00:00Os Estados Unidos, gente, agora há pouco, durante uma coletiva na Casa Branca, disseram que o plano pra Venezuela inclui uma transição de poder.
00:09O Eliseu Caetano já tem todos os detalhes sobre essa coletiva e vai contar pra gente agora os principais pontos. Não é isso, Eliseu? Conta pra gente, por favor.
00:19Oi, Márcia. Muito boa tarde novamente pra você, pro Bruno e pra todos que nos acompanham em tempo real.
00:24Em tempo real tudo pode acontecer, viu? Então, antes de eu ir pra essa notícia, eu vou dar um glimpse rápido aqui, porque está acontecendo uma manifestação, neste momento, em Mineápolis.
00:33A princípio, entre policiais do ICE, a Polícia de Imigração dos Estados Unidos, e manifestantes.
00:40De acordo com as informações da rede de TV norte-americana Fox News, uma mulher teria morrido durante o confronto.
00:46Daqui a pouquinho, ainda nessa edição do nosso jornal e também ao longo da programação da Jovem Pan, nós vamos atualizar essa informação.
00:54Mas quem também, agora há pouco, se pronunciou numa coletiva que aconteceu no Congresso dos Estados Unidos, no Capitólio, foi o secretário de Estado, Marco Rubio.
01:06E ele detalhou aí um plano estratégico, baseado em três etapas para lidar com a situação lá na Venezuela, após a operação do último final de semana.
01:15Segundo Marco Rubio, o objetivo declarado do plano é evitar o caos no país, estabilizar a economia da Venezuela e abrir caminhos para uma transição política mais ampla, ou seja, mais ligada ao Ocidente.
01:30As três etapas do plano, portanto, são, um, estabilização imediata do país.
01:35O primeiro passo do plano consiste em trazer estabilidade à Venezuela, em meio a esse colapso político e institucional,
01:43enquanto as estruturas, obviamente, governamentais e também sociais continuam funcionando normalmente.
01:50Depois vem uma segunda etapa, que é um plano de recuperação econômica e também de recuperação institucional,
01:55que envolve aí a chamada retomada da economia da Venezuela, com ênfase na infraestrutura do petróleo,
02:02que antes respondia aí por grande parte das exportações do país.
02:06O terceiro ponto desse plano é a transição de poder político.
02:11Segundo Marco Rubio, a etapa final seria uma transição de poder que leve aí à formação de um novo governo reconhecido internacionalmente.
02:19Segundo ele, essa fase visa criar condições para eleições livres e restaurar um processo político
02:25que permita aí uma maior participação democrática.
02:29Segundo Rubio, esse plano é projetado para, abre aspas, evitar o caos no país, fecha aspas,
02:36e ele ainda diz que a liderança dos Estados Unidos continuará, sim,
02:39engajada com as autoridades venezuelanas interinas durante esse processo.
02:46Ou seja, nós temos diversas situações nesse momento entre Estados Unidos e Venezuela acontecendo simultaneamente.
02:53Como você bem disse, Márcia, na Casa Branca, Caroline Levitt, secretária de imprensa, porta-voz,
02:59participou de uma coletiva que durou pouco mais de uma hora.
03:02Basicamente era para falar sobre mudanças no sistema de saúde e de alimentação aqui,
03:06mas, obviamente, o assunto também acabou cambiando para a Venezuela.
03:09E lá no Capitólio, poucas quadras da Casa Branca, Marco Rubio participa de um evento
03:14e também atendeu a impressão na porta onde ele deu essas declarações.
03:18Daqui a pouquinho eu volto para atualizar o tiroteio em Minnesota
03:21e todas as últimas informações de lá também.
03:25Mas, Eliseu, na Venezuela eles decretaram o luto, né, de sete dias pelos mortos nos ataques?
03:31Foi isso?
03:33Exatamente, Márcia, para você ter noção, né?
03:35A Venezuela está dominando o noticiário internacional.
03:38Agora, a presidente interina do país, a ex-vice-presidente, Adelci Rodrigues,
03:44anunciou aí uma medida que passa a vigorar imediatamente.
03:49O país entra, portanto, aí em sete dias de luto declarado por sete dias consecutivos, obviamente.
03:57Adelci Rodrigues afirmou que o luto é, em abre aspas,
04:01Honra os homens e mulheres que entregaram suas vidas na defesa da soberania da Venezuela
04:06durante a ofensiva, considerada pelo governo venezuelano uma agressão estrangeira direta dos Estados Unidos.
04:14Fecha aspas.
04:15Então, agora é oficial, a Venezuela decreta sete dias de luto
04:19em memória dos oficiais, dos militares que estavam fazendo o patrulhamento na cidade
04:27e que também estavam fazendo a segurança pessoal de Nicolás Maduro
04:30no momento em que ele foi sequestrado pelas forças especiais daqui dos Estados Unidos.
04:37Falando em Maduro, Márcia e Bruno, eles seguem, ele e a esposa, Cília Flores,
04:42seguem presos, detidos lá no Brooklyn, em Nova York,
04:46aguardando uma segunda etapa desse processo que só começou, viu?
04:50Acompanhamos a audiência inicial.
04:53Agora, no próximo dia 17 de março, também na parte da manhã,
04:57às 11 horas da manhã, pelo horário local daqui dos Estados Unidos,
04:59eles vão novamente lá para fazer exames e entregar documentos.
05:04E o processo mesmo, a expectativa, é que só comece no ano que vem, em 2027.
05:09Até lá, pelo menos a princípio, ambos seguem presos nos Estados Unidos.
05:14Obrigada, Eliseu.
05:15Já já você volta, então, com outras informações.
05:17Agora, vamos chamar o professor de Relações Internacionais aqui do IBMEC de São Paulo,
05:23o Alexandre Pires.
05:24Professor, agora há pouco a gente conversou com o Luca Bassani
05:26sobre essa subida de tom da China à Rússia.
05:30Como é que isso impacta, essa situação dos Estados Unidos?
05:34O senhor acredita que, de alguma forma, o Trump possa recuar ou não dá sinais disso?
05:39Não há como ter uma imposição de uma ação por parte dos chineses.
05:48Ou seja, eles não têm forças ali para atuarem.
05:51Vai ter uma pressão diplomática.
05:53Isso já é um aviso ali para o governo Trump, uma insatisfação chinesa.
05:57Mas esses navios e a própria prisão ali no território venezuelano do Maduro
06:07e a sua extração para os Estados Unidos,
06:09isso tudo está dentro das ações unilaterais que os Estados Unidos vêm tomando.
06:14Nós temos que lembrar que, por exemplo, no caso dessas embarcações
06:17que foram hoje, digamos ali, tomadas pelos americanos,
06:22americanos, apreendidas, elas são objetos de sanções da UFAC ali,
06:29ligadas ao Tesouro, numa lista enorme.
06:32Eu levantava por cima aqui, chega a quase 500 embarcações
06:40ligadas aos dois programas de sanções que envolvem essas embarcações.
06:46Então, é um número alto.
06:47Então, os Estados Unidos, sim, têm uma postura nova agora.
06:51Esses países, China e Rússia, vão ter que se adequar.
06:55Lembrando um ponto importante, Márcio, nós temos falado muito da doutrina Moore,
06:59mas existe um outro corolário que não é o do Trump,
07:03é o do Rússio, em 1904, que já indicava isso,
07:07ou seja, que os Estados Unidos atuariam no território.
07:11Mas lá, aquela doutrina Moore de 1923, ela dizia o seguinte,
07:14os americanos não vão se meter em guerras europeias,
07:17mas os europeus não podem mais tentar colonizar as Américas
07:23e as colônias que têm vão ser respeitadas.
07:25Era isso que estava colocado.
07:27O que o Trump fez foi adicionar, digamos assim,
07:30Rússia e China, mas também de modo secundário, Irã,
07:34nessa lista.
07:35Ou seja, olha, vocês não podem procurar, de alguma maneira,
07:38ter uma influência econômica e controlar recursos nessa área,
07:44ainda que seja por meio de acordos comerciais e tratados.
07:47Então, é um novo mundo que se desenha,
07:49e nós estamos assistindo isso aqui ao vivo.
07:53Agora, acompanhar essa fala do governo americano,
07:56de Marco Rubio, de que haverá uma transição,
07:59a Venezuela está apta para uma eleição dentro de uma democracia,
08:05diante de todo o regime de uma ditadura que enfrenta há anos.
08:08A Venezuela está apta para voltar a ser uma democracia?
08:12Neste momento, não.
08:15Nós temos um problema, inclusive, básico,
08:17que é um problema matemático.
08:20Sete milhões ou mais de venusão estão fora do país.
08:25Isso aí já desequilibraria qualquer processo de votação.
08:28É uma quantidade enorme, uma população em torno de 30 milhões.
08:32Então, isso já seria um fato grave.
08:34Outro é que a oposição, ou seja, as pessoas que lideram politicamente,
08:38muitos estão presos, é uma lista que se aproxima de quase mil pessoas,
08:45ou estão fora do país.
08:49Então, isso tudo dificulta qualquer processo legítimo.
08:52Além do mais, o Conselho, a Comissão Eleitoral,
08:57ainda está sob controle dos chavistas,
08:59a Suprema Corte ainda está sob controle dos chavistas.
09:02O regime continua operando.
09:05Então, só depois que você tiver uma estabilização,
09:09como eles colocaram, a oxigenação econômica,
09:14e aí o desenho de um processo de transição,
09:17que primeiro vai ter que ser ligado a uma anistia,
09:20uma anistia que eu falo é da oposição,
09:22que está condenada, está presa,
09:24ou está proibida de voltar ao país sob pena de prisão.
09:27E aí também tem que negociar algum tipo de anistia
09:31com o chavismo e o madurismo.
09:33Então, tudo isso não dá para fazer agora.
09:36E se colocasse esse processo primeiro,
09:38tudo, digamos, se complicaria ainda mais.
09:42A Venezuela ficaria completamente acéfala
09:45e os Estados Unidos não teriam para quem ligar lá do outro lado do telefone.
09:50Agora, professor, qual a diferença da Venezuela
09:53para os outros países que os Estados Unidos interferiram,
09:56como, por exemplo, o Iraque, aquela situação?
09:59Eles realmente têm um interesse maior econômico por conta do petróleo?
10:02É só essa a grande diferença?
10:04E uma outra pergunta que eu também queria adicionar,
10:08a longo prazo, essa situação,
10:11politicamente, pode modificar as relações de todo mundo?
10:15Porque a gente não vê mais, por exemplo, a ONU se manifestando.
10:19Por que esses organismos internacionais perderam tanto a força
10:22ao longo das últimas décadas?
10:26A primeira grande diferença é que a Venezuela está no hemisfério ocidental.
10:30Ou seja, é uma nação de matriz europeia,
10:34com regras de origem europeia.
10:37Tem uma população de pessoas que nós chamaríamos de americanos,
10:42ou seja, sul-americanos.
10:45E isso tudo cria um complicador,
10:47tanto é que eles escolheram uma ação cirúrgica
10:49e não simplesmente uma ocupação ou uma invasão.
10:55Algo semelhante aconteceu no Panamá,
10:57de modo um pouco mais desastrado,
10:59mais bem-sucedido,
11:00mas levou a morte,
11:02com mais acusações de violações de direitos dos civis.
11:07E os Estados Unidos parece que aprenderam com essa lição,
11:10fizeram uma operação diferente.
11:11No caso de Irã, Iraque,
11:13nós temos que lembrar que esses países,
11:16seja sobre o Saddam Hussein,
11:18seja sobre o regime dos Ayatollahs,
11:21eles não só têm ali a questão econômica do petróleo,
11:27mas eles também desestabilizam uma região
11:30em que há aliados americanos.
11:32As pessoas se esquecem que a Arábia Saudita
11:34é um aliado dos Estados Unidos de primeira ordem,
11:37com acesso, inclusive, a equipamentos militares de ponta.
11:40E todos os Emirados ali são aliados,
11:42inclusive com bases, como a do Qatar.
11:45Então, aquele tipo de interferência
11:49ocorre num contexto geopolítico muito mais claro.
11:53Aqui, os Estados Unidos estão, acho que,
11:55praticamente há 40 anos.
11:57Foi em 1989 que eles retiraram o Manuel Noriega do Panamá,
12:03sem olhar muito para a América Latina.
12:06Mas a ascensão da China
12:07e o aumento da ousadia russa com o Putin,
12:12depois de 2014,
12:14fez com que esse redesenho acontecesse.
12:16Ou seja, é uma preocupação de que essa região
12:19passasse a ser uma região de disputa de grandes potências.
12:23Então, esse é, digamos, o grande ponto
12:28que envolve a diferença entre esses dois,
12:31esses tipos de intervenção que nós estamos assistindo.
12:36Qual é o outro ponto que você me perguntou?
12:40Você queria que eu explanasse?
12:43Sobre a questão, professor, da ONU,
12:46e por que esses organismos internacionais
12:48já perderam tanto a força nas últimas décadas?
12:51Esse é o grande ponto.
12:53Se a gente olhar em 2014,
12:55a Rússia invade a Crimeia
12:58e fica por isso mesmo.
13:00É uma ação que nós chamamos de unilateral
13:02em relações internacionais.
13:04Então, ali o mundo já começa a mudar.
13:06E agora, com esse segundo governo Trump,
13:09isso se intensifica.
13:10É o que eu tenho chamado de morte do multilateralismo.
13:13Ou seja,
13:15a ONU não consegue operar,
13:17o Conselho de Segurança está paralisado
13:19porque as potências que têm poder de veto
13:22acabam usando esse poder de veto.
13:25Estados Unidos, China e Rússia, especialmente.
13:29E também a Organização Mundial do Comércio,
13:33ela depende de que os países enviem
13:36para resolver conflitos os seus delegados.
13:40Então, basta que a China,
13:41digamos, sendo processada ali por uma ação de dumping,
13:44com preços muito baixos
13:45de produtos de exportação para outros países,
13:47não enviem os seus delegados
13:49para que a questão não se resolva.
13:52Então, os mecanismos multilaterais,
13:55eles pararam de funcionar.
13:57A ponto, por exemplo,
13:58do conflito em Gaza ter sido resolvido
14:00pelos Estados Unidos,
14:01com Turquia, Egito, Catar.
14:03E a força de estabilização
14:04vai ser criada por esses países,
14:06não vão ser os capacitistas azuis da ONU.
14:08Então, houve sim uma mudança.
14:11Eu já cheguei a falar
14:13que nós estamos no pós-pós-Guerra Fria.
14:15Ou seja, depois da invasão da Ucrânia,
14:18o mundo muda completamente.
14:21E aí, agora, nós estamos nessa indefinição.
14:23Ou seja, para onde nós vamos.
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