00:00Esse é o assunto da nossa coluna da semana, Olhar do Amanhã.
00:16E vamos receber o doutor Álvaro Machado Dias, professor da Unifesp, neurocientista futurista e colunista do Olhar Digital.
00:25Vamos lá conversar um pouco com o doutor Álvaro Machado Dias sobre esses projetos da NASA.
00:31Olá, boa noite, doutor Álvaro Machado Dias. Seja muito bem-vindo, como sempre.
00:37Muito boa noite, Marisa.
00:39Doutor Álvaro, vamos falar sobre esse cronograma, não é? Desse projeto aí de habitação na Lua.
00:48O que significa para a humanidade, em primeiro lugar, doutor Álvaro, habitar um novo corpo celeste?
00:55Nós estamos diante de uma evolução, digamos assim, uma etapa evolutiva do ser humano,
00:59ou apenas repetindo velhos padrões, digamos, coloniais, como nós tivemos aqui no nosso planetinha?
01:06Olha só, eu acho que essa pergunta, ela pressupõe categorias que a gente tem que calibrar com cuidado.
01:14Porque evolução é algo que, se a gente parar para ver, vem lá do registro biológico e não opera numa
01:19década.
01:21É algo que opera em milhares de anos.
01:26E, definitivamente, a gente não está evoluindo, né?
01:30Assim, nossa, é uma espécie que está evoluindo para uma ocupação galáctica.
01:35Galáctica, não está acontecendo isso.
01:37E a ideia de colonialismo também exige um ser colonizado, né?
01:41A Lua não tem habitantes, né?
01:43A gente não está subjugando, não tem uma ecologia lunar, propriamente dita, para ser destruída e assim por diante.
01:50Nunca se sabe, né?
01:52Mas, enfim, o que a gente tem lá está bastante pobre para o uso desse tipo de conceito, que é
01:59pós-colonial, tá?
02:00O que a gente tem é um plano de 30 bilhões de dólares,
02:03que amarra contratos com grandes empresas, tem um papel estruturante do ponto de vista da sua arquitetura científica,
02:11do ponto de vista do posicionamento americano.
02:15E eu vejo que ele, muito mais do qualquer coisa, sinaliza algo sobre a vida na Terra, tá?
02:20Que é essa fusão, esse M&A entre estratégias de Estado e estratégias de empresas de tecnologia, né?
02:29Que hoje em dia são as empresas que ditam as cartas do ponto de vista do poder global,
02:34e que eu chamei de tecnoabsolutismo.
02:37Por quê?
02:38Porque nesse novo absolutismo, quem é que está de fora desse papo?
02:42Pensa bem, são as outras empresas menores, óbvio,
02:46mas são os 130 países que ficaram fora da equação.
02:49Então é aí que a gente tem que entender.
02:51E tem uma coisa que é importante, que é a seguinte,
02:55quando a gente está falando de ocupação de qualquer espaço fora da Terra,
03:00a gente naturalmente está falando de custo-benefício,
03:05perdão, subsumindo custo-benefício positivo para essa ocupação.
03:09Afinal de contas, você não vai fazer uma coisa que tem custo-benefício negativo, né?
03:14Não tem sentido.
03:15Existem estratégias hoje em dia de construção de ilhas artificiais no mar,
03:22de reflorestamento, repovoamento de lugares que foram desertificados,
03:28que se tornaram excessivamente inóspitos, tem muitos no planeta,
03:33de ocupação de regiões que desde sempre foram de difícil habitação.
03:39Tudo isso está sendo, vamos dizer assim, relegado quando a gente assume que,
03:46enfim, montar uma estrutura na Lua e depois em Marte, onde quer que seja,
03:51é o que é prioritário.
03:53Eu não estou criticando, não estou vindo com aquele papo, sabe?
03:57Ah, então vamos abraçar as árvores.
03:58Não, não é nada disso.
04:00Não, eu entendo a lógica.
04:02Eu só estou chamando atenção porque a lógica não é, de fato, da moradia.
04:07Esse papo de que a população mundial está explodindo em número,
04:10a gente não tem onde enfiar as pessoas, vamos botar na Lua, não para em pé.
04:14Então, vamos botar elas em ilhas no meio do mar, já que é para tratar como gado.
04:18Entende?
04:18Ponto.
04:19Então, a discussão, ela é muito mais sobre o boost de poder do ponto de vista nacional
04:28e do ponto de vista das empresas, né?
04:30Como a Blue Orange, Astrolab e várias outras que estão embarcando nisso.
04:34Está aí o sentido, onde tudo fica muito claro.
04:38Pois é, tem toda razão, doutor Álvaro Machado.
04:41É uma visão, realmente, assim, que muita gente não presta tanto a dizer
04:45como construir uma casa, não terminar e já construir outra,
04:48e não terminar e construir outra, enfim.
04:50Mas, doutor Álvaro, aproveitando essa construção, aliás,
04:53dessa base lunar pela NASA,
04:55Você acredita que é um passo rumo à cooperação internacional
04:59ou uma disputa maior agora sobre soberania fora da terra?
05:06E mais, né?
05:07Nesse sentido, quem terá o direito de explorar os recursos, por exemplo?
05:11Quem chegar primeiro? Como que vai ser essa história?
05:15Eu não acredito que seja um movimento em sentido à cooperação de forma alguma, tá?
05:19Eu acho que é um movimento muito mais alinhado
05:22a uma redefinição do poder entre bloco ocidental e bloco de domínio chinês
05:29a partir da terceira década, né?
05:32Que é a qual a gente está, do século XXI.
05:34E que, enfim, no final das contas, não se define simplesmente por uma cisão,
05:43porque os blocos estão imbricados do ponto de vista econômico, né?
05:48Tem, assim, interesses comuns muito fortes e tudo isso.
05:52Então, eu não acho que essa iniciativa, ela vai efetivamente levar a uma homogeneidade
06:02do ponto de vista exploratório, porque isso seria contraproducente
06:06do ponto de vista dos americanos, tá?
06:09Eu acho que o que a gente tente a ter é muito mais zonas seguras,
06:14safety zones, tá?
06:15Ao redor das instalações que funcionam como perímetros de exclusão, etc.
06:20E, no final das contas, você até tem nominalmente uma capacidade operacional
06:25que está aberta, vamos dizer assim, à humanidade.
06:28Mas, na prática, você não tem.
06:31A Lua, em termos práticos, vai pertencer a quem botar mais dinheiro
06:36e quem conseguir ter essa hegemonia.
06:39E, nesse caso aqui, a gente está vendo muito mais ela do lado americano
06:42do que qualquer outra, óbvio.
06:44Agora, falando nisso, inclusive, qual que pode ser a resposta da China
06:49e também da Rússia com esse projeto da NASA?
06:53Porque nós vemos que tem aí as iniciativas da China
06:55que estão bastante avançadas também.
06:58Nós estamos diante de uma nova Guerra Fria,
07:00agora travada aí na órbita da Lua, doutor Álvaro?
07:04Eu lembro, até hoje, da Guerra das Estrelas, né?
07:07De Ronald Reagan.
07:10Isso aqui é muito diferente, tá?
07:12Guerra Fria é um conceito que muita gente está querendo aplicar
07:17à tensão entre chineses e americanos,
07:20mas é uma aplicação pobre, simplificadora,
07:27dada a relação umbilical do ponto de vista comercial.
07:29É muito diferente daquilo que a gente via no auge da verdadeira Guerra Fria.
07:36Aqui, enfim, a dinâmica de poder tem um aspecto tácito
07:40de caráter colaborativo também, tá?
07:43Agora, isso não significa que não existam muitas tensões
07:48e, eventualmente, que os países possam até entrar em guerra,
07:50coisa que a gente já discutiu aqui e pode discutir novamente, tá?
07:54Quando... tem um estudo interessante que mostra
07:56que quando uma potência emergente começa a fazer sombras
08:00sobre áreas estratégicas da potência dominante,
08:04guerras acontecem em mais de 70% dos casos.
08:07E eu não discuto que a história realmente informe o presente e o futuro.
08:13Então, pode ser.
08:15Mas o que importa aqui é dizer que eu não vejo uma nova guerra nas estrelas,
08:21que é basicamente um movimento focado no desenvolvimento de armas
08:26e possibilidades de ataques de fora do planeta, mísseis.
08:30Era toda essa discussão de conseguir ter mísseis que atravessam o mundo
08:34rapidamente de forma orbital, suborbital e assim por diante.
08:39Acho que não é nada disso.
08:40E os chineses também têm um cronograma, né,
08:43na Estação Internacional de Pesquisa Lunar, né, a ILRS, forte, tá?
08:49Então, eles têm os seus próprios parceiros,
08:52eles estão prevendo para esse ano aí a construção de bases,
08:56eles têm uma operação que está prevista para ser plena, assim,
08:59funcional em 2036, em uma década.
09:03Então, eu acho que existe um atrito, mas eu não acredito que ele vai evoluir
09:08para um paradigma de guerra nas estrelas ou disputa à guerra fria,
09:14seja lá qual for, do ponto de vista daquilo que determina realmente
09:18esse tipo de conceito, que é uma tensão bélica,
09:21é uma tensão em que não existe papo aqui.
09:23Existem as duas coisas, a tensão e também as trocas,
09:27queiram ou não queiram, nos dois lados.
09:29Agora, doutor Álvaro, para encerrar, e esse cronograma 2030, 2032,
09:352032 já tendo pessoas ali colonizando e trabalhando,
09:40você acredita que é um cronograma, é um período viável para que isso ocorra?
09:46Eu acho altamente improvável.
09:47Eu acho que existe uma diferença dos cronogramas ocidentais e dos cronogramas orientais,
09:55os nossos são cronogramas que são pior, são assessoria de imprensa.
10:01Existem problemas da ocupação lunar ligados à radiação,
10:08então, aumento da incidência de câncer, bastante conhecidos.
10:11Existem problemas ligados à supply chain, à cadeia de suprimentos,
10:17que é muito cara.
10:19Pensa, não tem nada, não tem como você plantar nada,
10:21não tem como você manter a vida humana, a não ser com muitos recursos.
10:26Então, a cadeia logística acaba sendo o grande problema.
10:31E existe uma discussão que está de bastidores aqui,
10:35que sempre surge entre quem realmente estuda esse assunto,
10:39aliás, um assunto que eu adoro,
10:41que é qual é a melhor estratégia para chegar,
10:47para ir para a Lua com frequência,
10:49já que as viagens serão necessárias em número.
10:53Tem desde debates sobre elevadores,
10:57que poderiam levar diretamente, na verdade, estruturas conectando a gente ao astro,
11:04até estratégias de barateamento das viagens e tudo mais.
11:10Nada disso está bem definido.
11:11Hoje em dia, segue caro, segue complexo.
11:14Os fornecedores estão aumentando,
11:16como a gente vê aqui no consórcio americano,
11:20mas eles não são tão numerosos assim,
11:22a ponto de você ter uma concorrência e poder jogar,
11:24brigar por preço, por assim dizer.
11:26Muito pelo contrário, a NASA não consegue brigar por preço nesse momento.
11:28Então, eu acho que isso acaba batendo nas definições de orçamento
11:35que vão ser determinadas no Congresso americano.
11:38Então, hoje a gente tem um Congresso de maioria republicana,
11:42o Trump está vivendo um momento favorável,
11:44inclusive na esfera geopolítica mais ampla,
11:48em função desse alinhamento do Congresso,
11:51do Senado e, evidentemente, do Executivo.
11:55Mas o midterms está aí e uma redefinição pode mudar rapidinho esse jogo
12:00e, mesmo que não mude, nos próximos anos pode mudar.
12:03Os orçamentos, por mais que eles pareçam estar escrito em pedra,
12:07na prática eles não estão nos Estados Unidos.
12:09Na verdade, em lugar nenhum.
12:10Mas nos Estados Unidos, em especial, eles não estão.
12:12Então, é uma aposta de fé achar que esse financiamento
12:17que certamente vai crescer em escala ao longo dos anos
12:19vai seguir sendo aprovado pelo Congresso todas as vezes,
12:22de modo que em 2032 a gente vai ter alguma coisa viável.
12:26Afinal das contas, não é uma questão tecnológica nesse sentido,
12:28é puramente uma questão de grana.
12:29Mas grana nos Estados Unidos, Marisa, conta muito.
12:33Com certeza.
12:34Está aí mais um panorama com o doutor Álvaro Machado Dias
12:38no quadro Olhar do Amanhã.
12:40Doutor Álvaro, muitíssimo obrigado pela presença novamente.
12:43Na semana que vem estaremos aqui de volta com mais assuntos.
12:47Muito obrigada, excelente semana.
12:49Eu que agradeço.
12:50Queria comentar aqui umas dessas coisas que eu aprendi
12:52com meu amigo Sérgio Serrani.
12:54Grande nome, grande comunicador, uma pessoa maravilhosa.
12:57Ensinou muito nessa área.
12:59Eu recomendo muito para as pessoas.
13:00É uma área que vale a pena, super divertida,
13:03e traduz de fato o que significa
13:06ser transicionada, ser tão científica, para a realidade.
13:10Até semana que vem.
13:12Até, querido. Boa noite.
13:13Está aí, doutor Álvaro Machado Dias,
13:16mais uma vez conosco aqui no Olhar Digital News,
13:19trazendo uma visão desse panorama.
13:22Semana que vem, quarta-feira,
13:24temos mais Olhar do Amanhã com o doutor Álvaro Machado Dias.
13:28Tchau.
Comentários