Pular para o playerIr para o conteúdo principal
O jornalista Laurentino Gomes, que está lançando o segundo volume de sua trilogia de livros sobre a escravidão no Brasil, falou a 'O Antagonista' sobre a relação entre escravidão e corrupção.

"Essa é uma ideia do Joaquim Nabuco (1849-1910)", diz Laurentino, citando um dos principais líderes abolicionistas. "[Ele] defendeu que a escravidão corrompeu toda a maneira como o Brasil poderia ter se organizado. Corrompeu as relações econômicas, sociais, familiares. Permitiu que um grupo de brasileiros explorasse o outro, inclusive na sua sexualidade. Distorceu a noção de trabalho, porque no Brasil escravista quem trabalhava era escravo - o branco que fosse fidalgo não podia nem carregar um guarda-chuva".

#LaurentinoGomes #Escravidâo #História
--
Cadastre-se para receber nossa newsletter:
https://bit.ly/2Gl9AdL​

Confira mais notícias em nosso site:
https://www.oantagonista.com​

Acompanhe nossas redes sociais:
https://www.fb.com/oantagonista​
https://www.twitter.com/o_antagonista​
https://www.instagram.com/o_antagonista

Categoria

🗞
Notícias
Transcrição
00:00Olá, eu estou conversando com Laurentino Gomes, jornalista, autor de livros, escritor.
00:06Ele é autor da trilogia 1808, 1822, 1889, que já fez muito sucesso e agora está trabalhando
00:13em uma segunda trilogia de livros sobre a história da escravidão no Brasil.
00:17O primeiro volume saiu em 2019 e o segundo volume, que é este aqui, está agora nas livrarias.
00:25Laurentino, no começo desse segundo volume, você nos conta que boa parte da pesquisa que você leu
00:31é pesquisa nova, é historiografia produzida nos últimos anos e que hoje a gente sabe mais
00:38sobre a escravidão no Brasil e nas Américas do que sabia-se nos últimos anos.
00:43O que essa historiografia tem revelado? O que os pesquisadores descobriram sobre a escravidão
00:48que a gente não sabia antes?
00:49Bem, eu diria assim, existem mudanças de foco importantes, por exemplo, na época de
00:58Gilberto Freire, de Casa Grande Senzala, que foi um livro revolucionário na década de
01:0430, se construiu essa ideia de uma escravidão branda, patriarcal, benévola, que por sua vez
01:13teria dado numa democracia racial. Essas novas pesquisas, aí eu estou falando de 20,
01:2130 anos para cá, tem mostrado, não, que a escravidão brasileira foi tão violenta
01:26quanto em outros países escravistas, outros territórios, o sul dos Estados Unidos, o
01:32Caribe. Mas havia algumas válvulas no sistema escravista brasileiro que eram peculiares,
01:40diferentes desses outros locais. Por exemplo, a possibilidade de euforria, a possibilidade
01:45de constituir família, a possibilidade de participar de uma irmandade religiosa, de
01:50cultivar um pedaço de roça, uma horta no fundo do quintal, de fazer alianças às vezes
01:57sutis com os próprios senhores escravocratas em busca de alguns benefícios concretos no
02:04dia a dia. Por exemplo, o marido e a mulher não serem vendidos separadamente, porque a lei
02:09permitia isso. Então, assim, eram formas de resistência, né? Então, assim, não era nem
02:15o escravo perfeitamente adaptado dentro do sistema escravista, como se vê às vezes em
02:24Gilberto Freire, e nem o escravo em permanente estado de rebelião, pegando em armas, fugindo,
02:31como uma certa historiografia de viés marxista procurou reforçar durante o século XX.
02:39O sistema escravista era muito mais complexo, cheio de sutilezas, que incluía, de um lado,
02:45punição, o chicote, a violência, que era o principal meio de controle, mas também
02:52alguns mecanismos de recompensa. Então, assim, o sistema escravista era mais inteligente do
02:58que se imaginava, mais complexo, cheio de nuances e coisa. Isso incluía a resistência escrava, que
03:05podia ser colaboração, inclusive, com o sistema escravocrata em busca de algumas brechas, né?
03:12De melhoria de vida. Ou também, por exemplo, fazer corpo mole, fingir não entender a língua
03:18portuguesa, nas ordens que o feitor decretava, ou então deixar de propósito, ou acaso, uma ferramenta
03:29dentro de uma engrenagem do engenho de açúcar, e o senhor de engenho sabia que o escravo podia fazer isso
03:36de noite, enquanto estava dormindo, e parava o engenho por 10, 15 dias, parava a produção.
03:42Ou seja, era um jogo muito sutil de negociação entre o cativo e o seu dono. Então, eu diria,
03:49essa é uma grande novidade para mim, né? A complexidade. A outra é a banalidade da
03:55escravidão. Realmente, todo mundo que não fosse escravo no século XVIII ou era dono de escravo
04:02ou sonhava em ser dono de escravo. Inclusive, esses escravos que conseguiam a liberdade e,
04:07depois de juntar um certo pecúlio, uma certa poupança, comprava escravos. O caso típico
04:13é Chega da Silva, né? Que foi escravo, foi comprada na adolescência para fim de exploração
04:18sexual. Depois virou uma grande dama da sociedade diamantina, ao se casar com o contratador de
04:24diamantes João Fernandes de Oliveira. E também virou grande dona de escravos no final da vida.
04:31Então, isso era muito interessante. Os dois símbolos de riqueza no Brasil, no século XVIII,
04:36era a propriedade da terra, os grandes fazendeiros, latifundiários, senhores de engenho, ou a propriedade
04:43de gente. E todo mundo perseguia esse sonho, inclusive as pessoas, às vezes, de pele negra.
04:50Então, assim, essas coisas me surpreenderam bastante, assim, a complexidade do sistema
04:55escravista e a sua banalidade. Ele virou uma coisa corriqueira, comprar e vender gente.
05:01Algumas coisas que me chamaram a atenção no seu livro e que você, falando agora,
05:05lembrei de alguns capítulos. Essa coisa da necessidade de ter escravos para ocupar o
05:12território, que surgiu muito rapidamente, logo depois das grandes navegações. E não
05:18havendo portugueses suficientes em Portugal para ocupar esse território, eles tinham que
05:24correr atrás de gente para poder popular aquele vasto território que tinham riquezas que eles
05:29ainda desconheciam, mas imaginavam que tinham. Uma coisa que me chamou muita atenção é na
05:35questão das lavras. O Estado português, ele tinha, então, esse monopólio de licença das
05:41lavras minerais e ele abria, vamos dizer assim, editais, chamados datas, né? Para explorar onde
05:49tinha diamante, onde tinha ouro. E me chamou muita atenção que tinha um prazo. Se você
05:56obtivesse uma dessas licenças, você tinha 40 dias para arrumar escravos e começar a explorar
06:03aquele local, senão você perdia. Então, quer dizer, era tão urgente e era possível fisicamente
06:10alguém, de repente, contratar pessoas escravizadas e começar a explorar a terra em até 40 dias. Então,
06:17quer dizer, que tinha, era um tráfego muito acelerado, porque era possível você fazer isso
06:23tão rapidamente. Hoje em dia não tem licenciamento ambiental, mas não dá para fazer uma obra em 40
06:28dias? Começar uma exploração em 40 dias? É, o escravo, ele era um capital, né? Ele era a força
06:36produtiva disponível no Brasil. Então, assim, um dos critérios usados pela coroa portuguesa para
06:42distribuir os lotes, as datas minerais, era exatamente a posse de escravos. Quem tivesse mais escravos
06:50teria mais chances de achar ouro e de achar diamante, porque o critério de distribuição desses
06:57barrancos, né? Desses pedaços de terra onde, teoricamente, haveria pedras e minerais preciosos, era
07:03justamente a posse de escravos. O que fez com que, na corrida de ouro de Minas Gerais, houvesse uma
07:10inflação de preços por homens e mulheres africanos escravizados lá na África? Houve uma corrida, assim, o preço
07:18dobrou de valor e aí isso desorganizou a geopolítica e social da África. Surgiram
07:27muitos reinos, impérios escravistas associados aos europeus e financiados e recebiam armas, munições,
07:38promoviam guerra entre si e dessas guerras iam centenas de milhares de pessoas escravizadas
07:46para o porão dos navios negreiros, né?
07:49A gente vê o volume de escravizados como é muito, muito grande. No Brasil, quase 5 milhões,
07:57reitora que mais recebeu escravizados. Então, é um número assombroso a gente pensar numa coisa
08:03dessa, um tráfico de gente tão volumoso.
08:08Outra coisa que eu queria que você comentasse, a gente lê alguns trechos do livro e são muito
08:16atuais, infelizmente, muitas situações ali que parecem se repetir. Tem um capítulo aqui
08:24específico, no final do capítulo você cita duas situações que parecem do noticiário
08:30de hoje. Primeiro, escravizados que são acusados de magia negra, para poder justificar a violência
08:37contra eles. E logo depois você fala de corrupção. Funcionários do Estado que aceitavam propina
08:46e tinha outra pessoa que tinha estabelecido uma relação para não pagar imposto, etc.
08:51Quando você pesquisa esse tipo de coisa, destaca mais para você o seguinte, ah, agora eu entendi
08:58por que o Brasil é assim? Ou te destaca mais, poxa, a gente poderia ter feito outras decisões
09:04e o Brasil ser de forma diferente?
09:08Não, eu, com certeza, ao estudar a história, eu vou percebendo o porquê que nós somos assim, né?
09:17E por que que hoje existem brasileiros que se julgam superiores a outro e têm todas as oportunidades.
09:24Reparte os recursos do Estado e não deixa para mais ninguém.
09:27Os benefícios do Estado brasileiro são privilégios de corporações, de grupos específicos.
09:33Porque a sociedade escravista brasileira é estratificada.
09:37Ou seja, quem tinha terra, quem era dono de gente, tinha todo o poder, tinha Estado social, tinha riqueza.
09:44Embaixo de um mar de analfabetos, pobres e pessoas cativas, que eram mercadorias compradas e vendidas,
09:51como hoje você compra um animal, uma commodity, um produto agrícola no interior do Brasil.
09:58Então, agora, também me surpreende muito esse clima de promiscuidade entre os interesses públicos e privados,
10:08esse toma-lá-da-cá.
10:09Então, eu fiz um capítulo que eu falo de nepotismo, tráfico de influência, contrabando, ladruagem.
10:18É incrível esse compadrismo, esse clientelismo que nós vemos hoje na política brasileira,
10:26que é uma tradição do Brasil, ele estava presente.
10:29Então, eu conto, por exemplo, que os dois primeiros governadores de Minas Gerais,
10:34o Conde de Assumar e o Dom Lourenço de Almeida,
10:38voltaram para Portugal muito mais ricos do que os seus rendimentos permitiriam.
10:43Um deles voltou tão rico que o rei de Portugal, enciumado, se recusou a recebê-lo.
10:51Mas logo o perdoou e nomeou como o vice-rei da Índia, de onde ele voltou mais rico ainda.
10:57Porque aí era muito interessante.
10:58A corrupção no Brasil colonial, ela tinha um parâmetro muito específico.
11:03A coroa permitia que os seus altos funcionários se enriquecessem no exercício do cargo,
11:10através de privilégios, clientelismo, tráfico de influência,
11:15desde que os interesses da coroa portuguesa estivessem preservados.
11:19Então, se você fosse governador de Minas Gerais, vice-rei do Brasil,
11:23e garantisse o pagamento do quinto real, tudo bem.
11:27Era esperado que você enriquecesse a sua casa e voltasse a Portugal
11:31cheio de riquezas e honrarias.
11:34Então, eu diria assim, olha, não está muito longe do que nós vemos hoje em Brasília.
11:39E outra situação que a gente vê é dessa África escondida.
11:48Você fala de uma igreja em Ouro Preto, que tem um historiador, um guia de turismo,
11:54que conta dessas raízes africanas que estão ocultas nessa igreja.
12:00E a gente também vê muitas situações ao longo do seu livro,
12:05além da tortura, de falsas aposentações de crime,
12:10dessa questão de querer caracterizar os negros como praticantes de magia negra,
12:15e tem esse preconceito religioso.
12:17Eu lembrei recentemente, nessa situação do Lázaro,
12:20que começaram a circular, que faziam rituais de magia negra.
12:25Eu imagino que o Lázaro não tinha nem tempo para fazer isso,
12:28já que ele estava ali na situação de fugir da polícia.
12:32Você vê parte da raiz desse preconceito religioso que existe hoje,
12:37também na escravidão, alguma situação ali que, durante o livro,
12:40chamou a atenção, parece com o noticiário de hoje isso aqui, o que aconteceu?
12:44Sem dúvida.
12:45Eu diria que isso é a base do que a gente poderia chamar de uma ideologia escravista,
12:50que resultou também numa ideologia racista hoje.
12:53Essa ideia de que o africano era inferior,
12:56era bárbaro, selvagem, praticante de religiões demoníacas,
13:02e que, portanto, ele era necessário.
13:04O Brasil é um território enorme,
13:0631 vezes maior do que o pequenino Portugal,
13:10e para produzir as primeiras grandes commodities na história humana,
13:14o açúcar, o tabaco, o algodão, o café e, no meio, o ouro e o diamante,
13:21precisava de milhões e milhões de pessoas escravizadas.
13:24O Brasil colonial necessitava dessa população negra,
13:28mas, no fundo, tinha medo dela.
13:31Tinha muito preconceito de que ela era perigosa, imprevisível,
13:35poderia se tornar violenta, poderia envenenar.
13:38Então, a mucama que trabalhava dentro da casa do senhor
13:42e tinha uma intimidade com a família escravista,
13:45poderia envenenar o senhor.
13:47Era uma coisa assim, ela que fazia comida,
13:49ela que cuidava da casa.
13:51Isso resultou em inúmeros processos na Inquisição em Lisboa.
13:56Eu abro um capítulo descrevendo isso.
13:58E aí, quando você vai no detalhe,
14:01essa suspeita, que hoje parece ridícula,
14:05de que uma escrava pudesse se transformar numa borboleta,
14:08entrar por um buraco de fechadura
14:10e sugar o sangue de um bebê adormecido,
14:12isso está num processo da Inquisição,
14:15que eu descrevo em detalhe,
14:16e essa escrava foi barbaramente torturada
14:19para confessar o crime.
14:21Então, isso me surpreendeu muito,
14:23essa estranheza, né?
14:25Entre o mundo do colonizador branco,
14:27português,
14:29e o mundo do cativo africano.
14:31Eles conviviam, eram muito próximos,
14:33um dependia do outro,
14:35inclusive o escravizador dependia do seu senhor,
14:37porque, senão, ele ia para o Pelourinho
14:40e ele era chicoteado, ele era violentado,
14:43mas eles tinham um temor muito grande,
14:45um medo muito grande.
14:47E aí, o que me chamou muito a atenção,
14:49você citou, né,
14:50um episódio que eu também mostro na abertura
14:53de um livro chamado
14:54As Áfricas Brasileiras, capítulo 17,
14:56que são as mensagens,
15:00os signos,
15:01os sinais africanos
15:02que estão escondidos dentro do Brasil hoje,
15:06inclusive no barroco mineiro.
15:07Então, você chega em Minas Gerais,
15:08lá na igreja Santa Efigênia,
15:10em Ouro Preto,
15:11dá a impressão que é tudo português,
15:14o barroco português, né?
15:15Eu, hoje, estou numa cidade barroca,
15:17cidade braga, em Portugal,
15:19e eu visitei uma igreja,
15:20aliás, hoje de manhã,
15:22com esse olhar.
15:23Falei, vou ver se aqui tem signo africano.
15:25Não tem.
15:26É muito interessante.
15:27O barroco de Braga
15:28é diferente do barroco
15:29da igreja de Santa Efigênia de Ouro Preto,
15:32porque lá dentro você vê
15:33véu de Yansã,
15:35vê conchas marinhas de Imanjá,
15:39você vê o casco de tartaruga de Xangô,
15:42tem um monte de coisa interessante.
15:43Então, talvez o correto
15:44não seria nem chamar de barroco mineiro
15:46ou português,
15:47mas barroco afro-brasileiro,
15:49porque tem uma contribuição africana,
15:51a estética africana,
15:53está lá preservada
15:54dentro de uma joia do Brasil
15:56colonial português.
15:58Voltando a essas diferenças
16:00que você fala das elites,
16:03evidentemente,
16:04chamou a atenção
16:05o capítulo da Inconfidência Mineira,
16:06já que eu fiz a pessoa de Binas,
16:07o diretor da Inconfidência,
16:09e os Inconfidentes
16:10eram todos devedores de impostos,
16:12e o Tiradentes tinha seis escravos,
16:16e uma das coisas
16:17com as quais eles se articulavam,
16:20eles debatiam o mesmo debate
16:22que os movimentos iluministas
16:24tinham da época,
16:25tanto nos Estados Unidos
16:27e em outros lugares,
16:28que eles queriam a liberdade
16:29para todo mundo,
16:30mas eles eram senhores escravos,
16:32e alguns ficavam assim,
16:33a gente deixa o debate
16:34de abolir a escravidão
16:35para depois.
16:38O que estava acontecendo
16:39nessa época
16:40na Inconfidência Mineira,
16:42e como é que era esse debate
16:43de você importar
16:44essas ideias iluministas,
16:46inspirar na Revolução Americana,
16:48e também lá nos Estados Unidos
16:50eles deixaram
16:50para abolir a escravidão
16:51para depois,
16:52aí quase cem anos depois
16:54deu na Guerra Civil,
16:55que foi a guerra
16:55que mais matou o americano
16:56de todas as guerras.
16:59Eu diria que essa
17:00é a grande contradição
17:02do revolucionário,
17:04iluminista,
17:05século XVIII,
17:06o século das luzes,
17:07transformação do pensamento humano,
17:09os filósofos iluministas,
17:11os enciclobidistas franceses,
17:14que eles defendiam liberdade,
17:16direitos civis,
17:18uma mudança na forma
17:19de organizar a sociedade,
17:21antes era o rei,
17:21todo mundo obedecia,
17:23e você mudava,
17:23todo o poder emana do povo
17:25em seu nome exercido,
17:26mas isso valia para os brancos.
17:30Então, essa contradição
17:31está em todo lugar.
17:32Na Independência Americana,
17:33o homem que escreveu
17:35que todo ser humano
17:36nascia com direitos iguais
17:38que incluem a liberdade,
17:40o Thomas Jefferson,
17:41segundo presidente americano,
17:44aliás, terceiro,
17:45o segundo foi o John Adams.
17:49O Thomas Jefferson
17:50era grande senhor de escravos.
17:53O George Washington,
17:55primeiro presidente,
17:56grande senhor de escravos.
17:58A maioria dos delegados
18:01lá na Filadélfia,
18:03onde se escreveu
18:04a Constituição Americana,
18:06era dono de escravos
18:06ou traficante de escravos.
18:08A Revolução Francesa
18:09se confrontou com esse problema.
18:11Então, num primeiro momento,
18:12acabou com a escravidão no Caribe,
18:14no Caribe francês,
18:16e depois,
18:17diante da necessidade
18:18de recuperar
18:19a economia francesa
18:20estrangulada
18:22pela Revolução,
18:24restaurou
18:25a Revolução.
18:27Isso acontece no Brasil.
18:29É escravidão, é.
18:30Isso acontece no Brasil.
18:32Os inconfidentes mineiros,
18:33eles têm uma,
18:34eu descrevo,
18:35uma célebre reunião
18:36que aconteceu em dezembro
18:37de 1888,
18:38uma noite chuvosa
18:40em Ouro Preto.
18:41Então, eles discutiram lá
18:42que a capital ia sem São João del Rey,
18:45quem seria o primeiro
18:46presidente da república,
18:47a bandeira,
18:48a universidade,
18:49a Casa da Moeda.
18:50Quando chegou a escravidão,
18:52a conversa empacou,
18:53porque todos eles
18:55eram senhores de escravos,
18:56incluindo o Tiradentes,
18:57que tinha seis escravos
18:59quando morreu,
19:00e a nova
19:02república de Minas Gerais,
19:04caso a inconfidência
19:05desse certo,
19:06não poderia funcionar
19:07sem escravos,
19:08porque era a maioria
19:08da população.
19:09aí,
19:10quando você vai,
19:11por exemplo,
19:11para a Conjuração Baiana
19:12de 1798,
19:14também conhecida
19:14como a Revolta dos Alfaiates,
19:17tinha lá muitos negros,
19:18tinha mestiços e tal,
19:19mas um dos líderes,
19:21o médico Cipriano Barata,
19:23também era dono
19:23de seis escravos.
19:25Então,
19:25isso é interessante.
19:26Eu diria que,
19:27de todas as revoluções
19:29no século XVIII,
19:30a única que realmente
19:32interessou aos escravos
19:33foi o abolicionismo,
19:35que nasceu na Inglaterra,
19:37lá no finalzinho do século,
19:38e nos Estados Unidos.
19:40E aí, sim,
19:40essa tinha o objetivo
19:43de acabar com o tráfico negreiro
19:44e a escravidão,
19:45meio que para purgar
19:47os pecados dos brancos,
19:49mas ela resultou
19:50em benefícios concretos
19:52para a população negra.
19:54Então, Ritiro,
19:54você vê alguma relação
19:56entre o sistema escravista
19:59e a corrupção no Brasil?
20:01Como que estão atrelados
20:02esses conceitos?
20:03Escravidão e corrupção?
20:04Essa é uma ideia
20:06do Joaquim Nabuco,
20:07né?
20:07O Joaquim Nabuco
20:08defendeu
20:10que a escravidão
20:13corrompeu
20:15toda a maneira
20:16como o Brasil
20:17poderia ter se organizado.
20:20Corrompeu
20:20as relações econômicas,
20:22sociais,
20:23familiares,
20:24permitiu
20:25que um grupo
20:26de brasileiros
20:27explorasse o outro,
20:28inclusive na sua sexualidade,
20:31distorceu
20:32a noção de trabalho,
20:33porque no Brasil escravista
20:34quem trabalhava
20:35era escravo,
20:36o branco
20:36que fosse fidalgo
20:39não podia nem carregar
20:40um guarda-chuva,
20:41um livro na mão
20:42quando caminhasse na rua,
20:43isso era trabalho do escravo,
20:45mas também corrompeu
20:47todas as relações sociais,
20:49inclusive nos interesses
20:50públicos e privados.
20:52E essa coisa do jeitinho,
20:54o escravo observava
20:56que o dono,
20:57o patrão,
20:58roubava,
20:59e ele também passava
21:00a roubar,
21:01escondidas,
21:01fazer contrabando
21:02de ouro,
21:03de pedras preciosas,
21:05roubar uma galinha,
21:06roubar um pouco
21:07de cano,
21:07de café
21:08e vender
21:08no mercado paralelo.
21:11Então,
21:11esse toma-lá-da-cá,
21:13esse jeitinho,
21:14essa coisa de fugir
21:15aos regulamentos,
21:17que no fundo
21:17eram feitos
21:18apenas para preservar
21:20a ordem escravista,
21:21resultou num Brasil
21:22muito informal,
21:24em que todo mundo
21:25tenta tirar
21:26algum proveito,
21:28alguma coisa
21:29dessa ordem
21:29aparente,
21:30um Brasil,
21:31é uma miragem,
21:31a ordem jurídica
21:34e institucional
21:35no Brasil,
21:36a minha até hoje
21:37me parece muito
21:38uma miragem.
21:39Você olha a Constituição,
21:40você olha as leis brasileiras,
21:41nossa,
21:42que país bem organizado,
21:43como tudo foi previsto,
21:45nos seus detalhes.
21:46Quando você vai
21:47na realidade,
21:49é uma confusão,
21:51é uma bagunça,
21:52e cada um tentando
21:53encontrar um espaço
21:55de sobrevivência
21:56que esse Estado
21:57não garante.
21:58o sistema escravista
21:59era assim também.
22:01Laura,
22:02caminhando para a gente
22:03encerrar,
22:03me fala um pouco
22:04da sua decisão
22:05de que neste livro
22:06você decidiu fazer
22:08os capítulos,
22:09eles podem ser lidos
22:10como reportagens
22:11independentes,
22:11podem ser lidos
22:12fora de ordem,
22:13não precisa ler
22:14do começo ao fim.
22:15Como é que foi
22:16essa decisão?
22:18Eu diria que
22:19esse é um estilo
22:20que de alguma forma
22:21já estava presente
22:22nos livros anteriores,
22:23mas dessa vez
22:24eu radicalizei.
22:25eu procurei fugir
22:27dessa narrativa
22:30cronológica linear,
22:32né?
22:32Começa em 1700,
22:34aí tem 1702,
22:351705,
22:36blá, blá, blá,
22:37então eu acho
22:38que o livro
22:38fica previsível,
22:39ele fica monótono,
22:40chato para o leitor,
22:42inclusive para o autor.
22:43Eu gosto
22:44dessa ideia
22:44de construir um,
22:46como se fosse
22:47um grande painel,
22:49né?
22:49uma coisa que você
22:51olha primeiro
22:53pela perspectiva
22:54da família,
22:55depois das crenças
22:56religiosas,
22:58depois das rebeliões,
22:59do trabalho,
23:01da violência,
23:01da expansão
23:02do território,
23:03da ocupação
23:04do centro-oeste
23:05brasileiro,
23:06de maneira que
23:07você surpreende
23:08o leitor,
23:10eu diria isso
23:10é uma técnica
23:11de revista,
23:11né?
23:12As revistas,
23:12eu trabalhei muitos
23:13anos em revista,
23:15a revista,
23:16ela tem que surpreender
23:17o leitor
23:17a cada página,
23:19porque senão
23:19ela se torna monótona
23:20e o leitor
23:20abandona a leitura
23:21e vai embora.
23:23Então você tem que ter
23:24o que a gente chamava
23:24na redação de mix,
23:26né?
23:26Tem que ter
23:27uma mistura
23:29que realmente
23:29surpreenda o leitor
23:30e ele se anime
23:32a continuar lendo.
23:33E é o que eu procuro
23:34fazer no livro.
23:35Então eu vou,
23:36assim,
23:37na hora que o leitor
23:37acha que eu vou
23:38continuar falando
23:38sobre violência,
23:39eu falo sobre beleza,
23:41falo sobre religião,
23:42falo sobre sincretismo religioso.
23:44E aí vai,
23:45eu acho que isso
23:45fica bem interessante
23:46de maneira
23:47que no final do livro
23:48o leitor tem
23:50uma compreensão
23:50do conjunto,
23:52mas o estilo
23:52fica mais movimentado,
23:54dá um ritmo,
23:55que eu acho que
23:56facilita
23:57e estimula
23:58muito a leitura.
24:00Muito legal, Laurentino.
24:00E o que eu não perguntei
24:02sobre o volume 2
24:03que o nosso leitor
24:03precisa saber?
24:06Eu acho que talvez
24:07uma coisa
24:07que eu me surpreendi
24:09muito nessa pesquisa
24:10é sobre um certo
24:13protagonismo
24:15negro e africano
24:16que eu não imaginava
24:18que fosse assim.
24:19É assim,
24:20a mentalidade
24:21colonial
24:23ou mesmo talvez
24:24a mentalidade racista
24:26de hoje
24:26tem de achar
24:27que os africanos
24:28eram todos iguais
24:29e que o tráfico
24:30negreiro
24:31era precificado
24:33apenas pelo vigor físico,
24:35pelo sexo,
24:36pela idade,
24:37pela capacidade produtiva
24:40dos músculos.
24:41o que eu mostro
24:42é que vieram
24:43no porão
24:45dos navios
24:45de rio
24:45muitas tecnologias
24:47sobre como
24:48produzir arroz,
24:50como tratar
24:50a metalurgia,
24:52como achar
24:52ouro e diamante,
24:54como cuidar
24:54de gado,
24:55pecuária,
24:56coisas que os portugueses
24:57não sabiam.
24:58Os portugueses
24:59sabiam produzir açúcar
25:00porque já vinham
25:01fazendo isso
25:01na madeira,
25:03em Santo Homem,
25:04em Príncipe,
25:06e no Nordeste,
25:07mas não sabiam
25:08minerar ouro e diamante.
25:09Quem sabia era o escravo mina,
25:11que, aliás,
25:12não tem esse nome
25:13por acaso,
25:14porque ele vinha
25:14da costa do ouro,
25:16onde já tinha
25:17produção de ouro
25:18havia muito tempo.
25:20Então,
25:20essas tecnologias,
25:21essa contribuição africana
25:23em termos de conhecimento
25:25e o tráfico negreiro
25:27precificava isso,
25:29eram preços diferentes
25:30de acordo com a tecnologia
25:31que vinha do navio negreiro,
25:33isso me surpreendeu bastante.
25:35Mas,
25:36desmente,
25:36uma visão fanista
25:38da história
25:38que diz que
25:39quem achou ouro e diamante
25:40em Minas Gerais
25:40foram os bandeirantes
25:41brancos,
25:42paulistas,
25:44descendentes de colonizadores.
25:45Eu mostro, não,
25:45que aparentemente
25:46foi o que o André João Antônio
25:48chama de um mulato,
25:49um mestiço,
25:49um homem negro.
25:51Então,
25:51acho que isso é interessante,
25:52você iluminar cantos
25:54escondidos da história
25:55que incluem,
25:56inclusive,
25:57quem fez,
25:57quem são os heróis anônimos
25:59da nossa história.
26:03Conversei com o Laurentino Gomes,
26:04o volume 2
26:05da trilogia
26:06Escravidão
26:07está nas livrarias.
26:09Agora,
26:10o Laurentino
26:10está trabalhando
26:11no terceiro
26:12e último
26:12volume da trilogia,
26:14que é sobre
26:14o movimento
26:15abolicionista.
26:17Laurentino,
26:17muito obrigado
26:18pela sua atenção,
26:19pelo seu tempo.
26:21Eu que agradeço.
26:22Obrigada.
26:22Tchau.
26:34Tchau.
Seja a primeira pessoa a comentar
Adicionar seu comentário

Recomendado