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  • há 3 semanas
Uma discussão sobre o que leva adolescentes a levar uma vida de envolvimento com criminosos

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Transcrição
00:00A gente sabe que a vida no crime não compensa.
00:05Quantas vezes nós já falamos isso aqui, essa frase, a vida no crime não compensa.
00:10E é um desgosto, para a família é um desgosto enorme, né?
00:13Uma mãe que vive um drama desses, ela não consegue mais viver em paz.
00:16Para para pensar nessa mãe, nesse pai, nessa família.
00:19Bora bater um papo?
00:20Vem cá, aqui no nosso estúdio, hoje eu recebo o psicólogo Alexandre Brito.
00:25Obrigada pela sua participação mais uma vez.
00:27Alexandre, também recebo o Pablo Lira, ele é especialista em segurança pública.
00:32E eu queria que vocês começassem explicando para a gente
00:35por que que cada vez mais a gente vê casos e mais casos de adolescentes, Pablo,
00:43envolvidos não só com as drogas, mas também praticamente trilhando uma carreira no tráfico de drogas.
00:52Boa tarde. O que tem atraído esses jovens para esse mundo do crime?
00:56Boa tarde, Roberto. Boa tarde, Alexandre. Todos estão nos acompanhando.
01:01Infelizmente, no Brasil, a gente tem uma impunidade muito latente,
01:07que faz parecer para esses jovens, esses adolescentes, né?
01:11Que eles terão uma recompensa com o envolvimento no mundo das atividades
01:18ligadas ao tráfico de drogas ilícitas.
01:21Inclusive, saiu um dado essa semana do Instituto Sou da Paz.
01:26De 40 mil homicídios registrados no Brasil no ano de 2019,
01:33apenas 37% desses homicídios, a grande maioria deles aí ligados ao tráfico de drogas, né?
01:43As atividades violentas desses grupos, apenas 37% desses homicídios foram elucidados.
01:51Então, isso demonstra o nível da impunidade no nosso país, que é muito forte.
01:56Além disso, tem um aspecto também social.
02:01Está na nossa Constituição lá que o artigo 144 destaca a segurança pública como um dever de Estado,
02:10direito e responsabilidade de todos.
02:13A grande maioria desses adolescentes e jovens, eles abandonaram a escola,
02:20não tem ali o nível adequado de supervisão dos pais,
02:24até mesmo na fase infantil, de impor limites, né?
02:28Ter a supervisão dos pais ali mais presentes, a família.
02:31A gente sabe também das dificuldades nessas áreas de vulnerabilidade, né?
02:36E é muito importante também o desenvolvimento de políticas públicas preventivas,
02:41na área da educação, assistência social, habitação,
02:45para evitar e diminuir essas situações de vulnerabilidade,
02:48que possam colocar esses adolescentes à disposição desses grupos ligados ao tráfico de drogas.
02:56Alexandre, já já eu quero perguntar para você, eu quero que você conte para a gente
03:00como que a família lida com essas questões, porque são ações tanto de fora para dentro,
03:05mas também de dentro de casa também para fora,
03:09para que a gente possa preparar melhor os nossos filhos para o mundo.
03:12Mas antes eu quero agradecer a presença aqui, com muito carinho da Mirelle,
03:15porque você deu uma reviravolta na sua vida,
03:19você iniciou também no mundo das drogas aos 15 anos,
03:23e por pouco você não foi parar no mundo do tráfico, foi isso, Mirelle?
03:27Boa tarde.
03:28Boa tarde.
03:29Foi sim, Roberta.
03:30É que muitas das vezes, até mesmo para o nosso consumo,
03:35que você vai chegar a um ponto que no início você sempre vai ter muito de bandeja,
03:40mas chega um ponto a qual você não encontra recurso para você estar sustentando o seu vício.
03:45Então, é uma porta onde o mundo do crime muitas vezes oferece,
03:51até mesmo para a gente poder estar vendendo, para poder estar consumindo.
03:56E aconteceu isso comigo, graças a Deus, que todas as vezes que eu tentei nunca deu certo.
04:02Entendeu?
04:03Porque eu sei que o senhor saberia que não era isso que era para a minha vida.
04:07E chegou um ponto de uma vez eu pegar, comprar uma quantidade grande,
04:11para eu poder ter um dinheiro e conseguir também estar sustentando o meu vício, o meu consumo,
04:16porque eu não tinha recurso para me poder estar sustentando.
04:19Então, foi quando eu tentei entrar nesse mundo do crime,
04:22que foi quando me pegaram e eu não consegui dar continuidade a essa vida.
04:28Porque até mesmo eu conheço vários amigos que entraram nisso,
04:31mas hoje a maioria estão mortos ou muitos estão presos,
04:35que é o que o mundo do crime oferece para todos os jovens, para todos,
04:39para a classe média, alta, em todos.
04:42Entendeu?
04:42Não existe escolher pessoas, porque chega um ponto que a pessoa já não tem.
04:47Pode ser doutor, médico, a gente pode ir na Craculante,
04:50que você vai ver vários tipos de pessoas lá, médico, pessoas formadas,
04:54que chega um ponto que ele não tem mais recurso, que ele se entrega a quê?
04:59A virar avião, para poder consumir o teu vício.
05:02E é o que leva a pessoa que entra nessa vida, entendeu?
05:09A gente começou o programa mostrando um caso que aconteceu essa noite, muito triste.
05:14Imagina uma mãe que, de repente, ela fica sabendo que o filho não só está usando droga,
05:21como está comercializando, fazendo tráfico de drogas.
05:25Passa um filme na sua cabeça, Mirelle?
05:29Sim.
05:29Quando você vê novos e novos casos acontecendo.
05:32Sim, nossa, eu me olho, eu poderia estar lá, nesse caso, né?
05:35Nessa história de muitas mães e de muitos filhos que estão vivendo.
05:39Que muitas das vezes eu creio que até muitos não querem, talvez, entrar nessa vida,
05:43mas as oportunidades, hoje em dia, que não oferecem para as pessoas.
05:47E todo jovem quer ter uma roupa nova, tem o seu vício, quer sair para algum lugar.
05:52E a única forma que ele encontra de estar sustentando o vício, se mantendo, é o tráfico,
05:57que é onde o mundo oferece.
05:59Há crianças de 10 anos, às vezes, eu já vi, em boca de fumo, segurando o revólver e vendendo droga.
06:05Entendeu?
06:06Então, é uma ilusão que acaba o traficante colocando na cabeça das pessoas, que é um mundo fácil, né?
06:12Que você consegue as coisas mais rápido, trabalha pouco e você fica sentado.
06:18A pessoa vem até você para poder estar comprando a droga, você vê a quantidade de dinheiro rápido,
06:25e só que você nunca vai ter nada.
06:27Aquilo ali é para o seu uso, às vezes, por isso, você te pega, você tem que pagar a traficante,
06:32a droga que você perdeu, entendeu?
06:34E, às vezes, ainda corre risco de morte ou quando eles também não matam.
06:39Alexandre, vamos parar para pensar na dor do pai, dessa mãe, como essa que a gente mostrou agora?
06:47É desesperador.
06:48A gente não sabe para onde ir, como começar agindo, o que fazer nessas horas.
06:52Eu preciso salvar o meu filho, mas como?
06:55De que forma, Alexandre?
06:56Como que a mãe e o pai, que estão acompanhando agora o programa,
07:00como que inicia esse primeiro passo?
07:01Boa tarde.
07:02Boa tarde, Roberta, todo mundo que está aqui nos assistindo também,
07:05porque, veja bem, as famílias em geral, quando acontece algo assim,
07:09é comum um sentimento de culpa.
07:12Pais que têm filhos que cometem pequenos erros, já se sentem culpados,
07:17já se sentem com vergonha, já se sentem com aquele sentimento de
07:23o que eu fiz de errado, onde foi que eu errei.
07:26Essa frase a gente escuta muito.
07:28Então, veja bem, tem não só a família para lidar com essa situação,
07:34mas a família, quando está envolvida com essa situação,
07:38ela tem que justamente recorrer também a profissionais, a políticas públicas,
07:43apoios com outros familiares, às vezes até mesmo o vizinho,
07:47a gente nunca sabe de onde vai vir a melhor ajuda,
07:50para que ela possa lidar com o assunto.
07:52Porque, muitas vezes, né, Roberta, acaba tendo o quê na família?
07:55Vergonha de falar sobre isso.
07:57E a vergonha faz com que você não também procure ajuda,
08:01acaba não expondo a situação.
08:03Então, a família, em primeiro lugar, ela tem que se colocar nessa posição
08:06de não se sentir necessariamente culpada, ela é responsável também,
08:10ela é parte dos cuidados, parte dessa situação,
08:13mas ela também não precisa fazer com que isso seja um movimento solitário,
08:19algo só da família, principalmente porque a gente está falando aí de adolescentes
08:24que têm todo esse cuidado que já trouxemos aqui,
08:28que não é só da família, mas também do Estado, das políticas públicas,
08:31da comunidade em geral, porque é uma idade em que tem tantas vulnerabilidades
08:36só da própria idade, que abre tantas portas que o crime pode entrar por alguma delas também, né?
08:42Agora, como a Mirelle bem trouxe para a gente, a vida no crime não compensa,
08:47e as estatísticas mostram isso, né, Pablo?
08:50Que esses jovens, esses adolescentes que ingressam, não têm um futuro promissor,
08:55têm a vida interrompida, muitas das vezes, de forma inesperada, né?
09:00Isso, a gente tem desenvolvido algumas pesquisas lá no âmbito do mestrado de segurança pública da UVV,
09:05e a gente constata o seguinte, a esperança de vida ao nascer média no nosso país
09:10está chegando próximo de 80 anos.
09:13Para esse grupo específico, né, de adolescentes, jovens,
09:18que têm um envolvimento com as atividades ligadas ao tráfico de drogas ilícitas,
09:22essa esperança de vida ao nascer cai para 30, 40 anos, né?
09:27Então, indica aí justamente esse depoimento muito importante da Mirelle, né?
09:32A perspectiva de vida, né, ela reduz muito em relação a esse envolvimento,
09:39a atividade criminal, né, do tráfico de drogas ilícitas,
09:42que deve ser aí alvo de atenção das políticas,
09:47focadas na prisão das lideranças criminosas, né,
09:52para desarticular esses grupos,
09:54e também focada na perspectiva da saúde, como o Alexandre falou.
09:59A gente tem um problema de saúde no nosso país que está se agravando,
10:03essa questão do uso abusivo de drogas ilícitas e do álcool.
10:08A gente não pode esquecer também do álcool, né,
10:11que também vem aumentando, principalmente no cenário que a gente vive hoje no Brasil,
10:15de alto desemprego.
10:17O Brasil voltou a conviver com problemas históricos que tinham sido superados,
10:23problema da fome, da pobreza, extrema pobreza.
10:26Então, essas políticas no campo da saúde, da psicologia, né, Alexandre, também,
10:31de atendimento, de acolhimento e de orientação,
10:35a gente não pode continuar estigmatizando o problema da droga.
10:39O problema da droga existe, está agravado no nosso país.
10:42A gente tem caminhos no campo da saúde, da psicologia, de tratamento.
10:46A gente tem também aqui políticas públicas como a Rede Abraço,
10:50aqui no Estado do Espírito Santo, que vem acolhendo, fazendo atendimento,
10:53tanto das pessoas que têm problemas com o uso abusivo de drogas,
10:58quanto suas famílias, e também tem um envolvimento ainda maior da sociedade,
11:03discutindo com base em dados, informações, estatísticas,
11:07desmistificando esse problema da droga que a gente tem aí no nosso país,
11:10que ainda é muito tratada com preconceito, né.
11:12E ninguém melhor do que uma mãe para falar para a gente dessa dor, né.
11:16Eu vou conversar agora, por telefone, com uma mãe que, é claro,
11:20a gente prefere não identificá-la por questões de segurança.
11:22Ela tem encarado esse drama de ver os filhos envolvidos com o tráfico de drogas,
11:28mas ela vai trazer boas notícias para a gente dessa vez, não é isso?
11:31Boa tarde, obrigada pela sua participação aqui no Fale Espírito Santo.
11:36Oi, Roberta, boa tarde para todos que estão aí, e as pessoas que estão nos ouvindo, né.
11:43Então, não é fácil, essa situação, quando você tem seus filhos envolvidos com isso,
11:50não é fácil, mas uma coisa eu posso dizer para todos os pais e mães,
11:54a gente não tem que se julgar, nem ficar se perguntando onde que foi,
11:58aonde ramos, porque, infelizmente, se tiver que acontecer, vai acontecer, infelizmente.
12:04Mas, no caso dos meus filhos, todos os dois agora, né, caíram em si.
12:13Um passou por um período na prisão, e o outro, após ver essa situação toda do irmão,
12:20agora se conscientizou que isso não é para eles, né.
12:24E a pergunta que eu sempre fiz para eles é o seguinte,
12:27você já viu o tráfico de drogas se aposentar? Não, né.
12:31Então, assim, com muita persistência, oração, a gente está conseguindo vencer.
12:39E agora, o irmão dele, mais velho, que estava preso, agora, graças a Deus, saiu da prisão,
12:46já está trabalhando, está estudando, e é vida nova.
12:51Olha isso, gente, que depoimento, né, de superação.
12:55E é assim, a cada dia, você usou uma palavra muito importante, mãe, você falou persistência.
13:01O que não é fácil nessas horas, porque no início, eu acredito que bateu um desespero, né.
13:07Sim, sempre.
13:09Mas a gente não pode desistir do nosso fim.
13:13Inicialmente, a vontade era o quê? Era confrontar, era brigar, era trancar em casa.
13:18Qual que era a vontade, inicialmente?
13:20Porque se a gente parar para pensar, também não é por aí, mas qual que é o, assim, o primeiro
13:25instinto que vem, mãe?
13:27Roberta, eu ficava me perguntando o porquê dessa situação, o porquê, aonde foi que eu errei, né.
13:34Por que que isso estava acontecendo?
13:36Mas, com o tempo, eu fui vendo que não era só eu que estava passando por isso.
13:41Várias mães, vários pais passam por essa situação.
13:44E, imediatamente, aquela vontade que dá é de pegar um filho, bater e esmurrar.
13:49Mas, infelizmente, isso também não é o melhor caminho que fazer, a não ser conversar, tentar ajudar,
13:57mostrar para eles o que é bom e o que é ruim, né.
14:01E, aquilo, nunca desistir, nunca, eu sempre disse aos meus filhos, eu jamais vou desistir de vocês.
14:09E, hoje, eu vejo que a minha persistência, ela não foi em vão, ela não tem sido em vão.
14:15Ó, estou aqui arrepiada.
14:17E, tudo que você foi falando, a Mirelle, que já viveu isso na pele, como filha, né, está aqui concordando.
14:24Você também acredita que o fato dos pais acolherem esses filhos, isso faz toda a diferença, Mirelle?
14:31E, muita, porque, muitas das vezes, a gente quer se abrir, só que igual a minha mãe.
14:36Ela não sabia lidar com a situação.
14:39Então, às vezes, ela agia até mesmo de uma forma desesperadora, que poderia até me prejudicar.
14:45Agora, minha mãe já foi várias vezes na boca de fuma, atrás de mim, já me pegou usando droga.
14:50E, aquilo ali, eu me sentia envergonhada, eu acabava xingando ela, mas porque eu estava no efeito das drogas.
14:55Mas, ela também nunca desistiu de mim, não tem?
14:57E, com muita oração, ela pagou um preço pela minha vida, entendeu?
15:01Eu louvo a Deus, primeiramente, a minha mãe.
15:04Muitas pessoas também que torciam pela minha vitória, entendeu?
15:07E, eu cheguei para uma clínica, eu fazia um tratamento ambulatorial, como ele falou, né, tem vários tratamentos hoje.
15:15E, chegou ao ponto que eu falei com a minha psicóloga, ó, eu quero internação, que eu não consigo parar
15:21sozinha.
15:22E, fui, só que foi uma experiência, eu posso te dizer que foi a pior experiência que eu tive na
15:26minha vida.
15:27Até que, um dia, eu cheguei para um pastor, confessei para ele, ele falou,
15:29Mirelle, você vai ficar 100 anos na clínica de recuperação, lá você não vai usar droga, porque lá não tem
15:35droga.
15:35Você tem que encarar aqui fora, porque é aqui fora que você vai lidar com as drogas.
15:41E, eu coloquei aquilo dentro de mim, comecei a buscar Deus, não tem?
15:44E, eu lutei contra a minha vontade, falei, é, realmente, eu tenho que lutar aqui fora.
15:49E, comecei a buscar, buscar, e, para a honra e glória de Senhor Jesus, hoje, eu sinto cheiro de droga,
15:55me dá nojo.
15:55Hoje, eu tenho raiva de droga, entendeu? Raiva.
15:59Olha, para a gente é maravilhoso estar aqui, sabe, te recebendo, você trazendo esse depoimento para os nossos telespectadores,
16:07para mostrar que tem saída, de alguma forma, não é fácil, a gente sabe, mas tem saída.
16:14Agora, Alexandre, você que lida, já atuou bem focado nessa área, qual a experiência sua que você traz como profissional,
16:23como psicólogo, né, dos momentos que você viveu atendendo esses casos?
16:30Olha, eu vou dizer o que, em geral, pode até parecer repetitivo quando a gente fala em saúde mental,
16:37A importância da escuta, Roberta, a importância de você escutar o outro e o outro se sentir existente,
16:43e não se sentir um objeto, às vezes se sente um animal, né, se sente desprezo.
16:50Então, isso é tão fundamental para que a gente possa fazer com que o outro fale, se expresse, demonstre aquela
16:58angústia,
16:58porque, muitas vezes, o uso da droga vai vir justamente por causa de alguma dor, de algum sofrimento, algum trauma,
17:05exatamente.
17:05Então, isso pode ser, isso faz toda a diferença, porque a gente escuta tanto o adolescente quanto a família, né,
17:12profissionalmente,
17:14e a gente vai vendo também que é importante dar apoio para a família, porque, muitas vezes, a família não
17:19sabe lidar,
17:20como você trouxe, né, não sabe lidar, às vezes, reage com uma violência, com outra violência.
17:25Às vezes, a família também corre o risco de quê?
17:29Tendo um dos filhos se envolvendo, o risco de outro também se envolver.
17:34Então, tudo isso é também nosso trabalho preventivo, não é só um trabalho ali para tentar resolver aquele problema que
17:41já aconteceu.
17:42E também com o jovem, tentar fazer encaminhamentos, que a gente vê também, que você teve vários apoios, né, espiritual,
17:50né,
17:50e a gente vê também que essa rede de apoio, a escola, por exemplo, né, essa presença na escola, né,
17:57a gente fala assim, olha, uma taxa de pessoas fora da escola aumenta o número de criminalidade,
18:03a gente vai correlacionando e vai pareando os dados, vai vendo que uma coisa tem relação direta com a outra,
18:09não?
18:09E é uma coisa que a gente vai repetir quantas vezes for necessário, né, mas não só a escola, né,
18:14como a gente trouxe, né, para falar das políticas públicas, o apoio à própria família e o cuidado com a
18:20saúde mental,
18:21porque quando você escuta, você vai, minha experiência clínica, Roberto,
18:26vai mostrando que quando você vai escutando clínica social nessas políticas públicas,
18:30que você vai lidando com o jovem que está envolvido, ele vai, de alguma forma, se desmontando,
18:35vai criando novas esperanças, novos fôlegos, novas perspectivas,
18:39porque às vezes ele não vê outra saída, ele vai criando uma abertura para um mundo novo,
18:46que se não tivesse aquela escuta, aquele acompanhamento, toda essa dimensão, né, de acolhimento,
18:53encaminhamentos necessários para cada caso, e a gente vê ali vidas sendo salvas...
18:59Ele precisa de uma nova motivação.
19:02Uma nova motivação, um novo sentido.
19:04Então vamos falar agora na ressocialização desse adolescente.
19:07Pablo, o que é oferecido hoje? Você acredita que é o suficiente?
19:11Vamos lá, nesse caso que a gente abriu o programa mostrando, né,
19:14esse adolescente, ele foi apreendido, e aí ele vai passar por algumas etapas, vai para o IASIS,
19:20e aí a forma que ele sai?
19:22Muitas das vezes a gente vê esse adolescente sendo reincidente no crime, né?
19:27O que, o sistema que é oferecido, é suficiente?
19:31Então a gente tem hoje um sistema, né, como você bem falou,
19:34o próprio IASIS, né, seguindo aí a diretriz do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo,
19:43busca justamente trabalhar, oferecendo ali oportunidades para esse adolescente,
19:49esse jovem, para que ele não volte a cometer aqueles atos infracionais.
19:55Isso daí, essas ações no campo da educação, da formação,
19:59o atendimento também, né, para esse adolescente, esse jovem, é muito importante,
20:04mas também não é suficiente.
20:06Porque quando a gente pega as estatísticas, né, como o Alexandre comentou,
20:11a grande maioria desses adolescentes e jovens tem em comum a questão do baixo nível de ensino
20:18e a condição de abandono escolar, evasão escolar.
20:21E isso se reproduz no sistema prisional.
20:25No sistema prisional do Estado do Espírito Santo, a gente tem políticas também no campo da educação,
20:30da formação, questão cultural também.
20:33São políticas públicas de reintegração dos presos para diminuir a reincidência criminal.
20:40Mas também não é suficiente.
20:43É muito relevante também a gente reforçar o custo para aquelas lideranças criminosas,
20:50para que eles se sintam aí dissuadidos, né,
20:54inibidos de continuar recrutando adolescentes e jovens diariamente nas nossas comunidades.
21:03Então, as políticas aí no campo da segurança pública têm que ser trabalhadas de forma integrada.
21:08a ressocialização, também a questão da repressão qualificada.
21:13A gente vê as polícias atuando diariamente nas nossas cidades.
21:17Aqui no Estado, a gente tem aí o programa Estado Presente.
21:20Então, são ações importantes que devem ser continuadas e intensificadas
21:24para a gente reduzir esses níveis de violência e também atividade do tráfico de drogas.
21:30E só a ação do Estado é suficiente?
21:32Não é suficiente também.
21:33A família cumpre um papel muito importante.
21:36Os municípios, as instituições religiosas também.
21:41É uma integração que falta isso hoje no Brasil.
21:44O próprio governo federal também, né, ele não pode se eximir desse problema social
21:50que atinge aí a grande maioria das cidades, as metrópoles brasileiras.
21:55Olha o fenômeno que a gente está tendo no Brasil hoje das cracolândias, né?
21:58Então, é um problema aí que, para solucionar, depende do engajamento de toda a sociedade.
22:05Olha o comentário do José Carlos Neri.
22:08Ele fala, Roberto, a melhor coisa que pode acontecer para quem quer entrar nessa vida
22:12é se dar mal logo no início.
22:16Você concorda?
22:17Sim.
22:17O que foi que aconteceu nessa noite com esse adolescente?
22:20Sim, aconteceu comigo.
22:22E aconteceu com você também?
22:23Foi a melhor coisa.
22:24Porque talvez se desse certo, eu ia ter vontade de fazer outras vezes.
22:28Só que, graças a Deus, todas as vezes que eu tentei, sempre deu errado.
22:33Então, porque não era mesmo para mim poder estar me envolvendo no mundo do crime.
22:37Porque até mesmo eu já tive muitas propostas, até de virar gerente de boca de fumo.
22:43E é tentador?
22:44Sim, porque o que eles pagam é me oferecer o casa, carro.
22:49Falou que eu só ia passar abastecendo, recolhendo dinheiro e eu ia ganhar valor X.
22:54Então, para mim ganhar o valor X que eles me ofereciam, eu deveria trabalhar quase um ano
22:58para me receber aqui em um mês, talvez.
23:01E Mirelle, o que te fez parar e falar assim, não, não vou aceitar, não quero mais ingressar
23:07nessa vida, quero mudar de vida completamente?
23:10Olha, eu cheguei no ponto, Roberta, que muitas vezes as pessoas falam, ah, usa droga porque
23:14não tem vergonha na cara, é só querer parar que para, não é dessa forma.
23:18A droga é uma doença.
23:19E isso, eu fui, a minha psicóloga, no tratamento que eu fiz, ela me ajudou bastante, ela abriu
23:26muito, igual eles estão falando, é necessário, é bom, sim.
23:29Claro que primeiramente com a ajuda de Deus, mas tem os tratamentos.
23:32Porque da mesma forma que quando a gente sente uma dor, a gente vai para um hospital buscar
23:36aquele tratamento, a igreja, no caso, é o Senhor que está te tratando.
23:41Então, é algo que eu me entreguei.
23:43Falei, pô, eu uso droga, faço mal para mim, sou humilhada e ainda só vou me afundando,
23:52só me acabando.
23:53E teve uma hora que eu cheguei a um ponto que ninguém mais acreditava em mim, eu fui
23:57muito humilhada.
23:58Todo mundo virou as costas para mim.
24:00Foi quando Deus pegou e falou, vem, que agora eu vou te ajudar.
24:04Entendeu?
24:04E eu botei aquilo no meu coração, eu falei, botei dentro de mim, eu falei, eu vou dar
24:08a volta por cima.
24:09Eu vou mostrar que Deus é Deus, que Ele pode.
24:11Quando a gente quer, Ele pode.
24:14Entendeu?
24:14E eu me entreguei para a honra e glória do Senhor Jesus.
24:17Hoje eu estou aqui e eu falo com o Senhor, eu prefiro que Ele tira a minha vida do que
24:21eu volto a usar droga.
24:23Ó, a gente fica aqui emocionada, de verdade.
24:26Que bom que você, mais uma vez, eu agradeço imensamente a sua participação.
24:30Agora, qual o conselho que você dá, tanto para a mãe, para o pai, que estão acompanhando
24:36o programa, quanto para esse adolescente, que também está aí, ó, trilhando de maneira
24:41errada a vida no mundo das drogas, quase com o pé lá no tráfico?
24:46É, eu deixo uma mensagem para eles que, para as mães também, primeiramente, que não
24:51desiste, que aprendam a lidar com a situação, que ama.
24:54Isso não é falta de vergonha na cara, isso é uma doença.
24:58Muitas das vezes eu chorava dentro do meu quarto pedindo a Deus que eu não queria estar
25:02usando, mas é algo mais forte do que a gente.
25:05Para estar orando, buscando tratamento, igual eles estão falando aqui, o governo oferece,
25:10entendeu?
25:11Em Vila Velha tem uma clínica onde eu fazia o tratamento.
25:14A minha psicóloga abriu muito o meu entendimento.
25:16E o segredo é confiar em Deus, buscar os recursos que o governo nos dá, botar Deus na frente
25:23e se afastar de tudo aquilo que você fazia antes, entendeu?
25:29E minha psicóloga sempre falava, Mirelle, se afasta, você precisa falar, porque amigo
25:33que te chama para usar droga não é amigo.
25:35Isso é amizade tóxica.
25:37E quando eu coloquei...
25:38E de fato influencia?
25:39Droga, sim, muito.
25:41Que muitas das vezes você vai e talvez você nem quer, mas você já tem aquela fraqueza
25:45que você já usou, você sabe que é bom.
25:47Porque usar droga não é ruim, Roberta.
25:49Porque droga, se fosse ruim, ninguém usava, entendeu?
25:52Então, só que é algo que acontece que não é assim, ó, ah, eu vou parar, parei, não
25:57quero mais.
25:57Não é.
25:58É uma luta constante.
25:59Até mesmo que a droga, ela não tem cura.
26:02Você vence ela todos os dias.
26:04E com o tempo, você vai se afastando, você não vai querer, você vai tomando raiva,
26:08você vai começando a conhecer outro mundo, vai tendo outra visão, seus sonhos vão começando
26:13a se florescer de novo, entendeu?
26:16E você fala, poxa, tanto tempo perdido na minha vida, entendeu?
26:19Por ter sido escrava, né?
26:22Daquela situação que não me trouxe nada, eu só me trouxe derrota, eu perdi tudo,
26:28tudo que você imaginar que eu conquistei, eu perdi.
26:30Quando eu ressuscitei de novo, eu comecei do zero.
26:34E, Pablo, para a gente finalizar aqui o nosso assunto, a gente fez até uma reflexão hoje
26:38nos bastidores o quanto a droga se tornou, de fato, um problema social.
26:43Porque quando a gente vai falar de violência contra a mulher, está ali a droga, potencializando
26:47a violência.
26:47Quando a gente vai noticiar aqui, a gente está, desde a semana passada até mesmo antes,
26:51falando de confrontos nos morros aqui da Grande Vitória, nas comunidades, está a droga
26:56envolvida, a guerra entre traficantes.
26:58O nóia que te assalta ali na rua, o que ele quer?
27:00Coloca sua vida em risco para comprar droga.
27:03A droga virou um problema, de fato.
27:05Como que a gente pode contribuir, como que a sociedade pode contribuir para combater isso?
27:10Porque, se não, parece que a sensação que a gente tem é que a nossa vida está cada
27:15vez mais tomando conta da vida das pessoas.
27:17Isso mesmo.
27:18E é um problema social do nosso país, Roberto, como você bem falou.
27:22E eu quero já fazer o registro aqui da importância desse momento que a gente está vivendo
27:28aqui, que você está proporcionando, junto com a sua equipe, da gente estar aqui nesse
27:33trabalho de utilidade pública, a função pública da imprensa é de conscientizar.
27:37A Mirelle, você traz esse testemunho seu, a quantidade de casas que você está chegando
27:43aqui no Estado do Espírito Santo, influenciando essas famílias que estão em situação difícil
27:47e ver, ó, tem um caminho.
27:49Isso é um exemplo, tá, Mirelle?
27:50E parabenizo você.
27:52É muito emocionante ver aí como que você venceu, superou esses desafios e essas dificuldades.
27:59E o que falta é justamente isso, essa conversa, o diálogo, né?
28:03A gente não pode abominar o problema das drogas com preconceitos.
28:09A gente tem que discutir, conversar, falar com os nossos filhos abertamente.
28:13É isso daqui, você tem essas consequências, se usar a droga, né?
28:18E também dialogar, identificando aí os caminhos para o tratamento também quando acontecer.
28:24Buscar a solução para essa família que está sofrendo com o problema do uso abusivo
28:28de drogas.
28:29E o quanto antes.
28:30Obrigada pela participação de vocês.
28:33Sintam-se abraçados.
28:34Mirelle, se você puder continuar aqui com a gente, depois quero te dar um abraço aqui
28:37nos bastidores, tá bom?
28:38Obrigada, viu, Alexandre?
28:39Obrigada, Pabllo.
28:40Obrigada, Pabllo.

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