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Por que tantas crianças e adolescentes desaparecem na Baixada Fluminense todos os dias? Mães e ativistas denunciam a tática cruel do tráfico de drogas: aliciar menores de idade (por causa da impunidade legal) e sumir com eles, deixando famílias inteiras sem respostas e com medo de procurar as autoridades. Conheça a luta de Luciane, que há 10 anos tenta encontrar sua filha em meio a esse sistema devastador.

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Transcrição
00:00Eu sou mãe de uma menina chamada Luciane Torres da Silva.
00:06A Luciane desapareceu no dia 30 de novembro de 2009.
00:15E dez anos depois eu me tornei uma instituição diante das dificuldades que eu via,
00:24tanto pessoal como de outras companheiras que viviam o mesmo drama,
00:30e eu via que nós somos, até o dia de hoje, desaparecidas pelos governantes.
00:36Então, a minha instituição tenta trazer a nossa realidade,
00:47que além da busca que não para, é também a necessidade de um amparo psicológico, psiquiátrico.
01:00Enfim, porque as famílias acabam, as mães principalmente, que é a que eu lido direto,
01:07a maioria delas já perderam o emprego, porque a gente escuta do empregador que ou a gente procura o filho
01:18ou a gente trabalha.
01:22E por isso, quando você não drena esse sofrimento, cuidando do lado psicológico,
01:30seja pela palavra, pela ajuda profissional, seja pela compartilhar com a sua comunidade tudo o que você está vivendo,
01:37a maior chance é desse luto virar um sintoma físico.
01:41Ele pode ter sintomas físicos, mesmo com todo esse esforço que eu estou te falando de drenar,
01:46mas quanto menos você drena a sua dor, quanto mais ela não tem espaço para ser vivenciada,
01:52maior o risco de sintomas físicos.
01:55Porque esse sofrimento vai sobrecarregar esse cérebro que vai gerar consequências no resto do corpo.
02:01Então, problemas de ordem psíquica, ansiedade, depressão, estresse pós-traumático,
02:10dependendo de como as condições aconteceram no desaparecimento.
02:14Então, quadros de ansiedade importantes, quadros de depressão,
02:18quadros de irritabilidade, agressividade podem acontecer.
02:24Quando é um casal, as chances de crises conjugais são muito importantes,
02:29porque são diferentes jeitos de lidar com a dor, diferentes jeitos,
02:32inclusive, às vezes, uma culpabilização de um e de outro, que fica meio mal trabalhada.
02:38Do ponto de vista cognitivo, problemas de concentração, de memória, de capacidade de decisão.
02:45Então, todo o lado cognitivo pode ficar um pouco rebaixado.
02:49Num luto concreto, isso demora alguns meses em situações normais.
02:53Em lutos como esse que a gente está descrevendo, que não há um desfecho e a situação vem e volta,
02:57vem e volta, vem e volta,
02:59isso pode perdurar. Por isso, a pessoa tem mais chance de adoecer.
03:05Minha filha sumiu na Baixada, no quilômetro 32, na Baixada Fluminense.
03:10A Baixada é onde mais desaparecem pessoas, cerca de 16 pessoas por dia.
03:20E, segundo as estatísticas, a maioria é para o tráfico de drogas.
03:28Mas a gente tem, a gente sabe que a outra ponta da trajetória do tráfico, que é, vamos dizer,
03:40trazer aquele menor, porque para o menor a lei é mais branda.
03:46O menor não é punido.
03:48Então, o traficante, sendo maior de idade, ele já tem essa visão, de pegar o menor de idade.
03:53E aquele menino, quando entra nesse mundo, ou ele desaparece e a família não sabe,
04:00ou continua no tráfico.
04:03Mas aí também as famílias não têm respaldo diante das autoridades,
04:07porque ninguém vai procurar filhos de ninguém.
04:10Infelizmente, é isso que nós vivemos.
04:14Então, assim, eu digo que a gente passa por fases.
04:20Então, no primeiro momento, é a fase da culpa.
04:24Por que que eu deixei? Por que que foi assim?
04:27Aonde que eu falei?
04:28Então, vem a culpa.
04:29Eu poderia não ter deixado ela em uma padaria,
04:32eu poderia não ter feito isso, eu poderia não ter feito aquilo,
04:35mas não tem como voltar atrás.
04:38Aí, depois, a gente não consegue se livrar dessa culpa,
04:42mas a gente tem que saber sobreviver com essa culpa.
04:47E lá na frente, a gente vai só acumulando problemas, né?
04:54Porque depois a gente fica doente.
04:59Eu sou hipertensa, eu tomo remédio antidepressivo,
05:04eu tomo remédio para dormir,
05:06porque isso tudo afeta a gente de uma maneira, assim, devastadora.
05:13Então, a gente quer que funcione tudo,
05:17a gente quer que todo mundo olhe para a gente,
05:20porque a gente acha a minha dor que importa.
05:24E aí, quando eu fui ver nesse decorrer de tempo,
05:29fui encontrando outras famílias.
05:32E hoje, quando eu deparo com o número de estatísticas de desaparecidos,
05:36eu vejo o quanto isso é cruel para todas as famílias.
05:41Eu não sou a única.
05:43Então, eu tive que me transformar.
05:47Mas eu perguntei a Deus, para quê?
05:49E aí, foi a hora que Deus foi me mostrando.
05:53Que havia outras famílias,
05:55outras pessoas que precisavam da atenção,
05:57tanto quanto eu, ou até pior.
05:59E aí, eu comecei a visitar algumas famílias.
06:05E, visitando essas famílias,
06:07eu fui percebendo que a família toda em volta fica desmoronada.
06:12É filhos que não querem...
06:14Os filhos que estão dentro de casa
06:16se tornam desaparecidos para a gente.
06:20A gente só tem olhos e pensamento do que sumiu.
06:24E os que estão dentro de casa se tornam desaparecidos.
06:26E ali, eu comecei a pensar e colocar no papel
06:32tudo o que eu queria como instituição.
06:35Então, a minha instituição hoje é
06:37apoio às famílias de pessoas desaparecidas.
06:41Como seria encontrar uma filha
06:43quase 34 anos depois do seu desaparecimento?
06:47É essa questão que Vera Ranu enfrenta
06:50depois que viu sua filha, Fabiana Renata Gonçalves,
06:54pela última vez, em novembro de 1992.
06:58Sou mãe de Fabiana Renata Gonçalves,
07:01que está desaparecida desde o dia 12 de 11 de 1992,
07:06porém, já fazem 33 anos.
07:08A minha filha saiu aos 13 anos de casa
07:11para ir para a escola no dia 12,
07:13por volta das 14h30.
07:16Nessa época, eu morava no bairro do Jaraguá,
07:19aqui em São Paulo.
07:20Minha filha não chegou na escola
07:22e nunca mais voltou para casa.
07:24Desde então, eu tenho militado
07:27como ativista social na causa de pessoas desaparecidas.
07:31Primeiramente, eu sou uma das fundadoras
07:33das Mães da Sé
07:34e atualmente eu lidero o movimento
07:36Mães em Luta,
07:38Associação Nacional de Prevenção
07:40e Busca Pessoas Desaparecidas.
07:44Eu comecei a procurar minha filha
07:46logo nas primeiras horas do seu desaparecimento.
07:49Naquela época, existia um procedimento
07:51que muitas delegacias ainda insistem
07:54em usar de 12 ou 24 horas
07:56para fazer um boletim de ocorrência,
07:58coisa que nunca existiu e não existe.
08:02E quando eu me vi desesperada na busca
08:05por alguém que poderia me ajudar,
08:08que nesse caso seria a polícia,
08:10eu vi que eles não estavam ali
08:14preparados para poder ajudar algumas famílias.
08:17Eu militei muito tempo sozinha
08:19procurando respostas que eles não podiam me dar,
08:23mesmo porque eles demoraram
08:24mais de três dias
08:26para fazer o boletim de ocorrência da minha filha.
08:29E quando eu cheguei na delegacia,
08:31depois de alguns dias aqui no DHPP,
08:34em São Paulo,
08:36no setor de pessoas aparecidas,
08:38eu fui informada que eram 24, 48 para fazer um boletim de ocorrência
08:45sobre um desaparecido,
08:47mais 72 horas para enterrar uma pessoa como indigente.
08:51Ali eu comecei a minha saga desesperadamente,
08:56porque você imagina,
08:57se eu já tinha passado mais de 48 horas
09:02e só tinha 72 horas para reconhecer uma pessoa
09:06que talvez fosse encontrada não identificada em óbito,
09:09eu já tinha extrapolado todos os limites do tempo.
09:14Em uma época na qual a busca por desaparecidos
09:18enfrentava as dificuldades dos sistemas analógicos,
09:22Vera encontrou no sentimento
09:24uma forma de se conectar com outros pais
09:27e ampliar a luta.
09:28Em 2005 eu voltei a militar ao meu antigo projeto
09:35Como Mães em Luta,
09:36porque eu vi que como Mães da Sé,
09:39divulgação e a visibilidade por familiares
09:45e a visibilidade até nacional de fotos e etc.,
09:50ele já estava concluído.
09:51Mas havia necessidade de eu trabalhar com a prevenção
09:56e mais cobranças aos órgãos públicos
09:59sobre políticas públicas
10:00de meio eficazes de busca,
10:04atendimento aos familiares.
10:08A Ana Paula, ela não é a minha única filha.
10:11Eu tenho mais dois filhos mais velhos,
10:13ela é a minha caçula
10:15e os dois filhos mais velhos meus são casados
10:18e tem filhos eu sou avó.
10:20Eu cheguei a um ponto que é assim,
10:22que eu vivia para duas situações.
10:26Uma é pela busca da minha filha
10:29e a outra pela militância da causa.
10:32E aí eu chegava em casa,
10:33eu não tinha mais espírito
10:37para ouvir os meus filhos,
10:41para estar com os meus filhos,
10:43eu não tinha mais domingo
10:44para almoçar com os meus filhos,
10:46para os meus netos.
10:47e eu comecei a perceber que eu estava assim,
10:51cada vez mais me afundando
10:54numa tristeza muito grande
10:56e numa revolta muito grande.
10:58E isso estava me tornando um ser humano muito amargo.
11:02Porque assim,
11:03a tristeza de eu não ter notícias da minha filha
11:07e o peso,
11:09a ira,
11:10a raiva,
11:11a revolta
11:11é de um trabalho
11:13sem retorno.
11:14É de você ver tanta patifaria
11:16para almoçar um outro termo
11:18dentro do poder público.
11:19Porque é um ninho de patifaria,
11:22o poder público.
11:23E isso estava me fazendo muito mal.
11:25E eu percebi que assim,
11:27que quando eu estava em casa,
11:28eu já queria ficar
11:29fechada,
11:30eu já queria ficar trancada,
11:32porque eu já estava pintorando
11:34uma pessoa irada
11:35e uma pessoa magra.
11:36Aí foi quando eu,
11:38né,
11:38eu acordei para a vida
11:40e eu falei,
11:41não,
11:41eu,
11:41os meus dois filhos
11:43e os meus netos,
11:45assim como eu,
11:46nós não somos culpados
11:47pelo que aconteceu.
11:48Né,
11:49eu não tenho culpa,
11:50meus filhos também não têm culpa,
11:51mas eu também não sou mãe,
11:52sou a dona Paula.
11:54Né,
11:54então foi quando eu resolvi
11:56só buscar pela minha filha,
11:59só investigar a minha filha,
12:01vira e mexe,
12:03eu vou de um canto,
12:05vou em outro,
12:06eu vira e mexe,
12:07eu faço as minhas buscas,
12:09mas me envolver com a causa,
12:11não.
12:11Porque você vê,
12:13inclusive na militância,
12:15muita coisa que te entristece.
12:18Você sai de lá
12:20com o boletim de ocorrência
12:24na mão,
12:24no papel,
12:25que não serve para nada,
12:26você sente e chora,
12:27que não serve aquilo para nada.
12:29Não tem poder
12:30de um documento oficial
12:32para nada.
12:33Mais para frente,
12:34eu descobri que aquilo
12:36não tem,
12:37não vale nada,
12:39né,
12:39não tem serventia para nada.
12:41É,
12:42então,
12:43assim,
12:44aí você bate
12:45numa porta,
12:46você bate no outro,
12:47aí você encontra um,
12:50que um profissional
12:52dentro do poder público
12:54que se ouve
12:56e aparentemente
12:59tem vontade,
13:01mas o próprio poder,
13:03a própria máquina,
13:05ela não,
13:06não é destravada
13:08para cuidar de pessoas
13:09desaparecidas,
13:11para investigar,
13:12para trabalhar.
13:13Não tínhamos mais criança
13:14e adolescente desaparecido,
13:16nós iríamos ficar
13:17só com os adultos.
13:19Ou eu estou errada,
13:20ou a minha interpretação
13:21não é bem essa.
13:23então,
13:24assim,
13:24poder público,
13:26para mim,
13:27é,
13:28falar do poder público,
13:29eu acho que
13:30é uma falta
13:32de respeito
13:32muito grande
13:33com a gente,
13:34porque eles
13:35existem
13:36para defender
13:38quem é o que
13:39menos precisa.
13:41A gente,
13:41enquanto precisa,
13:42enquanto mãe de família
13:43de filhos desaparecidos,
13:45nós somos órfãos
13:46de pai e mãe.
13:49só que você milita
13:51e você vai
13:51até a página 10.
13:53Quando você,
13:54quando você chega
13:55num ponto
13:56de que ali,
13:57dali para frente,
13:59não é interessante
14:00para o poder público
14:01que a coisa se resolva,
14:03trava,
14:04não vai mais para frente,
14:05você não passa mais ali.
14:07Entendeu?
14:08Ah, já vi isso,
14:09que está aí,
14:09a Ivanise,
14:10que milita há quantos anos?
14:11Tchau.
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