00:00Já dão como certo a mulher no espaço público, até bobeiam com isso, porque começam a tirar coisas da gente,
00:07mas eu me lembro que na televisão ou no noticiário não tinha mulheres, né?
00:13Eu olhava você fazendo as entrevistas, apresentando programa, e era uma coisa muito pioneira, isso abriu o caminho, né?
00:23Eu acho que, na verdade, no Hoje, no Jornal Hoje, eram mulheres. Tinha uma vez também, tinha o Nelsinho Mota, tinha o Marcos Rúmel,
00:33mas tinha a Lígia Maria, a Sônia Maria, eu, a Márcia Mendes, a Marisa Raja Gabalha, a gente fazia matérias, a Márcia era editora de moda,
00:41a Marisa fazia entrevistas, eu também fazia matéria, eu fazia mais estreia e tal, era o meu comecinho mesmo.
00:47Eu comecei fazendo a agenda do RJ, que é o RJ, o SPTV, o RJTV, o jornal local, o primeiro jornal local do dia, né?
00:56Quer dizer, hoje em dia tem o Bom Dia, depois eu lancei o Bom Dia, mas eram, as mulheres eram em número menor, realmente, muito menor do que hoje, né?
01:05E tinha muitas mulheres, engraçado, e eu não senti nunca essa discriminação, não sei por quê, não sei se eu não percebia,
01:11era tão distraída que não notava, ou se não tinha mesmo, entendeu? Porque tanta gente reclama, né?
01:16Sim, acho que também tem uma coisa, Leda, que você navega as coisas com uma leveza e com uma facilidade,
01:27que talvez isso tenha te aberto portas, você nem imagina.
01:30Eu acho que sim, porque na verdade, você sabe que eu fui pra TV por mera casa, né?
01:34Eu fui pra TV porque eu não gostei de São Paulo, acredite se quiser, foi só por isso.
01:39Mentira, vamos, porque você vem de Minas.
01:42Eu vim de Juiz de Fora pro Rio, meu sonho de consumo era o Rio de Janeiro, meu sonho de consumo era o Jornal do Brasil,
01:48porque era a coisa mais importante da minha geração, no meu começo de história, que é ano 70, 73.
01:55Eu me formei em jornalismo e Juiz de Fora, e eu queria ir pro Jornal do Brasil.
01:58Ganhei até um concurso de reportagem entre estudantes de comunicação, e o prêmio era um estágio no JB.
02:03Foi a glória pra mim.
02:04Só que meu pai não deixou ficar porque eu não tinha 21 anos, então eu tive que voltar pra Juiz de Fora pra terminar a faculdade,
02:10pra fazer 21, pra aí sim poder sair de casa.
02:13E aí eu fui pro Rio.
02:16Trabalhei no O Jornal, no Globo, mas nunca trabalhei no Jornal do Brasil, a não ser naquele estágio lá inicial.
02:24O barato da história é que um dia, eu sou péssima de manhã, hoje em dia eu melhorei um pouco,
02:30mas naquela época era muito ruim de manhã.
02:32A Marilda Varejão, que era editora de revistas da Abril, foi convidada pra assumir a revista Capricho.
02:40A revista Capricho, na época, era uma revista voltada pro público classe C.
02:45Sobretudo, era o começo das empregadas domésticas com carteira assinada,
02:49e era uma revista que pretendia atingir esse público.
02:53E ela me chamou pra ser editora de texto da revista Capricho.
02:56Regina Festa era a diretora da redação.
02:59Eu vim pra São Paulo.
03:00E não entendi São Paulo, sabe?
03:02Não entendi.
03:04Não sei, eu queria a praia, eu queria o Posto 9, eu tava vivendo o Rio de Janeiro dos sonhos,
03:10e eu não entendi São Paulo.
03:12Aí fiquei 45 dias, voltei um dia pro Rio,
03:17e falei, quer saber, não vou voltar nunca mais pra São Paulo, não vou buscar nem minha carteira,
03:20não busquei, abriu, me entregou no Rio.
03:23Aí alguém me disse, tem uma vaga na TV Globo, eu falei, não sei fazer televisão.
03:27Ah, porque eu não podia voltar pro Globo, porque tinha três meses de delay aí, de...
03:32Quando demitia a gente, precisava esperar três meses pra voltar.
03:35Televisão, mas tinha que esperar três meses pra eu poder voltar.
03:39Aí pra esperar esses três meses eu não tinha dinheiro, eu tinha que arranjar um emprego.
03:42Aí me disseram, eu tenho uma vaga na TV Globo.
03:45Aí eu falei, mas eu não sei fazer televisão.
03:47Ah, mas vai lá e vê, o que você acha e tal.
03:50Aí eu fui, a Alice Maria me deu um, sei lá, um sábado,
03:56porque eu fui no fim de semana, eu trabalhei até sexta aqui em São Paulo,
03:59fui pro Rio, e fui na TV Globo ver como é que era.
04:03A Alice falou, vem aqui amanhã, vem fechar o Fantástico.
04:07O que você vai fazer amanhã?
04:08Eu falei, não vou fazer nada.
04:09Tá bom, vem, fui.
04:11E fiquei.
04:13Nunca mais saí na televisão.
04:15Aquelas TVs todas, aquela loucura, aquela gente gritando.
04:19E a revista, você coloca no ar com...
04:22Quer dizer, você faz a revista com três meses de antecedência.
04:25Em junho, você já tá no Natal, no Natal você já tá no ano que vem, entendeu?
04:29É uma loucura.
04:30E a TV não, né?
04:32A TV é naquela hora.
04:33Você falou, tá ali, entra no ar.
04:35E eu fiquei fascinada pela rapidez, pela eficiência,
04:38pela comunicação da coisa, pela gritaria, por tudo.
04:42E naquele momento, você decidiu ir pra onde?
04:47Você apaixonou?
04:48Foi paixão?
04:49Apaixonei, completamente.
04:50Como me apaixonei pelo YouTube agora, depois de velha.
04:53Naquele momento, a minha juventude era o Rio de Janeiro.
04:57Era tudo que eu queria.
04:58Era a zona sul do Rio, porque era no Jardim Botânico.
05:01Então, eu tava perto da praia, perto de tudo que eu queria, da vida carioca.
05:07E não adianta, eu fiquei.
05:10E dali você começou onde?
05:12Aí eu comecei no jornal...
05:14Ela me contratou, depois que eu vi fechar o Fantástico,
05:17ela me contratou pra ser editora do bloco do meio do Jornal Amanhã.
05:22Olha que coisa específica.
05:24O Jornal da Globo é o Jornal Amanhã de antigamente, tá?
05:27O Jornal Amanhã é o Jornal da Globo de hoje.
05:30Tá.
05:30E a Márcia Mendes era a locutora desse bloco do meio.
05:34Márcia Mendes e Carlos Campbell.
05:36Era o casal de apresentadores.
05:38E a Márcia era tida como difícil de lidar.
05:42Aí a Alice falou, não, você não tá animada e tal, acho que você vai se dar bem com a Márcia
05:46e vocês vão fazer uma boa dupla e tal.
05:47E fizemos mesmo.
05:49Fizemos uma dupla tão maravilhosa que levamos muitas broncas,
05:53porque aprontamos muito juntas.
05:56Porque a gente trabalhava até 11h30, meia-noite, uma hora da manhã juntas,
05:59aí a gente saía pra vida.
06:01E aí a gente aprontava e a Alice zangava no dia seguinte.
06:05Mas sabe...
06:06Era uma parra, era uma maravilha.
06:08Essa coisa do aprontar, do pregar peça, da boemia,
06:17eu acho que dos anos 2000, 2010 pra cá, as redações perderam completamente isso.
06:22Não tem nem barulho mais na redação, é tudo um silêncio, né?
06:25Era uma coisa barulhenta a redação.
06:27Tinha um barulho, uma pegada, uma coisa, né?
06:34Que fascinava.
06:35Pessoas gritavam umas com as outras, mas a briga acabava ali também.
06:39Não era uma briga que durava séculos.
06:42Não, a gente botava um programa no ar.
06:44Eu me lembro que a gente, depois de botar o Jornal Nacional ou o Fantástico no ar,
06:49a Alice, que pra mim é a mulher mais sábio de televisão no Brasil,
06:53ela ia de lugar, de VT em VT, de buraquinho em buraquinho,
06:58de salinha em salinha, falando desculpa aí, desculpa qualquer coisa, desculpa aí.
07:01Porque era um nervosismo só.
07:03Era uma coisa tensa, neurótica, nervosa, mas era maravilhosa.
07:09Aquilo me fascinou, me deixou doida.
07:11E isso que você falou é uma coisa...
07:13Eu já era doida.
07:15Porque eu acho que ninguém que era normal procurou esse tipo de coisa.
07:20É verdade.
07:21A gente procura os nossos pares, né?
07:25Foi isso.
07:26E essa coisa da...
07:28Eu ouvi outro dia um negócio que eu morri de rir de você contando
07:32que um dos grandes pesadelos que você teve na sua vida era o Chaves.
07:37O Chaves.
07:39O Chaves.
07:41Que agora tá no streaming.
07:44O Chaves me perseguia.
07:46O Chaves me perseguia.
07:47Por quê?
07:47E perseguiu a vida toda.
07:49Porque me perseguiu como jornalista,
07:51porque o SBT colocava o Chaves no horário do jornal hoje.
07:55Então a gente chegava...
07:56E naquela época, a TV Globo não apanhava de ninguém, né?
08:00Não tinha essa.
08:00Não é não apanhava.
08:02Não ficava menos de 20 pontos acima.
08:06Só ficava 20 pontos acima.
08:08Não ficava 10 pontos a 12 pontos.
08:12A gente quase apanhou do Chaves inúmeras vezes no jornal hoje.
08:15Então o Chaves era um tormento.
08:17Depois eu tive filho.
08:19Quando eu tive filho, eu já era apresentador do hoje.
08:21E o que aconteceu?
08:22Meu filho adorava ver o Chaves.
08:23Aí eu passei a ver o Chaves.
08:25Então o Chaves me persegue.
08:28E agora o Chaves foi pro streaming.
08:30Eu sei todos os chavões do Chaves.
08:34Todas as coisas.
08:36É muito bom.
08:37O Chaves é um fenômeno, né?
08:39É uma coisa que eu acho que não tem como explicar, né?
08:42Não tem como explicar.
08:44Eu acho que é a pureza dele, sabe?
08:46Um pouco a vítima.
08:47Ele é a vítima.
08:48Ele é um menino abandonado.
08:49Que todo mundo se solidariza.
08:51Ao mesmo tempo ele é chato.
08:52E ao mesmo tempo a gente acha ele chato, mas gosta dele.
08:56Enfim, é um personagem incrível.
08:58É realmente um fenômeno.
09:01Esse fenômeno me perseguiu muito.
09:02E aquele ecossistema todo em torno dele,
09:06que são todos personagens muito bons.
09:08Muito bons.
09:08Professor Girafales.
09:10Muito bons.
09:10Dona Florinda até hoje, quando eu boto o Bob no cabelo,
09:13eu falo, gente, tô igual a Dona Florinda.
09:15Eu falo, gente, tô igual a Dona Florinda.
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