00:00por Arábia Saudita e Rússia vão se reunir hoje após os ataques ao Irã e riscos no Estreito de Hormuz,
00:06por onde passa cerca de 25% do petróleo mundial.
00:10O David Diogo tem mais informações pra gente a respeito desse assunto.
00:14Pois não, David?
00:18Pois é, Nonato, oito membros do grupo e seus aliados, incluindo a Rússia, vão participar dessa reunião
00:25que já estava marcada e com essa situação ganhou mais a afirmação de ser realizada de fato hoje.
00:33Vamos lembrar que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, 12 países fazem parte desse grupo
00:40e oito, incluindo a Rússia, como falei, vão se reunir hoje impreterivelmente.
00:45Segundo dois delegados da organização, a instituição provavelmente vai considerar um aumento maior
00:53na produção de petróleo depois dessa situação no Irã.
00:58Cerca de 411 mil barris por dia deve ser definido aí nessa reunião por esses oito líderes.
01:07O cenário base, né, antes dessa situação toda, seria a produção em 137 mil barris por dia,
01:16mais a linhas de incrementos do quarto trimestre, né, mas isso pode mudar já com os bombardeios, né,
01:25o bombardeio ali no país iraniano.
01:28Os preços do petróleo já tinham subido devido às expectativas ali de um possível ataque dos Estados Unidos
01:34da América ao Irã.
01:36O grupo, liderado pela Arábia Saudita e pela Rússia, era esperado para retomar com aumentos modestos ali
01:43na produção em abril, após um congelamento de três meses, numa estratégia em custo, né,
01:51para, em custo, para recuperar a participação de mercado.
01:55O fator-chave dessa reunião será, sem dúvida, o fechamento do estreito Ormuz, de Ormuz, né,
02:03passagem crítica ali do Golfo Péssico.
02:06Vamos lembrar aqui que cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente passa pelo local.
02:14Os delegados que fizeram essa afirmação diante aí do aumento, né, de cerca de 400 mil barris por dia
02:21pediram para não ser identificado, já que as decisões, as deliberações da organização dos países exportadores de petróleo,
02:29elas são privadas.
02:31Eu volto com vocês, Márcia, Nonato.
02:35Obrigada, David, pelas informações.
02:38Bom, a gente conversa ao vivo agora com os professores de relações internacionais,
02:42João Alfredo e também José Niemeyer, que gentilmente atendem aqui a Jovem Pan.
02:46Muito obrigado a vocês dois pela participação.
02:49Queria começar aqui, Niemeyer, conversando contigo.
02:52A gente já se falou ontem a respeito desse conflito deflagrado lá na região do Oriente Médio.
02:57E eu ouvi uma entrevista de um colega teu e ele citando a possibilidade do seguinte,
03:05essa guerra também é benéfica, tanto para o Trump quanto para o Netanyahu.
03:11Os dois precisariam de um conflito pelos atuais momentos em que vivem as suas políticas internas.
03:18Lembrando que tem eleição de meio de mandato lá nos Estados Unidos nesse ano também.
03:22O Niemeyer, dá para ir por esse raciocínio, ou seja, os dois precisavam de uma guerra para chamar de suas?
03:29Oi, Nonato, tudo bem? Prazer estar com você novamente hoje.
03:33Um abraço a Márcia, aos comentaristas, né, da Jovem Pan, assinante e ao professor aqui que nos acompanha.
03:40Nonato, cada vez mais as relações internacionais, elas estão sendo reverberadas por questões internas.
03:47É como se o cenário internacional hoje fosse muito mais referendado pelo ambiente doméstico dos países,
03:56principalmente de potências centrais e de potências médias, do que das próprias relações internacionais.
04:05As relações internacionais, o poder está surgindo e as questões, os interesses, muito a partir do ambiente interno.
04:13Então, se utilizam das relações internacionais como uma maneira de poder fortalecer interesses específicos dentro de cada país,
04:23naquele contexto doméstico específico.
04:26Então, tanto Estados Unidos como Israel também estão se utilizando desta ação militar para poder unir a população.
04:34Trump estava perdendo popularidade e Netanyahu também vive uma situação muito, muito difícil do ponto de vista político institucional dentro
04:43de Israel.
04:43Então, eles estão se utilizando também deste inimigo comum que é o Irã para poder, de alguma maneira, unir, pelo
04:52menos, o eleitorado próximo,
04:54tentar se manter um pouco mais estável no poder.
04:58Tanto Trump quanto Netanyahu e também as lideranças iranianas podem também se utilizar, vão se utilizar, imagino,
05:07já estão se utilizando desta ação do inimigo dos Estados Unidos e de Israel, inimigos tradicionais da sociedade iraniana,
05:16a gente pode colocar assim, porque há muito tempo é passado para esta sociedade,
05:21inclusive pelos clérigos, pelos yatolás, que são os dois principais inimigos do Irã, Estados Unidos e Israel.
05:30Então, o governo iraniano também está se utilizando desta ação para tentar unir a sociedade minimamente para combater o inimigo
05:42e para manter o regime.
05:46A gente agora, nessa conversa, mas será que esse tiro não pode sair pela culatra?
05:52A gente está vendo vários protestos também em várias partes do mundo contra embaixadas dos Estados Unidos, nove mortos.
05:59Também, boa parte da comunidade americana, do povo americano, acredita que essas investidas de Trump são muito caras.
06:08E num momento que a economia, ele estava precisando taxar todos os países do mundo para realmente ter ali um
06:15investimento nesse sentido também militar.
06:17Como é que a senhora enxerga dentro dos Estados Unidos a popularidade do Trump a partir de qual será o
06:23desdobramento dessa guerra?
06:31Acho que o professor não está ouvindo a gente, né?
06:34É o José Alfredo, João Alfredo. Isso, é o professor João Alfredo. Ele me ouviu?
06:39Ah, ouvi sim. Perdão. Muito bom dia.
06:42Bom dia.
06:42Eu achei que a pergunta fosse para o professor Niemeyer, que havia falado antes.
06:47Então, bom dia, Nonato, Márcia, professor.
06:49De fato, a gente está vendo aqui um momento bastante perigoso em que o conflito deixou claramente de ser sobre
06:57o programa nuclear
06:58e passou a ser sobre uma disputa de legitimidade, de sobrevivência, de regime e até de ordem regional,
07:07com efeitos que agora estão transbordando as fronteiras iranianas ou mesmo da política doméstica israelense e estadunidense
07:16e já está aí transbordando para hubs civis.
07:19Afinal de contas, a gente viu aí os ataques ao aeroporto de Dubai, de Abu Dhabi,
07:24como algo que tem o condão aí de tornar esse conflito ainda mais regionalizado.
07:31O Donald Trump fez essa semana o discurso do Estado da União, né?
07:35No qual ele apontou um país que os eleitores estadunidenses não necessariamente conhecem, né?
07:41Ah, porque a gasolina abaixo de... o galão de gasolina na casa de dois dólares,
07:48mais de mil postos pesquisados, só dois tinham esse preço, os demais estavam muito acima.
07:54Inflação controlada, muita gente está sofrendo com aumento de preços em virtude justamente
08:00do encarecimento geral de produtos importados provocados pelo tarifácio, né?
08:05Então, sim, Donald Trump precisa de uma vitória para chamar de sua,
08:09mas o que me chama atenção aqui é o fato de que uma boa parte do eleitorado estadunidense
08:15não estava interessado numa guerra contra o Irã,
08:18não estava interessado na realização de ataques contra o Irã.
08:22E aí é que vem a morte do Khamenei.
08:26Trump certamente, a partir de hoje, vai tentar vender isso para o eleitorado interno
08:31como uma vitória e, mais do que isso, vai dizer que a inexistência do Ayatollah
08:39ou a morte do Ayatollah pode deixar os Estados Unidos um país mais seguro
08:42a despeito de todas as ameaças feitas e declarações de vingança feitas não só pelo Irã,
08:50mas por outros grupos regionais, como a gente tem visto aí nisso que vocês comentavam,
08:56que são as embaixadas e consulados dos Estados Unidos sendo atacados,
09:00sendo danificados e vandalizados pelo resto do mundo.
09:04Agora, professor Niemeyer, hoje nós tivemos a informação de que o Irã acabou nomeando
09:10o Ayatollah Ali Reza Araf como uma espécie de comandante interino da República Islâmica, né?
09:19Então ele seria um líder supremo de maneira interina, vai precisar organizar agora o processo de sucessão
09:26e entre os sucessores a gente tem a possibilidade de que seja o neto do Komeini,
09:31que liderou a Revolução Islâmica lá em 79, Hassan Komeini, de 53 anos,
09:37mas tem também o filho do Khamenei, que acaba de sair, o Moitaba Khamenei, um pouco mais velho, 56 anos.
09:44Deve ficar entre esses dois nomes e o Ali Reza Araf é apenas interino mesmo
09:50ou existe a possibilidade de que ele se perpetue no poder, professor?
09:54Caro Nonato, eu acho que pouca gente tem uma informação fidedigna com relação ao que acontece
10:02nas estruturas de poder do Estado iraniano.
10:05É interessante notar que mesmo no país onde existe um sistema religioso
10:11que interfere na política 24 horas por dia, é importante notar como mesmo num sistema assim
10:18existem os clãs, as famílias que determinam os rumos da política.
10:24Nós ficamos achando que isso ocorre no mundo no Ocidente, na política do Ocidente,
10:29isso ocorre também no Irã e imagino que em outros países.
10:33Sempre a liderança tem como plano B, na hora da sua substituição,
10:40alguém muito próximo também com laços de sangue.
10:43Isso é muito complicado do ponto de vista da política,
10:45porque essas lideranças acabam perdendo apoio junto à sociedade,
10:51uma visão geral da ciência política.
10:53Mas eu não tenho essa informação.
10:54A Jovem Pan está passando informações muito ricas sobre o conflito, sobre o ataque,
11:00mas nós não temos a informação fidedigna de como será a alteração de poder no Irã.
11:08O que eu posso dizer, baseado em conceitos que eu trabalho,
11:12é que a liderança de Khamenei não era uma liderança fundamentada em carisma
11:18e também não era uma liderança fundamentada no poder que nós chamamos de tradicional.
11:24porque ele não era de uma família conhecida do ponto de vista religioso.
11:31A origem dele é de uma família mais distante do núcleo religioso do chiismo,
11:38porque o Irã é um pai chi.
11:41Então as famílias, na hora que participam da questão religiosa,
11:46algumas famílias têm mais força que outras,
11:49representam mais o chiismo que outras famílias.
11:51Ele não era de uma família importante do ponto de vista religioso.
11:56Ele não era alguém de carisma, a gente percebia isso claramente.
12:01O que ele pode ter, ou o que ele poderia ter,
12:04é o que nós chamamos de poder racional legal.
12:07O racional legal é o poder mais burocrático,
12:10que organiza as ações de política pública no dia a dia.
12:15Isso eu imagino que ele tivesse, esse poder mais racional legal.
12:18Mas ele estava muito fragilizado.
12:21A gente pode imaginar que muitos dos que conviviam com ele
12:25já esperavam a morte dele.
12:29Foi eliminado pelo ataque norte-americano e israelense.
12:32E me parece que pode ser até uma oportunidade
12:36para que novos membros ascendam dentro da estrutura de poder no Irã,
12:41principalmente membros da guarda revolucionária.
12:44porque são membros muito ligados a tanto a sociedade
12:49como também ao poder militar do Irã.
12:52Então, me parece que neste momento,
12:54mesmo tendo alguém para substituí-lo de maneira específica
13:00nesse contexto da eliminação de Khamenei,
13:03mas me parece que há uma possibilidade
13:06de um líder ligado à guarda revolucionária assumir o poder no Irã.
13:11Pois é. Aliás, é interessante esse ponto que o senhor toca,
13:14porque é isso mesmo.
13:15Quando Khamenei assumiu em 89,
13:16faltava um grau ali para que ele fosse um ayatolá,
13:20efetivamente, que pudesse assumir.
13:21E deram uma espécie de jeitinho iraniano,
13:23e ele acabou entrando.
13:25Professor Niemeyer, muito obrigado, viu,
13:26pela participação nesse domingo.
13:28Um bom fim de semana aí ao senhor.
13:30Eu que agradeço, Donato.
13:31Um abraço a você e a Márcia.
13:33Parabéns pela cobertura.
13:34Um abraço também ao colega professor João Alfredo
13:37e ao assinante da Jovem Pan.
13:39Professor João Alfredo, segue com a gente, professor.
13:41Daqui a pouco a gente volta a conversar.
13:43Continue conosco.
13:44Temos mais assuntos a abordar por aqui, já, já.
13:47E após condenar os ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã,
13:51o governo brasileiro prestou solidariedade
13:53a países impactados pela retaliação iraniana
13:56por aqui.
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