00:00E o fechamento do Estreito de Hormuz deve causar impactos profundos na economia global.
00:05Waldir Bezerra, mestre em relações internacionais, fala ao vivo agora conosco
00:09para explicar um pouco dessa situação, quais são as projeções daqui para frente.
00:14Muito bom dia.
00:16Bom dia, é um prazer falar com todos pela Jovem Pan. Agradeço pelo convite.
00:21Bom, de que maneira então que a gente tem uma perspectiva em relação a esse conflito,
00:26porque muitas coisas estão saindo. Estava até vendo um artigo no The Wall Street Journal,
00:32uma reportagem, um jornal norte-americano, falando que o Irã pretende usar golfinhos
00:36para a colocação de minas e dessa forma explodir navios americanos
00:42que promovem esse fechamento do Estreito de Hormuz. Olha o absurdo que a gente vive.
00:48Nós estamos em um momento onde não existem realmente perspectivas de término desse conflito.
00:54O Irã tem usado uma das suas principais armas de retaliação aos ataques americanos
01:02que ocorreram a partir do final de fevereiro, que é justamente a sua posição geográfica
01:07como um país costeiro ao Estreito de Hormuz. Então ele tem essa capacidade de estabelecer
01:14um bloqueio, uma asfixia dessa via marítima que é muito importante para o comércio internacional.
01:19E nós chegamos em um impasse, porque se por um lado nós temos um bloqueio efetuado pelo Irã
01:27de embarcações dos chamados países que não são amigáveis até Irã,
01:34nós temos também uma contramedida adotada pelos Estados Unidos de bloqueio também dos portos iranianos
01:42para poder impedir a exportação de petróleo e para poder impedir também a chegada de alguns produtos
01:48necessários ao Irã pela via marítima através de importações.
01:55Então nós temos medidas e contramedidas sendo adotadas por ambos os países em função do conflito iniciado
02:02há praticamente dois meses atrás, mas que não tem perspectiva de término.
02:07Isso causa, sim, problemas para a economia global, já tem causado.
02:11Então a gente tem um preço do barril de petróleo que ultrapassou a casa dos 100 dólares.
02:16Isso não acontecia desde a invasão da Rússia à Ucrânia em fevereiro de 2022.
02:22E isso preocupa. Isso preocupa não só quem está diretamente envolvido na guerra,
02:27como também os demais países do mundo que veem aí os preços do petróleo,
02:32os preços da energia subirem em função dessa situação que ainda é incerta.
02:38Esse conflito, né, Valdir, provou para todos que os impactos em uma guerra
02:43não são apenas militares, mas econômicos.
02:46A preocupação no início dos Estados Unidos, a justificativa,
02:49era justamente o combate ao programa nuclear iraniano,
02:52que hoje deixou de ser o protagonista nesse conflito,
02:56porque especialistas, inclusive, já relataram que o Irã percebeu a força que tem,
03:00além dessa esfera militar, com base no controle do Estreito de Hormuz.
03:05E a gente aqui, do outro lado do mundo, que não tem um envolvimento direto com esse conflito no Brasil,
03:10também vamos enfrentar, a gente já falou no jornal,
03:13do aumento do preço dos combustíveis por conta do petróleo, da querosene de aviação,
03:17então as passagens também vão ficar mais baratas, mais caras, aliás.
03:21O gás encanado, o gás natural aqui no Brasil também tende a ficar mais caro.
03:25Eu gostaria que, dentro desse universo que a gente está relatando aqui,
03:29de países que não estão diretamente envolvidos com o conflito,
03:32mas ainda assim recebem esses impactos,
03:35que você trouxesse para a gente a sua avaliação sobre esse posicionamento geopolítico,
03:41de que maneira que os países que apoiam um lado ou outro
03:45tendem a se comportar nesses próximos capítulos de incerteza.
03:49Bom dia.
03:51Bom dia.
03:52Uma ótima pergunta.
03:53Na verdade, esse objetivo adicional de abertura do estreito de Hormuz
03:59acabou sendo implementado depois do início das operações.
04:04Inicialmente, de fato, a administração americana tinha como principal alvo
04:09alguns analistas vão dizer a mudança de regime dentro do Irã
04:13para poder estabelecer uma liderança política que seja mais amigável aos Estados Unidos.
04:18A gente sabe que, desde 1979, a partir da Revolução Islâmica,
04:24o Irã se tornou um país que tem se colocado contra a presença americana militar no Oriente Médio,
04:32mas, do ponto de vista retórico, também tem sido muito vociferante contra os Estados Unidos.
04:37Então, esse era um dos objetivos alegados por muitos especialistas
04:40e também pelo próprio Donald Trump.
04:42Outro objetivo inicial era impedir que o Irã pudesse enriquecer urânio
04:47até um nível de utilização militar
04:50para efeitos de construção, eventualmente, de uma bomba nuclear.
04:53Isso era uma das questões declaradas.
04:56Mas, depois do conflito inicial e depois da resistência demonstrada pelo Irã
05:00do ponto de vista militar e até social perante os ataques,
05:04temos um outro objetivo que é mais urgente,
05:07que é justamente a abertura do estreito de Hormuz.
05:09Então, temos efeitos globais para essa retaliação assimétrica do Irã.
05:15Estamos falando, na verdade, de um conflito entre uma superpotência,
05:19que é os Estados Unidos da América, e uma potência regional.
05:22Então, é um conflito assimétrico.
05:24O Irã, por exemplo, não tem capacidade de atacar o território dos Estados Unidos
05:31diretamente, do ponto de vista militar,
05:33mas tem a capacidade de atacar economicamente,
05:36justamente pelo bloqueio do estreito de Hormuz,
05:38o que tem causado uma instabilidade gigantesca global do ponto de vista econômico
05:43e no preço do petróleo, e que tem dividido os países.
05:46Por exemplo, o Brasil é a favor da solução pacífica de conflitos.
05:51Os integrantes do grupo BRICS, que hoje são 10 países também,
05:56são a favor da cessação das utilidades, da cessação do conflito.
06:02E, por outro lado, nós temos dois atores que continuam insistindo na via militar
06:09para poder subjugar o Irã, no caso em específico, os Estados Unidos da América,
06:14e um outro interessado direto também, que é Israel.
06:19Bom, a gente vai ampliar o assunto aqui com os nossos analistas,
06:22para também fazer perguntas.
06:24Jesualdo Almeida e Cristiano Villela, começando pelo Jesualdo com a pergunta.
06:29Professor, bom dia.
06:31Essa guerra tem, do ponto de vista estratégico, para o governo Trump, uma catástrofe.
06:35É possível imaginar que ele realmente perca as eleições,
06:39que se aproximam às eleições de meio de ano, em razão tão somente da guerra?
06:43E qual é o cenário mais provável para que o Trump saia dessa batalha, dessa guerra,
06:48acenando, como ele sempre faz, com uma vitória?
06:52Existem dois grupos de opinião importantes dentro dos Estados Unidos, avaliando esse conflito.
06:58O primeiro é daquele grupo mais estreito de apoiadores do Trump,
07:03do chamado movimento MAGA, Make America Great Again.
07:07Dentro desse grupo mais estreito, o Trump tem um determinado apoio para essas operações.
07:13também os republicanos, tanto da casa dos representativos como do Senado,
07:19apoiam as operações.
07:21Por outro lado, a população americana é contrária.
07:24Ela tem se mostrado cada vez mais contrária.
07:27Nós temos cerca de 60, 62% dos americanos não concordam,
07:33não são a favor da continuidade dessas operações,
07:36porque eles sentem justamente os efeitos no próprio bolso.
07:39Como eu tinha dito anteriormente, o Irã não tem capacidade de atingir os Estados Unidos militarmente,
07:46algo que os Estados Unidos já são capazes de fazer com relação ao Irã,
07:50mas essa guerra, esse conflito iniciado no final de fevereiro,
07:54ele tem efeitos diretos no bolso do americano médio.
07:58E a economia estadunidense, ela sempre foi um fator muito importante
08:03levado em consideração nas eleições, tanto presidenciais como de meio termo.
08:07Então, nós estamos há seis meses de uma eleição de meio termo,
08:11que vai substituir uma boa parte dos deputados, dos senadores americanos,
08:18no mês de novembro.
08:20E há uma grande possibilidade de, se essa incerteza continuar até lá,
08:27se o Trump não tiver resultados objetivos até lá,
08:29de ele perder o domínio das duas casas.
08:33Hoje ele tem o domínio das duas casas, isso é muito importante para ele,
08:36porque ele consegue implementar as suas medidas de política externa
08:39sem gerar muita resistência no Congresso.
08:42Isso pode vir a mudar em novembro, se a situação continuar,
08:45e os americanos continuarem sentindo o peso desse conflito nos seus bolsos.
08:50O Jornal da Manhã está aprofundando aqui a análise sobre o conflito no Oriente Médio
08:55com o Valdir Bezerra, que é mestre em relações internacionais.
09:00E a gente estende também aqui o espaço para pergunta para o nosso analista Cristiano Vilela.
09:06Vilela.
09:08Valdir, um ótimo dia a você.
09:11Valdir, visualizando na linha de tudo que você colocou,
09:14sobre as incertezas geradas a partir desse conflito,
09:18dá para a gente fazer um exercício em relação à situação do Brasil
09:21com relação a esse conflito dos Estados Unidos e do Irã?
09:24Nós temos um aspecto do ponto de vista econômico,
09:27a pressão em relação aos preços do petróleo
09:30e todas as suas consequências no aspecto econômico,
09:33mas olhando para o campo político,
09:35para a sucessão de declarações enviesadas por parte do governo brasileiro
09:40em relação aos Estados Unidos,
09:42dá para a gente traçar um horizonte com relação a esse conflito,
09:47a esse posicionamento do governo americano
09:49e as consequências na relação entre Estados Unidos e Brasil?
09:55É, todo o conflito internacional reverbera na política doméstica,
09:59não só americana, como dos países envolvidos.
10:01O Brasil é um deles.
10:02Aliás, existe uma questão interessante do ponto de vista estratégico,
10:06porque nós temos visto, do ponto de vista global,
10:10a formação aproximadamente de dois grandes blocos relativamente antagônicos.
10:17Nós temos, por um lado, em relação a essa operação em específico,
10:21temos Estados Unidos, Israel e um certo apoio europeu,
10:27não é um apoio tão infusivo como o Trump gostaria,
10:30mas ainda assim ele existe.
10:31E, do outro lado, nós temos a configuração de um bloco geopolítico,
10:36no qual o Irã se insere,
10:39que é composto de grandes potências, como é o caso de Rússia,
10:42como é o caso de China
10:43e como é o caso de alguns países pertencentes aos BRICS,
10:47que se opõem a determinados privilégios ocidentais no sistema internacional.
10:52E o Brasil faz parte desse grupo.
10:55O Brasil é parte dos BRICS.
10:57O Lula, ele é um dos fundadores desse agrupamento.
11:01Então, de um certo modo,
11:04por participar do grupo BRICS,
11:06o Brasil estaria mais ao lado do Irã,
11:08em relação a esse...
11:10do Irã, da China e da Rússia,
11:11em relação a essa grande...
11:14essa grande disputa global por poder.
11:17Por outro lado, a posição geográfica do Brasil
11:19não permite com que ele tenha tanta margem de manobra assim.
11:22Ele não pode alienar os seus parceiros ocidentais,
11:27tanto os parceiros europeus como os próprios Estados Unidos,
11:30uma vez que a gente sabe que existe a possibilidade de retaliação
11:34contra o próprio Brasil,
11:36por vias de sanções,
11:38por vias de outros tipos de medidas de pressão política.
11:42Então, o Lula tem que navegar em águas um pouco tortuosas.
11:46Mas a questão aqui não é só de governo,
11:49é uma questão de Estado.
11:51A posição geográfica do Brasil e a participação nesses blocos
11:53faz com que ele tenha que tomar certos cuidados
11:56na sua diplomacia
11:58para poder não antagonizar parceiros tradicionais.
12:01Eu falo da Europa e dos Estados Unidos,
12:03mas também dos seus parceiros comerciais importantes,
12:06como é o caso da China,
12:07de certo modo a Rússia
12:09e agora também é o próprio Irã.
12:12Sem dúvida alguma.
12:14E claro que a gente vai seguir acompanhando tudo isso
12:16e trazendo as atualizações.
12:17Nós conversamos com Valdir Bezerra,
12:19mestre em relações internacionais,
12:22esclarecendo os diferentes pontos desse conflito
12:24no Oriente Médio envolvendo os Estados Unidos.
12:26Muito obrigado pela presença aqui no Jornal da Manhã.
12:29Eu que agradeço. Obrigado.
12:31Valeu, sempre bem-vindo, professor.
12:32Obrigado, professor.
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