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  • há 3 semanas
Muitas das mortes são de adolescentes levados para o mundo do crime

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Transcrição
00:00Esse ano o Espírito Santo registrou 597 homicídios até o mês de julho.
00:07Desse total, presta atenção, 42 vítimas tinham menos de 18 anos.
00:14No mês passado, um adolescente, gente, de 14 anos, foi assassinado em Balneário de Carapibus, na Serra.
00:21E o corpo foi encontrado em uma área alagada.
00:24A vítima foi atingida por um disparo no rosto e um na mão.
00:28Segundo a polícia, a região é conhecida pelo intenso tráfico de drogas e disputa por pontos de vendas entorpecentes.
00:38A gente para para pensar? Vamos fazer uma reflexão aqui?
00:42Estamos perdendo os nossos adolescentes, os nossos jovens, para a criminalidade.
00:47E a gente vai trazer esse assunto. Participa com a gente no nosso estúdio.
00:51Eu recebo o especialista em segurança pública, Rusley Medeiros.
00:55Obrigada pela sua presença mais uma vez.
00:57Larissa Lobo, que é psicóloga. Muito obrigada também pela sua contribuição.
01:02E a gente recebe aqui a Verônica.
01:04A Verônica, ela é uma mãe e ela entende muito bem essa dor, porque ela perdeu recentemente o filho dela
01:12para o tráfico de drogas.
01:14Não foi isso, Verônica?
01:15Sim, tem quatro meses que ele faleceu, né?
01:17Vítima, assim, entre aspas, do tráfico de drogas.
01:21Porque quem matou ele era envolvido, porque ele era envolvido, mas não foi o tráfico, né?
01:27Foi os amigos que se diziam amigos dele que assassinam ele, entendeu?
01:31E o que que motivou? Foi uma disputa?
01:35Olha, um deles, eu creio que sim, que gerou, que foi no meu pensamento.
01:41O que gerou, como é que eu falo? O que começa a tramar a morte dele é um dos envolvidos,
01:47porque ele também era, né?
01:48Perde, no caso, lá na época, um cargo, e aí começa a tramar a morte dele, você entendeu?
01:55E chama os demais amigos que se diziam amigos dele, porque ele não tinha problema com ninguém.
01:59Você entendeu? O André era muito querido, muito amado.
02:02Não estou falando por ser mãe, mas é a realidade.
02:05Mesmo ele sendo envolvido pelo tráfico, ele ainda tinha o respeito pela comunidade, porque ele cresceu ali, né?
02:11Então, o que eu fiquei surpresa ao descobrir foi que todos os envolvidos viviam dentro de casa, entendeu?
02:18Eram amigos dele de pequeno, só o que trama a morte dele e o que assassina, que começou a aparecer
02:24na vida dele de uns dois anos pra cá.
02:27O resto não, o resto cresceram com ele, entendeu?
02:30Tanto que pra ele ir até onde mataram ele, ele levou mais dois amigos, né?
02:35Que é um que morre com ele e o outro que eles matam um pouco mais pra cima.
02:38No caso, foram três vítimas no mesmo dia.
02:40Mas os dois, eu creio que os dois não tinham nada a ver.
02:44Agora, até hoje eu não entendo, porque o meu filho não devia nada a eles.
02:48Eram amigos, tanto que um deles estava com o meu filho até cinco e pouco da tarde numa distribuidora que
02:52tem na principal de São Francisco.
02:54Eu passei pra ir trabalhar, vi os dois conversando, rindo, brincando, natural, pra noite ele assassinar o meu filho.
03:01Então, assim, é uma coisa que dói mais.
03:05Se fosse, assim, uma guerra do tráfico, eu acho que não doeria, eu sentia a dor da perda, o meu
03:11luto.
03:11Mas não doeria tanto como saber que amigos dele, pessoas...
03:15Traição de amizade.
03:16Isso, pessoas que viviam dentro de casa, que muitas das vezes, me desculpa a palavra, mas que não tinham o
03:22que comer e Andrei matou a fome deles.
03:24Andrei falava, mãe, tem comida?
03:25Porque ele sempre soube que eu sempre fiz muita comida, assim, não só de fazer panelinha, né?
03:30Sempre panelinha.
03:30Tem, Andrei.
03:31Ah, fulano, vai aí.
03:32Faz uma marmita de comida aí que eu vou levar pra fulano.
03:35Sempre foi assim, entendeu?
03:37Ele sempre gostou de ajudar os amigos dele.
03:40Então, eu não entendo, não entendo.
03:42Eu quero ainda que Deus me dê a oportunidade de olhar nos olhos de cada um e perguntar por que
03:47vocês mataram o Andrei.
03:49Rusley, onde tem droga envolvida?
03:52Não tem amizade, é isso?
03:53A gente pensa, né, num adolescente.
03:56Às vezes, pensando que as pessoas ali são confiáveis.
03:59Não existe amigo no tráfico?
04:01Boa tarde, Roberta.
04:02Boa tarde a todos que nos acompanham aqui no Fala Espírito Santo.
04:04É isso mesmo, Roberta.
04:05O tráfico de drogas é uma relação de poder, né?
04:08Então, todos ali estão em busca de poder e de serem reconhecidos dentro disso, né?
04:13Então, se for necessário matar o outro para que eu assuma o posto dele, eu assim o farei, né?
04:21Sem respeito à família, sem respeito àquela relação que foi construída anteriormente.
04:26Então, o tráfico de drogas, ele é formado justamente por conta dessa ideal, né?
04:31De alcançar o poder de estar acima, de ser o chefe da boca, o chefe ali da região.
04:38E se for necessário matar, exterminar aqueles que, de algum modo, vão ao encontro do meu anseio e do meu
04:45desejo, eu irei fazê-lo, né?
04:48Então, não há nenhum tipo de relação, vamos dizer, ética, né?
04:52Para a construção dessa população que está inserida no tráfico de drogas.
04:58Então, Roberta, é aquele caminho que a gente sempre vem falando aqui, né?
05:02Entrar no tráfico de drogas, principalmente, ou na criminalidade como um todo, a gente geralmente tem dois caminhos.
05:07Ou ser preso, ou ser assassinado.
05:10Infelizmente, são esses dois caminhos que são apresentados, principalmente, quando a gente fala do tráfico de drogas.
05:16Agora, Larissa, vamos pensar naquele diálogo de pai e mãe?
05:19Olha, menino, pelo amor de Deus, a gente cresce ouvindo isso.
05:21Não use drogas, não se envolva com amigos que usem drogas.
05:26Não façam isso, não vendo, né?
05:28A gente cresce ouvindo esse discurso do pai, da mãe, da avó, da avó, de quem for.
05:32E, ainda assim, o que leva alguns adolescentes a entrarem para esse mundo?
05:38Boa tarde, Beto.
05:39Boa tarde, gente.
05:40Então, esse é um problema que é multicausal.
05:44Ele tem vários fatores que aumentam as chances, são fatores de risco, de vulnerabilidade,
05:50para aumentarem as chances de uma pessoa, de um indivíduo, de uma comunidade acabar indo por esse caminho.
05:56Então, a gente tem um problema que é psicossocial, certo?
06:00Nós temos fatores de nível macro, a questão econômica, a questão política, se tem saneamento básico naquela região,
06:09se naquela religião eles têm acesso a uma alimentação, a segurança, a saúde.
06:19Então, desde a nível macro até a nível micro, de indivíduo mesmo.
06:23Então, como está sendo essa dinâmica familiar, se no local onde ele mora, no ambiente onde ele cresce,
06:28ele tem alguma vulnerabilidade emocional, ele está exposto a fatores estressores, a fatores traumáticos,
06:35e todo comportamento humano, ele tem uma função, ele tem uma motivação.
06:39Então, o que faz esses indivíduos a tomarem a decisão de entrarem para o tráfico, entrarem para o crime?
06:45E estão novos, né?
06:46E estão novos.
06:46A gente está falando de adolescentes, que era para estar jogando bola na rua.
06:49Exatamente. Então, tem esses fatores de risco pré-situação, pré-problema, que aumentam as chances deles entrarem,
06:56e tem os fatores individuais que motivam esse ingresso, né?
07:02Seja o desejo de ter poder, seja o desejo de ter mais dinheiro, seja por ver aquilo como a única
07:09solução dos problemas deles,
07:11ou seja, até por normalizar para eles terem crescido dentro de um ambiente, dentro de um contexto,
07:16dentro de uma comunidade onde ele convive com pessoas que estão envolvidas com tráfico,
07:20então ele acaba normalizando trabalhar dentro desse contexto, dentro desse sistema.
07:25Então, tem os fatores sociais que influenciam, que são fatores de risco para esse ingresso,
07:31e tem dentro do nível do indivíduo, seja a personalidade, seja a dinâmica familiar,
07:37seja os desejos que motivam ele a buscar aquilo como uma forma de sanar,
07:42de atender aquelas necessidades dele mesmo.
07:44E, Verônica, você perdeu seu filho muito novo, 18 anos, ainda tinha uma vida inteira pela frente.
07:50Você consegue hoje identificar o que motivou ele a entrar nesse caminho?
07:56Eu não consigo entender, igual eu sempre falo, eu sempre fui pai e mãe dele.
08:00A gente, assim, nunca teve condições, a gente nunca foi rico, mas tem uma vida, né?
08:05Come, bebe, veste.
08:07Eu não sei te falar o que levou o Andrei a fazer isso,
08:10porque ele nunca viu nada do nosso lado de errado, entendeu?
08:13Eu tentei de várias formas tirar ele, não consegui.
08:17Ele ficou três anos envolvido nessa vida.
08:20Três anos nós vivemos a vida dele, entendeu?
08:22Que ele ia preso, tirava.
08:24Perdi a droga, nós pagávamos.
08:25Ele começou com 15 anos?
08:2715 anos.
08:28Aí, assim, não tem mais controle.
08:30Como eu sempre tive pulso firme, sempre falei, sempre briguei, mas não teve jeito.
08:36Entendeu?
08:36Não tem jeito.
08:37Quando eles se envolvem e eles pegam, assim, quer ter poder, vem até pra cima da gente,
08:42quer agredir, quer brigar, quer falar, porque eles querem viver aquela vida ali.
08:45Eita mesmo, pai e mãe.
08:47Eita, se você baixar, você perde pra eles, entendeu?
08:50Eita, sim.
08:51Várias vezes eu tive que pegar ele, desculpa a palavra, meter a vassoura, brigar no meio
08:57da rua, igual ele adorava ficar nessa distribuidora.
08:59Passei várias vergonhas nele, porque na rua.
09:01Mas, assim, ele sempre na rua respeitou, mas em casa sempre ele batia de frente.
09:07Queria, não, você tá errado.
09:09Falei, eu tô errada?
09:10Amanhã ou depois a gente vai ver você aí.
09:11Você vai ver.
09:12Andrei, Andrei, você toma cuidado.
09:13Olha o que você tá fazendo da sua vida.
09:14Você tá acabando com a sua vida e acabando com a nossa vida.
09:17Ele é coroa, é triste.
09:18Que ele me chamava assim, é triste.
09:20Eu vou morrer assim mesmo.
09:21Falo, Andrei, Andrei, cuidado.
09:23Mas não tinha jeito.
09:24Não tinha jeito, não tinha jeito.
09:26Mas, assim, por falta da minha presença não foi.
09:29Por falta de comida, bebida, não foi.
09:32Entendeu?
09:32O que eu pude fazer por ele, igual eu falei da outra vez.
09:34A minha filha fala, mãe, você viveu a vida do Andrei.
09:37Como que eu ia abandonar ele?
09:39Entendeu?
09:39Até no último momento, igual eu falei.
09:41Eu achei ele junto com a polícia.
09:43Então, se ele viu, se existe esse negócio de ver,
09:47ele viu que eu estive com ele em todo momento.
09:50Fui no DML, levei, recolhi, sempre tava ali com ele, sempre, nunca abandonei.
09:55Tanto que até os amigos, né?
09:57Ele levava pra dentro de casa.
09:58Mãe, fulano, vai dormir hoje, pode ir.
10:00Na hora de sair, era lá em casa que se arrumava.
10:02Era aquele monte de gente.
10:04Então, ele sempre foi muito rodeado.
10:05Muito rodeado de pessoas, de amigos.
10:07Eu não entendo.
10:08Sempre jogou um belíssimo futebol.
10:10Jogava muito.
10:11Na época, ele jogava na...
10:13A associação tem lá, né?
10:15O Cristo Rei, o alfanato Cristo Rei.
10:16Teve oportunidade de jogar fora, só que eu não tinha condições na época.
10:20Hoje, o meu arrependimento era esse.
10:22Porque se eu tivesse tido condições, se eu tivesse armado um dinheiro prestado,
10:25conseguisse levar ele pra fora, ele não teria se envolvido.
10:28Porque ele sempre foi um ótimo atleta, sempre.
10:31Busley, ela disse que ele começou, o filho da Verônica começou nesse mundo aí por volta dos 15 anos.
10:37A gente sabe que há um grande interesse do tráfico por essas crianças, por esses adolescentes.
10:42Qual que é o papel deles?
10:44Eles são atraídos tendo o que em troca?
10:47É, Roberta.
10:48A gente chama de processo de aliciamento, né?
10:50O tráfico de drogas, ele quer pegar aquelas pessoas que são mais vulneráveis e mais fáceis
10:55de serem atraídas ao grande universo que eles chamam do tráfico de drogas.
11:01Então, o primeiro ponto que eles utilizam é, eu trazendo esse jovem, esse adolescente pra cá,
11:06eu vou conseguir manipulá-lo e mostrar pra ele que aqui ele vai conseguir algo que talvez fora daquele ambiente
11:11ele não iria conseguir.
11:13Então, não é por conta de fragilidade unicamente familiar, né?
11:18Existe sim esse atrativo que é dado a ele por conta desses criminosos
11:24que aliciam ele pra que eles possam entrar neste mundo.
11:27Então, o primeiro ponto é esse, Roberta, de realmente eles se colocarem nesse processo
11:31pra eles alcançarem algo, um sonho, inclusive, que às vezes não é deles, né?
11:36É um sonho posto pelo aliciador, né?
11:39Posto pelo chefe do tráfico ali na região, porque é muito mais fácil manipulá-los, né?
11:45Além disso, também nós temos a outra esfera, Roberta, que é justamente a ideia de punição
11:51desses jovens, né?
11:52A gente tem uma legislação que, de algum modo, ampara esses processos
11:57e é bem verdade que essa proteção, ela precisa existir sim
12:01para garantir um bom desenvolvimento juvenil,
12:03mas a gente também sabe que isso gera certa impunidade dentro desse processo
12:08garantindo, então, para esse jovem que ele se sinta fortalecido.
12:12E o discurso do aliciador é
12:14calma, não vai dar nada não, se você for ficar preso, você vai ficar pouco tempo preso,
12:18você não vai sofrer nada, porque...
12:21Então, essa série de ações, a gente chama isso de ações endógenas e exógenas, né?
12:26Aquilo que é interno do indivíduo e aquilo que é externo a ele.
12:29Então, todos esses processos fazem parte da construção para levá-lo para o mundo do tráfico de drogas.
12:35E vamos combinar, Roberta, quando não há políticas de segurança pública,
12:39políticas sociais nesses ambientes, a única coisa que eles querem é ser vistos.
12:43E ser vistos dentro do mundo do tráfico, numa comunidade,
12:46é o que há de mais próximo e palpável para ele.
12:50Então, certamente, ele vai ingressar neste mundo, infelizmente, sabendo,
12:54e a mãe mesmo disse isso, né?
12:56De que ele, ó, vou morrer aqui, né?
12:58Por quê? Porque ele tem essa consciência, mas essa consciência, ela é suplantada por essa ideia
13:04de alcançar algo maior no futuro, que nunca chega esse alcançar algo,
13:09a não ser a dor da família e da sociedade que está próxima a eles.
13:12Até porque a gente sabe que a vida é curta, né?
13:15Curtíssima.
13:16E olha, em março desse ano, nós mostramos a morte de um adolescente de apenas 13 anos.
13:21Adriano Silva de Mello foi morto a tiros na volta de uma partida de futebol em Zumbi dos Palmares.
13:29Isso aconteceu em Vila Velha, gente.
13:30Adriano foi surpreendido pelos criminosos e atingido por vários disparos.
13:35Olha aí, uma criança, segundo a família do adolescente, ele não tinha envolvimento com o tráfico,
13:41mas andava com amigos que tinham.
13:44E esse pode ter sido o motivo da morte dele.
13:48É isso mesmo, Rusley?
13:50Só o fato de você ser amigo de quem mexe com coisa errada, isso pode respingar até mesmo para você?
13:57Totalmente, Roberta.
13:58A gente tem aquela frase, né?
14:00Eu não gosto muito de dizê-la, mas eu acho que aqui é oportuno nós falarmos,
14:02que anda com um porco, farelo come, né?
14:04Então, as pessoas que estão envolvidas de algum modo, principalmente nessa busca de poder,
14:10porque quando vai ser um grupo criminoso, vai tentar tomar o poder de outro grupo criminoso
14:15dentro da esfera do tráfico, quem está ali, Roberta,
14:18vai receber os efeitos colaterais disso.
14:21Então, independentemente se aquela pessoa é integrante daquele grupo do tráfico de drogas,
14:27se é usuária do tráfico de drogas, se ela estiver naquele local,
14:31ela vai sim sofrer também as retaliações, vai sofrer sim o efeito colateral.
14:36Por quê?
14:36Porque não estão preocupados com essa relação, olha, a gente vai atingir aqui, vai...
14:41Não, né? O mundo do crime, ele está ali para garantir o seu poder, né?
14:47Então, infelizmente, se você estiver inserido, e aqui é uma mensagem que a gente passa para você,
14:52que está assistindo a gente agora, que se de algum modo você está andando com pessoas
14:56que estão ligadas a esse universo do tráfico de drogas,
14:59a oportunidade está aí de você se afastar desse grupo.
15:03Eu lembro, Roberta, eu cresci numa comunidade na região de Serra Dourada,
15:08em uma serra, e todos os meus amigos, todos não, mas a grande maioria dos meus amigos
15:12ou foram presos ou foram assassinados.
15:15E aí, meu avô sempre falava,
15:17Rosely, se afasta desses meninos porque eles estão envolvidos e vai sobrar para você.
15:22Então, essa é a mensagem que a gente está passando agora,
15:25se você está nos assistindo, saiba que, se você está envolvido,
15:29eu sei que às vezes perder amizade, né, não é aquilo que você deseja,
15:34mas se afaste enquanto é tempo,
15:35porque, inevitavelmente, você pode ser, sim, vítima desses processos de violência
15:41simplesmente por estar próximo de quem está no mundo do tráfico.
15:45A gente tem aqui alguns comentários no Facebook.
15:47O Luiz de Abreu diz,
15:48esse é o maior problema, as pessoas jovens acham que tem amigos nesse mundão,
15:52mas não tem.
15:54Meu irmão foi assassinado por sete amigos que viviam dentro da minha casa.
16:02jovens, seus amigos são seus pais, ouçam o conselho que vem de cima, né?
16:07Ele está aqui falando o que aconteceu com o amigo dele, com o irmão dele,
16:10e está falando que Jesus, quando podia fazer alguma coisa,
16:13olhava para cima e pedia ajuda para Deus, para o pai.
16:15Então, ouçam quem está do seu lado, o conselho vem sempre de cima.
16:19Essas são as palavras do Luiz de Abreu, que perdeu o irmão.
16:22A gente também tem aqui o comentário da Carla Prates,
16:24ela diz o tráfico pega os adolescentes, porque a lei não fica com eles, né?
16:29Então, fica mais fácil aliciar, porque eles simplesmente, eles cumprem uma...
16:36Eles são um meio, né?
16:37São meio para garantir o poder ali, para garantir, inclusive, a força do tráfico.
16:42Uma medida sócio-educativa, né?
16:43Ah, não, é, eles vão cumprir uma medida sócio-educativa,
16:45se for acima de 12 anos, ou protetiva, se for menor de 12 anos.
16:48Então, é o interesse também do tráfico de drogas...
16:51Sem dúvida.
16:52Sem dúvidas, exatamente.
16:53E aí, Larissa, a gente se pergunta, a gente tem a sensação de que falar com o filho,
17:00meu filho sai dessa vida, o amigo dele morre, meu filho sai dessa vida,
17:04e ainda assim, parece que entra por um ouvido e sai pelo outro.
17:07O que que os pais ainda podem fazer numa tentativa de preencher esse interesse deles por esse mundo, Larissa?
17:17Preencher, eu não sei se é a palavra exata, Betta.
17:20Porque, como a gente falou, tem a questão do indivíduo mesmo, da personalidade, de traços de personalidade,
17:26de outras influências externas que esse indivíduo sofre.
17:30Então, é importante a gente sempre lembrar que o pai e a mãe, eles vão ter limites até onde eles
17:34podem ir,
17:35porque aquele indivíduo também vai ter as escolhas dele.
17:37Claro que a gente não culpa uma criança que foi aliciada e um adolescente que foi aliciado, jamais é culpa
17:43deles.
17:43Mas, para os pais se lembrarem também que mesmo que eles tentem, tentem, tentem, ainda existe chance deles falharem,
17:51porque a culpa, a responsabilidade não é 100% deles.
17:53O que que tal o câncer dos pais fazer para a gente diminuir as chances?
17:57É estar próximo, observar esses amigos desde a infância que convivem com o filho,
18:04se necessário, intervenção psicológica, se necessário, se tiver algum uso nocivo aí de álcool, drogas, uma internação.
18:11Mas é estar próximo, fortalecer vínculos, tentar dar um olhar mais racionalizado,
18:16diminuir a glamorização que tem do tráfego e dos ganhos aparentemente fáceis que eles têm dentro desse contexto
18:24e desconstruindo mesmo essa visão mais encantada, mais ilusória que eles vão construindo através do aliciamento
18:31das influências externas, desse contexto, desse momento, desse meio, dessas relações que ele vai estabelecendo ali.
18:39Então, tentar trazê-lo para uma visão mais racional, tentá-lo trazer, tentar trazê-lo para mais perto de você,
18:46mas se lembrar também que o pai e a mãe, ele vai ter esses limites para a gente não abrir
18:50brecha para esse pai e a mãe
18:51que tentou, tentou, tentou e não conseguiu, para ele não se culpar por essa perda.
18:57A Simone Alexandre também participa com a gente aqui no Facebook.
19:00Ela diz, perdi um irmão na época com 16 anos.
19:03Quando foi preso a primeira vez, assim que saiu, levamos ao psicólogo,
19:08depois começou a entrar cada vez mais nas drogas e aconteceu de matarem, né?
19:13Foram amigos que ele achava que eram amigos.
19:18Olha isso.
19:19O segundo relato aqui no Facebook, somando ao relato também da Verônica.
19:24Agora, você usou um termo, Larissa, você falou assim, um encantamento por esse mundo.
19:32Você percebeu que o seu filho tinha um encantamento pelo mundo das drogas, Verônica?
19:36Sim, porque traz um pouco de poder, né?
19:38A pessoa, ela, ainda mais se ela tiver um patamar melhor, assim, né?
19:42Tem vários patamares dentro do tráfico, né?
19:45Quando ele tem um patamar melhor, vamos botar assim, as meninas, né?
19:49Que é o que hoje chama eles, assim, que eles mais gostam, meninas bonitas, novas.
19:54Então, as meninas veem aquilo com outros olhos, então, isso começa a se achar, né?
19:57Isso começa, ah, ele falava comigo, pai tá bonito, olha só como é que o pai tá.
20:01Ele tinha essas conversas comigo, né?
20:03Um flavo, um poder.
20:05Aí ele falava, que é isso, Corô?
20:07O pai é bonito, as novinhas ficam doidas.
20:09Ele sempre falava isso, porque realmente o tráfico traz esse olhar, né?
20:13Esse patamar, se a pessoa tiver, traz isso.
20:17E fora as amizades, aquelas rodas de amigos, aí você sempre é o centro das atenções, entendeu?
20:22Então, realmente, acaba trazendo, sim, o poder, como se fala, né?
20:26A sensação de poder, ah, eu sou o cara, ah, eu sou o melhor.
20:30Sim, traz, sim, eu presenciei isso na vida dele, entendeu?
20:33Porque a gente tá aqui falando, mas aí você aí de casa tá se pensando,
20:37não, mas eu já dei tudo pro meu filho.
20:39Por questões materiais, não é porque eu dei tênis, eu dei celular, eu dei roupa.
20:44Por questões afetivas, eu fui super presente, eu não entendo, mas às vezes,
20:51esse desejo, esse poder, atrai também, né, Rusli?
20:55É o poder que atrai, né?
20:57Essa ideia de achar que você vai ser alguma coisa.
21:00E isso acontece, Roberta, porque nós não temos outra coisa naquela região
21:05para que esses jovens, esses adolescentes possam se apegar.
21:10Então, não sei se é o caso, mas, por exemplo, quando a mãe diz, olha,
21:14ele tinha um momento ali de estar no futebol e eu não consegui fazer esse processo,
21:19então, ali seria um outro caminho.
21:21Mas não é, e não se culpe, mãe, porque não é função sua garantir o acesso a isso a ele,
21:27né?
21:27É função do Estado também, assim, agir.
21:30Então, as políticas sociais, elas existem pra isso.
21:32Então, quando não se tem, Roberta, um outro caminho a ser seguido,
21:37então você está numa comunidade vulnerável, você está num espaço vulnerável,
21:40e aqui a gente está falando de uma população mais vulnerável no sentido econômico,
21:45mas a gente também não pode esquecer que existem também esses grupos
21:49que estão na classe média, na classe alta, mas qual que é a grande questão?
21:53Por que eles não são assassinados?
21:55Porque eles não estão justamente naquela região vulnerável, né?
21:59Eles estão protegidos nos condomínios, protegidos pelos seguranças,
22:03protegidos pelas cercas, e aquela população que está lá mais vulnerável socialmente,
22:08elas não têm um outro caminho.
22:10Então, essa relação de poder que a mãe trouxe é justamente isso,
22:14olha, eu não tenho mais pra onde ir, né?
22:16Às vezes ele pode não externalizar isso, mas socialmente ele está falando,
22:20olha, eu tenho um poder, olha, eu tenho as meninas ao meu lado,
22:23eu tenho os próprios manos do meu lado,
22:27eu tenho aqui todo esse status, e aí eu não encontro isso em outro lugar,
22:32porque todo mundo quer se sentir pertencido a alguma coisa.
22:35E quando ele encontra nesse espaço do tráfico de drogas,
22:38essa ideia de pertencimento, é lá que ele vai ficar,
22:42não porque ele simplesmente quer,
22:44mas é porque também não existe outro espaço para ele se sentir pertencido,
22:48para ele estar envolvido e ter esse glamour e esse poder que ali é dado a ele.
22:53Mas, repito, esse poder é um poder frágil e é um poder que gera morte,
23:00morte não apenas do indivíduo, mas de algum modo também daquelas pessoas
23:05que estão próximas gerando dor, gerando aflição, gerando perda.
23:10Então, na equação do crime, não compensa, Roberta,
23:15de jeito nenhum você está envolvido nesse poder.
23:18Então, é preciso que a gente demonstre isso também,
23:20mas não apenas demonstrar isso, é preciso que a gente pense políticas sociais,
23:25mas não apenas pensar, Roberta, é preciso que a gente comece a implementar
23:30as políticas sociais, políticas de segurança pública,
23:33muito além de redes sociais, muito além de falas,
23:37mas que sejam capazes de gerar pertencimento aos nossos jovens
23:41e aos nossos adolescentes nas comunidades.
23:43Está aí a importância dos projetos que realmente gerem identificação.
23:46De nada adianta colocar um projeto social numa comunidade
23:49que as crianças não têm interesse naquilo.
23:51Tem que ser coisas que realmente elas curtam, que elas gostem,
23:54que elas queiram fazer parte, tudo isso faz a diferença.
23:58Olha só o comentário aqui do Alexandre, ele diz,
24:01fui criada em Flechal, não tenho religião e nunca coloquei droga,
24:05nunca tive problemas com ninguém, me tornei de bem, tive princípios.
24:09Então, a gente sabe que essas comunidades são mais vulneráveis,
24:13porque exatamente onde tem a atuação do tráfico de drogas.
24:16E se a criança não tem ali um projeto social, por exemplo,
24:19se não tem a família presente, por exemplo,
24:21ou se tem algum outro tipo de carência também, né Larissa?
24:24Que ela também acaba que naquela área ela se torna mais vulnerável.
24:29Agora, voltando a falar sobre o poder, já que a gente está falando que para alguns
24:33o poder atrai, de que forma que os pais ou responsáveis, Larissa,
24:39possam tentar suprir essa sensação gostosa que o poder provoca nesses adolescentes?
24:46A gente não vai falar necessariamente de atender a essa necessidade, tá?
24:51Tanto que o exemplo que você usou anteriormente foi,
24:54ah, mas eu dei tênis, eu dei celular, eu dei tudo para o meu filho.
24:57Na realidade, a gente vai na direção oposta, de ensinar o meu filho a tolerar as ausências,
25:03de ensinar o meu filho a tolerar que nem tudo ele vai ter,
25:06que nem tudo e a todo momento ele vai ser atendido em absolutamente todas as necessidades dele.
25:11Porque ele precisa aprender, nós enquanto indivíduos, nós precisamos,
25:16é saudável e é um fator de proteção que eu aprenda a lidar com as minhas frustrações
25:21e com as minhas necessidades não atendidas.
25:23Porque em contexto nenhum saudável de nenhuma realidade de ninguém,
25:28de nenhuma classe social, vai ser saudável ir na busca de atender
25:31a absolutamente todas as necessidades e todos os desejos que eu tiver.
25:36Então, não é como eu posso atender a essa sensação de poder,
25:40porque a sensação de poder que o tráfico dá, eu tenho sérias dúvidas
25:43se em algum lugar a gente vai conseguir suprir isso,
25:46porque é uma sensação de poder que é disfuncional, que é perigosa,
25:50não é saudável para indivíduo nenhum ter aquela sensação de poder.
25:54É o oposto, a gente tentar ensiná-lo a lidar justamente com a ausência daquilo,
26:00de que aquilo é o saudável, que o saudável é conseguir lidar de uma forma saudável,
26:07aceitar, não sentir tanto essa necessidade e me enxergar como um indivíduo ali
26:13dentro de um funcionamento natural da sociedade,
26:15sem eu precisar estar acima ou abaixo de ninguém.
26:19Então, trabalhar para que os meus filhos, a minha família e até a mim mesmo,
26:22que a gente compreenda que é natural e faz parte eu não ter todas as minhas necessidades
26:28atendidas em absolutamente todos os momentos.
26:30Perfeito, isso começa desde a primeira infância, né?
26:33Obrigada, Larissa, pela sua participação.
26:35Obrigada, Rússia, também a gente agradece imensamente.
26:38Verônica, a gente está sempre de mãos dadas com você,
26:40conte com o falho Espírito Santo, a gente agradece imensamente a sua presença, viu?
26:45Que Deus sempre conforte o seu coração a cada amanhecer e a cada anoitecer.

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