Com as maiores reservas do mundo, cerca de 303 bilhões de barris, a Venezuela pode voltar a ser uma potência energética sob tutela americana? A professora de Relações Internacionais, Mariana Maranhão, analisa se a entrada desse petróleo no mercado pode derrubar os preços internacionais e como fica a OPEP nessa história.
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00:00A tomada do setor petroleiro da Venezuela está no centro dos planos do governo, mas o desafio pode ser maior do que se imagina após anos de abandono e má gestão chavista.
00:12Entenda na reportagem de Mateus Dias.
00:15A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas do mundo, com trezentos e três bilhões e duzentos e vinte e um milhões de barris,
00:23segundo a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, colocando o país à frente da Arábia Saudita e do Irã.
00:32Mas a produção é muito baixa, o país bombeia cerca de um milhão de barris por dia,
00:38em comparação com os três milhões e meio que produzia quando o antecessor de Nicolás Maduro, Hugo Chaves, chegou ao poder em mil novecentos e noventa e nove.
00:47Segundo analistas, o descaso, a infraestrutura precária, a falta de investimento e a corrupção reduziram a capacidade produtiva do país.
00:56Além, as sanções impostas por Donald Trump durante o primeiro mandato também contribuíram para a queda da produção a um nível historicamente baixo de trezentos e cinquenta mil barris por dia em dois mil e vinte.
01:09Com tantas restrições, há poucos importadores de petróleo venezuelano.
01:12A China compra oito por cento por meio da Malásia. Cerca de cinco por cento é enviado para Cuba, sob acordos entre os dois países.
01:22Para evitar as sanções americanas, os clientes pagam em criptomoedas.
01:27E para contornar o embargo, Caracas recorre aos chamados navios-tanque-fantasmas, que utilizam vários artifícios, como bandeiras falsas e rotas fictícias.
01:38Uma pequena parte do petróleo venezuelano é produzida pela empresa americana Chevron.
01:43A empresa opera sob uma licença especial emitida por Washington que lhe permite manter a parceria com a estatal petrolífera venezuelana e exportar parte da produção, principalmente para os Estados Unidos.
01:56No entanto, ela não tem mais permissão para transferir dinheiro para o Estado e, portanto, paga impostos e outras taxas em petróleo bruto.
02:04Outras empresas americanas presentes no início dos anos 2000, ExxonMobil e ConocoPhillips, deixaram a Venezuela em 2007.
02:13Elas se recusaram a aceitar os termos de Chaves, que exigiam que o Estado se tornasse o acionista majoritário de todas as empresas que operavam no país.
02:22Donald Trump considera o petróleo exportado por Caracas sob embargo como roubado pela comunidade internacional.
02:30Ele afirma que o produto bruto foi extraído usando recursos, investimentos e equipamentos americanos antes da nacionalização implementada por Chaves.
02:41Apesar de manifestações públicas contrárias por parte do governo interino da Venezuela,
02:46Trump anunciou que Caracas entregará entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo de alta qualidade aos Estados Unidos.
02:54Segundo o republicano, Caracas concordou em usar a receita obtida com a venda da commodity para comprar exclusivamente produtos fabricados por empresas americanas.
03:06Essas compras vão incluir, entre outras coisas, produtos agrícolas e medicamentos, dispositivos médicos e equipamentos para melhorar a rede elétrica e as instalações energéticas da Venezuela.
03:18Para falar sobre esse tema, convidamos a professora de relações internacionais, Mariana Maranhão.
03:24Professora, bom dia. Obrigada pela sua participação aqui com a gente no Jornal da Manhã.
03:30Bom dia, é um prazer estar com vocês.
03:33Professora, é o que muda a partir dessa intervenção americana na Venezuela no mercado de petróleo mundial.
03:39A longo prazo isso pode ser bom, pode baratear o produto?
03:43Essa questão do petróleo é uma análise que tem que ser feita que provavelmente, como foi mostrado na entrevista, precisará de muito investimento, né?
03:54Porque foram anos, né? Décadas quase que tem de estatização, de nacionalização, onde não houve investimento.
04:03Então o petróleo hoje venezuelano é um petróleo caro.
04:07Ele é de difícil extração e que precisaria de muito investimento.
04:11Então, provavelmente, a longo prazo, com certeza pode vir a ter um impacto no preço do barril.
04:18Mas já se sabe que o barril está num momento onde ele não está tão caro como já esteve ao longo da história.
04:24Então, provavelmente, isso a longo prazo pode sim ter esse impacto no valor do petróleo ao redor do mundo.
04:32Mas é importante lembrar, quando a gente fala de Venezuela, né?
04:35Que ela é justamente um dos países fundadores da OPEP, né?
04:39Essa organização que é justamente dos maiores produtores e exportadores de petróleo.
04:44Então, estando dentro deste novo cenário, os Estados Unidos controlando essa questão da exportação do petróleo,
04:55isso é um grande aliado para um barateamento do preço do petróleo dessa commodity.
05:02Agora, professora, como foi dito aí na reportagem também, é um petróleo que é de mais difícil refino,
05:10mais difícil cuidado para que seja colocado efetivamente no mercado.
05:15Isso vai depender também da sequência de governos americanos, não?
05:19Porque a gente pode ter um governo eleito lá, diferente do que pensa o Donald Trump, por exemplo,
05:24e mudar completamente a relação com os venezuelanos, né?
05:27Com certeza, isso é um ponto muito interessante a se tratar, por quê?
05:32Neste momento, estamos com uma expectativa de mudança, mas ainda não mudou,
05:37porque, inclusive, quem está ali é justamente a vice, que era ministra do petróleo, né?
05:42Então, assim, nesse cenário atual, sabemos que serão 90 dias onde a Delci Rodrigues estará à frente do país,
05:51mas ainda não se sabe como será essa sucessão, se realmente conseguirá acabar com esse modelo de governo do chavismo.
05:59E o chavismo é importante a gente trazer algumas considerações a respeito,
06:04porque a Venezuela, ela é um momento de ditadura militar.
06:09Por quê? Quando se lembra, o Hugo Chávez era militar.
06:12E, inclusive, na sucessão ali em 2013, quando o Pro Maduro foi assumido,
06:17teve uma rejeição alta dos militares, o que vai levar todo esse cenário,
06:23hoje, da Venezuela ter um país com mais de 2 mil generais.
06:27Então, nós observamos que se trata de uma incerteza ainda nesse momento,
06:33sabemos que o Maduro saiu, mas ainda continua toda a estrutura do governo ali, muito permanente.
06:39Então, esses próximos meses, né? Que seriam 90 dias que nós vamos ter aí de uma sucessão,
06:46para saber como que vai ser, como se realmente vai ser uma nova eleição,
06:51ou se vai trazer o Edmundo Gonzalez, que foi o vencedor na eleição de 2024,
06:56para saber realmente como vai ser essa sucessão,
06:59e se os Estados Unidos vão conseguir, as empresas norte-americanas vão conseguir retomar
07:05aquilo que eles perderam lá em 2006, com o Hugo Chávez, quando teve a nacionalização.
07:10E, professora, olhando para o Brasil, isso mexe com a Petrobras de alguma forma?
07:15Como é que fica o nosso mercado interno?
07:18E também em relação a outros produtos, né?
07:21O que que pode acontecer com o mercado brasileiro,
07:24se essa intervenção americana, de fato, continuar na Venezuela?
07:28Eu não vejo tanto o impacto na economia do Brasil, com a intervenção ali na Venezuela,
07:36porque a relação, o Brasil não comprava petróleo da Venezuela,
07:41o Brasil não exportava, eles são parceiros, eu acho que até muito mais politicamente, né?
07:47Do que economicamente.
07:49Então, quanto a impactos na economia brasileira, eu não consigo vislumbrar neste primeiro momento.
07:54É importante saber, como foi mostrado, que 80% desse petróleo ali da Venezuela
08:01era justamente exportado para a China, e 5% era levado ali para Cuba.
08:07Então, neste momento, eu acho que o grande país que já está passando por tantas dificuldades
08:14seria Cuba, né?
08:15Porque não vai ter logo quem vai entregar o petróleo para ele.
08:19E a China, só que a China a gente sabe que é uma relação econômica,
08:22que é um player, né? Nas relações internacionais, a gente sabe que ali ela tem uma relação
08:27que também poderia vir a fazer essas importações dos próprios Estados Unidos,
08:32das empresas que estão, que voltariam ali a fazer o controle do petróleo na Venezuela.
08:39Mas ainda temos que saber realmente se o chavismo vai acabar,
08:43porque neste momento, hoje, o Maduro caiu,
08:45mas o chavismo ainda está ali muito permanente na Venezuela.
08:49Professora Mariana, olhando aqui para as relações internacionais,
08:52há pouco a gente noticiava que o Brasil deixou de representar a Argentina na Venezuela,
08:58até em virtude de provocações do governo Javier Milley.
09:03Faz bem o Brasil em deixar de lado essa representação argentina lá na Venezuela?
09:09E até que ponto isso afeta as nossas relações aqui, Brasil e Argentina, professora?
09:15Essa questão das relações Brasil e Argentina já está sendo um momento bem delicado, né?
09:20E até o Mercosul não está num bom momento.
09:24Por quê?
09:25O Javier Milley, ele apoia o que o Trump fez e o Brasil não está apoiando.
09:32Então, como houve essa, como se diz, conflito de interesses,
09:36o Brasil já estava representando há um tempo a embaixada da Argentina na Venezuela,
09:43ele resolveu por não representar mais,
09:45porque existe uma divergência política muito clara entre o Javier Milley e o Lula, né?
09:52Porque eles já estão em conflito já desde quando o Javier Milley veio a assumir,
09:57mostrando uma oposição muito clara de ideais e de opiniões, né?
10:03Entre os dois países.
10:05Muito obrigada, professora Mariana Maranhão, por nos atender aqui no Jornal da Manhã.
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