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  • há 4 semanas
Conheça a história de uma mãe que lida com o preconceito e a rotina de um filho pequeno

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Transcrição
00:00Meu nome é Nathalie Kuplisch, eu sou artista, performer, faço parte da cultura Ballroom.
00:05Tenho 27 anos, sou travesti e sou mãe.
00:14Bom, ele surge quando eu estava na faculdade já, num relacionamento com a outra mãe dele.
00:20E foi assim, né? Foi acidental, não foi nada planejado, aconteceu.
00:28Eu tinha 18 anos, e ela tinha 17 para 18, ela estava quase completando 18.
00:33Larguei a universidade, né? Não saí do curso.
00:37Eu, como eu falei, teve umas questões em casa, então eu saí de casa também.
00:41Então eu estava meio que nesse sem lugar para ficar e sem dinheiro.
00:44Naquela época eu ainda não compreendia isso tudo da forma que eu entendo hoje, né?
00:48O que eu fiz naquela época foi vestir a roupa que seria de pai que provém, né?
00:58Vamos dizer, a pessoa que provém.
01:00Eu acho, inclusive, que isso foi o estopim para a minha transição de gênero, né?
01:04Porque eu estava me descobrindo, eu voltei muito atrás, muito atrás.
01:09A maternidade, ela se construiu junto com o meu processo todo, assim, de transição de gênero e tudo mais.
01:15Porque as duas coisas meio que aconteceram simultaneamente.
01:24Durante o ano todo, assim, para não dar gravidez, foi muito perrengue mesmo, assim.
01:29Quando que veio mesmo, que todo mundo segurou no colo e tudo mais, que as famílias vieram conhecer,
01:34aí teve aquela conexão mesmo.
01:36Até ajudou a trazer, tipo, de volta essa conexão da família.
01:39Por exemplo, o Cairé, durante um ano e pouco, ele cresceu, ele, quando ele começou as primeiras palavras,
01:44era pai e mãe, ele ficou me chamando de pai por um bom tempo.
01:47Quando eu me entendi como corpo feminino, quando eu entendi que eu não era uma mulher trans,
01:51foi quando começamos a fazer esse trabalho de fazer essa troca.
01:55De, ah, não, agora é mãe por causa disso, agora você pode...
02:00No início era meio que, chamava de Nath, né?
02:03Tipo, ah, não precisa chamar de pai, chamava de Nath.
02:05Nath, e aí depois foi assumindo, tipo, não, eu tenho duas mães.
02:10Como é que isso vai ser para ele? Qual vai ser a influência disso para ele?
02:12Você está pensando nele?
02:14Mas quando eu me fortaleci, ah, eu sou uma travesti, e é isso,
02:19e eu não preciso vestir tal coisa, eu gosto de vestir tal coisa,
02:22eu comecei a ficar mais segura de trazer isso para ele também,
02:25e trazer para todo mundo da família.
02:27Então eu fiz questão de mostrar para eles desenhos,
02:29mostrar livros diferentes de autoras, autores que tratam essa questão do LGBTQIA+,
02:36e outras formas de família, né?
02:37Ele não compreende, por exemplo, o porquê de tanta violência.
02:42Por mais que a gente tente explicar que é uma questão que ainda muitas pessoas não compreendem,
02:48que tem muito preconceito.
02:50Então, tipo, desde um assédio dentro do ônibus,
02:54até alguém parando na rua, querendo me agredir.
02:58Então, tudo isso já teve, e ele junto comigo, entendeu?
03:04Então, eu me imponho mesmo.
03:05Não, eu sou assim, sim, eu estou aqui com o meu filho,
03:08e aí, sim, sim, sim, você vai me respeitar.
03:17Pelo fato de trabalho e tudo mais, de horários, ele não mora comigo,
03:21ele mora com ela, e todos os finais de semana eu fico com ele,
03:24mas eu faço questão de, durante a semana, de ir lá,
03:26de dormir lá, às vezes, a gente fazer uma noite de cinema, uma noite de filmes.
03:30Então, eu faço questão de estar presente, de buscar ir na escola,
03:33deles, dos amigos dele me verem,
03:36da escola perceber quem é a família dele também.
03:38Quando ele chegou na escola e começou a vivenciar e a trocar com os amigos dele,
03:43ele percebeu também que a maioria dos amigos dele não tinha pai.
03:45A realidade da periferia também não é essa a realidade de, tipo, família feliz,
03:49pai, mãe, irmão, irmã, família feliz não, assim, né?
03:52Esse conjuntinho de família, se eles são felizes, mas um conjuntinho de família, né?
03:55Eu faço parte da cultura ballroom, né?
03:58Que é uma cultura criada por travestis pretas.
04:02Eu danço Vogue, né?
04:03Faço performance de Vogue.
04:05Além de outras categorias que eu também tô me aventurando, assim,
04:08de vez em quando eu faço um runway, que é um desfile.
04:10Meu filho conhece a ballroom.
04:13Faz um tempo já que eu tô levando ele.
04:15Eu levo ele pros treinos, levo ele pras rodas de conversa.
04:18Claro que tem muitos assuntos que ele cata um pouquinho,
04:22mas aí ele vai brincar porque ficou profundo demais pra ele.
04:25Ele já participou, já entrou comigo na ball, já se apresentou comigo, né?
04:29Na parte da apresentação, que é apresentar as casas, eu entrei junto com ele.
04:32Ele tá entendendo a potência dele aos poucos também, assim.
04:35Tipo de, caramba, aqui eu posso simplesmente me jogar e dançar?
04:38Ah, no meio de todo mundo, todo mundo vai me aplaudir?
04:40Sim!
04:41E aí ele vai se jogar e dança e todo mundo curte.
04:49Pra mim, ser mãe é isso.
04:50É sobre dar o seu melhor.
04:52É sobre tá presente nos momentos mais difíceis, nos momentos mais felizes.
04:57É criar memórias.
04:58Esse amor, ele vem de várias e várias formas diferentes, assim.
05:01Tipo, tanto de, quando a gente acorda, de ficar abraçado na cama um tempão, assim.
05:05Só se olhando, tipo, só entendendo, olhando o seu rosto, entendendo as suas feições, as suas mudanças.
05:12Ou entender quando tá triste mesmo, assim.
05:15Até o momento que a gente sai pra brincar, que a gente vai pra praia, que a gente se diverte.
05:18Porque eu acho que é isso que querem de mim, assim.
05:20Que eu me esconda, que eu tenha medo.
05:22Que eu não saia com o meu filho de mão dada, na rua.
05:26De que o meu filho não tenha uma família.
05:28Entendeu?
05:29Então, o medo pra mim é uma...
05:31Eu posso ter ansiedade, eu posso ter...
05:33Mas medo, não.
05:35Bom, Kairé, eu queria...
05:37Eu queria te falar que eu te amo muito.
05:40Eu acho que você sabe porque eu repito isso várias vezes ao dia.
05:44E que eu sempre vou tá lá.
05:46Eu sempre vou tá presente.
05:48Eu tenho um orgulho imenso, imenso de ter você com o meu filho.
05:53E mais orgulho ainda de ver você crescer.
05:55E de ver você tá presente na minha vida.
05:58Eu nunca quero perder essa conexão que a gente tem.
06:00E vou lutar sempre pra gente só fortalecer ela.
06:03Te amo demais.
06:04E eu quero tá construindo memórias e construindo momentos com você, assim.
06:08Pra sempre, sempre, sempre, sempre.
06:10Te amo.
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