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  • há 3 semanas
O que a família pode fazer para evitar que esses jovens sigam pelo mal caminho

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Transcrição
00:00Eu sei que aí do outro lado da TV tem muita mãe sofrendo o mesmo drama dessa mulher que a
00:06gente vai mostrar agora.
00:08Ela é mãe do adolescente de 12 anos que foi baleado dentro de um carro em Cariacica.
00:13O menino passou por uma cirurgia, está internado.
00:16A mãe conta, gente, que o filho vem dando já muito trabalho, andando com más companhias.
00:22Essas companhias que são envolvidas com o tráfico de drogas, olha só o desespero e o desabafo dessa mãe.
00:30Gosto muito de ficar no meio das amizades, né?
00:33E o que a amizade foi um exemplo para ele, né?
00:38Para ficar marcado o resto da vida.
00:40É muito complicado, né? Estou pai e mãe nessa situação, né?
00:45Preciso trabalhar, preciso deixar em casa.
00:48O que a senhora espera depois de passar um susto desse, né?
00:51Que ele melhore, né? Que ele siga isso daí de exemplo, né?
00:56Porque hoje eu posso falar que ele é um milagre, né?
00:58E no caminho até o hospital ele falava alguma coisa do que tinha acontecido?
01:03Não, só pedia, pelo amor de Deus, para não deixar ele morrer.
01:06Coisa que ele nunca chegou a falar, né? Porque me amava, né?
01:11Está emocionada, né?
01:13Pouco.
01:19Meu Deus, né, gente? Essa mãe ainda tem a esperança de que tudo isso sirva de lição para esse menino,
01:26para o filho dela.
01:27Mas quantas mães não podem mais ter essa esperança?
01:32Quantas já não enxergam mais uma luz no fim do túnel?
01:35A gente vai bater um papo sobre esse assunto, vem cá.
01:38Aqui no nosso estúdio eu recebo o psicólogo Alexandre Brito e também Edwilson Almeida,
01:42que é pedagogo e já trabalhou muitos anos, gente, como conselheiro tutelar.
01:47E conhece de perto o caminho que leva esses meninos para o mundo das drogas, né?
01:52Esse mundo da criminalidade.
01:53Obrigada, sejam bem-vindos ao programa.
01:56O que leva, a gente se coloca no lugar dessa mãe, né?
01:59O desespero que ela está vivendo agora.
02:01E o que leva um menino de 12 anos que mal sabe escolher a roupa que vai botar no corpo,
02:09né?
02:09Se não tem essa maturidade para fazer escolhas na vida, quem dirá, escolhas que podem levar para um caminho sem
02:16volta.
02:17O que leva uma criança, 12 anos, uma criança a optar por esse caminho, Alexandre?
02:24Então, quando a gente vai vendo casos de jovens, muito jovens, 12 anos, 11 anos, 10 anos, muitas vezes,
02:32se envolvendo, e aí eu não sei se a palavra é se envolvendo ou sendo envolvidos,
02:37a gente vê que o tráfico de drogas não é só um tráfico de drogas, é muito mais do que
02:42isso.
02:42Ele representa muito mais do que isso na comunidade e para algumas pessoas.
02:47Então, o que a gente vê, a priori, são duas coisas, Roberta.
02:50Por exemplo, aquela criança de talvez 9, 10 anos, que ela é chamada para avisar,
02:57olha, quando chegar a polícia, você avisa para a gente.
03:00Então, ela já está participando desse movimento, só como exemplo.
03:04Então, isso dá para essa criança, pelo menos, dois sentimentos.
03:08Um, de produtividade.
03:10E o segundo, de pertencimento.
03:12Então, ele vai se sentindo pertencente àquele movimento, que pode haver um certo status,
03:20que pode também trazer algumas questões de ganhos, algumas questões que ele pode obter a partir disso também,
03:27de modo até imediato, muitas vezes.
03:30Então, essa é uma das questões.
03:33Traz uma sensação de identidade.
03:35Então, participar mesmo na ilicitude.
03:39Isso, é claro que é uma sensação de identidade, ainda que com vulnerabilidade.
03:45Então, a gente tem que pensar nesse sentido.
03:47Quando a gente fala, então, no aspecto psicológico, também tem essa questão que o famoso tráfico abraça,
03:55vamos dizer assim, convida, traz algumas promessas que podem fazer com que
04:00uma pessoa com 12 anos não tem tanto discernimento para saber, por exemplo, tomar uma decisão sobre isso.
04:08Então, ele acaba se sentindo produtivo, parte de uma espécie de comunidade, tem uma identidade,
04:15alguns ganhos e alguns riscos também que ele vai vendo com o tempo e isso vai o tomando.
04:21Mas, de início, como é que entra nessa vida, pode se dar por aí.
04:26E também pela vulnerabilidade do sujeito, que aí ele também está circulado ali por questões familiares,
04:34por questões, às vezes, de pobreza e família, por questões de mesmo influência, de estar com aquela presença ali presente.
04:41Edwilson, você que já atuou muitos anos como conselheiro tutelar,
04:46a gente pode dizer que, na prática, é exatamente isso que o Alexandre disse?
04:50Boa tarde.
04:51Boa tarde para você de casa.
04:52Boa tarde.
04:54Boa tarde.
04:54É realmente isso, Roberta.
04:55É uma tristeza, né?
04:57Porque a gente está falando de uma criança, né?
05:01Agora, que acabou de se tornar um adolescente, 12 anos, e já começa a experimentar tudo isso.
05:09E a gente vê ali o desespero de uma mãe, de um membro da família, porque não sabe lidar com
05:16uma situação.
05:17Na verdade, essa é a realidade de muitas crianças e muitos adolescentes que a gente vê dioturnamente.
05:23O caminho.
05:25A gente percebe que muitas dessas crianças, muitos desses adolescentes que se envolvem precocemente com a criminalidade,
05:33a gente percebe a situação que o doutor bem falou sobre a vulnerabilidade.
05:38Como é essa criança, esse adolescente, dentro do seu seio familiar?
05:44O que é que ele tem?
05:45O que é que ele come?
05:46O que ele veste?
05:48Eu tive, eu não sei, eu disse prazer de ouvir de um adolescente bem recente, Roberta, e ele me disse
05:56assim,
05:57você está falando que o que eu fiz foi errado?
06:00Ele estava se referindo a tráfico, envolvimento, né?
06:0412 anos, a mesma idade desse menino.
06:06E eu disse, eu tentando colocar nele a importância de ele se direcionar por outros caminhos, sabe o que ele
06:14me disse?
06:15Ele me disse, você está falando que a primeira vez que eu, com 12 anos, consegui colocar pão dentro da
06:21minha casa,
06:22através do tráfico, isso é errado?
06:24Olha como é que isso é forte.
06:27Essa questão de identidade, de liberdade, a maioria dessas crianças, desses adolescentes,
06:32eles não têm uma figura paterna presente.
06:35Muitas das vezes é as mulheres assumindo a responsabilidade de um relacionamento que machucou elas,
06:44e aí elas vão tentar assumir a responsabilidade de pai e de mãe dentro da casa,
06:49e aí o filho já cresce sem a presença do pai,
06:53aí a gente vai para as áreas públicas que a gente tem,
06:56as praças que não são construídas, os direitos que essas crianças não têm,
07:02a cultura, por exemplo, a educação fragilizada.
07:05Então, tudo isso é um caminho.
07:07A política pública, ela é uma possibilidade,
07:10e ajuda muito a quebrar esse paradigma de direcionamento de crianças e adolescentes
07:17envolvido no tráfico de drogas.
07:19E olha só, você tocou num ponto muito importante,
07:21a importância da figura paterna, a importância da família,
07:26e foi exatamente isso que essa mãe emocionada falou.
07:31E a gente vai entrar com ela agora por uma ligação.
07:35É claro que a gente não vai mostrar a imagem dela por questões de segurança.
07:39Primeiramente, a gente quer saber como é que está, mãezinha,
07:42como é que está o seu coração nesse exato momento.
07:45De ontem para hoje, eu tenho falado tanto de você,
07:47e eu falei, gente, essa mãe deve estar com o joelho no chão,
07:50orando, pedindo a Deus, né, por mais uma chance ao filho dela.
07:55Como é que está o seu coração, mãezinha?
07:57Ah, está a mil, né?
07:59Está a mil.
08:00Com a criança de 12 anos, tomar 14 tiros, né,
08:03é um milagre enorme.
08:06Como é que foi que você ficou sabendo de tudo?
08:08Como é que você foi informada?
08:10Eu tinha acabado de chegar do serviço,
08:12eu estava num plantão de 24 horas,
08:14aí tinha 5 minutos que eu tinha chegado,
08:16e aí meu telefone tocou.
08:17Ele mesmo que ligou.
08:20Quando ele te ligou e te deu essa notícia?
08:23Eu não acreditei.
08:25Aí a outra mulher foi e me falou que era verdade,
08:29aí eu fui para o local.
08:33Perdão, mãe, é porque no finalzinho falhou para mim.
08:36Você não chegou a acreditar no que estava acontecendo, foi isso?
08:40Isso, não acreditei.
08:41Porque eu já tinha avisado tanto ele, né,
08:44o que as amizades fazem, né?
08:45As companhias.
08:48Então, a gente não acredita, entendeu?
08:51Na realidade.
08:52Ele tem apenas 12 anos.
08:5612 anos.
08:57E o que você já vinha,
08:59quanto tempo também você já vinha conversando com ele,
09:02tentando dar conselhos?
09:03De que forma que ele reagia a esses conselhos?
09:08Ah, tem uns dois anos já, desde 2020, eu venho conversando com ele, falando, né?
09:14Sai do meio das amizades, eu trabalho, eu tinha que deixar ele sozinha em casa.
09:18E não estava fazendo nada, não estou fazendo nada, mãe, não estou fazendo nada, estou na rua.
09:24E deu no que deu, né?
09:26Hoje, né?
09:27O nada deu tudo.
09:29E ele te fazia um pedido muito, ele te fez um pedido muito especial,
09:33à medida que você tentou socorrê-lo, né?
09:36Que você estava a caminho do hospital com ele.
09:38O que ele te pedia?
09:39Você acha que naquele momento, ele teve a noção do perigo,
09:43de tudo o que estava acontecendo, do risco que ele acabou se envolvendo?
09:48Sim, sim.
09:50Todo tempo ele falava comigo, mãe, não deixa eu morrer, não, não deixa eu morrer.
09:54E no final, assim, né?
09:55Ele falava, mãe, eu te amo, coisa que nunca falou, né?
09:59A gente tem 12 anos, nunca falar que amou a mãe, né?
10:02Agora aquela pergunta que não quer calar.
10:05E o pai dessa criança?
10:07Cadê o pai do seu filho?
10:10Eu sempre fui pai e mãe, né?
10:12Uma onda de história.
10:13Depois de oito anos que eu encontrei o pai dele,
10:16eu ia atrás, pedia ajuda, por eu ser pai e mãe.
10:20Ele nunca, né, se plantificava, né?
10:22Ficava assim na dele.
10:24Mas tudo tem seu tempo, né?
10:26Nesse tempo aí, agora que chegou, né?
10:28Nessa fatalidade.
10:30Que ele, né?
10:31Está dando assistência.
10:33Eu vim aqui, entendeu?
10:35Enquanto meu filho tirou um pouco o acedamento,
10:37eu falei com ele que a família dele estava procurando,
10:40ele até chorou, né?
10:42Porque ele sempre quis o apoio do pai.
10:46Nesse exato momento agora, com o seu filho internado,
10:49o pai está dando apoio?
10:51Sim, está.
10:52Depois de doze anos.
10:56Olha só, parece que é uma nova chance para a família, né?
10:59Para ambos, né?
11:00Para o pai rever as posturas de pai,
11:03para o filho rever também o caminho que ele quer seguir.
11:07Como é que você, como mãe,
11:09qual é o sentimento que você fica depois de tudo isso que aconteceu?
11:23Você imaginava que em algum momento da sua vida
11:26você fosse enfrentar essa tamanha dor que você está sentindo como mãe?
11:31Não.
11:32Uma dor que eu não desejo para ninguém.
11:35O que você diria, o que você fala para outras mães
11:39que estão vivenciando esse mesmo drama,
11:42que já tentaram tantas conversas,
11:45tantos diálogos com seus filhos e não conseguem?
11:49O que você diria para essas mães?
11:52Primeiramente, ter fé, né?
11:54E quando falar que está ali, ali,
11:56eu vou aqui, sempre ir,
11:59porque eu sempre falava que estava ali, não ia, né?
12:02Atrás, porque eu já estava desgotada.
12:05Mas o importante é nunca, nunca
12:08deixar o seu filho assim,
12:09porque eu sei o que eu estou passando agora, tá?
12:13Eu não estava mais aguentando.
12:14Então, quando eu entreguei para Deus,
12:17olha aí porque Deus agiu, né?
12:19A hora exata, né?
12:20Fazer o livramento.
12:22Em que momento,
12:23você já disse que isso foi aproximadamente há dois anos,
12:26em que momento você percebeu
12:28que seu filho,
12:30esse mãe, eu vou ali, eu vou aqui,
12:32em que momento que você começou a perceber
12:34que tinha algo de estranho?
12:37Isso daí, esse algo estranho aí,
12:38tem aproximadamente uns seis meses.
12:42Tem uns seis meses.
12:44Você percebeu tanto nessas atitudes dele,
12:47de não dar satisfações,
12:50de companhias?
12:52Sim, deu bater,
12:53eu chegava a bater muito, muito mesmo.
12:56Chegou um tempo que eu não queria mais bater,
12:58porque eu ficava até com medo deles me denunciar, né?
13:01Falava, não, agora eu não vou bater mais.
13:03E não batia mais, entendeu?
13:05Isso é desespero, né, mãe?
13:07É.
13:08Isso é desespero.
13:10E como é que está o estado de saúde dele?
13:13Hoje ele está estável, né?
13:14Está sedado, está no oxigênio,
13:18está um pouco inchado, né?
13:20Bom, ainda tem mais os cuidados médicos.
13:22A gente não corre disso.
13:24Está certo.
13:26Mãezinha, joga seu joelho no chão.
13:28Quatorze tiros.
13:30Que seu filho de apenas doze anos levou.
13:33É uma nova oportunidade.
13:34Eu não tenho dúvidas que é uma nova oportunidade
13:37que Deus está dando para o seu filho.
13:39Que vocês consigam juntos encontrar um novo caminho.
13:43Que esse pai se faça presente.
13:45Porque muitos pais que agora estão acompanhando o programa
13:49estão refletindo sobre isso também.
13:51Muito obrigada pela sua participação, viu?
13:54Mantenha esse joelho seu no chão.
13:57A sua fé fortalecida.
13:58Eu tenho certeza que Deus vai dar essa benção a vocês.
14:02Tá?
14:02Obrigada pela sua participação.
14:05Tá bom.
14:06Nossa, é de faltar fôlego na gente, né?
14:09Parar para pensar, a gente se colocar no lugar dessa mãe.
14:12E você viu, né?
14:13A sua fala foi de encontro com a fala dela.
14:15A importância da figura paterna.
14:17Essa família acaba sendo desestruturada.
14:19Olha que situação, né?
14:20Na fala dessa mãe, né?
14:23Roberta, a gente pôde ver o desespero, a fragilidade, né?
14:30Ela falando que ela assumiu a responsabilidade de pai
14:34porque não teve a presença paterna.
14:37Roberta, toda criança que cresce sem a figura materna ou paterna, ela já é uma criança deficiente.
14:48Porque no período de anomia, que é o período de 0 a 7 anos, a criança, ela precisa criar referência
14:56de um pai e de uma mãe.
14:57Ela precisa olhar para os comportamentos do ser humano, homem e mulher, e perceber a importância que eles fazem na
15:08vida dessa criança.
15:09É referência.
15:10Quando esse pai, ele não se torna presente, automaticamente, essa criança já cresce deficiente.
15:18Então, quando ela chegar na fase da heteronomia ou da autonomia, ela vai estar deficiente.
15:26E, às vezes, você olha, não é uma deficiência física, é uma deficiência emocional.
15:32Existem muitos pais, já que é um caso, né?
15:35Que ela colocou tão expressivo aqui para a gente, que acham que o fato de dar uma pensão é suficiente
15:45para poder resolver o problema de uma criança.
15:48Não.
15:49É o seu cuidado, é o seu aproximar-se, é a sua afetividade.
15:54Isso tudo faz a diferença na vida de uma criança.
15:56Porque a mãe, por outro lado, ela tentou assumir toda essa atribuição que não competia apenas ela, competia a figura
16:05paterna.
16:06Aí ela precisava de trabalhar para colocar a comida dentro de casa.
16:09E o filho ficava onde?
16:11Sozinho.
16:11E é o período que o crime precisa para poder destruir a sua família.
16:17Quando você não tem tempo para poder ficar com o seu filho.
16:21Então, olha que situação a gente chegou, graças a Deus, que ele está se recuperando.
16:26Mas a maioria dos casos, a gente não tem uma história tão feliz assim.
16:32A gente tem que ficar muito ligado porque as coisas ruins estão em volta das crianças, das famílias.
16:41E se a gente não tomar uma postura, a gente vai ser alvo disso também.
16:45É exatamente isso.
16:47O futuro desses adolescentes e jovens que entram para o tráfico é um futuro que nunca é brilhante.
16:52Por isso que a gente fala tanto sobre esse assunto aqui no programa Não Fala Espírito Santo.
16:57Na semana passada, nós mostramos aqui, gente, na TV Vitória, o caso do Matheus Santos Silva, que tinha 22 anos.
17:04Ele foi assassinado no bairro de Aburuna por causa também do envolvimento com o tráfico.
17:08Mas esse não foi, gente, o único caso de violência a devastar essa família.
17:13Há 11 meses, um dos irmãos de Matheus, o Guilherme Santos Silva, de 17 anos, também foi morto.
17:22Segundo a família, a dinâmica do crime teria sido a mesma.
17:25Ele foi atraído para um bairro vizinho e depois assassinado.
17:29A avó do jovem assassinado falou sobre as tentativas da família, viu?
17:32De ajudar esse rapaz, de afastá-lo da criminalidade.
17:35Vamos ver como é que foi esse desabafo dessa avó.
17:39Eu fui várias vezes tentar tirar ele de lá.
17:42Meu filho, vamos embora.
17:43Aluguei casa, lugar separado, cidade.
17:46Vamos embora.
17:47Sai desse lugar.
17:49Eu perdi o irmão dele, Guilherme, com 17 anos.
17:52Lá no Morro da Taíde.
17:54Faz a mesma coisa também, uma emboscada.
17:57Porque o Matheus foi morto pela emboscada.
18:00Própria gente que se dizia amigo.
18:03Gente, nesse mundo, nesse mundo do crime, nesse mundo, as pessoas não têm amigo, não.
18:13Bate no seu ombro falando que é amigo.
18:15Ninguém tem amigo.
18:16Não, ninguém tem amigo.
18:19Muito importante a fala dessa mulher, gente.
18:23Existe, Alexandre, você que, como psicólogo, já ouviu vários casos, né, de pessoas envolvidas com as drogas.
18:31O que você escuta desse relato, né?
18:34Existe amizade no mundo das drogas?
18:37É aquela amizade que, quando acaba o interesse, acaba a amizade.
18:40Então, isso talvez não seja bem uma amizade.
18:43A amizade é aquela que faz com que os dois cresçam juntos.
18:46A amizade não te coloca em risco, Roberta.
18:48A amizade, pelo contrário, ela tem muito mais a função protetiva, né?
18:52Então, a amizade, ela é parte da rede de proteção, da rede de apoio, que envolve família.
18:58Mas, às vezes, a família, a gente vai vendo também, que ela vai tentando fazer um papel solitário.
19:02Às vezes, a mãe vai lá onde está acontecendo o tráfico para tentar resgatar, tirar o jovem, o filho.
19:08E a família tenta isso de modo solitário.
19:11Mas, também, a comunidade é responsável pela adolescente, tá?
19:15Isso, inclusive, está no Estatuto da Criança e do Adolescente.
19:18Comunidade, a implementação das políticas públicas.
19:21A família, né? O Estado em si.
19:24Enfim, então, a gente vai vendo, né, pessoal?
19:26Que, de fato, não seria a amizade, nesse sentido, então, de uma amizade virtuosa,
19:34que te traz algo de bom, que te traz algo de vida.
19:38Mas, aquela amizade, talvez, por prazer, que quando acaba o prazer, acaba a amizade.
19:43Aquela amizade por interesse, que quando acaba o interesse, acaba a amizade na mesma velocidade.
19:48E a mãe tenta alertar, os pais tentam alertar, falar assim, fulano, não é seu amigo.
19:54Abre o olho.
19:56Como que os pais, os avós, conseguem ter um diálogo?
20:01Vamos lá, porque não é fácil.
20:02Eu já fui adolescente, vocês também.
20:04Não é fácil.
20:05Parece que o que o pai e a mãe da gente estão falando, parece que ele não entende de nada,
20:10não.
20:10Como que a gente pode se aproximar dessa linguagem desses adolescentes?
20:14Ainda mais com o adolescente, quando ele está saindo da infância, ele faz um luto da adolescência,
20:18da infância, e está se despedindo de ser criança, o dia da criança já não tem presente, e assim vai.
20:24Então, ele começa a criar grupos, e esse grupo não inclui a família.
20:28A família fica um pouco de fora, porque ele está conhecendo novas realidades, novos mundos,
20:32novos prazeres, novas sensações, a sexualidade, conhecendo novas famílias, novos modos de existência,
20:40novas formas de lidar com o corpo, novas cores, novo jeito de cuidar da pele, enfim.
20:45A família precisa, Roberta, está disposta e disponível a escutar, a acompanhar, a se fazer presente.
20:52Mas a pergunta que eu sempre faço para os pais é, você está disposto a ouvir o que o seu
20:56filho é e o que ele quer ser?
20:58Porque, muitas vezes, não. Muitas vezes, acabam querendo impor alguma forma de ser, alguma profissão,
21:06uma jornada de trabalho também, e isso está sufocando muitos jovens, essa pressão, essa necessidade,
21:13inclusive, de o tempo todo estar ali produzindo ou fazendo alguma coisa nesse sentido, essa cobrança em excesso.
21:20Então, o mais importante é tentar, precisa falar exatamente a linguagem, o vocabulário do jovem,
21:26mas conhecer os amigos, conhecer onde ele frequenta, saber o que ele gosta,
21:32até tentar promover esses momentos também junto com ele, e escutar.
21:37E, agora, uma coisa muito importante, em geral, eles dão sinais, dão muitos sinais, né?
21:42Dão sinais, um dos principais sinais é o isolamento e o falto de contato com a família.
21:48Então, não é normal, às vezes, o seu filho sair de casa...
21:51É causa de satisfação, né?
21:53Satisfação, sair de casa, não falar com você, às vezes, dorme fora.
21:57Isso não pode ser normalizado.
21:59Mas, antes de você também tentar resolver de uma forma, talvez, até agressiva, isso é perigoso também,
22:04tenta escutar, tenta escutar primeiro, tenta entender, se aproximar,
22:07e, ali, fazer com que ele também se sinta pertencente a essa família,
22:11mesmo que ele não siga as tradições da família, mesmo que ele não seja o orgulho da família,
22:16ele não precisa ser o orgulho da família, mas ele precisa ser protegido por ela.
22:20Então, saber escutar essa diferença que pode haver na juventude,
22:25que vai brotando ali na adolescência, isso é fundamental.
22:29Wilson, você, como eu já bem disse, atuou por muitos anos como conselheiro tutelar,
22:35sempre engajado, né, em tentar ajudar as nossas crianças.
22:40Queria que você falasse assim, de que forma?
22:42Que, às vezes, a gente vê, às vezes, o pai e a mãe estão trabalhando, eles não veem,
22:47mas, às vezes, a gente vê o adolescente envolvido com coisa errada,
22:52um adolescente usando uma droga na calçada, no meio da rua.
22:56Como que a gente pode, a sociedade, né, em parceria com o conselho tutelar,
23:00pode contribuir para a mudança do caminho dessa criança?
23:04Roberto, muito interessante essa pergunta,
23:06até porque a dúvida de centenas de milhares de mães e pais e avós,
23:11que muitas das vezes assumem também a responsabilidade,
23:15quantas vezes eu já atendi, enquanto trabalhava no conselho tutelar,
23:21avós, que a criança não tinha nem o pai e nem a mãe como referência.
23:27Aí veio uma família extensa, né, veio a avó para poder assumir essa responsabilidade.
23:33Como resolver isso? Não é fácil.
23:36A primeira coisa, a criança, ela precisa de ter o tempo dela,
23:43a criança, ela precisa de ser acompanhada dentro do processo de desenvolvimento dela,
23:49tanto a criança quanto o adolescente,
23:50e requer uma responsabilidade de quem é pai e mãe de verdade.
23:56Qual é a minha responsabilidade? Qual é a sua responsabilidade como pai, como mãe ou como responsável?
24:04Você se incomoda quando o seu filho, ele sai sem te falar?
24:09Se você não se incomoda, comece a se incomodar,
24:12porque se ele não está te falando onde ele está indo, outra pessoa vai saber.
24:17É muito importante esse acompanhamento.
24:20A gente ouviu muito bem o colega dizendo sobre a questão do isolamento.
24:26Se uma criança, se um adolescente está se isolando,
24:30você tem se preocupado por que ele tem se isolado?
24:33O que está acontecendo dentro da sua casa?
24:36A sua presença como pai, como mãe, é muito importante.
24:40O Estatuto da Criança e do Adolescente, ele foi criado em 13 de julho de 1990.
24:47Mas essa ferramenta, ela trouxe para a gente uma visão muito interessante da responsabilidade
24:54que pais e mães devem ter com o filho.
24:56E a primeira delas é a preocupação com o meu filho.
25:01Antes da criança e do adolescente ser uma responsabilidade do Estado,
25:05o Estatuto, a Constituição, apresenta a família como responsável pela criança e pelo adolescente.
25:15É quando a família, ela não consegue dar condições, onde o Estado vai criar condições também.
25:23É claro, o Estado tem responsabilidade também,
25:26criar políticas públicas de assistência, de saúde, de segurança, de educação,
25:31mas não isente a sua responsabilidade de se preocupar com as reações no processo de desenvolvimento do seu filho e
25:41da sua filha.
25:42Olha só o comentário da Lourdes, que participa com a gente pelo Facebook.
25:45Ela fala, boa tarde, Roberta.
25:47Só a mãe que passou por isso e hoje vê seu filho com 28 anos, sabe o que pensar.
25:54Sabe muito bem que os jovens não chegam aos 28 anos por experiência própria.
25:59E muito interessante, porque a gente vê que eles não têm futuro brilhante, né?
26:04Dos casos que a gente mostrou agora, 12 anos, esse menino está vivo por um milagre de Deus.
26:10O outro caso que a gente resgatou, a história também que aconteceu na semana passada, 17 anos,
26:15eu conversei com uma outra mulher que estava falando do irmão, né, na faixa de 16 anos.
26:21A gente vê que cada vez mais eles estão se arriscando,
26:25que você bem disse, você trouxe na sua primeira fala.
26:28É um risco que com 12 anos você não consegue mensurar.
26:32Mas aos 16 você já está cara a cara com o perigo, né, Alexandre?
26:35Você vai vendo que esse risco, ele diminui a sua expectativa de vida.
26:40E muito, Roberta.
26:42Diminui muito a expectativa de vida.
26:44E a gente não pode normatizar, normalizar isso, sabe?
26:47Ah, se eu chegar ao 18 já é lucro.
26:50Isso não é algo que pode ser pensado dessa maneira, né?
26:55Então, entender que justamente tentar, sabe, é como se nós tentássemos puxar aquilo que faz sentido,
27:02aquilo que te dá valor à vida, aquilo que você se sente vivo,
27:05aquilo que dá sentido para a vida do jovem.
27:07E muitas vezes, no atendimento, principalmente quando é um caso mais grave,
27:11em que a pessoa diz, eu não vejo mais sentido para continuar,
27:14a gente ainda tenta encontrar e sempre consegue encontrar.
27:17e às vezes a gente gira em torno disso para justamente sustentar uma possibilidade de uma nova vida.
27:23Só para a gente finalizar, nosso tempo já está acabando,
27:26mas a Luciana Fraga quer uma ajuda.
27:28Ela quer saber onde que ela encontra essa ajuda para adolescentes envolvidos com drogas aqui na Grande Vitória.
27:34Vocês têm essa informação para passar para ela?
27:36Olha que interessante.
27:38Existem ONGs, né, que podem ser pesquisadas nas redes sociais e tal,
27:43mas eu queria falar, como eu trabalhei no Conselho Tutelar durante um bom tempo,
27:47o Conselho Tutelar, ele é uma ponte, tá?
27:50O Conselho Tutelar, ele é uma ponte, por quê?
27:52Porque o Conselho Tutelar, ele é o órgão que zela pelo cumprimento dos direitos.
27:57Então, se a gente vai para o Estatuto e a gente encontra um direito da criança e do adolescente
28:02sendo assistência, você pode procurar o Conselho Tutelar como ponte.
28:07Muitas das vezes o Conselho tem essa informação,
28:10até porque o Conselho trabalha em rede.
28:12E a rede é quem?
28:13É a saúde, a educação, a segurança, a assistência.
28:16E ali, você vai obter algumas informações que podem contribuir
28:20para o melhor desenvolvimento da criança e do adolescente também.
28:24Muito obrigada, gente, pela participação de vocês, tá?
28:27A gente agradece imensamente, ajudando muitas famílias, muitas mães,
28:31muitos pais que estão desesperados.
28:33Obrigada.
28:33Obrigada.
28:34Obrigada.
28:34Tchau.

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