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Em meio à tensão com a Venezuela, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que Nicolás Maduro não irá "se meter" com os EUA. A crise entre os países aumentou após Trump autorizar operações secretas da CIA em território venezuelano. O professor de relações internacionais Igor Lucena analisa o assunto.

Confira na íntegra em: https://youtube.com/live/oR46TUxFHMM

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Transcrição
00:00Bom, em meia tensão com a Venezuela, o presidente norte-americano Donald Trump afirmou que Nicolás Maduro não quer se meter com os Estados Unidos.
00:08A crise entre os países só aumenta após Trump autorizar operações secretas da CIA em território venezuelano.
00:16E sobre esse assunto a gente vai conversar com o professor de relações internacionais, Igor Lucena.
00:21Bom dia, obrigada pela sua participação aqui no Jornal da Manhã.
00:25Como é que você vê essa intervenção americana em águas internacionais e esse aceno aí contra a Venezuela?
00:34Bom dia, Patrícia. Bom dia, Marcelo. É um prazer estar aqui com vocês.
00:38Bom, o que nós estamos assistindo é uma situação bastante específica na América Latina.
00:45A última vez que nós vimos a possibilidade de um conflito militar dentro do nosso continente foi aproximadamente 100 anos na região do Panamá,
00:53que obviamente também teve a participação dos Estados Unidos.
00:57Porém, o que nós estamos vendo também é uma questão de disputas geopolíticas.
01:03Por mais que o presidente Trump coloque com bastante razão a questão do fato de que a Venezuela, sim,
01:12é um país que tem uma forte ligação do narcotráfico,
01:16que o próprio regime de Nicolás Maduro, ele é mantido pelo tráfico de drogas.
01:22Isso é algo que não é possível de se negar.
01:25Existem aspectos que são importantes para os americanos.
01:28O primeiro é o fato de que o Irã tem, sim, espiões, agentes e tem uma forte influência com o governo de Nicolás Maduro,
01:37bem como Rússia e China.
01:39Então, quando a gente faz uma análise do que está acontecendo dentro da América Latina,
01:45o que nós vemos é a Venezuela sendo um risco, um país que no passado teve uma participação como foi Cuba,
01:52uma ponte da União Soviética próxima aos Estados Unidos.
01:56E hoje, essa ponte contra os inimigos dos Estados Unidos está, de fato, ligada na Venezuela.
02:03Então, para os Estados Unidos é um risco, sim, de segurança nacional.
02:06Isso não significa que sejamos abertos a uma invasão territorial.
02:12Acho que um conflito armado, onde tropas americanas entrassem diretamente dentro do Estado venezuelano,
02:21seria uma tragédia para a região.
02:23Mas o que está aparentando toda essa questão dos militares dentro do conflito,
02:29dentro do Mar do Caribe, se mostra uma forte pressão.
02:33E o que os americanos entendem ou têm como interesse,
02:37até a gente viu recentemente matérias dizendo que o próprio presidente Trump autorizou a CIA
02:43a realizar missões dentro da Venezuela,
02:46é colocar um grau de pressão muito grande que possa forçar internamente uma mudança do regime,
02:53ou até mesmo líderes do regime,
02:56de retirarem Nicolás Maduro do poder,
02:59algo que a gente viu de uma maneira um pouco similar como aconteceu um pouco na Síria.
03:04Acho que não há interesse do presidente Trump de entrar diretamente com tropas americanas,
03:10até porque, quando a gente olha todo aquele conjunto naval que está ao redor da Venezuela,
03:18ele é forte o suficiente para destruir, sim, o exército venezuelano, capitais,
03:24mas sem os soldados efetivamente no território,
03:29você não consegue fazer uma mudança de regime forçada,
03:33uma espécie de golpe militar.
03:35Eu não acho que esse é o objetivo.
03:36Acho que o objetivo é criar uma força tão grande de pressão
03:40que nem mesmo os apoiadores de Nicolás Maduro continuariam com ele no poder,
03:45tendo em vista a possibilidade de efetivamente acontecer um conflito militar.
03:50Então, acho que o que está acontecendo é uma situação bastante inédita,
03:54porém o próprio presidente Trump,
03:55acho que ainda não tem uma visão muito clara do que pode acontecer.
03:59Lembrando que conflitos militares,
04:01a gente sabe como começam, mas a gente não sabe como terminam.
04:04Professor, bom dia.
04:06Como o senhor colocou,
04:08a gente observa um esgotamento dos organismos internacionais,
04:13principalmente a ONU.
04:15Nós tivemos o conflito, então, iniciado pela Rússia contra a Ucrânia,
04:18depois Hamas contra Israel,
04:21agora toda essa questão que envolve aí.
04:24Claro que existe a soberania do país,
04:26claro que todo mundo inteiro acompanhou as eleições
04:28que conduziram Nicolás Maduro ao poder, mais uma vez,
04:33muito questionadas.
04:36Poucos países aceitaram e reconheceram esse resultado, evidentemente.
04:40Então, o senhor imagina o seguinte,
04:42poderia ser um novo momento,
04:43ou seja, ninguém mais vai esperar a ONU,
04:45e poderia haver um conflito militar mesmo,
04:49com uma justificativa de que os Estados Unidos estão recebendo,
04:53aquilo que Trump fala,
04:54os traficantes, toda aquela questão da droga,
04:57e como o senhor colocou essa presença do Irã
04:59e outras nações aí na Venezuela,
05:02vizinha lá dos Estados Unidos?
05:06Exatamente.
05:07O que nós vemos, de uma maneira muito clara,
05:09é que depois da invasão na Ucrânia,
05:12a visão que o mundo tinha de liberalismo
05:16nas relações internacionais,
05:17aonde existia, sim,
05:20o respeito às regras internacionais,
05:23que órgãos como a ONU,
05:26OMC,
05:27todos esses órgãos eram, de fato, respeitados,
05:30tudo isso ficou para trás.
05:31A gente entrou, basicamente,
05:33depois de 2022,
05:35no chamado realismo das relações internacionais,
05:38ou no neorealismo.
05:39O que isso significa?
05:40Significa que as nações mais poderosas
05:43vão utilizar de todos os seus elementos possíveis
05:46para o objetivo da sua própria segurança.
05:50Isso significa elementos econômicos,
05:53financeiros, sanções e militares.
05:56Então, quando a Rússia faz a invasão na Ucrânia,
06:00apesar de ser totalmente legal,
06:02ela declara que havia um risco
06:04à sua própria segurança com a expansão da OTAN.
06:06No caso americano, tem uma similaridade.
06:09Os americanos fazem essa incursão militar na Venezuela
06:13alegando abertamente
06:15que há, sim, um risco à sua própria segurança.
06:18Esse risco aberto seria
06:19a questão do tráfico de drogas descontrolado.
06:23E, por outro lado,
06:24há um risco interno
06:25que seria uma influência cada vez maior
06:27de Rússia, China e Venezuela
06:30através da própria...
06:32Rússia, China e Irã
06:33através da própria Venezuela.
06:34Então, o meu ponto de vista é muito claro.
06:37As nações hoje, dentro do conceito internacional,
06:40estão utilizando a sua força,
06:42a sua musculatura econômico-militar
06:45para atingir os seus próprios objetivos.
06:48Isso traz uma transformação muito grande
06:50nos órgãos internacionais.
06:52Os órgãos internacionais
06:53passarão a ser respeitados
06:55apenas se fossem capazes
06:58ou sejam capazes
06:59de enforçar
07:02suas regras pela força.
07:05Há uma dúvida,
07:05algo muito claro
07:06que a gente está vendo isso
07:07é que o órgão principal internacional
07:09que tem respeito hoje
07:11é a OTAN.
07:12E a OTAN existe
07:13e está se tornando cada vez mais forte
07:15porque tem um conjunto de exércitos
07:17dos seus países aliados
07:19capazes de defender
07:21os seus interesses
07:22e interesses dos países aliados.
07:24Outros órgãos como a ONU,
07:25o OMC,
07:26que são baseados apenas em acordos e regras
07:29e a sua capacidade de enforcement
07:31é muito pequena,
07:32estão perdendo espaço
07:33nesse mundo internacional.
07:36Isso significa que
07:37o planeta hoje
07:39está cada vez mais perigoso,
07:42mais difícil
07:42e as nações precisam estar aliadas
07:45a outras nações
07:47cada vez mais fortes
07:49com capacidade
07:50de uma defesa militar,
07:51uma defesa econômica.
07:53Não há dúvida de que
07:54grande parte das nações,
07:56ocidentais
07:57tentou ficar
07:58o mais rápido possível
07:59realinhar-se
08:01aos Estados Unidos
08:02porque entendem
08:03que há um conjunto novo
08:05de alianças
08:05que os países
08:06não conseguem mais ficar
08:07alheios,
08:09inertes
08:09ou
08:09como é que a gente pode dizer?
08:13Separados.
08:13Eu gosto muito de dizer
08:15que a gente está vivendo
08:16uma espécie de nova
08:16guerra fria.
08:18A diferença
08:18é que os atores
08:20não estão,
08:20não tem vergonha
08:21de dizer que estamos
08:22fazendo isso.
08:23Os países estão
08:24se armando,
08:25os países estão
08:26pressionando
08:27atores menores
08:29com o objetivo
08:30de avançar
08:31nos seus próprios
08:32interesses.
08:33E não só
08:33a Rússia faz isso,
08:35mas os Estados Unidos
08:36e a China
08:37também estão fazendo isso.
08:39Pois é, professor,
08:40existe um interesse
08:41geoeconômico também,
08:42porque a gente sabe
08:43que a Venezuela
08:43é rica em petróleo ali.
08:45O Brasil,
08:46sendo aqui vizinho,
08:47que faz fronteira
08:48com a Venezuela,
08:49como que o Brasil
08:50deveria se posicionar?
08:51A gente não,
08:52de certa forma,
08:52coloca toda essa região
08:54em risco
08:55nessa ofensiva americana?
08:59Não há dúvida,
09:00Patrícia,
09:00que a situação
09:01se torna muito perigosa
09:02para o Brasil.
09:03Eu digo que a Venezuela
09:04vai...
09:05Se a gente assistir,
09:07de fato,
09:07a um conflito internacional
09:08na América Latina,
09:10a gente traz para dentro
09:11não só a Guiano,
09:13país ao lado,
09:14que foi ameaçado
09:15pela Venezuela,
09:16a gente traz para dentro
09:17também a própria União Europeia
09:19e a França
09:20por causa da guiana francesa
09:21e nós do Brasil.
09:22O grande questionamento
09:24é o que seria
09:24o posicionamento
09:25que o Brasil vai fazer.
09:27Acho que o Brasil
09:27tem um pouco de culpa
09:28nessa história toda.
09:30O Brasil,
09:30durante muito tempo,
09:32ajudou a manutenção
09:34do regime de Chávez
09:35e Nicolás Maduro.
09:36Se o Brasil
09:37tivesse,
09:38de fato,
09:38utilizado a sua influência
09:40no passado
09:41e não apoiado
09:43e nem legitimado
09:44o regime,
09:45dificilmente
09:46a gente estaria vendo
09:47a situação que nós estamos.
09:48Então,
09:48o Brasil tem sim
09:49um pouco de culpa
09:50no cartório,
09:51porque tem uma visão
09:54dupla moral
09:54hoje do Itamaraty,
09:56de defesa da democracia
09:57internamente do país
09:58e fora,
10:00não se importa
10:00se as eleições
10:01foram roubadas
10:02num país.
10:03Parece que há
10:04uma visão muito mais
10:05ideológica
10:06dentro do Itamaraty
10:07do que,
10:08de fato,
10:08pragmática.
10:10E isso vai nos trazer
10:11um grande questionamento
10:12daqui para frente.
10:13Se houver
10:14um conflito internacional
10:16entre Estados Unidos
10:17e Venezuela,
10:19nós vamos,
10:20opção A,
10:21defender o regime
10:22de Nicolás Maduro
10:24com o objetivo
10:25de dizer que há
10:26uma necessidade
10:27de defesa
10:27da soberania
10:28da Venezuela,
10:29sabendo que isso,
10:31de fato,
10:32vai favorecer
10:33uma manutenção
10:34de um regime
10:34ditatorial,
10:36ou nós vamos
10:37apoiar os Estados Unidos
10:38dentro dessa situação
10:40de combate
10:41as drogas
10:42ou vamos
10:42ficar neutro.
10:44Um ponto importante,
10:45e aí é interessante
10:46de dizer,
10:47é que tivemos
10:48a reunião
10:49com o Marco Lobio,
10:50abrimos o canal
10:51de negociação
10:52para diminuir
10:53a questão das tarifas,
10:54e se houver
10:55um questionamento
10:56do Brasil,
10:57do posicionamento
10:58do Brasil
10:59em um conflito
11:00com a Venezuela,
11:01esse canal
11:02vai se fechar.
11:03Então,
11:03todo o interesse
11:05brasileiro,
11:06todo o nosso
11:07interesse econômico
11:08de diminuir
11:09tarifas,
11:10de melhorar
11:12nossas relações
11:12com os Estados Unidos,
11:13pode ir por água abaixo
11:15se continuarmos
11:16com a visão
11:17baseada
11:18na ideologia
11:19em defesa
11:20da Venezuela
11:20em um provável
11:21conflito.
11:22E essa situação
11:23pode ocorrer
11:24em breve.
11:25Então,
11:25é necessário, sim,
11:26uma questão
11:26muito mais pragmática
11:28daqui para frente
11:29em relação ao Brasil
11:30e aos nossos
11:30próprios interesses
11:31econômicos.
11:33Obrigada,
11:33professor de Relações
11:34Internacionais,
11:35Írgo Lucena.
11:36Tenha um bom dia.
11:37Obrigada aqui
11:37pelos seus esclarecimentos
11:39e análises.
11:41Obrigado
11:41e um bom dia a todos.
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