Por que o Brasil "ficou para trás" na indústria enquanto o agro cresceu? O economista José Roberto Mendonça de Barros explica que a resposta ao choque do petróleo nos anos 70, com a substituição de importações, encareceu a produção nacional e nos fez perder a revolução do software. Baixe o app Panflix: https://www.panflix.com.br/
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00:00Você também conhece muito a indústria e eu digo que se o sucesso nosso do agronegócio,
00:05esse crescimento de 40 anos, 2,5%, foi no agro, quando a gente tenta agregar valor e passa
00:12para a indústria, aí foi um desastre.
00:15O Brasil ficou para trás, não cresceu nada, aliás foi decrescente a produtividade da
00:20indústria.
00:21O que aconteceu?
00:23Por que nós não conseguimos fazer essa transição para produtos mais sofisticados, de maior
00:28valor agregado?
00:29Isso foi questão de política tributária, muito incentivo, economia fechada.
00:35Qual é a razão pela qual o Brasil não cresceu em coisas de produtos de maior valor agregado?
00:40É uma pergunta realmente, uma difícil pergunta do milhão de dólares.
00:45Eu acho que uma coisa que nos atrapalhou muito veio da resposta ao primeiro choque do petróleo.
00:55Ao primeiro choque do petróleo.
00:57Qual foi a resposta naquele momento?
00:59Pera um pouquinho, pera um pouquinho.
01:00O que você quer que eu faça para ele?
01:01Tá, só para você repetir a resposta.
01:03Continuar.
01:04Repetir a resposta.
01:05Eu acho que a coisa que começou a desandar foi uma ideia que acabou sendo colocada em prática
01:15a partir do governo gás.
01:16Porque de 50 até 70, 70, o Brasil com a indústria cresceu muito.
01:22Na chamada substituição de importações.
01:25Aí, quando veio o choque do petróleo, nós ficamos realmente 100 dólares para importação e o programa do gás foi vamos avançar na indústria economizando importações.
01:37O que isso se traduziu na prática?
01:39Nós vamos fazer a petroquímica, não vamos fazer uma indústria de aço, uma indústria de máquinas, etc.
01:48E tudo isso pensando em construir coisas.
01:52Eram dois resultados em relação a isso.
01:54Primeiro, é que essas coisas, para poderem serem construídas, elas tinham proteção e, portanto, elas ficaram mais caras.
02:03E, em particular, para a indústria, o que ficou mais caro foi o que está na base da cadeia industrial,
02:10que são os produtos metálicos e os produtos químicos, que se tornaram muito caros porque vêm em seguida.
02:18Ao mesmo tempo, isso foi uma infelicidade histórica, demorou para perceber,
02:23estava se gestando uma revolução tecnológica que nós aprendemos depois, que era uma revolução de software.
02:29Não de hardware, não de máquinas, era de conhecimento e de software.
02:33Então, nós ficamos com uma indústria ainda muito olhando a produção da máquina
02:38e não o software que comandaria a inteligência da máquina.
02:43Como você protegia tudo, esse software não veio e as coisas ficaram caras.
02:49E, a partir daí, a nossa produção foi ficando muito cara e sem poder competir com o exterior.
02:55Fazer isso, caminho ao contrário, não é simples.
02:59É bem complicado para ser feito.
03:02E é isso que a gente ainda segura bastante.
03:06Por que que o aço, por exemplo, brasileiro, sempre foi 25%, 30% mais caro que o aço internacional?
03:16É o que me disse uma vez um presidente da Bosch.
03:19Ele falou, como é que eu vou produzir uma peça a um preço competitivo internacional
03:23se o tarugo de aço que eu sou obrigado a comprar custa 30% mais caro do que qualquer lugar do mundo?
03:30O produto que eu fizer também vai ser mais caro, o carro também vai ser mais caro
03:34e aí ele não vai ser tão competitivo.
03:36Nós embarcamos numa nessa.
03:38Agora, refazer esse caminho é bastante, não é simples, é bastante complicado.
03:46Mas a gente tem algumas, tem várias oportunidades.
03:49Eu diria que a gente teria que abrir com cautela e importações
03:53e começar da base da indústria para poder você...
03:56Isso está acontecendo na miúda muito.
03:59Tem muita coisa acontecendo na indústria, especialmente de produtos que chegam ao consumidor final
04:04e que tem alguma coisa de componentes eletrônicos no relacionamento com a China.
04:10Não é muito visível, porque dá coisa pequena, mas você consegue.
04:15Hoje tem muitos empresários que conseguem fazer isso.
04:17Desde o desenho básico, do molde, é tudo que você faz com a China.
04:23Em uma semana tem um protótipo aqui na sua mão, em um mês você é capaz de ter.
04:27Mas isso é uma coisa que vai sendo construído meio uma surdida, se me permite dizer.
04:34Não é uma coisa evidente que está ali em cima.
04:37Não vai ser fácil construir isso daí, mas não é impossível dar alguma melhorada, eu acho.
04:42Agora, as empresas brasileiras que se tornaram competitivas
04:46acabaram fazendo parcerias internacionais,
04:48indo para fora, muitas se instalando nos Estados Unidos,
04:51a própria Embraer que você mencionou, cada vez com o Faro Camaior.
04:54Agora, algumas empresas indo até para o Paraguai,
04:56por uma questão fiscal e simplificação de regras, etc.
05:01Então, o Brasil, as indústrias que estão estando bem estão deixando o mercado.
05:05Mas, de novo, essa coisa do projeto.
05:07Eu vou me permitir falar, eu aprendi isso com o Osiris,
05:11fundador da Embraer.
05:13Por que que deu esse sucesso?
05:16Ele, engraçado, ele sempre dizia assim,
05:18olha, José Roberto, o Gandhi deu o sucesso porque avião cai.
05:23E ninguém quer cair do avião.
05:24Então, na partida, o que que a Embraer, que era estatal, ainda pensou?
05:29O que nós não sabemos fazer, nós vamos importar.
05:32Motor, até hoje, é 100% importado.
05:35E os chamados aviônicos, os controles eletrônicos do avião,
05:39isso é essencialmente importado.
05:40Alguma coisa de fiação é montada aqui é essencialmente importado.
05:44E aí foi se especializar no design.
05:46Design, hora de engenheiro.
05:48O engenheiro brasileiro é talentoso e, em tempos internacionais,
05:52é hora muito barata.
05:54Por isso que a Boeing vem aqui e contrata a gente,
05:56muita gente contrata esse tipo de coisa.
05:59Aí, na partida, você tinha um projeto
06:02que tinha a condição de ser tão bom quanto os outros,
06:06mais barato pelas nossas vantagens,
06:08e aí desenharam algo que tinha um espaço no mercado.
06:12Então, quando você nasce contra o resto do mercado,
06:15fica difícil você fazer essa construção.
06:18Não dá para refazer a Embraer,
06:19mas a gente tem que pensar um pouco nisso.
06:22E quais são, quando aparecem oportunidades, aproveitar.
06:25Então, energia nova é uma oportunidade.
06:29Combustível sustentável de aviação
06:31é uma tecnologia que ainda está sendo desenvolvida.
06:34Uma vem de óleos, outra vem do etanol,
06:37enfim, tem coisas que a gente pode enxergar junto com isso.
06:42Então, tem algumas possibilidades.
06:44E as empresas realmente eficientes,
06:47eu acho que tem isso.
06:48Desde o bem mocinho, se não foi do nascimento,
06:52a WEG é um exemplo, a de Santa Catarina,
06:54a ideia de estar olhando,
06:57e aí faz, você investe lá fora,
06:59você compra, faz algumas parcerias,
07:02mas está sempre, não tem medo do exterior.
07:05Acho que basicamente é essa a diferença.
07:08E nós temos oportunidade.
07:10Porque a tecnologia mudando tanto,
07:11a gente é capaz de fazer coisas boas nisso.
07:16Não é simples, porque a competição é furiosa, feroz,
07:20e a gente tem que ter alguma precondição macroeconômica.
07:23Com essa taxa de juros, é muito difícil construir qualquer projeto.
07:26Você acabou de mencionar uma coisa importante,
07:28que é a competição furiosa na economia global.
07:32Exatamente.
07:32Mas nós temos hoje uma reversão de tendências na economia global.
07:37Desde o fim da Segunda Guerra Mundial,
07:39a economia global caminhava rumo a uma integração maior,
07:42ao multilateralismo, a um comércio global,
07:45e agora vem refreando com políticas nacionalistas, protecionistas.
07:49Como você vê?
07:50Você acha que isso é uma coisa momentânea
07:52de governos populistas no poder?
07:55Ou você acha que isso é uma tendência que veio para ficar neste mundo,
07:59onde essas placas tectônicas das grandes potências estão mudando de direção,
08:04e para os países se sentirem um pouco mais seguros,
08:07eles preferem tomar conta do seu próprio quintal,
08:10ao invés de se engajar na economia global?
08:12Eu acho que não é uma coisa circunstancial.
08:17Ela vai durar, especialmente sair de um mundo unipolar para um mundo pelo menos bipolar.
08:25Isso eu acho que vai se intensificar.
08:28Dar a partida disso daqui vai ser difícil isso voltar.
08:32Aí o que você tem é que no meio desses dois grandes, China e Estados Unidos,
08:40quem tem chance de, vai ser difícil, mas de procurar um espaço é a Europa,
08:46que tem outras vantagens.
08:50Mas o PIB como um todo é similar e ela tem como se posicionar.
08:55Mas antes eu vejo assim, eu vejo o Brasil olhando esse tipo de coisa,
09:00mas nós podemos tomar partido do fato de que, como a América do Sul,
09:04estrategicamente, ela não é decisiva, não é relevante,
09:09como algumas regiões da Europa, etc.,
09:13nós temos, e eu acho que isso o agronegócio já mostrou o caminho,
09:18a nossa posição mais adequada é ser global trader.
09:25Não nos amarrarmos em nenhuma dessas pontas, das três,
09:28mesmo que a Europa se chamasse, mas construir uma coisa que nós queremos
09:32ter relacionamento comercial que vai além,
09:35relacionamento econômico, vai além disso, inclusive com soft power.
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