00:00Enquanto os Estados Unidos abandonam a tese de que Nicolás Maduro era chefe de um cartel de drogas,
00:06o governo brasileiro eleva o tom ao destacar que o venezuelano foi sequestrado.
00:10O nosso entrevistado agora é o professor e doutor em Relações Internacionais, Sidney Ferreira Leite.
00:17Mais uma vez, professor, uma honra te receber aqui na Jovem Pan. Muito bem-vindo. Boa noite.
00:22Um forte abraço, Tiago. Fico à disposição.
00:24Muito obrigado. Bom, professor, desde sábado se discute a legalidade ou não
00:29dessa operação envolvendo Nicolás Maduro a partir do governo dos Estados Unidos,
00:34mas eu pergunto, essa mudança de caracterização, vamos dizer assim,
00:39ou característica em relação a Nicolás Maduro, que ele não era chefe do cartel,
00:44mas teria enriquecido de forma irregular, isso daria uma deslegitimidade a essa operação,
00:52a esse recuo? Significa o que, professor, afinal?
00:55Veja, se trata de uma questão que possibilita várias interpretações.
01:06Se nós formos para o campo do direito, para um campo mais policial,
01:14se entrarmos no campo do direito internacional, do direito norte-americano,
01:18o fato é que Maduro não é mais o presidente da Venezuela e isso se deu através de um fato histórico único,
01:33que foi a forma como as forças americanas, o comando delta, entra na Venezuela,
01:40chega até a capital da Venezuela, com informações extremamente detalhadas,
01:47de onde estava, qual era o cômodo, com quem estava e, numa operação rapidíssima,
01:57pega o ex-presidente que hoje está nos Estados Unidos e já subiu o julgo da lei e ali ele vai ser julgado.
02:09Veja, se nós pegarmos a trajetória de Maduro, não faltam motivos internos e externos para que ele vá a julgamento.
02:22Se nós, por exemplo, abandonarmos essa questão propriamente de chefiar ou não um cartel,
02:30telegações ou não um cartel de narcotraficantes,
02:33o governo Maduro permitiu que guerrilheiros da Farc e guerrilheiros do Exército de Libertação Nacional,
02:43outro grupo oriundo da Colômbia,
02:46ingressassem no território venezuelano e ali criassem um verdadeiro corredor
02:52para o tráfico de drogas, notoriamente a cocaína.
02:57Se nós fôssemos analisar sobre a perspectiva interna,
03:01a lista de crimes cometidos contra a população venezuelana,
03:07contra adversários políticos,
03:10então, veja, não há como não criminalizar sobre qualquer perspectiva desse líder.
03:19Ele é mais do que o ditador, eu pego aqui o conceito da Ana Arendt,
03:23ele ajudou a construir um regime totalitário, extremamente violento
03:31e que, literalmente, destruiu a economia da Venezuela.
03:36Professor, vou chamar os nossos comentaristas agora para fazerem as perguntas.
03:40Próxima questão, Denise Campos de Toledo.
03:42Professor Cirino, boa noite.
03:44Eu quero aproveitar para saber, pelo histórico que nós temos da Venezuela,
03:50o senhor vê a possibilidade de um descolamento de Maduro, do chavismo,
03:55que foi muito forte nas últimas décadas, junto à população.
04:00Porque a gente vê uma tentativa aparente de entendimento entre Deus e Rodrigues,
04:05que é a vice-presidente que tomou posse, e Donald Trump,
04:08que eles podem levar adiante projetos, inclusive, em relação à exploração do petróleo.
04:13Se falou hoje da possibilidade dos Estados Unidos ficarem com o petróleo,
04:17que antes era destinado aos países, especialmente à China,
04:20o senhor vê possibilidade de continuidade?
04:22Porque havia uma preocupação logo de início quanto à revolução interna da Venezuela.
04:28Há milhares de dissidentes presos,
04:32pessoas contrárias ao regime de Maduro, nessa fase de ditadura mais pesada.
04:37As pessoas foram perseguidas, foram presas, além da crise econômica.
04:40Agora, o senhor acha que o chavismo pode sobreviver a tudo isso,
04:44com o Maduro preso nos Estados Unidos e possivelmente condenado?
04:47Excelente pergunta.
04:50Veja, fica muito claro o plano para capturar Maduro e sua esposa.
04:56Aliás, um plano que foi coberto de êxito.
05:00Mas também, Denise, fica...
05:03À medida que o tempo passa,
05:05fica muito nítido que não havia um plano do governo Trump
05:10para o que a gente poderia chamar de um novo normal na Venezuela.
05:14O que é algo típico do Trump?
05:18O Trump é muito tático e muito pouco estratégico.
05:22Quer dizer, ele não gosta de fazer planejamentos a médio e longo prazo.
05:28Ele age muito em cima dos fatos, dos acontecimentos,
05:33e muitas vezes toma decisões, como a gente sabe, impulsivas.
05:38Está se desenhando aí um cenário de algum tipo de colaboração
05:43entre parte do chavismo,
05:48que está dividido em três grandes linhas,
05:52que se compõem em muitos momentos.
05:55Uma dessas linhas é dos irmãos Rodrigues,
05:59da Delci e do Jorge Rodrigues,
06:02que é presidente da Assembleia Nacional.
06:05Nós temos o ministro do Interior, o Cabedio,
06:09que é mais radical, mais ligado,
06:12inclusive, a grupos paramilitares, a milícias.
06:17E temos também o ministro da Defesa, o Pandrino,
06:24que representa, digamos, uma linha um tanto quanto mais moderada.
06:29Tudo indica que o governo Trump vem se aproximando,
06:34a gente não sabe aí desde quando,
06:38estabelecendo janelas de comunicação
06:40com esse segmento mais pragmático
06:44que tem como grande representante
06:47a ex-vice-presidente atual,
06:50presidente da Venezuela.
06:54Então, é possível que, ao invés
06:57de nós termos uma transição
07:00que implicasse numa refundação
07:04da democracia venezuelana,
07:07que foi destruída nos últimos 26 anos,
07:11nós temos uma reorganização do poder,
07:14com a permanência em postos-chaves,
07:18inclusive das forças armadas,
07:20se mantendo no poder e abrindo,
07:25como você falou muito bem,
07:27a economia venezuelana,
07:28e como falamos de economia venezuelana,
07:30nós estamos falando de petróleo,
07:31para a exploração,
07:34da exploração,
07:36reconstrução da infraestrutura,
07:38que foi sucateada nos últimos anos,
07:40para a exploração do petróleo,
07:42para, sem dúvida,
07:44o lucro e as vantagens
07:46das empresas petrolíferas norte-americanas.
07:49Professor Sidney Ferreira Leite
07:51aqui com a gente,
07:52de Relações Internacionais.
07:53Agora a pergunta de Dora Kramer.
07:54Dora.
07:56Boa noite, professor.
07:57Gostaria da sua leitura.
07:59Vamos falar sobre a oposição venezuelana.
08:03A oposição foi escanteada pelo Trump.
08:06Num primeiro momento,
08:07tivemos a manifestação do Edmundo Gonzalez,
08:11dizendo que ele é o presidente,
08:12mas só Maria Corina silencia,
08:15e os outros opositores, por exemplo,
08:18que estão exilados, o Guaidó,
08:19também, em silêncio.
08:22E isso me chama muito a atenção,
08:24eu não consegui decodificar
08:27o que é, por que esse cenário,
08:31e como é a evolução disso.
08:33Por que esse aparente retraimento
08:36da oposição venezuelana,
08:39que, como sabemos,
08:40pelas atas que tivemos conhecimento,
08:43ganhou as eleições em 2024?
08:47Dora, excelente questão.
08:49Gostaria, inclusive,
08:51de ampliar um pouco o sistema de referências.
08:54Quando nós falamos em transição,
08:57reconstrução da democracia
08:59da Venezuela,
09:02isso não pode ser feito
09:04sem a participação da oposição.
09:06Não há nenhum exemplo
09:07na história contemporânea,
09:09pelo menos desde o pós-guerra.
09:11Se nós passarmos de países
09:15que viveram longos períodos de ditadura
09:18e que enveredaram por um processo de transição,
09:21em que o protagonismo
09:22foi dos atores internos.
09:25Aqui a gente pode citar
09:26o exemplo de Portugal,
09:28o exemplo da Espanha.
09:30Se nós viermos mais para próximos,
09:32o próprio exemplo do Brasil,
09:35o exemplo da Argentina,
09:36do Uruguai,
09:37do Chile.
09:38Então, é absolutamente
09:41insustentável
09:44a gente imaginar
09:46que a transição,
09:48que a volta da democracia
09:50da Venezuela
09:51vai ser feita
09:52a partir da Casa Branca,
09:54a partir de Washington.
09:57Então, a tua pergunta
09:58é extremamente interessante
10:00na medida em que
10:01a gente percebe
10:02que a oposição
10:03não está tendo
10:05nenhum protagonismo
10:07desde sábado.
10:08ela simplesmente
10:09foi colocada
10:10no segundo plano.
10:13Por que os venezuelanos
10:14não estão indo
10:15em massa
10:17para as ruas?
10:18Não é porque
10:19tenham ficado
10:21absolutamente
10:23aturdidas
10:25com
10:26o aprisionamento
10:29de Maduro.
10:29Maduro é um líder
10:31extremamente impopular.
10:33No máximo,
10:33um terço da população
10:35levou a uma derrota
10:36acachapante
10:37nas últimas eleições,
10:39que, como a gente sabe,
10:40o processo foi todo
10:41corrompido.
10:43Chama-se
10:43medo
10:44as forças
10:45paramilitares
10:47do regime
10:47totalitário
10:48chavista
10:49que estão
10:50nas ruas.
10:52As milícias,
10:55esses grupos
10:56paramilitares,
10:57esses grupos
10:58ligados
10:58a guerrilha
11:03colombiana,
11:05parte da guerrilha
11:05colombiana
11:06que emigrou
11:06para
11:08Venezuela.
11:09Então,
11:10não está havendo
11:10espaço,
11:13vou dizer
11:14a partir de uma esfera
11:16que é muito cara
11:16para você,
11:17que é o espaço
11:18político.
11:19Quer dizer,
11:19esse espaço político
11:20não foi criado,
11:21porque nós temos
11:22a continuação
11:24do regime
11:25sem o Maduro,
11:26mas não houve
11:26nenhuma mudança,
11:28nenhuma alteração
11:29substancial
11:30na estrutura
11:31do regime
11:32chavista
11:33que está
11:34desde a base,
11:35desde os fundamentos
11:36do Estado,
11:37desde a esfera
11:39econômica
11:40até na esfera
11:41policial,
11:43na esfera
11:44militar.
11:46A minha expectativa
11:48é que,
11:49à medida que o Trump
11:51deixe a Venezuela
11:53um pouco
11:54em segundo plano
11:55e que o Marco
11:56Rubio,
11:57que conhece
11:58a América Latina,
11:59que conhece
12:00a Venezuela,
12:02que tem diálogo
12:03com as forças
12:04políticas
12:05da situação
12:06e da oposição
12:07na Venezuela,
12:09ele ajude
12:11a criar,
12:12ele sirva,
12:13enfim,
12:13como o mediador
12:14para que a oposição
12:16venezuelana,
12:17que ganhou
12:18as últimas eleições,
12:20que tem líderes
12:21reconhecidamente
12:22populares,
12:23e aí,
12:23sem dúvida,
12:24Maria Corina Machado
12:26tem todas
12:27as condições
12:28de concorrer
12:30nas futuras eleições
12:35que nós não sabemos
12:36quando devem se
12:39organizar.
12:41Mas o clima
12:41de repressão,
12:43respondendo objetivamente
12:44a sua pergunta,
12:46o medo,
12:47clima de repressão,
12:49não mudou em nada.
12:50ontem foi um dia
12:52de muitos
12:54jornalistas
12:55venezuelanos
12:56foram presos,
12:57aliás,
12:58que é uma prática
12:58usual
12:59do regime
13:00chavista,
13:01que é prender
13:02qualquer tipo
13:03de jornalista
13:04que tenha
13:05uma outra visão
13:06que não aquela
13:07imposta
13:08pelo regime.
13:09Professor Cid,
13:10infelizmente nosso tempo
13:11está terminando,
13:11mas eu não posso
13:12deixar de fazer
13:13uma última questão
13:14sobre a Groenlândia,
13:15porque o presidente
13:16Donald Trump
13:17falou que estuda
13:18inúmeras alternativas
13:21para se anexar
13:22à Groenlândia,
13:23inclusive a militar,
13:25e essa ação
13:26contra Nicolás Maduro
13:28dá mais expectativa
13:30ou amplia a expectativa
13:31de que ele realmente
13:32pode adotar
13:34outras medidas
13:34com outros territórios,
13:36outros países,
13:37com a própria Colômbia,
13:38como Cuba,
13:39mas eu queria perguntar
13:40especificamente
13:41sobre a Groenlândia,
13:41professor.
13:44Sem dúvida,
13:45o fato de Salvador
13:46aumentou muito
13:48o capital
13:49de política externa
13:51do Trump,
13:52o poder
13:54de dissuasão,
13:56o poder
13:58de exercer
13:59influência,
14:01levar
14:02uma respeitabilidade
14:04barra medo
14:05em relação
14:06a qualquer
14:07dos seus adversários,
14:08mas devemos colocar
14:09as coisas
14:10no seu devido lugar.
14:12O primeiro aspecto
14:14que eu chamo a atenção,
14:15a gente deve ter
14:16muito,
14:17eu diria,
14:18ceticismo
14:19e cautela
14:20em relação
14:22ao falatório
14:23de Trump,
14:25principalmente
14:25quando ele fala
14:26de improviso,
14:30muita cautela,
14:32e a Groenlândia
14:33tem uma dimensão
14:34muito maior
14:35porque ele vai
14:35mexer
14:36com a União Europeia,
14:38trata-se
14:39de um
14:41território,
14:42de uma
14:42região
14:44completamente
14:45distante
14:47de uma área
14:48de influência
14:49direta
14:50dos Estados Unidos.
14:51Então,
14:52eu vejo
14:52com muito
14:53ceticismo
14:54qualquer tipo
14:55de ação
14:56que leve
14:58a uma
14:59anexação
15:00da Groenlândia
15:01ao território
15:02norte-americano
15:02e seria um
15:03desastre
15:04para a ordem
15:05e para o sistema
15:06internacional.
15:08professor Sidney
15:10Ferreira Leite
15:11de Relações
15:12Internacionais,
15:12sempre bom
15:13receber o senhor
15:14aqui
15:14para ouvir
15:16as análises,
15:17as avaliações.
15:17Muito obrigado,
15:18volto sempre
15:19e um bom ano.
15:21Um bom ano
15:21para todos.
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