sou um ninguém,
16:05e o tráfico me faz ser alguém,
16:09ele não vê a possibilidade dele escapar daquilo ali,
16:12porque ele já foi cooptado,
16:14ele já se entregou àquela situação,
16:17porque ele não vê oportunidades
16:20ou possibilidades dele ser alguém fora daquele mundo.
16:24Porque no mundo fora do crime,
16:27quem é alguém?
16:29É o político, é o médico, é o doutor,
16:32é a pessoa que é seguida na rede social.
16:35Então, inclusive, Roberto,
16:37não adianta só fazer o processo de violência,
16:40o processo de tráfico, a criminalidade.
16:42Muitos desses jovens,
16:44eles expõem essa criminalidade nas redes sociais,
16:47porque ele tem que aparecer com a arma,
16:48ele tem que mostrar o revólver,
16:51ele tem que mostrar,
16:52olha aqui o meu lugar de poder,
16:53eu me tornei alguém aqui.
16:55Há uma ostentação, né?
16:57Sim, sim, sim,
16:58porque, óbvio,
16:59do mesmo jeito que o sujeito está lá na festa
17:02e quer levantar o litro de uísque
17:04como sinal de poder,
17:06esse jovem, então, vai levantar a arma
17:08também como sinal de poder.
17:10Então, nós estamos falando de algo que é muito basal,
17:13muito intrínseco à natureza humana,
17:16que é onde eu me torno alguém.
17:20Se este lugar é a violência,
17:23é a criminalidade,
17:25é o tráfico,
17:26essa pessoa vai se afeiçoar,
17:28se apegar afetivamente a este espaço,
17:31porque ele não quer mais voltar a ser um ninguém.
17:34Agora, é muito importante,
17:36até deixar um posicionamento aqui,
17:38ninguém está aqui passando pano para bandido, não.
17:40O que a gente está discutindo aqui
17:41é a importância da educação,
17:43isso lá na base,
17:45para que a gente não veja mais casos no futuro acontecendo,
17:48e agora a gente vai entrar também no caso
17:50da importância da legislação.
17:51Porque se eu pegar para ler aqui os comentários também,
17:54Rusley,
17:55tem muita gente também
17:56que fica indignada.
17:58Quem não fica?
17:59Ok, as leis existem,
18:01mas prende,
18:02daqui a pouco está solto,
18:03ou então, quando vai preso,
18:05faz a pós-graduação dentro da cadeia, né?
18:07Isso.
18:07A gente tem que repensar,
18:08inclusive, Roberta,
18:09esse processo de reincidência,
18:11o porquê que esse processo de reincidência está acontecendo.
18:13Porque,
18:13se ele está indo para o sistema prisional,
18:16ou para o sistema socioeducativo,
18:18e está voltando para a sociedade,
18:19depois regressa,
18:21é porque alguma coisa ali
18:22dentro desse sistema também falhou.
18:24Então, a gente precisa pensar nisso.
18:25Mas, Roberta,
18:26a gente também não pode achar
18:27que a gente vive no país da Alice,
18:29das Mil Maravilhas.
18:31A gente tem um problema atual,
18:32um problema que precisa ser resolvido agora,
18:35que é o problema da violência.
18:37É claro que as políticas públicas
18:39já eram para ter sido implantadas
18:41e não foram,
18:42e continuam não sendo.
18:43Mas a gente precisa também demonstrar
18:45que a legislação,
18:47principalmente essa ideia,
18:48é porque a função da pena, Roberta,
18:50poucas pessoas falam disso, né?
18:51Uma das funções da pena,
18:53a gente usa o termo técnico,
18:54é retribuição.
18:55Ou seja,
18:56é também punir o mal
18:58que aquela pessoa praticou.
18:59Essa também é uma função da pena, né?
19:00A pena tem várias funções,
19:02três praticamente,
19:04mas uma delas é a retribuição.
19:05Em pouco tempo,
19:07em curto tempo,
19:08a gente precisa,
19:09de fato,
19:09demonstrar.
19:09Porque o que a gente tem visto?
19:11Que esses jovens,
19:12esses adolescentes,
19:12e não só os jovens e adolescentes,
19:15inclusive os adultos,
19:16a partir dos 18 anos,
19:18que podem, de fato,
19:19ser punidos pelo Código Penal,
19:21eles se sentem ali,
19:23dentro desse processo de impunidade.
19:25Então, eles sabem ali
19:26que se forem presos,
19:28vão ficar muito pouco tempo,
19:29sabem também que,
19:30dentro do sistema,
19:32eles vão conseguir reconhecimento,
19:34e aí, quando eles saem,
19:35eles vão sair mais forte
19:36do que quando eles entraram.
19:38Então, a gente precisa repensar
19:39todo o sistema de segurança pública
19:42no Brasil,
19:42inclusive o papel das polícias,
19:45inclusive o papel do Estado
19:46para essa garantia
19:48do seu dever,
19:49que está lá na Constituição,
19:50que é de garantir
19:51a proteção da vida
19:52e do patrimônio.
19:54Então, a gente precisa
19:54repensar toda a estrutura.
19:56É claro que,
19:57há curto tempo,
19:58a legislação nossa,
19:59ela é muito frágil,
20:00porque ela possibilita
20:02essa ideia de impunidade.
20:04Ela pode ser até boa,
20:05mas a gente tem que entender
20:06como é que nós estamos agora,
20:08neste exato momento.
20:09E, neste exato momento,
20:11ela traz essa ideia
20:12de impunidade,
20:13infelizmente, Roberta,
20:14e, infelizmente,
20:15não queria dizer isso,
20:16mas, infelizmente,
20:17a gente tem visto
20:18essa situação.
20:19Olha só que triste, gente,
20:20o comentário da telespectadora,
20:22a Thais Laine,
20:23ela participa com a gente
20:24aqui no Facebook,
20:24ela diz,
20:25eu perdi meu irmão
20:26no tráfico com 17 anos.
20:28Ele tinha tudo,
20:30era inteligente,
20:31mas escolheu o caminho errado.
20:33A família sofre demais.
20:35Ainda tem esse detalhe, né?
20:37A família que sofre,
20:39são pessoas que amam,
20:40são pessoas que estavam por perto,
20:42como isso destrói completamente
20:45a família.
20:46Deixa eu voltar mais uma vez
20:47a falar com a telespectadora,
20:48que vive,
20:50que vê com os próprios olhos,
20:52ela mora em uma dessas comunidades
20:54que também teve um ônibus incendiado,
20:56teve esse ataque a ônibus.
20:58Explica para a gente,
20:59já que você falou da importância
21:01dos projetos sociais.
21:02Se a gente for entrar em contato,
21:04tanto com prefeituras,
21:05quanto com o Estado,
21:07vão falar,
21:07ah, mas temos projetos sociais.
21:09Mas qual é a importância
21:11de ter projetos
21:12que efetivamente aconteçam
21:15e que aquela criança,
21:17aquele adolescente,
21:18tenha essa sensação
21:19de pertencimento?
21:22Ela me ouviu?
21:25Eu acho que a gente perdeu
21:26a comunicação com essa telespectadora, né?
21:29Bom, vamos seguir aqui com o programa?
21:31E eu também vi um outro comentário,
21:33Jameson.
21:35Opa, acho que eu estou ouvindo
21:36a voz dela ao fundo.
21:37A gente está melhorando
21:38a nossa conexão, é isso?
21:41Você conseguiu ouvir a minha pergunta?
21:44Consegui, sim.
21:45Fala para a gente.
21:48No caso, projetos sociais
21:50na comunidade
21:52são de extrema importância, né?
21:54Então, acaba que faz muita falta
21:58quando uma comunidade
21:59não tem um projeto social,
22:00porque, como eu disse,
22:02acaba que outros grupos
22:03acabam abraçando.
22:05Você está com o volume
22:06da sua televisão alto?
22:07Abaixa um pouquinho
22:08o volume da sua TV.
22:09Está dando um pouquinho
22:10de retorno.
22:13Só um momento, por favor.
22:15Enquanto isso,
22:16enquanto ela vai abaixando
22:17o volume da TV,
22:17olha só o comentário da Lilian.
22:19Ela diz, Roberto,
22:20o que mais tem é emprego.
22:21As pessoas não querem trabalhar.
22:23Eu tenho amigos,
22:24microempresários,
22:25que procuram pessoas
22:26para trabalhar e não acham.
22:28Ela também está falando
22:28de cursos que a gente vê
22:30sendo oferecidos,
22:31cursos de graça,
22:32mas ela tem a sensação
22:33de que jovens não querem,
22:35querem também uma vida fácil.
22:37E aí, eu também quero saber,
22:39você, Jamerson,
22:40qual é o impacto disso?
22:41A gente está falando
22:42de uma geração
22:43que é produtiva,
22:4516, 17 anos,
22:46era para estar ingressando
22:47aí no mercado de trabalho.
22:49Qual é o impacto disso
22:50daqui a pouco?
22:51que a gente já está vendo aqui?
22:53Já ouvi também casos
22:54de pessoas que falam,
22:55gente, eu não estou conseguindo
22:55achar mão de obra,
22:57eu não encontro pessoas
22:58querendo trabalhar.
23:00Mas aí, eu nem vou falar
23:01como psicólogo,
23:02vou falar como diretor do IFES.
23:05A gente tem colocado
23:06no mercado vagas
23:08de formação inicial e continuada,
23:09cursos fixos,
23:11cursos técnicos,
23:12mas o que acontece, Roberta,
23:14a gente vê também acontecendo
23:16é o quê?
23:19Isso, gente,
23:20não é uma questão simples,
23:22é uma questão estatística,
23:23a gente tem falta de emprego, sim,
23:25e a gente tem falta
23:26de mão de obra qualificada.
23:28Então, estou precisando
23:29de alguém,
23:30mas com algumas coisas.
23:33E a escola técnica,
23:35o IFES, as escolas,
23:36a gente tem oportunizado
23:38cursos nesse sentido.
23:40Só que acontece,
23:42a gente precisa de mais.
23:44A gente vive um momento
23:46muito triste
23:48com relação à história da educação,
23:50que é a gente precisa
23:52de investimento.
23:54Se a escola,
23:55a formação técnica,
23:57a formação superior
23:58for entendida como algo secundário,
24:01a gente vai só aumentar
24:02essas redes de violência.
24:04E outra,
24:05a gente precisa também
24:06de que essa mão de obra
24:08seja inserida de maneira digna,
24:10porque também não ter salários,
24:13que a pessoa consiga sobreviver...
24:17Peraí,
24:17então, como assim?
24:18O mercado.
24:19Quem é essa pessoa,
24:21essa senhora,
24:22esse senhor chamado mercado?
24:24A gente precisa criar oportunidades
24:28efetivamente.
24:29E a educação é um caminho seguro
24:32para isso.
24:33Agora,
24:34eu preciso dar condições também
24:35para esse menino estar ali.
24:37Ele tem condição de ter uma bolsa
24:39para ele ajudar em casa.
24:41Nós temos realidades hoje
24:42que o menino chega
24:44ali no IFES
24:45com fome.
24:49os nossos meninos
24:50do integrado,
24:51e nós estamos falando
24:51de cursos,
24:53o IFES é reconhecido
24:54desde que era escola técnica
24:55como um centro de excelência
24:57na formação de ensino técnico
24:59aqui no Espírito Santo.
25:00E o menino chega
25:01no curso técnico integrado
25:03com fome.
25:05Então,
25:06algo não está certo.
25:07É,
25:08a gente sabe
25:08que existem
25:09vários fatores,
25:11que é o que a gente está discutindo
25:12aqui
25:12desde o início,
25:14que impactam
25:15direta ou indiretamente
25:16na violência.
25:17Agora,
25:18Dianne,
25:18o pai,
25:19a mãe,
25:20o avô,
25:21a avó que está agora
25:22acompanhando o programa
25:23e tem um filho
25:25que está entrando
25:26nesse caminho.
25:27O que eles podem fazer
25:29por essa nova geração?
25:31A família
25:32é a primeira rede.
25:34Se eu não me sinto
25:35em casa,
25:36nada dá certo.
25:38Essa família
25:39tem que acolher
25:40essa pessoa
25:40como de fato
25:41alguém da casa,
25:43como parte da casa.
25:44ele é meu,
25:46ela é minha.
25:47E fazendo parte
25:48daquele reconhecimento
25:50que ia ser no tráfico,
25:52aquele empoderamento
25:53que ia ser no tráfico,
25:55ele começa em casa.
25:56Então,
25:57a família
25:57é o lugar
25:58das redes de afeto.
25:59A família
26:00é o lugar
26:01do abraço
26:01e da palmada.
26:03A família
26:04é o lugar
26:04da correção.
26:05A família
26:06é o lugar
26:06dos valores.
26:08A família
26:08é o lugar
26:09do não.
26:10Eu tenho medo
26:11de algumas pedagogias
26:12positivas hoje
26:13que têm falado assim
26:14que você não pode dizer não.
26:15Gente,
26:16se não tem não,
26:17não tem limite.
26:18Então,
26:19o que acontece?
26:20Esse sujeito,
26:21essa família
26:22tem que trazer
26:22este ente,
26:24essa parte dela
26:25com amor,
26:27mas também
26:28com o braço seguro
26:29do valor,
26:30do ensinamento,
26:32da regra.
26:33E aí,
26:34cabe ter que pedir ajuda
26:35a todas as políticas públicas
26:37que estão no entorno.
26:38Porque a família
26:39também sozinha
26:40não consegue.
26:40ela vai precisar
26:42do padre,
26:43do pastor,
26:43da igreja,
26:45ela vai precisar
26:45da comunidade,
26:46ela vai precisar
26:47da escola,
26:49ela vai precisar
26:49de políticas públicas,
26:51ela vai precisar
26:52da assistência social.
26:54Então,
26:54assim,
26:55se a gente
26:55entende
26:56que este é um problema
26:57da sociedade,
26:58Roberta,
26:59a gente trata
27:00esse problema
27:01como um problema social.
27:02E não é só mais
27:04a responsabilidade
27:05da família A
27:05ou da família B,
27:06mas a responsabilidade
27:08minha também
27:08como contribuinte,
27:09como alguém
27:10que paga imposto,
27:11que quer ver
27:12a escola pintada
27:12e bonita,
27:13que quer ver
27:14o livro didático,
27:15que não quer ver
27:16ali um menino
27:17sem aula,
27:18que quer ver
27:19a praça pintada,
27:21que quer ver
27:21o parque bonito
27:22para brincar,
27:23que quer ver a bola,
27:24quer ver o professor
27:25de futebol.
27:27É uma rede.
27:29Olha,
27:30se deixasse,
27:30a gente ficava aqui
27:31até amanhã
27:32falando desse assunto,
27:33porque até
27:34a gente está vendo
27:35uma interação
27:35muito grande
27:36no nosso Facebook,
27:38de histórias,
27:38pessoas que tiveram
27:40algum familiar
27:41envolvido,
27:41pessoas que já
27:42se envolveram
27:43nesse mundo,
27:44mas infelizmente
27:45o nosso tempo acabou.
27:47Agradeço muito
27:47a participação
27:48de vocês aqui.
27:49Obrigada,
27:49Rusley,
27:50mais uma vez.
27:50Obrigada,
27:51Vildi Emerson,
27:52e obrigada a todos
27:52vocês que também
27:53interagiram com a gente
27:54aqui no nosso Facebook.
27:55Obrigada.