- há 2 meses
Presidente mesclou temas tradicionais da diplomacia brasileira, como o combate à fome, com necessidade de regulação de redes sociais e as queimadas históricas no Pantanal e na Amazônia.
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NotíciasTranscrição
00:00Muito bem.
00:06Meus cumprimentos ao presidente da Assembleia Geral, Filemon Young, e também quero saudar
00:15o secretário-geral Antônio Guterres e cada um dos chefes de Estado e de governo e delegados
00:22e delegadas aqui presentes.
00:24Dirijo-me, em particular, à delegação palestina que integra pela primeira vez essa sessão
00:33de abertura, mesmo saindo na seleção de membro observador.
00:45E quero saudar a presença do presidente Mohamed Abbas aqui presente.
00:54Senhoras e senhores, adotamos ontem, aqui neste mesmo plenário, o Pacto para o Futuro.
01:04Sua difícil aprovação demonstra o enfraquecimento de nossa capacidade coletiva de negociação
01:10e de diálogo.
01:11Seu alcance limitado também é a expressão do paradoxo do nosso tempo.
01:18Andamos em círculos entre compromissos possíveis que elevam a resultados insuficientes.
01:25Nem mesmo com a tragédia da Covid-19, fomos capazes de nos unir em torno de um tratado
01:32sobre pandemias na Organização Mundial da Saúde.
01:36Precisamos ir muito além e dotar a ONU dos meios necessários para enfrentar as mudanças
01:44vertiginosas do panorama internacional.
01:48Vivemos momentos de crescentes angústias, frustrações, tensões e medo.
01:53Testemunhamos a alarmante escalada de disputas geopolíticas e de rivalidades estratégicas.
01:582023 ostenta o triste recorde do maior número de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial.
02:08Os gastos militares globais cresceram pelo nono ano consecutivo e atingiram 2,4 trilhões
02:17de dólares.
02:18Mais de 90 bilhões de dólares foram mobilizados com arsenais nucleares.
02:23Esses recursos poderiam ter sido utilizados para combater a fome e enfrentar a mudança
02:30do clima.
02:31O que se vê é o aumento das capacidades bélicas.
02:36O uso da força sem amparo no direito internacional está se tornando a regra.
02:43Presenciamos dois conflitos simultâneos com potencial de se tornar em um confronto generalizado.
02:49Na Ucrânia, é com pesar que vemos a guerra se estender sem perspectiva de paz.
02:56O Brasil condenou de maneira firma a invasão do território ucraniano.
03:01Já está claro que nenhuma das partes conseguirá atingir todos os seus objetivos pela via militar.
03:09O recurso a armamento cada vez mais destrutivos traz à memória os tempos mais sombrios do
03:15confronto estéreo da Guerra Fria.
03:18Criar condições para a retomada do diálogo direto entre as partes é crucial neste momento.
03:25Esta é a mensagem do entendimento de seis pontos que China e Brasil oferecem para que
03:32se instale um processo de diálogo e o fim das hostilidades.
03:36Em Gaza e na Cisjordânia, assistimos a uma das maiores crises humanitárias da história recente
03:44e que agora se expande perigosamente para o Líbano.
03:48O que começou como ação terrorista de fanáticos contra civis israelenses e inocentes
03:53tornou-se uma punição coletiva de todo o povo palestino.
03:58São mais de 40 mil vítimas fatais, em sua maioria mulheres e crianças.
04:04O direito de defesa transformou-se no direito de vingança, que impede um acordo para a liberação
04:11de reféns e adia o cessa-fogo.
04:15Conflitos esquecidos no Sudão e no Iênes impõem sofrimento atroz a quase 30 milhões
04:21de pessoas.
04:22Este ano, o número dos que necessitam de ajuda humanitária no mundo chegará a 300 milhões
04:30de pessoas.
04:31Em tempos de crescente polarização, expressões como desglobalização se tornaram corriqueiras.
04:38Mas é impossível desplanetizar nossa vida em comum.
04:43Estamos condenados à interdependência da mudança climática.
04:48O planeta já não espera para cobrar da próxima geração e está farto de acordos climáticos
04:54que não são cumpridos.
04:56Está cansado de metas de redução de emissão de carbono negligenciadas do auxílio financeiro
05:03aos países pobres que nunca chegam.
05:06O negacionismo sucumbe ante as evidências do aquecimento global.
05:132024 caminha para ser o ano mais quente da história moderna.
05:19Furacões no Caribe, tufões na Ásia, secas inundações na África e chuvas torrenciais
05:26na Europa deixam um rastro de mortes e destruição.
05:30No sul do Brasil tivemos a maior enchente desde 1941.
05:35A Amazônia está atravessando a pior estiagem em 45 anos.
05:41Incêndios florestais se alastraram pelo país e já devoraram 5 milhões de hectares apenas
05:49no mês de agosto.
05:50O meu governo não terceiriza a responsabilidade e nem abdica da sua soberania.
05:56Já fizemos muito, mas sabemos que é preciso fazer muito mais.
06:01Além de enfrentar os desafios da crise climática, lutamos contra quem lucra com a degradação
06:07ambiental.
06:08Não transigiremos com litícias ambientais, com o garimpe legal e com o crime organizado.
06:15Reduzimos o desmatamento na Amazônia em 50% no último ano e vamos erradicá-lo até 2030.
06:24Não é mais admissível pensar em soluções para as florestas tropicais sem ouvir os povos
06:30indígenas, comunidades tradicionais e todos aqueles que vivem nelas.
06:35Nossa visão de desenvolvimento sustentável está alicerçada no potencial da bioeconomia.
06:42O Brasil sediará a COP30 em 2025, convicto de que o multilateralismo é o único caminho
06:50para superar a urgência climática.
06:53Nossa contribuição nacionalmente determinada, ONDC, será apresentada ainda este ano, em
07:01linha com o objetivo de limitar o aumento da temperatura do planeta a um grau e meio.
07:08Brasil.
07:09O Brasil desponta como celeiro de oportunidade neste mundo revolucionado pela transição
07:15energética.
07:16Somos hoje um dos países com a matriz energética mais limpa do mundo.
07:2190% da nossa eletricidade provém de fundos renováveis como a biomassa, a hidrelétrica,
07:28a solar e a aeródica.
07:29Fizemos opção pelos biocombustíveis há 50 anos, muito antes que a discussão sobre
07:36energias alternativas ganhasse tração.
07:39Estamos na vanguarda em outros nichos importantes, como o da produção do hidrogênio verde.
07:45É hora de enfrentar o debate sobre o ritmo lento da descarbonização do planeta e trabalhar
07:52por uma economia menos dependente de combustíveis sócios.
07:56Presidente, na América Latina vive-se, desde 2014, uma segunda década perdida.
08:05O crescimento médio da região neste período foi de apenas 0,9%, metade do verificado na
08:13década perdida de 1980.
08:16Esta combinação de baixo crescimento e altos níveis de desigualdade resulta em efeitos
08:23nefastos sobre a paisagem política.
08:26Tragada por disputas muitas vezes alheias à região, nossa vocação de cooperação
08:32e entendimento se fragiliza.
08:34É injustificado manter Cuba em uma lista unilateral de Estados que supostamente promovem terrorismo
08:43e impor medidas coercitivas unilaterais que penalizam indevidamente as populações mais vulneráveis.
08:51No Haiti é inadiável conjugar ações para restaurar a ordem pública e promover o desenvolvimento.
08:59No Brasil, a defesa da democracia implica ação permanente, anti-investidas extremistas, messiânicas
09:06e totalitárias que espalham o ódio, a intolerância e o ressentimento.
09:12Brasileiras e brasileiros continuarão a derrotar os que tentam solapar as instituições
09:17e colocá-las a serviço de interesses reacionários.
09:21A democracia precisa responder às legítimas aspirações dos que não aceitam, mas a fome,
09:27a desigualdade, o desemprego e a violência.
09:31No mundo globalizado, não faz sentido recorrer a falsos patriotas e isolacionistas.
09:38Tampouco a esperança no recurso a experiências ultraliberais que apenas agravam as dificuldades
09:46de um continente depalperado.
09:49O futuro de nossa região passa, sobretudo, por construir um Estado sustentável, eficiente,
09:58inclusivo e que enfrente todas as formas de discriminação, que não se intimida ante
10:05indivíduos, corporação ou plataformas digitais que se julgam acima da lei.
10:11A liberdade é a primeira vítima de um mundo sem regras.
10:16Elementos essenciais da soberania incluem o direito de legislar, julgar disputas e fazer
10:23cumprir as regras dentro de seu território, incluindo o ambiente digital.
10:28O Estado que estamos construindo é sensível às necessidades dos mais vulneráveis sem abdicar
10:35de fundamentos macroeconômicos sadios.
10:38A falsa oposição entre o Estado e o mercado foi abandonada pelas nações desenvolvidas
10:45que voltaram a praticar políticas industriais ativas e forte, e forte regulação da economia
10:51doméstica.
10:52Na área da inteligência artificial, vivenciamos a consolidação de assimetrias que levam a um
11:00verdadeiro oligopólio do saber.
11:02Avançam a concentração sem precedentes, na mão de pequeno número de pessoas e de
11:09empresas sediadas em um número ainda menor de países.
11:12Interessa-nos uma inteligência artificial emancipadora, que também tenha a cara do
11:18sul global e que fortaleça a diversidade cultural, que respeite os direitos humanos,
11:23proteja dados pessoais e promova a integridade da informação.
11:29E, sobretudo, que seja ferramenta para a paz, não para a guerra.
11:34Existimos de uma governança intergovernamental da inteligência artificial, em que todos os
11:41Estados têm o assento.
11:42países.
11:43Senhor presidente, as condições para acesso a recursos financeiros seguem proibitivas
11:50para a maioria dos países de renda baixa e média.
11:53O fardo da dívida limita o espaço fiscal para investir em saúde e educação, reduzir
11:59as desigualdades e enfrentar a mudança do clima.
12:03Países da África tomam empréstimo a taxas até oito vezes maiores que a Alemanha e quatro
12:10vezes é maior do que os Estados Unidos.
12:12É um plano marchal às avessas, em que os mais pobres financiam os mais ricos.
12:19Sem maior participação dos países em desenvolvimento na direção do FMI e do Banco Mundial, não
12:26haverá mudança efetiva.
12:30Enquanto os objetivos do desenvolvimento sustentável ficam para trás, as 150 maiores empresas do
12:36mundo obtiveram juntas um lucro de 1 trilhão e 800 bilhões de dólares nos últimos dois
12:43anos.
12:44A fortuna dos cinco principais bilionários mais que dobrou desde o início dessa década,
12:51ao passo que 60% da humanidade ficou mais pobre.
12:56Os super ricos pagam, proporcionalmente, muito menos impostos do que a classe trabalhadora.
13:02Para corrigir essa anomalia, o Brasil tem insistido na cooperação internacional para desenvolver
13:09padrões mínimos de tributação global.
13:12Os dados divulgados há dois meses pela FAO sobre o estado da insegurança alimentar no
13:17mundo são estarrecedores.
13:20O número de pessoas passando fome ao redor do planeta aumentou em mais de 152 milhões desde
13:282019.
13:29Isso significa que 9% da população mundial, 733 milhões de pessoas estão subnutridas.
13:38O problema é especialmente grave na África e na Ásia, mas ele também persiste em partes
13:45da América Latina.
13:46Mulheres e meninas são as maiores, são as vítimas maiores de pessoas em situação de
13:54fome no mundo.
13:55Pandemias, conflitos armados, eventos climáticos de subsídios agrícolas dos países ricos
14:02ampliam o alcance desse flagelo.
14:05Mas a fome não é resultado apenas de fatores externos.
14:10Ela decorre, sobretudo, de escolhas políticas.
14:14Hoje, o mundo produz alimentos mais do que o suficiente para erradicá-la.
14:19O que falta é criar condições de acesso aos alimentos.
14:23Esse é o compromisso mais urgente do meu governo.
14:27Acabar com a fome no Brasil como fizemos em 2014.
14:31Só em 2023 retiramos 24 milhões e 400 mil pessoas da condição de insegurança alimentar
14:39severa.
14:40A Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, que lançaremos no Rio de Janeiro, em novembro,
14:46nasce dessa vontade política e desse espírito de solidariedade.
14:50Ela será um dos principais resultados da presidência brasileira do G20 e está aberta a todos os
14:57países do mundo.
14:59Todos os que queiram se somar a esse esforço coletivo serão muito bem-vindos.
15:04Senhor presidente, senhoras e senhores, prestes a completar 80 anos, a Carta das Nações
15:12Unidas nunca passou por uma reforma abrangente.
15:16Apenas quatro emendas foram aprovadas, todas elas entre 1965 e 1973.
15:25A versão atual da Carta não trata de algum dos desafios mais premente da humanidade.
15:33Na fundação da ONU, éramos 51 países.
15:37Hoje, somos 193.
15:40Várias nações, principalmente no continente africano, estavam sob domínio colonial e não
15:46tiveram voz sobre seus objetivos e funcionamento.
15:49Inexiste equilíbrio de gênero no exercício das mais altas funções.
15:56O cargo de secretário-geral jamais foi ocupado por uma mulher.
16:16Estamos chegando ao final do primeiro quarto do século XXI, com as Nações Unidas cada
16:23vez mais esvaziada e paralisada.
16:26É hora de reagir com vigor a essa situação, restituindo à organização as prerrogativas
16:34que decorrem da sua condição de Fórum Universal.
16:38Não bastam ajustes pontuais.
16:41Precisamos contemplar uma ampla revisão da Carta.
16:45Sua reforma deve compreender os seguintes objetivos.
16:50A transformação do Conselho Econômico e Social no principal fórum para o tratamento
16:57do desenvolvimento sustentável e do combate à mudança climática com capacidade real de
17:03inspirar as instituições financeiras.
17:05A revitalização do papel da Assembleia Geral, inclusive em temas de paz e segurança internacionais.
17:12O fortalecimento da Comissão de Consolidação da Paz.
17:17A reforma do Conselho de Segurança, com foco em sua composição, método de trabalho,
17:23direito de veto, de modo a torná-la mais eficaz e representativa das realidades contemporâneas.
17:30A exclusão da América Latina e da África de assentos permanentes no Conselho de Segurança
17:36é um eco inaceitável de práticas de dominação do passado colonial.
17:42Vamos promover essa discussão de forma transparente.
17:51Vamos promover essa discussão de forma transparente em consulta no G77, no G20, nos BRICS, na CELAC,
18:00no CARICOM e tantos outros espaços que existem para discutir.
18:04Não tem ilusões sobre a complexidade de uma reforma como essa, que enfrentará interesses
18:10cristalizados de manutenção do status quo.
18:14Exigirá enorme esforço de negociação.
18:17Mas essa é a nossa responsabilidade.
18:20Não podemos esperar por outra tragédia mundial, como a Segunda Grande Guerra, para só então
18:27construir sobre seus escombros uma nova governança global.
18:31A vontade da maioria pode persuadir os que se apegam às expressões cruas dos mecanismos de poder.
18:39Neste plenário, eu couro as aspirações de toda a humanidade.
18:44Aqui, travamos os grandes debates do mundo.
18:48Neste fórum, buscamos as respostas para os problemas que afligem o planeta.
18:53Recai sobre a Assembleia Geral, expressão maior do multilateralismo.
18:58A missão de pavimentar o caminho para o futuro.
19:02Muito obrigado e boa sorte.
19:14Obrigado.
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