00:00A gente volta a falar sobre os conflitos no Oriente Médio, a situação do Irã.
00:04A França anunciou que vai aumentar o armazenamento de armas nucleares
00:08para proteger a Europa depois de todos esses conflitos.
00:12O Luca Bassani, em tempo real, vai trazer os detalhes para a gente.
00:16Luca, seria uma medida preventiva por parte do governo francês?
00:22Exatamente, Márcia. Boa tarde a você e a todos que nos acompanham
00:25nesse contexto de muitos países se rearmando numa nova corrida armamentista.
00:31A França, que é a quarta maior potência nuclear do mundo,
00:34atrás da Rússia, Estados Unidos e China,
00:37pretende ampliar o número de ogivas disponíveis.
00:40O país atualmente possui 290 ogivas.
00:44É, dentro da União Europeia, o único país que tem essa tecnologia.
00:48E, segundo o presidente Emmanuel Macron,
00:50a estratégia militar da França nos próximos anos
00:52envolve a expansão do seu arsenal nuclear
00:55e a cooperação com países dentro da Europa
00:58que são parceiros e, eventualmente, não tenham acesso a armas nucleares,
01:02como, por exemplo, a Alemanha, a Polônia, a Itália e a Espanha.
01:06Tudo isso acontece em um contexto em que os europeus
01:10se sentem muito ameaçados pela Rússia,
01:13que amplia a sua ofensiva dentro da Ucrânia,
01:15e que outros países também têm feito essa mesma movimentação.
01:20Macron disse que é necessário ser temido para ser respeitado.
01:24E exatamente nesse sentido que os aliados da França
01:29também poderão compartilhar destes avanços.
01:34A França que pensa, pela primeira vez, durante muito tempo,
01:38de enviar algumas das suas ogivas para fora do seu território.
01:41Isso acontece em um momento em que outros países europeus
01:45que não têm armas nucleares pedem para que a França
01:48compartilhe o seu guarda-chuva nuclear
01:50e também pensam em desenvolver a sua própria bomba atômica.
01:54Um dos países que mais fala isso de maneira frequente
01:57é a Polônia, que, inclusive, faz fronteira com a Rússia,
02:00faz fronteira com a Ucrânia
02:01e é uma nação que investe mais de 5% do seu PIB nacional anual
02:07para o seu exército.
02:10A Polônia diz que, no caso de começarem a investir agora
02:14nessas tecnologias, entre 5 e 10 anos
02:17conseguiriam já sua primeira ogiva funcional.
02:20Algo que pode ser antecipado,
02:23caso haja esse compartilhamento de inteligência
02:25ou até mesmo de tecnologia, por parte da França,
02:27outro país da União Europeia e da OTAN.
02:29Ou seja, aqui na Europa, a corrida armamentista
02:32também segue pelo caminho nuclear,
02:34não só nas diretrizes anunciadas pela Comissão Europeia
02:38de 800 bilhões de euros para os próximos 10 anos,
02:41mas também com armamentos cada vez mais precisos
02:43e letais, como a própria bomba atômica.
02:46Obrigada, Luca Bassani, pelas informações.
02:49Vamos chamar os nossos analistas do dia,
02:51o Mano Ferreira e o Diego Tavares.
02:54Mano, e era um país que ali, a França,
02:57que nunca apoiou muito essa questão armamentista.
03:00Você acha que a partir desse último conflito
03:04o mundo inteiro vai repensar esse ponto
03:07que agora pode ser mais importante,
03:09principalmente para a Europa,
03:10já que as guerras estão acontecendo ali,
03:11bem perto deles?
03:13Exatamente, Márcia.
03:14A gente já está vivendo essa nova realidade.
03:17O mundo mudou.
03:18O período de construção da geopolítica
03:22baseada no direito internacional,
03:25no respeito às regras,
03:27no respeito à soberania dos outros países,
03:30na tentativa de mediar conflitos
03:32por meio da diplomacia,
03:34infelizmente, esse mundo não existe mais.
03:38Estamos diante de uma busca
03:40da imposição do poder político
03:43por meio da força.
03:45Estamos assistindo a retomada da lei do mais forte.
03:49É exatamente isso o que significa
03:51a invasão da Rússia sobre a Ucrânia,
03:55que é uma guerra de anexação de território
03:58pelo não reconhecimento da soberania da Ucrânia.
04:02O que Putin alega é que a Ucrânia
04:05desejava livremente negociar
04:08os seus próprios acordos políticos e militares
04:11e que isso seria uma ofensa à própria Rússia,
04:15ou seja, um não reconhecimento da soberania da Ucrânia.
04:20E isso se dá num contexto
04:22em que Putin tem o seu projeto
04:25de reconstrução do que ele chama
04:27de a Grande Rússia,
04:29uma recomposição do território
04:32que a Rússia teve em outros momentos,
04:34inclusive no período da União Soviética.
04:36E se levarmos essa doutrina ao pé da letra,
04:41é sempre importante lembrar,
04:42o território da União Soviética
04:44chegava até metade de Berlim.
04:47Isso é o que explica
04:49a corrida armamentista da Europa.
04:51Diego Tavares,
04:53não dá pra gente olhar com um olhar também
04:55de preocupação no mundo
04:57que os tratados não valem mais de nada,
04:59as organizações internacionais
05:02também não mandam mais em nada,
05:04países podem querer se rearmar
05:07e se rearmar ainda mais
05:09agora com armas nucleares.
05:10Esse mundo é um mundo
05:12que o Trump tá colocando à tona, né?
05:16Era algo que ficava mais escondido
05:18e que Trump agora meio que abriu a porteira,
05:21saiu de tratados e falou
05:22eu faço o que eu quiser
05:23e com isso outros líderes mundiais podem ir.
05:27Ele abriu esse precedente, né, Diego Tavares?
05:31Pois é, Marcia Dantas,
05:32infelizmente o que nós estamos acompanhando
05:34agora no começo do século XXI
05:36é um roteiro histórico muito semelhante
05:38ao do início do século XX.
05:41O final, no século XX, evidentemente,
05:42nós já sabemos como aconteceu.
05:45E realmente é momento do mundo
05:47estar apreensivo,
05:48do mundo demonstrar sua preocupação
05:49e clamar pelas relações diplomáticas,
05:52pelo diálogo,
05:53porque realmente o caminho
05:54que parece que está sendo adotado
05:56não é o caminho mais pacífico,
05:57consequentemente não é o caminho melhor
05:59para a humanidade.
06:00Mas esse debate, especialmente sobre a França
06:03se armando do ponto de vista nuclear,
06:05deixa muito claro que no final do dia
06:07é quem tem o maior exército,
06:09quem tem o maior poder bélico,
06:11quem tem a maior capacidade
06:13de exercer a sua influência sobre o outro
06:15é quem vai se sobressair,
06:17quem vai conseguir manter o seu povo protegido.
06:19De fato, o Brasil deveria ter ouvido
06:22Enéas Carneiro,
06:23quando ele dizia lá nos anos 90
06:24que nós precisávamos também
06:25investir em um programa nuclear,
06:28evidentemente não para jogar bomba
06:29no território dos outros,
06:30mas que ninguém cogitasse jogar
06:33uma bomba nuclear aqui no Brasil.
06:35Essa é exatamente a diferença hoje
06:37entre o Irã e a Coreia do Norte,
06:39por exemplo.
06:40Trump topa um exercício militar
06:42contra o Irã
06:43para que o Irã não se arme
06:45do ponto de vista nuclear
06:46e nem poderia se armar mesmo
06:47diante do perfil do governo dos ayatollahs.
06:51Mas Trump não mexe com a Coreia do Norte
06:53justamente porque é um país
06:54que detém armamento nuclear.
06:56Então, com a Coreia do Norte
06:58não terá um exercício norte-americano
07:00como nós estamos acompanhando no Irã.
07:02O Brasil deveria ter seguido
07:04o exemplo da França,
07:05o exemplo da Rússia,
07:06o exemplo da Índia,
07:07dos Estados Unidos
07:08e deveria ter tido
07:09o seu próprio programa nuclear
07:11quando teve essa oportunidade.
07:13Hoje, infelizmente,
07:13eu acho que nós não temos mais
07:14como retomar esse caminho
07:16diante exatamente
07:16de tudo que nós estamos acompanhando,
07:18de tudo que nós estamos repercutindo.
07:20mas, sem dúvida nenhuma,
07:21o Brasil perdeu
07:22uma grande oportunidade.
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