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  • há 2 dias
No programa "Só Vale a Verdade" desta semana, o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira explica como o pensamento nacional-desenvolvimentista moldou sua visão sobre o Brasil. Ele relembra a influência do ISEB e de autores como Celso Furtado e Raul Prebisch, defendendo que a industrialização foi essencial para a formação do país como nação.

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Transcrição
00:00Professor, em que momento o senhor já nos...
00:04Eu vi até por os livros, por outros depoimentos,
00:07que o senhor foi muito influenciado a quem nos acompanha.
00:10Você entra num site de consulta,
00:13porque nós vamos agora passar umas questões histórias.
00:16Então, ISEB, Instituto Superior de Estudos Brasileiros,
00:19foi criado, inclusive no governo Café Filho,
00:22por incrível que pareça.
00:22Esse ano, segundo o governo Vargas, acabou sendo no governo Café Filho.
00:27O senhor foi muito influenciado pelo ISEB.
00:28E a partir dali, pelo que já era chamado da época de nacional desenvolvimentismo.
00:33O que foi para o senhor o nacional desenvolvimentismo
00:36na sua reflexão sobre o Brasil, na sua obra acadêmica,
00:40naquele momento histórico, final de 50, anos 60, anos 70?
00:44Bom, ali em 1955, quando eu li uma das revistas do ISEB,
00:53que estava numa colônia de férias da Ação Católica,
00:55em Itanhaém,
00:57eu fiquei fascinado, eu descobri o Brasil.
01:01Porque eu tinha uma visão muito católica,
01:04meio abstrata, meio francesa.
01:07E agora, de repente, eu descobri que o Brasil
01:12tinha se tornado independente em 1822,
01:17mas, na verdade, tinha continuado uma semicolônia.
01:22Ele só se tornara, começara a se tornar uma nação em 1930,
01:27com a vitória de Getúlio Vargas
01:29e o programa de industrialização que ele estava realizando.
01:36E nós estávamos em 1955,
01:37quando ele estava aí completando,
01:41eu tinha acabado de completar,
01:42o segundo governo dele e o Brasil já estava se industrializando
01:46de maneira extraordinária.
01:48Então, aquilo tudo era fascinante para mim,
01:50eu aprendi aquilo,
01:52e foi aí que eu resolvi ser sociólogo
01:54ou economista do desenvolvimento.
01:57E, a partir daí, essa foi a minha visão do Brasil.
02:06Muitas coisas mudaram depois,
02:09mas estava muito claro para mim que
02:13para que o Brasil se desenvolvesse,
02:21era fundamental que ele se industrializasse.
02:24Ora, o que a teoria econômica convencional,
02:28ortodoxa, dizia é que absolutamente isso não era preciso.
02:33Que o Brasil tinha uma vocação agrária
02:35e, portanto, não tinha nenhuma necessidade
02:39de se industrializar.
02:42Pela lei das vantagens comparativas do comércio internacional,
02:46o Brasil se tornaria muito rico
02:50só produzindo café, milho e outras coisas desse tipo.
02:56Soja agora, mas naquela época nem se pensava na soja.
03:00Ora, isso é um absurdo.
03:01Nenhum país aconteceu isso.
03:02Nenhum. Jamais.
03:04Quer dizer, então,
03:06dizem que a Austrália, não é verdade,
03:08a Austrália se industrializou fortemente.
03:12Tinha uma agricultura também forte.
03:14E se industrializou muito bem.
03:16E aí depois pôde se dedicar também à mineração,
03:21que é uma outra coisa particular da Austrália.
03:24Agora,
03:26então,
03:28eu tinha atrás de mim, não é,
03:31a teoria do Raul Prebisch,
03:34que foi o grande pensador econômico latino-americano.
03:38E que havia feito uma revolução em 1949,
03:43no estudo econômico da América Latina.
03:45Em Havana, a primeira vez que ele deu o manifesto.
03:48Isso.
03:48Vai lá.
03:49Virou aquilo,
03:50virou o manifesto,
03:51o texto do artigo dele.
03:56Então,
03:57eu estava bem calçado,
03:58teoricamente.
04:00Quer dizer,
04:01havia uma crítica à teoria econômica neoclássica,
04:04ortodoxa,
04:05muito boa.
04:06que eu aprendi ali,
04:09não é?
04:10E durante muito tempo,
04:12eu não estava fazendo contribuições à teoria econômica.
04:16Eu estava aprendendo a teoria econômica,
04:19que me foi dada por Prebisch,
04:22e também por Celso Furtado,
04:24e também por Inácio Rangel,
04:25que era o outro grande economista do ISEB.
04:27O ISEB era um grupo de economistas,
04:32economistas não,
04:33de intelectuais nacionalistas.
04:34Tinha economistas,
04:35tinha sociólogos,
04:36o grande guerreiro Ramos,
04:38tinha cientistas políticos,
04:41o Hélio Jaguaribe.
04:44Enfim,
04:47quer dizer,
04:47eu só comecei a desenvolver uma teoria própria,
04:50ainda na área do desenvolvimento econômico,
04:58quando eu compreendi o que tinha acontecido
05:01depois do golpe militar de 64.
05:06Porque depois do golpe militar,
05:09quer dizer,
05:10o Castelo Branco
05:15definiu que agora nós teríamos o liberalismo econômico.
05:22E o Celso Furtado,
05:24logo depois,
05:25escreveu um livro
05:26sobre a estagnação da América Latina
05:29devido a essa opção pelo liberalismo econômico.
05:34e mais uma série de outras considerações
05:36que ele fazia muito interessantes.
05:39Só que ele se enganou.
05:40Porque logo em seguida,
05:43depois que acabou o período de ajuste
05:45que fizeram o Bulhões
05:48e o Roberto Campos,
05:50ministro da Fazenda
05:51e o planejamento do Castelo Branco,
05:54em 64, 65, 66,
05:58em 67,
06:02já no governo Costa e Silva,
06:04começa o milagre.
06:06E o Brasil,
06:07a partir de 68 até 73,
06:10vai crescer a 10% ao ano.
06:13Ou 10,5% ao ano.
06:15O que é uma coisa inacreditável.
06:17É uma coisa inacreditável.
06:18E precisava explicar isso.
06:25Então,
06:26eu fui um dos primeiros a explicar
06:28esse quadro.
06:31Agora,
06:33aí quando chega em 1980,
06:36o Brasil entra numa grande crise.
06:40Porque foi a crise da dívida externa.
06:43Foi uma crise que foi desencadeada,
06:45na verdade, pelos Estados Unidos.
06:46Os Estados Unidos
06:48estavam com uma inflação
06:50relativamente alta lá.
06:52E então resolveram aumentar
06:54a taxa de juros brutalmente.
06:57Como o Brasil estava endividado,
06:59que é um erro,
07:01tomar dívidas em dólares,
07:05aí o Brasil quebrou.
07:08E não foi só o Brasil.
07:10Toda a América Latina quebrou.
07:11A Ásia menos,
07:12porque não tinha se endividado tanto.
07:14Foi mais sábia.
07:15Não acreditou que era bom se endividar,
07:19como diziam os banqueiros lá de fora.
07:24Então,
07:24era preciso...
07:26Não só resolver o problema da dívida externa,
07:29mas também precisava explicar a inflação.
07:32Porque a inflação agora já não era mais de 5%,
07:3610%,
07:3720% ao ano.
07:39Era de 200% ao ano,
07:411.000% ao ano,
07:435.000% ao ano.
07:45E durante...
07:47Então,
07:47foi uma inflação imensa.
07:50Foi então que eu,
07:51ajudado pelo Yoshak Nakano,
07:53que era meu aluno,
07:55e depois virou meu colega na GV,
07:57na Fundação Getúlio Vargas,
07:58nós então desenvolvemos a teoria da inflação inercial.
08:04Participaram também desta teoria
08:07os economistas da PUC do Rio de Janeiro,
08:10especialmente o André Lara Rezende,
08:12que foi quem bolou,
08:14ao invés de um congelamento,
08:17como todos propunham,
08:19ele propôs como alternativa a isso
08:21o que foi dar
08:22o que foi dar no plano real.
08:26Uma moeda indexada.
08:29Bom,
08:30isso foi a inflação inercial,
08:31foi uma grande aventura.
08:33Aí eu viro ministro da Fazenda,
08:36como você citou,
08:37em 87.
08:40E eu tinha dois problemas.
08:42Eu estava em moratória da dívida,
08:44que não fui eu que declarei,
08:45mas não tinha dinheiro,
08:46ponto.
08:47Não tinha reservas,
08:48não tinha nada.
08:51Então precisava resolver o problema da dívida
08:53e precisava resolver o problema
08:55da inflação.
08:59O plano da inflação
08:59era a inflação inercial
09:01que tinha que resolver.
09:03Era usar a teoria da inflação inercial.
09:06Eu fiz o meu congelamento,
09:08que foi o plano Bresta,
09:09que não deu certo.
09:11Não vale a pena explicar aqui agora.
09:13O outro,
09:15quer dizer,
09:18a outra coisa
09:18era a dívida externa.
09:20E em relação
09:22à dívida externa,
09:23em relação à inflação ainda,
09:25eu já estava preparando
09:26para fazer
09:27um segundo plano.
09:29E o segundo plano
09:30seria nos moldes
09:32do que foi o plano real,
09:33com
09:33a
09:36outenização
09:37da economia brasileira.
09:39Perfeito.
09:40Era um mecanismo.
09:41Era muito semelhante ao do...
09:42mas
09:43eu não tinha apoio do...
09:45O presidente Sarney
09:47não tinha condições
09:48de me dar apoio
09:50para fazer
09:51ajuste fiscal.
09:53E sem ajuste fiscal
09:54combinado com
09:56a neutralização
09:59da inflação inercial,
10:00eu não conseguiria nada.
10:02Então,
10:03eu me demiti.
10:04Mas,
10:04antes disso,
10:05eu propus
10:06uma outra coisa.
10:07em relação à dívida externa,
10:09eu propus
10:09uma coisa
10:11muito interessante.
10:13Eu propus
10:13que
10:13a dívida externa
10:15do Brasil
10:16fosse
10:17securitizada.
10:20Ninguém falava
10:21nisso
10:21naquela época.
10:23Mas eu soube
10:24que
10:24um
10:25financista americano
10:27tinha proposto
10:28essa solução
10:30de securitização
10:30para as cidades
10:31de Nova York
10:32no ano anterior.
10:33e que tinha
10:35dado certo.
10:36Ou seja,
10:37em vez de dever
10:38para os bancos
10:39em...
10:41não em títulos,
10:43em contratos,
10:44como o Brasil
10:45devia para os bancos
10:46também,
10:46era em contratos,
10:47você
10:49transforma tudo
10:50em títulos.
10:52E joga
10:53no mercado.
10:55E o mercado
10:55então reduz
10:56o valor
10:57dos títulos
10:57porque o país
10:58não tem condições
10:59de pagar
11:00tudo
11:00e o mercado
11:01sabe disso
11:02em três tempos.
11:03e com isso
11:05então
11:05você resolve
11:06o problema
11:06da dívida externa.
11:08E eu fiz
11:09essa proposta.
11:12O secretário
11:14do Tesouro
11:14americano
11:15me deu um golpe,
11:16aceitou primeiro
11:17e depois...
11:18depois,
11:20no geral,
11:22rejeitou tudo
11:23e disse que
11:24não tinha prometido
11:24nada.
11:26Mas o secretário
11:28do Tesouro
11:29seguinte,
11:30o Nicholas Brady,
11:31pegou o meu plano
11:34letra por letra,
11:36centímetro por centímetro
11:37e adotou.
11:38E com isso
11:39acabou
11:39a crise
11:41da dívida externa.
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