00:00A gente volta a falar aqui a respeito do conflito no Oriente Médio, dos ataques americanos e israelenses ao Irã,
00:06também a retaliação de volta do Irã.
00:08Isso porque vamos conversar com o professor de Direito Internacional, Manuel Nabais da Furriella, que gentilmente atende aqui a Jovem
00:14Pan.
00:15Tudo bem, professor? Bom dia, bem-vindo, hein?
00:17Bom dia.
00:19Dando sequência nos conflitos, a gente fez uma programação super especial no final de semana, com muita análise,
00:24mas a gente teve recentemente uma fala do Donald Trump dizendo que a ação só termina quando os objetivos forem
00:31cumpridos.
00:32O Benjamin Netanyahu também se pronunciou dizendo que os ataques não terminam naquilo que a gente viu no final de
00:39semana.
00:40Quais são esses objetivos? Há uma clareza de objetivos por parte do governo americano nesse momento, professor?
00:49Como vai ser construído, como vão ser construídos os objetivos, é que nós temos, ou sobre isso é que nós
00:55temos grandes dúvidas.
00:57O objetivo maior, obviamente, é desmobilizar o programa nuclear iraniano, que vem evoluindo nos últimos anos,
01:05e não é fato controverso de que exista, é incontroverso.
01:11Realmente, existe um programa nuclear sendo desenvolvido e não é com fins pacíficos, como diz o governo.
01:18Tanto é que pouca gente mencionou, mas o Irã está sob sanções da ONU justamente por conta desse programa.
01:25Então, ele efetivamente existe.
01:27Este é o maior objetivo.
01:29Imagine só, naquele contexto complexo do Oriente Médio,
01:33onde, inclusive, Israel é pressionado por tantos estados que tenha um estado grande,
01:41um país, uma potência regional e também com força militar, nos termos do Oriente Médio,
01:47tenha esse país, como é o caso do Irã, um armamento, um artefato nuclear.
01:52E aí nós temos outros objetivos que também são importantes, apesar de menos do que este que eu mencionei,
01:58que são a desmobilização das hostilidades criadas pelo Irã naquela região, principalmente contra Israel,
02:06e também contra outros inimigos ou contra outras potências regionais, como é o caso da Arábia Saudita,
02:13já que o Irã tanto apoia grupos que atacam Israel, é o caso do Hezbollah, era o caso do Hamas,
02:20dos Tutsis e etc.,
02:22mas também rivaliza com a Arábia Saudita, em menor escala, na região.
02:28Então também há esta questão que é relevante.
02:31E o regime de governo, o regime político iraniano, por si só, já é um grande problema para os Estados
02:38Unidos e para Israel,
02:40já que desde o primeiro momento, em 1979, declarou claramente esse regime dos Ayatollahs,
02:46que um dos seus objetivos era a destruição do Estado israelense,
02:50e também a desmantelação, a retirada, a diminuição do domínio da influência norte-americana na região.
03:00Então você tem todo este contexto.
03:01Agora, o caminho é que é o grande problema.
03:04Os Estados Unidos indicam que não pretendem desconstituir o regime de governo atual,
03:11aqui lembrando que é uma república presidencialista, onde há um líder teocrático que também é político, que é o Ayatollah,
03:20e por conta justamente deste regime que lá existe, é que existem essas hostilidades.
03:27Então os objetivos estão claros, o meio é que é mais desafiador.
03:31O professor Henrique Kriegner está comentando os assuntos com a gente também nesta manhã.
03:35O Kriegner, o professor elencou aí alguns objetivos para os Estados Unidos chegarem a se retirar do Irã.
03:44E por outro lado, autoridades iranianas dizem que não vão recuar, não vão voltar à mesa de negociações,
03:51até porque havia uma negociação e mesmo assim os Estados Unidos acabaram partindo para cima do Irã.
03:58Qual é a tua interpretação para a sequência desse conflito, Kriegner?
04:03É algo que deve se desenrolar por muito tempo, à medida em que o Irã diz,
04:07não vamos mais negociar, ainda que o Trump tenha dito que poderia voltar a falar,
04:11ao mesmo tempo em que disse, se objetivos não forem atingidos, a guerra continua.
04:17Olha, Nonato, quando a gente fala de sequência, próximos passos,
04:21é muito difícil, justamente considerando que nós temos um ator aí muito imprevisível envolvido nisso,
04:27que é o presidente Donald Trump.
04:29E a sua política externa, também a sua atuação doméstica,
04:35tudo a respeito de Trump é imprevisível, né?
04:37Mas nós podemos dizer, e como trouxe aqui o professor Furriella também,
04:42um prazer estarmos juntos aqui no Jornal da Manhã,
04:45o professor trouxe muito bem essa questão da necessidade
04:49e dos próximos passos que o Irã deve tomar em relação também àqueles outros países que estão envolvidos, né?
04:57E acho que esse que é uma das grandes dúvidas.
04:59Qual será a atitude, por exemplo, de países que foram feridos pelas retaliações iranianas,
05:05como o Qatar, como a Arábia Saudita e a Israel, a Israel um pouco mais previsível,
05:11mas esses outros países também.
05:12Uma vez que os ataques agora de Israel se estendem também para o Líbano,
05:19qual será possivelmente a retaliação?
05:22Uma coisa a gente sabe muito bem,
05:24é que é necessário que haja uma intensificação das forças das outras organizações internacionais
05:31para que se estabeleça o mínimo de ordem ali,
05:34porque realmente essa ordem que existia antes, que já não era tão sólida assim,
05:39foi ainda mais estremecida no NATO.
05:42E a gente percebe também uma dificuldade na articulação desses blocos.
05:48A União Europeia teve um posicionamento extremamente político,
05:53se a gente pode chamar dessa maneira.
05:55Outros aliados aí, você teve o Reino Unido entrando mais enfaticamente,
05:58mas faltam aí essa articulação de outros players internacionais,
06:04eu diria outras organizações internacionais,
06:06para de fato segurar um pouco mais essa instabilidade.
06:11De novo, Donald Trump é imprevisível,
06:13não dá para saber quais serão, qual é a profundidade da revolução,
06:18se vai ser, ou seja, da alteração, perdão,
06:20se vai ser uma questão como foi na Venezuela,
06:22em que quando o cabeça foi eliminado,
06:25o regime se mantém, ou se vão até as últimas medidas
06:28para uma troca absoluta do regime dos Ayatollahs.
06:32Daqui a pouco o Krigner volta,
06:34também o professor Furriella, analisando os principais assuntos.
06:37Vamos às capas dos jornais de hoje,
06:38começando aqui pela Folha de São Paulo,
06:40você já deve imaginar qual é o principal tema, né?
06:42Sob novos ataques, Irã expande retaliação
06:44e tenta refazer governo.
06:47É a manchete de capa hoje da Folha,
06:48além de dar destaque também para a manifestação ontem na Paulista,
06:51ato de apoio a Bolsonaro ganhando espaço no ano eleitoral.
06:57E aí tem uma foto dos manifestantes.
06:59O petróleo subindo 5% após o conflito,
07:02também é reflexo desse cenário.
07:04Da Folha, vamos aqui para os destaques de hoje,
07:06do jornal O Estado de São Paulo.
07:09Traz uma manchete diferente do conflito,
07:12Lulinha admite que careca do INSS pagou viagem a Portugal,
07:15mas também tem muito destaque para a guerra.
07:17Guerra se agrava,
07:18Petróleo reage em alta, diz aqui o Estadão.
07:22E do Estadão, vamos para o jornal O Globo,
07:25editado no Rio de Janeiro,
07:26que traz como manchete principal a guerra.
07:28Operação Fúria Épica.
07:30Ataque de Estados Unidos e Israel ao Irã,
07:33que espalha a crise pelo Oriente Médio.
07:35E aí o jornal traz várias fotos,
07:37uma delas de pessoas em Paris,
07:38comemorando a morte do Ali Khamenei,
07:41e outras voltadas para a destruição,
07:44promovida por esse conflito.
07:46Então, os jornais de hoje destacando muito o ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã,
07:52como não poderia deixar de ser diferente.
07:55A gente vai conversar mais uma vez aqui com os nossos analistas de hoje.
07:58O professor Furriella segue com a gente,
08:00assim como o Henrique Kriegner também.
08:02O professor,
08:03digamos que a gente tenha um cenário caótico lá no Irã,
08:08como a gente viu, por exemplo, em outras nações,
08:10em outros países,
08:11ali na sequência da Primavera Árabe,
08:13ou mesmo em ações americanas mesmo,
08:15para tentar combater o terrorismo,
08:16no caso do Iraque.
08:18Se isso ocorresse,
08:20a gente tiver uma situação de confusão,
08:22sem uma liderança notória que possa conversar,
08:26ou que possa, de algum modo,
08:27ser conduzida pelo governo americano, por exemplo.
08:30Será que pensa-se nisso,
08:33essas autoridades de guerra, por exemplo?
08:34Israel pensa nisso,
08:36e seria benéfico,
08:37ou seria pior para Israel,
08:39um Irã sem liderança e conturbado?
08:44É bom, com certeza pior.
08:46O caso do Irã é muito complexo,
08:49por esse aspecto que você mencionou.
08:51Você não tem lideranças com possível ascensão
08:55para assumirem o poder,
08:57sejam elas moderadas,
08:59sejam elas de outra linhagem política,
09:02que pudessem substituir o poder,
09:04e diretamente depois se tornar alinhadas
09:07aos interesses ocidentais.
09:09Você traz, de vez em quando,
09:11a gente traz algumas questões
09:13envolvendo lideranças,
09:15mas elas são muito diminutas.
09:16Um dos casos clássicos
09:18é propriamente o monarca,
09:20filho do monarca deposto,
09:22do Charreza Parleve,
09:24também da família Parleve,
09:25da linhagem Parleve,
09:27que vive no Canadá,
09:28vive em exílio,
09:29e tem algum tipo de apoio nacional,
09:33por lembranças de um período
09:35onde havia maior ascensão do ascendente no Irã,
09:40e também maior participação da sociedade civil
09:43e maiores liberdades individuais.
09:45Então, no caso, até 1979,
09:48com o governo,
09:49com a gestão do monarca,
09:51do Charreza Parleve,
09:52o Irã vivia outros momentos
09:54que são apreciados por grande parte
09:56da sociedade civil,
09:58pelos motivos que eu mencionei.
10:00Além disso,
10:01também há alguns pequenos grupos oposicionistas
10:04dentro do país.
10:06O Irã, pouca gente sabe,
10:08acredita-se sempre que é uma ditadura por completo,
10:11uma autocracia,
10:12não é a verdade.
10:14Partidos políticos existem no país,
10:17o parlamento é diverso,
10:19o país não é governado por partido único,
10:23o que acontece é que,
10:24apesar da existência
10:25desse pluripartidarismo,
10:27a palavra final do Ayatollah
10:29se impõe tanto politicamente
10:32quanto religiosamente.
10:33Então, esta mistura,
10:35esta imposição,
10:36este excesso de poderes
10:38sobre o Ayatollah
10:39é que reprime a existência
10:41de qualquer tipo de grupo oposicionista
10:43com força para assumir o poder agora.
10:46Mas há sim uma multiplicidade.
10:49Então, as duas alternativas,
10:50partidos de oposição,
10:52ou até mesmo o retorno,
10:54a assunção ao trono
10:56do filho do Chá,
10:57do filho do antigo monarca,
10:59são as únicas alternativas.
11:01O ponto aqui
11:01é que nenhuma delas
11:03é de grande repercussão
11:04ou tem grande apoio popular.
11:06Então, é muito difícil
11:08se construir um governo
11:09de transição
11:10partindo de uma linha
11:11totalmente oposta
11:12que existe atualmente,
11:14que seria o ideal,
11:15desmontando
11:16esse sistema teocrático
11:18que traz vários problemas
11:20de estabilidade ao país
11:21e principalmente
11:22de alternativas.
11:23de alternativas.
11:24Então,
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