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  • há 3 meses
Leda Nagle relembra o início da sua carreira na televisão, em uma época onde quase não havia mulheres ocupando espaço no jornalismo televisivo.

Ela conta como saiu de Juiz de Fora, passou pelo jornalismo impresso e acabou entrando para a TV Globo “por acaso” e como esse movimento abriu portas para uma geração inteira de mulheres.Um relato sincero, leve e cheio de bastidores sobre redações barulhentas, início do Jornal Hoje.

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Transcrição
00:00Já dão como certo a mulher no espaço público, até bobeiam com isso, porque começam a tirar coisas da gente,
00:07mas eu me lembro que na televisão ou no noticiário não tinha mulheres, né?
00:13Eu olhava você fazendo as entrevistas, apresentando programa, e era uma coisa muito pioneira, isso abriu o caminho, né?
00:23Eu acho que, na verdade, no Hoje, no Jornal Hoje, eram mulheres. Tinha uma vez também, tinha o Nelsinho Mota, tinha o Marcos Rúmel,
00:33mas tinha a Lígia Maria, a Sônia Maria, eu, a Márcia Mendes, a Marisa Raja Gabalha, a gente fazia matérias, a Márcia era editora de moda,
00:41a Marisa fazia entrevistas, eu também fazia matéria, eu fazia mais estreia e tal, era o meu comecinho mesmo.
00:47Eu comecei fazendo a agenda do RJ, que é o RJ, o SPTV, o RJTV, o jornal local, o primeiro jornal local do dia, né?
00:56Quer dizer, hoje em dia tem o Bom Dia, depois eu lancei o Bom Dia, mas eram, as mulheres eram em número menor, realmente, muito menor do que hoje, né?
01:05E tinha muitas mulheres, engraçado, e eu não senti nunca essa discriminação, não sei por quê, não sei se eu não percebia,
01:11era tão distraída que não notava, ou se não tinha mesmo, entendeu? Porque tanta gente reclama, né?
01:16Sim, acho que também tem uma coisa, Leda, que você navega as coisas com uma leveza e com uma facilidade,
01:27que talvez isso tenha te aberto portas, você nem imagina.
01:30Eu acho que sim, porque na verdade, você sabe que eu fui pra TV por mera casa, né?
01:34Eu fui pra TV porque eu não gostei de São Paulo, acredite se quiser, foi só por isso.
01:39Mentira, vamos, porque você vem de Minas.
01:42Eu vim de Juiz de Fora pro Rio, meu sonho de consumo era o Rio de Janeiro, meu sonho de consumo era o Jornal do Brasil,
01:48porque era a coisa mais importante da minha geração, no meu começo de história, que é ano 70, 73.
01:55Eu me formei em jornalismo e Juiz de Fora, e eu queria ir pro Jornal do Brasil.
01:58Ganhei até um concurso de reportagem entre estudantes de comunicação, e o prêmio era um estágio no JB.
02:03Foi a glória pra mim.
02:04Só que meu pai não deixou ficar porque eu não tinha 21 anos, então eu tive que voltar pra Juiz de Fora pra terminar a faculdade,
02:10pra fazer 21, pra aí sim poder sair de casa.
02:13E aí eu fui pro Rio.
02:16Trabalhei no O Jornal, no Globo, mas nunca trabalhei no Jornal do Brasil, a não ser naquele estágio lá inicial.
02:24O barato da história é que um dia, eu sou péssima de manhã, hoje em dia eu melhorei um pouco,
02:30mas naquela época era muito ruim de manhã.
02:32A Marilda Varejão, que era editora de revistas da Abril, foi convidada pra assumir a revista Capricho.
02:40A revista Capricho, na época, era uma revista voltada pro público classe C.
02:45Sobretudo, era o começo das empregadas domésticas com carteira assinada,
02:49e era uma revista que pretendia atingir esse público.
02:53E ela me chamou pra ser editora de texto da revista Capricho.
02:56Regina Festa era a diretora da redação.
02:59Eu vim pra São Paulo.
03:00E não entendi São Paulo, sabe?
03:02Não entendi.
03:04Não sei, eu queria a praia, eu queria o Posto 9, eu tava vivendo o Rio de Janeiro dos sonhos,
03:10e eu não entendi São Paulo.
03:12Aí fiquei 45 dias, voltei um dia pro Rio,
03:17e falei, quer saber, não vou voltar nunca mais pra São Paulo, não vou buscar nem minha carteira,
03:20não busquei, abriu, me entregou no Rio.
03:23Aí alguém me disse, tem uma vaga na TV Globo, eu falei, não sei fazer televisão.
03:27Ah, porque eu não podia voltar pro Globo, porque tinha três meses de delay aí, de...
03:32Quando demitia a gente, precisava esperar três meses pra voltar.
03:35Televisão, mas tinha que esperar três meses pra eu poder voltar.
03:39Aí pra esperar esses três meses eu não tinha dinheiro, eu tinha que arranjar um emprego.
03:42Aí me disseram, eu tenho uma vaga na TV Globo.
03:45Aí eu falei, mas eu não sei fazer televisão.
03:47Ah, mas vai lá e vê, o que você acha e tal.
03:50Aí eu fui, a Alice Maria me deu um, sei lá, um sábado,
03:56porque eu fui no fim de semana, eu trabalhei até sexta aqui em São Paulo,
03:59fui pro Rio, e fui na TV Globo ver como é que era.
04:03A Alice falou, vem aqui amanhã, vem fechar o Fantástico.
04:07O que você vai fazer amanhã?
04:08Eu falei, não vou fazer nada.
04:09Tá bom, vem, fui.
04:11E fiquei.
04:13Nunca mais saí na televisão.
04:15Aquelas TVs todas, aquela loucura, aquela gente gritando.
04:19E a revista, você coloca no ar com...
04:22Quer dizer, você faz a revista com três meses de antecedência.
04:25Em junho, você já tá no Natal, no Natal você já tá no ano que vem, entendeu?
04:29É uma loucura.
04:30E a TV não, né?
04:32A TV é naquela hora.
04:33Você falou, tá ali, entra no ar.
04:35E eu fiquei fascinada pela rapidez, pela eficiência,
04:38pela comunicação da coisa, pela gritaria, por tudo.
04:42E naquele momento, você decidiu ir pra onde?
04:47Você apaixonou?
04:48Foi paixão?
04:49Apaixonei, completamente.
04:50Como me apaixonei pelo YouTube agora, depois de velha.
04:53Naquele momento, a minha juventude era o Rio de Janeiro.
04:57Era tudo que eu queria.
04:58Era a zona sul do Rio, porque era no Jardim Botânico.
05:01Então, eu tava perto da praia, perto de tudo que eu queria, da vida carioca.
05:07E não adianta, eu fiquei.
05:10E dali você começou onde?
05:12Aí eu comecei no jornal...
05:14Ela me contratou, depois que eu vi fechar o Fantástico,
05:17ela me contratou pra ser editora do bloco do meio do Jornal Amanhã.
05:22Olha que coisa específica.
05:24O Jornal da Globo é o Jornal Amanhã de antigamente, tá?
05:27O Jornal Amanhã é o Jornal da Globo de hoje.
05:30Tá.
05:30E a Márcia Mendes era a locutora desse bloco do meio.
05:34Márcia Mendes e Carlos Campbell.
05:36Era o casal de apresentadores.
05:38E a Márcia era tida como difícil de lidar.
05:42Aí a Alice falou, não, você não tá animada e tal, acho que você vai se dar bem com a Márcia
05:46e vocês vão fazer uma boa dupla e tal.
05:47E fizemos mesmo.
05:49Fizemos uma dupla tão maravilhosa que levamos muitas broncas,
05:53porque aprontamos muito juntas.
05:56Porque a gente trabalhava até 11h30, meia-noite, uma hora da manhã juntas,
05:59aí a gente saía pra vida.
06:01E aí a gente aprontava e a Alice zangava no dia seguinte.
06:05Mas sabe...
06:06Era uma parra, era uma maravilha.
06:08Essa coisa do aprontar, do pregar peça, da boemia,
06:17eu acho que dos anos 2000, 2010 pra cá, as redações perderam completamente isso.
06:22Não tem nem barulho mais na redação, é tudo um silêncio, né?
06:25Era uma coisa barulhenta a redação.
06:27Tinha um barulho, uma pegada, uma coisa, né?
06:34Que fascinava.
06:35Pessoas gritavam umas com as outras, mas a briga acabava ali também.
06:39Não era uma briga que durava séculos.
06:42Não, a gente botava um programa no ar.
06:44Eu me lembro que a gente, depois de botar o Jornal Nacional ou o Fantástico no ar,
06:49a Alice, que pra mim é a mulher mais sábio de televisão no Brasil,
06:53ela ia de lugar, de VT em VT, de buraquinho em buraquinho,
06:58de salinha em salinha, falando desculpa aí, desculpa qualquer coisa, desculpa aí.
07:01Porque era um nervosismo só.
07:03Era uma coisa tensa, neurótica, nervosa, mas era maravilhosa.
07:09Aquilo me fascinou, me deixou doida.
07:11E isso que você falou é uma coisa...
07:13Eu já era doida.
07:15Porque eu acho que ninguém que era normal procurou esse tipo de coisa.
07:20É verdade.
07:21A gente procura os nossos pares, né?
07:25Foi isso.
07:26E essa coisa da...
07:28Eu ouvi outro dia um negócio que eu morri de rir de você contando
07:32que um dos grandes pesadelos que você teve na sua vida era o Chaves.
07:37O Chaves.
07:39O Chaves.
07:41Que agora tá no streaming.
07:44O Chaves me perseguia.
07:46O Chaves me perseguia.
07:47Por quê?
07:47E perseguiu a vida toda.
07:49Porque me perseguiu como jornalista,
07:51porque o SBT colocava o Chaves no horário do jornal hoje.
07:55Então a gente chegava...
07:56E naquela época, a TV Globo não apanhava de ninguém, né?
08:00Não tinha essa.
08:00Não é não apanhava.
08:02Não ficava menos de 20 pontos acima.
08:06Só ficava 20 pontos acima.
08:08Não ficava 10 pontos a 12 pontos.
08:12A gente quase apanhou do Chaves inúmeras vezes no jornal hoje.
08:15Então o Chaves era um tormento.
08:17Depois eu tive filho.
08:19Quando eu tive filho, eu já era apresentador do hoje.
08:21E o que aconteceu?
08:22Meu filho adorava ver o Chaves.
08:23Aí eu passei a ver o Chaves.
08:25Então o Chaves me persegue.
08:28E agora o Chaves foi pro streaming.
08:30Eu sei todos os chavões do Chaves.
08:34Todas as coisas.
08:36É muito bom.
08:37O Chaves é um fenômeno, né?
08:39É uma coisa que eu acho que não tem como explicar, né?
08:42Não tem como explicar.
08:44Eu acho que é a pureza dele, sabe?
08:46Um pouco a vítima.
08:47Ele é a vítima.
08:48Ele é um menino abandonado.
08:49Que todo mundo se solidariza.
08:51Ao mesmo tempo ele é chato.
08:52E ao mesmo tempo a gente acha ele chato, mas gosta dele.
08:56Enfim, é um personagem incrível.
08:58É realmente um fenômeno.
09:01Esse fenômeno me perseguiu muito.
09:02E aquele ecossistema todo em torno dele,
09:06que são todos personagens muito bons.
09:08Muito bons.
09:08Professor Girafales.
09:10Muito bons.
09:10Dona Florinda até hoje, quando eu boto o Bob no cabelo,
09:13eu falo, gente, tô igual a Dona Florinda.
09:15Eu falo, gente, tô igual a Dona Florinda.
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