00:00que a República não permite catacumbas para se investigar autoridades.
00:05A situação que já era grave o bastante vem se tornando ainda mais grave,
00:10a situação vem escalando para níveis que a gente e nós que cobrimos com bastante atenção o Supremo,
00:18talvez a gente nem imaginasse, porque se há alguns meses, alguns anos,
00:24a gente se viu diante de um caso, de uma possível abim paralela dentro do governo de Jair Bolsonaro,
00:30a Agência Brasileira de Inteligência, parecia, e isso foi alvo de inquérito pelo próprio Judiciário,
00:37pela própria Polícia Federal, que acabou inclusive com o indiciamento, com o envio dos documentos
00:45sobre o deputado, sobre o ex-vereador Carlos Bolsonaro para a Justiça de primeira instância no Rio de Janeiro,
00:51porque para averiguar se havia mesmo a participação dele nesse esquema dessa abim paralela,
00:56a gente agora vê algo semelhante acontecer dentro da Polícia Federal, pelo menos em tese,
01:04e acontecer, sendo que um dos alvos agora foram ministros do próprio Supremo Tribunal Federal,
01:12no caso um deles, o André Mendonça.
01:15Se isso tudo de fato ocorreu da forma como parece ter ocorrido,
01:19é de uma gravidade talvez ainda maior do que tudo isso que a gente assistiu até o momento.
01:25Eu acho que o Brasil está passando por uma crise institucional,
01:31e eu falo Brasil porque a coisa não se resume ao Supremo Tribunal Federal,
01:36algo dessa gravidade no Supremo Tribunal Federal,
01:39que é um dos três poderes da República,
01:42que é o maior dos poderes, porque é quem tem a última palavra.
01:46Por isso que eu digo, o Brasil hoje enfrenta uma crise institucional inédita e de proporções inimagináveis,
01:54porque a depender dos desdobramentos, o Supremo que já está com a reputação,
01:58com a credibilidade lá no chão, isso pode ficar ainda pior,
02:03e isso como pilar da democracia, obviamente que contamina não só as eleições
02:08que estão por vir agora em outubro, mas contamina todo o ambiente institucional,
02:13a depender do resultado dessas eleições.
02:17Ora, se em 2022 a gente teve tudo aquilo que a gente teve durante dois, três meses,
02:24após as urnas serem abertas e darem a vitória ao presidente Lula,
02:29e principalmente culminando com os atos de 8 de janeiro,
02:33se tudo aquilo aconteceu à luz, ou à falta de luz do que a gente encontra hoje,
02:39a gente não tinha ideia desses fatos, vocês imaginam o que pode estar por vir
02:44no caso de uma nova vitória do presidente Lula, o que isso não pode se traduzir
02:51em termos de indignação popular.
02:54Nós temos que, obviamente, aguardar com a máxima cautela e esperar a máxima celeridade
03:00dos próprios ministros na elucidação destes fatos que são para lá de graves,
03:05para que esse ambiente fique menos contaminado e menos tóxico,
03:10porque se a gente entrar em eleições sob esse ambiente,
03:15isso pode influenciar, e já está, pelo menos em tese,
03:19influenciando sim, as pesquisas eleitorais começam a mostrar isso de alguma forma,
03:24isso contamina sim as eleições, mas repito, num cenário hipotético
03:30de uma eleição adversa ao Flávio Bolsonaro, o tipo de revolta que pode se ter daí,
03:37a partir da manipulação, inclusive, desses, não manipulação no sentido de ser errado, não,
03:42mas manipulação midiática desses dados graves, pode produzir um ambiente muito,
03:48mas muito ruim a partir de janeiro do ano que vem.
03:52Agora, Ricardo, só um detalhe rápido, antes de você passar para o Rodolfo,
03:57o seguinte, a coisa é tão grave e tão inédita,
04:01que já tem gente ali que acompanha o Supremo falando que não duvida nada
04:06de que o Alexandre de Moraes revide em relação ao André Mendonça.
04:10Já tem gente falando até de que o Alexandre de Moraes poderia acatar monocraticamente
04:15um pedido de suspeição do André Mendonça.
04:17Assim, então, não duvide que essa guerra vai se falar.
04:20Parece absurdo, eu entendo, Rodolfo, mas só estou colocando na roda aqui
04:24para você comentar, meu amigo, porque do direito xandônico, a gente espera tudo.
04:31Olha, boa tarde a todos, eu vou aproveitar essa deixa do Wilson aí
04:35para falar um pouco sobre a diferença de um ministro para o outro,
04:39porque, de fato, a gente pode até questionar aí, analisar,
04:43tudo o que tem feito o ministro André Mendonça.
04:45Só que, como o Wilson já disse lá no início,
04:47quando você põe em perspectiva com o que fez o ministro Alexandre de Moraes
04:51nos últimos seis anos, sete anos, de inquérito das fake news,
04:55não tem comparação.
04:56Até agora, o André Mendonça afastou o diretor da Polícia Federal
05:01e encaminhou para o plenário do STF um relatório que expunha,
05:05ou confirmava, segundo a investigação da Polícia Federal,
05:10que quem trocou mensagens com o Daniel Alvorcaro foi o Alexandre de Moraes.
05:13Isso foi o que fez o André Mendonça por enquanto.
05:14O que fez o Alexandre de Moraes?
05:16Pediu uma investigação sobre o André Mendonça,
05:20a partir do inquérito das fake news.
05:23Quer dizer, só no que está acontecendo a partir de agora só, tá?
05:26A partir agora da revelação do relatório da Polícia Federal
05:30sobre as mensagens trocadas entre o Daniel Alvorcaro e o Alexandre de Moraes.
05:34Eu estou pegando só esse recorte,
05:35sem considerar o que foi feito pelo Alexandre de Moraes em todos os outros processos.
05:39Se você pega só esse recente, o Alexandre de Moraes já foi muito além do que o próprio André Mendonça
05:44foi.
05:46Então é muito difícil.
05:47Veja, eu entendo aí que tem um pedaço do espectro político brasileiro
05:51que está muito incomodado com as investigações,
05:54ou com a perspectiva de investigação do Alexandre de Moraes.
05:56E aí por isso ficam apontando o dedo aí para os ternos do André Mendonça,
06:01querendo saber se reconheceu firma na hora de comprar um terno no Alfaiate,
06:06enquanto o Alexandre de Moraes está totalmente exposto em praça pública.
06:12Ficam tentando desviar o assunto.
06:13Eu entendo aí que tem motivações políticas.
06:16Agora, à luz do que esses dois ministros do STF fizeram só recentemente,
06:20de duas semanas para cá,
06:22não tem sequer comparação da atitude de um, do despacho de um com o despacho do outro.
06:29Aliás, o Mendonça, ao determinar o afastamento aí do diretor-geral da Polícia Federal
06:35atendendo a um pedido do Partido Novo,
06:37me parece que ele foi muito aquém do que poderia ter ido.
06:42E eu publiquei uma análise sobre isso no portanto do Antagonista.
06:45O título é Moraes nas Catacumbas da República.
06:49Porque quem expôs esse relatório apócrifo não foi o André Mendonça.
06:55Ele permitiu que fosse feito, como está registrado, inclusive, na decisão do Moraes.
07:00O André sabia disso, sabia da confecção desse relatório apócrifo aí.
07:06E o Mendonça destaca isso ao pedir o afastamento dele.
07:09Agora, quem tornou público o conteúdo do relatório foi o Alexandre de Moraes.
07:13E eu digo, eu estou usando essa expressão Catacumbas aí,
07:16porque o André Mendonça, para endossar, para reforçar a decisão dele de afastar o diretor-geral da Polícia Federal,
07:23ele menciona uma decisão de 2020, do STF, sobre uma investigação lá do Ministério da Justiça,
07:29durante o governo Bolsonaro, sobre servidores federais, estaduais, que faziam parte de um movimento antifascista.
07:36E aí, o Alexandre de Moraes, ele votou pelo relatório da Carmen Lúcia,
07:42contra essa investigação, criticou que relatórios fossem feitos dessa forma,
07:48disse que não se pode bisbilhotar servidores desse jeito.
07:51E a Carmen Lúcia, que era relatora, ela usa essa expressão,
07:54que a República não permite catacumbas para se investigar autoridades.
07:59Mas, aparentemente, o fato de a República não permitir a existência de catacumbas,
08:04não é o bastante para evitar que essas catacumbas sejam frequentadas,
08:08inclusive, por autoridades do Supremo Tribunal Federal.
08:25Legenda Adriana Zanotto