00:00Agora preste atenção nessa reportagem. O país está envelhecendo e a velocidade
00:05desse processo já supera a nossa capacidade de garantir cuidado para
00:10todos que chegam à velhice. Nesse espaço entre a ausência da família e a
00:16insuficiência das políticas públicas, inúmeros idosos atravessam o fim da vida
00:22sozinhos, vivendo os últimos anos com o mínimo, às vezes sem itens essenciais
00:29para a dignidade humana. Mas, no Asilo de Vitória, um gesto coletivo revela o que
00:35acontece quando a sociedade decide ocupar as lacunas deixadas pelo abandono.
00:49O Brasil está envelhecendo e a velocidade desse processo já supera a nossa
00:54capacidade de garantir cuidado a todos que chegam à velhice. No espaço entre
00:59a ausência da família e a insuficiência das políticas públicas, inúmeros idosos
01:03atravessam o fim da vida sozinhos. Vivem os últimos anos com o mínimo, às vezes, sem
01:09ter itens essenciais à dignidade humana. Mas, no Asilo de Idosos de Vitória, um
01:14gesto coletivo revela o que acontece quando a sociedade decide preencher as
01:18lacunas deixadas pelo abandono.
01:20O silêncio dos corredores foi quebrado pelo clima natalino. No Asilo de Idosos de Vitória, as cores e as luzes
01:30trazem lembranças antigas e a saudade vira prece.
01:34A instituição de longa permanência, localizada na capital capixaba, acolhe pessoas em extrema
01:42vulnerabilidade social. Dona Marilde é uma das moradoras. Aos 65 anos, ela não deixou que a vida
01:49pagasse alegria nem a esperança no Natal. Para a festa, preparou o cabelo com cuidado. Um gesto simples,
01:55mais carregado de significado para quem aprendeu a resistir.
02:04Assim como outros moradores, Dona Marilde carrega um passado marcado pela dor. Em busca de afeto,
02:10suportou por anos um casamento abusivo. Foi expulsa de casa e passou a morar nas ruas. Debaixo de uma
02:17ponte, no vai e vem dos carros, a vida passava sem esperança. Um atropelamento deixou marcas físicas
02:24e emocionais.
02:26Antes de eu vir para cá, eu tive um abrigo com meu companheiro em casa. Aí nessa discussão
02:36que a gente teve, ele foi para um canto e eu fui para outro. Só que quando eu voltei,
02:42o pai dele falou que eu não podia morar na casa, porque o filho não estava. Então o que eu fiz?
02:48Eu fui para a rua. Nisso eu fui para a rua, fui para um lugar que é lá em Jardim da Penha,
02:54fica a ponte da passagem. Fui para lá, mas não fiquei no meio de pessoas, de maus costumes.
03:02Entendeu? Fiquei num lugar que só eu e Deus mesmo ficamos ali.
03:08Nirelza conhece bem as histórias do lugar. Ela trabalha há quatro anos como assistente social
03:16no asilo. Acompanha de perto o abandono familiar e afetivo dos idosos. Muitos chegam resgatados de
03:23condições degradantes, em situação de rua, privados de cuidados básicos ou vivendo em situação de
03:30violência. Nirelza já ouviu relatos de extrema crueldade. Por aqui, há registro de idosos encontrados
03:37amarrados pela própria família. Eu confesso que quando a gente chega para fazer visitas de acolhimento,
03:45eu trago eles, porque é chocante quando você se depara, você lidar com algumas situações de
03:54de tamanha violação, de tamanha violência com a pessoa idosa. Então, não tem como fazer outra
04:01coisa se não acolher imediatamente. Então, eu chamo hoje de resgate, realmente resgate de vida.
04:07Longe da família, a maioria sem receber visita, o asilo virá lá. Um recomeço para superar os traumas e
04:17resgatar a dignidade. Em alguns casos, é também a chance de viver o que a vida negou, como voltar a estudar.
04:24A gente tem uma rede de apoio de vizinhos que é muito bacana. Os vizinhos visitam, amigos se interessam
04:31bastante por continuar com a amizade, né? Com a pessoa idosa. Mas, familiares mesmo, é quase que 80% o abandono.
04:46O Espírito Santo passa por uma mudança profunda no perfil da população. De acordo com o presidente
04:52do Instituto Jones dos Santos Neves, referência em estudos socioeconômicos no estado, a população idosa
04:58cresce em ritmo acelerado e já representa uma das maiores proporções do país. Essa nova realidade exige
05:05planejamento de longo prazo e políticas públicas capazes de garantir qualidade de vida para quem envelhece.
05:11É um processo que não tem retorno. O envelhecimento da população vai seguir ao longo das próximas décadas
05:18e é muito importante a gente desenvolver políticas públicas na área da educação, na área do trabalho,
05:25formação, dos indivíduos que estão ainda aí na ativa e muitos idosos estão chegando muito bem aí aos 60,
05:3465 anos, 70 anos de maneira produtiva. Políticas públicas na área do esporte, da cultura, atividade física também e,
05:43sobretudo, preparar cidades para essa população idosa. As calçadas, acessibilidade, porque eles têm que ter aí
05:55uma atenção especial para garantir a sua segurança no direito de ir e vir.
06:01Muitos dos idosos que hoje vivem em instituições chegaram depois de serem resgatados de situações extremas,
06:09ambientes insalubres, ausência de cuidados básicos, condições que ferem direitos fundamentais
06:15e que exigem intervenção imediata do poder público.
06:18Nos últimos cinco anos, o Espírito Santo registrou mais de 319 casos de maus-tratos contra idosos,
06:28um número que ajuda a entender que o abandono afetivo não começa nos asilos.
06:33Antes disso, ele aparece dentro de casa e chega à delegacia de proteção à pessoa idosa
06:38em forma de negligência, violência e solidão.
06:42Infelizmente, nós temos várias ocorrências que registram realmente o abandono da pessoa idosa.
06:48A gente tem que lembrar que grande parte das situações acontecem dentro de casa, né?
06:53Os familiares, que são os nossos agressores, também por isso a dificuldade dessa pessoa idosa de denunciar.
07:00Então, a gente precisa muito do apoio da população para fazer a denúncia
07:05porque o idoso ou a idosa não fala que foi abandonado,
07:08não fala que foi negligenciado, muito menos maltratado.
07:12Porque ele tem medo, né, quando chega na polícia,
07:15que aconteça alguma coisa com o seu agressor, que é a pessoa que ele mais ama.
07:19Porque muitas vezes acontece, são filhos, são netos, né,
07:22que realmente cometem esse tipo de violência.
07:25Dona Dejanira, 87 anos, é outra moradora do asilo.
07:33No passado, foi cozinheira de mão cheia.
07:35Trabalhou em restaurantes e ficou conhecida pela torta capixaba que fazia.
07:40Ela veio para o asilo para não dar trabalho a um único familiar.
07:44Mas admite que não lembra quando foi a última vez que recebeu a visita do neto.
07:48Há 85 anos, a instituição filantrópica funciona graças a uma ampla rede de solidariedade.
08:11Mantenedores, associados, voluntários e doadores ajudam a garantir um lar para quem vive o desamparo.
08:18Viviane é uma dessas pessoas.
08:20Uma vez por ano, ela se transforma em Mamãe Noel e organiza a festa de Natal do Asilo de Vitória.
08:26O amor ao próximo, né, que é o que está faltando hoje em dia, né?
08:29A pessoa pensar no próximo e cuidar.
08:32Então, as pessoas vão sempre me ajudando todos os anos.
08:34As pessoas que dão os presentes, kit de higiene, fralda, vão mesmo pelo amor ao próximo, né?
08:40Na semana da festa, Viviane recolhe os presentes.
08:43Muitos doadores escrevem cartas com palavras afetuosas que mostram aos idosos que eles são lembrados por alguém.
08:49Mas a maioria prefere o anonimato, para que a solidariedade não vire autopromoção.
08:54Uma cartinha, desejando um Feliz Natal, que o Papai do Céu fique com ele, né,
08:58para ele não se sentir sozinho, que vai estar na oração dessas pessoas.
09:01Eles colocam bastante isso nas cartinhas.
09:04Esse ano, eu preciso de um ventilador, sabe? Porque o meu ventilador quebrou.
09:09E o outro que eu tinha, o tio eu levei para casa da minha filha, né?
09:13Eu pedi calcinha, irmã.
09:15Calcinha?
09:16Calcinha.
09:17Calcinha e o chinelo.
09:19É.
09:20Por quê? Estava faltando?
09:21Não, porque vai acabando, acaba muito de festa, né?
09:24Eu tirava todo dia, todo dia, toda hora.
09:26Acaba de festa.
09:27Se está faltando, aí eu...
09:28E aí perguntou quantos, né?
09:29Quantos, quem quiser.
09:33A festa exige uma verdadeira força-tarefa, que é executada com zelo.
09:38Os detalhes da decoração, a comida farta e caprichada, presentes organizados.
09:43Enquanto isso, os idosos vivem a expectativa de um momento raro na rotina silenciosa.
09:48Os presentes são animação, alegria.
09:51E todo mundo fica alegre, falando, comentando.
09:54Ai, que alegria, que coisa linda, né?
09:57É tão bom, né?
09:58A gente receber presente, né?
10:00Principalmente um abraço.
10:02O melhor presente é um abraço.
10:04Esse momento também é maravilhoso.
10:06Nossa, alegria, só é alegria, né?
10:08Gente jovem, né?
10:09Pra mim, maravilhoso.
10:11Adoro.
10:14No dia da celebração, o asilo se transforma.
10:17Quando a música toca, sorrisos se abrem, alguns arriscam passos de dança.
10:21E chega o momento tão esperado, a entrega dos presentes.
10:25Cada um carrega uma história.
10:27Cada pedido revela uma memória.
10:29O perfume, que devolve autoestima.
10:31O sapato, que envolve os pés, que já percorreram caminhos difíceis.
10:35Simboliza a dignidade.
10:37Um passo importante da nova história.
10:39Pra quem mora aqui, o Natal é um momento de luz em meio a rotina silenciosa.
10:43É um instante em que a vulnerabilidade encontra o cuidado.
10:47E o abandono dá lugar ao abraço.
10:49A solidariedade não substitui políticas públicas, mas revela o que ainda falta.
10:55Aqui, a gente aprende que esse gesto pode não mudar os sumos do país, nem salvar o planeta.
10:59Mas, ele tem um poder imenso de tocar e transformar a vida de quem o recebe.
11:05Natal, Natal das crianças, Natal da noite de luz.
11:13Natal, Natal das crianças, Natal do menino Jesus.
11:19Juiz!
11:23Tá aí uma reportagem que traz muitas reflexões, né?
11:25Todos nós vamos chegar aí, todos nós precisamos de ajuda.
11:29Parabéns a toda a equipe envolvida e edição.
11:31Principalmente uma reportagem desse módulo desse dia tão especial.
11:36E claro...
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