- há 1 ano
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No Check Up desta semana, o Dr. Cláudio Lottenberg recebe o cirurgião Dr. Marcelo Bruno Rezende, responsável pelos transplantes cardíacos adultos do Hospital Israelita Albert Einstein, para uma conversa sobre transplantes de órgãos. O programa aborda o que difere a doação de um doador vivo de um doador já falecido e os desafios técnicos e familiares.
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NotíciasTranscrição
00:00O envelhecimento, o tema dos transplantes, ganha cada vez mais relevo.
00:06O transplante é um procedimento realizado com o objetivo de substituir órgãos e tecidos
00:12que não cumprem mais as suas funções de forma adequada e irreversível,
00:17visando salvar vidas e abrindo portas para um recomeço.
00:21O primeiro transplante realizado no Brasil ocorreu em 1964, no Rio de Janeiro.
00:28Neste ano, um paciente de 18 anos recebeu o rim de uma criança portadora de hidrocefalia
00:35que foi submetida à nefrectomia seguida de derivação ventrículo-vesial.
00:41O momento histórico, apesar do sucesso inicial, enfrentou desafios,
00:47incluindo a perda do enxerto e o falecimento do paciente.
00:51O episódio não apenas inaugurou uma nova era na saúde do Brasil,
00:55como também proporcionou esperança de vida para muitas pessoas.
01:00No check-up de hoje, o doutor Cláudio Lutenberg recebe o doutor Marcelo Bruno Rezende,
01:05cirurgião cardiovascular, responsável pelo transplante cardíaco dos adultos
01:10do Hospital Israelita Albert Einstein.
01:13O que difere a doação de um doador vivo de um doador já falecido?
01:18Quais são os desafios, tanto técnicos quanto familiares?
01:21Fique ligado, o check-up já está no ar.
01:29Check-up Jovem Pan, com o doutor Cláudio Lutenberg.
01:34Marcelo, saiba que é um grande prazer e um privilégio poder receber você hoje aqui no nosso check-up.
01:41Eu que agradeço o convite, doutor Cláudio.
01:45Para mim é um privilégio estar aqui para falar com o senhor e com seus ouvintes
01:49sobre um tema tão importante que é o transplante de órgãos.
01:52Para você que vive essa situação de ter mudado o destino de vida de um paciente
01:58e que a gente sabe que, de certa forma, estava às vezes sem qualquer tipo de esperança.
02:04Como é que você se sente com o cirurgião quando você vê essa pessoa tendo a sua vida resgatada?
02:10O transplante é um procedimento médico fantástico, né, doutor Cláudio?
02:15Eu sempre falo que o transplante é provavelmente um dos maiores avanços da medicina moderna
02:22e ele é capaz de transformar um paciente com a falência de um órgão,
02:27com a qualidade de vida muito deteriorada,
02:31num paciente que retoma a sua qualidade de vida e que pode sobreviver a um procedimento como esse.
02:37De um modo geral, o transplante representa trocar um órgão totalmente deficiente
02:43por um órgão novo proveniente de um doador vivo ou um doador falecido.
02:48Isso representa salvar a vida, melhorar a qualidade de vida
02:52e tem, além disso, um tema que talvez a gente comente muito pouco
02:56que é o impacto econômico que tem o transplante no sistema público, né?
03:01Transplantar um paciente que está dependendo durante dois, três anos
03:06de vários procedimentos, várias internações,
03:10torna este paciente com um custo muito inferior para a população.
03:14É, a gente sabe que os sistemas de saúde, eles são validados muitas vezes
03:18pelo custo da terapia dialítica.
03:20Então, isso tem a ver, sim, com a economia de saúde.
03:25Mas as pessoas falam muito sobre a lista de espera dos transplantes.
03:29Como é que funciona essa lista aqui no Brasil?
03:31A lista de espera...
03:32Primeiro, é muito importante a gente salientar que o Brasil tem o maior sistema público
03:37de transplantes do mundo, né?
03:39Mais de 85% dos transplantes do Brasil são realizados pelo sistema público.
03:44Tem critérios muito rigorosos e, normalmente, esse paciente deve ser inicialmente avaliado
03:53por um centro de transplante, por uma equipe médica e multiprofissional.
03:57Então, esse paciente é inscrito no cadastro técnico de transplante.
04:01Ele ganha um RGCT, um registro, como se fosse uma conta bancária.
04:06E, com isso, esse paciente é monitorado durante a fila, né?
04:10Então, hoje, o sistema é muito seguro, muito equânime e isto nos orgulha muito como
04:17brasileiros e médicos transplantadores.
04:19É, eu sou transplantador de córneas e eu sou testemunha de que as coisas realmente
04:24seguem uma linha cronológica.
04:27Mas existem exceções, por exemplo, na área do transplante hepático?
04:31Os pacientes são listados para transplantes e a distribuição de órgãos, ela segue um
04:37critério de compatibilidade, de gravidade e de tempo de lista.
04:43Então, pacientes que estão mais graves ou que têm uma condição com risco de vida,
04:48eles têm prioridade na lista.
04:50Um exemplo disso, por exemplo, no fígado, são os pacientes com suficiência hepática
04:54aguda, que, se não transplantados, têm um risco de mortalidade em 48 horas muito grande.
04:59Então, eles são transplantados como prioridade.
05:01Nós sabemos que existem transplantes cujos órgãos são oriundos de pessoas vivas e
05:08transplantes que são oriundos de pacientes que vêm a óbito.
05:12O que é a morte encefálica?
05:13Bom, esse é um tema muito importante da gente debater e que deveria ser mais discutido
05:18nas escolas, nos nossos locais de trabalho, porque isso é um motivo de muita confusão no
05:26momento da possibilidade do ação.
05:28A morte encefálica é a lesão irreversível do cérebro e do tronco encefálico.
05:34Então, é uma morte cerebral que não tem mais retorno.
05:38O paciente tem o coração batendo, tem os pulmões sendo ventilados por aparelhos, mas
05:44ele está em óbito.
05:46Pela legislação e por critérios médicos, é irreversível.
05:49É diferente de, por exemplo, de coma, que é uma grande confusão.
05:53Então, o coma são pacientes que têm uma injúria cerebral, mas com a capacidade e
05:59a possibilidade de reversão.
06:00Cabe à equipe médica e à equipe relacionada à avaliação do potencial doador utilizar
06:06de critérios técnicos muito aprimorados hoje em dia para fazer o diagnóstico de morte
06:12cefálica de forma muito incisiva e aí sim orientar os familiares.
06:17Como é feita a abordagem da família?
06:20Você acha que ela é, dentro do contexto Brasil, algo ainda tratado com muita reserva?
06:28Não existe cultura para doação?
06:31E o que a gente poderia eventualmente fazer para melhorar?
06:33Nós avançamos muito no transplante nos últimos anos, mas esse é um tema que merece uma atenção
06:38muito especial.
06:42Infelizmente, no ano de 2024, segundo o registro da Associação Brasileira de Transplante de
06:47Órgãos, mais de 55% dos familiares disseram não para a doação de um potencial doador.
06:54Isso está muito relacionado aos cuidados que esse paciente recebe quando ele dá entrada
06:59ao hospital, ao pronto-socorro, à unidade básica de saúde ou ao hospital de referência.
07:04E no momento em que ele entra em morte cefálica, muitas vezes a família recusa, porque teve
07:10uma abordagem desde o início que não foi muito adequada.
07:14Hoje, existem várias equipes no Brasil treinadas para essa abordagem.
07:19Quem faz essa abordagem precisa ter, além de uma formação técnica, tem que ter muita empatia,
07:27porque esse é um momento muito difícil para a família.
07:30Mas se a gente souber, primeiro, fazer o diagnóstico adequado e ter empatia e acolhimento com a
07:38família, a gente pode transformar este momento de muita dor da família numa possibilidade
07:43de salvar outras pessoas, muitas outras vidas.
07:46E no caso do doador vivo, que vai doar um órgão ou parte do seu órgão, quais são
07:53os transplantes que são feitos dentro dessa linha?
07:56O transplante com doador vivo é uma modalidade legal, segura e que salva muitas vidas, mas
08:07ela precisa ser realizada de uma forma muito técnica, com avaliação técnica e baseado
08:12em ética para a gente tomar a decisão.
08:15Basicamente, o indivíduo pode doar um rim, ele pode doar parte do seu fígado, ele pode
08:22doar parte do pulmão, ele pode doar tecidos e pele.
08:29E nesse sentido, existem critérios muito rigorosos para selecionar quem são os potenciais
08:35candidatos para doar em vida.
08:37Segundo a legislação do Brasil, o indivíduo pode doar quando aparentado até o quarto
08:45grau, então pai, mãe, filhos, irmãos, tios, primos, cônjuge ou os não aparentados
08:55também podem ser doadores, desde que essa doação tenha uma característica realmente
09:01de empatia e que seja aprovado pelo juiz.
09:04Dentro da lógica cirúrgica, você recebe um órgão, você pode esperar quantas horas
09:11para o transplante de fígado, para o transplante renal e para o transplante cardíaco?
09:15Normalmente, isso a gente chama de tempo de isquemia, é o tempo entre a retirada do órgão
09:20do doador até o momento em que a gente reimplanta esse órgão no receptor.
09:25Então o tempo de isquemia fria é muito variável de órgão para órgão.
09:29Neste tempo, existe um dano celular, com edema celular, com acúmulo de metabólicos
09:36que são nocivos, então quanto menor o tempo, melhor.
09:39Para o coração e para o pulmão, em média de 4 a 6 horas.
09:43Para o fígado, a gente pode chegar até 12 horas, mas idealmente melhor que a gente
09:48transplante com menos de 6 horas.
09:50E para o rim, como a gente hoje tem máquinas de perfusão, até 36 horas.
09:54Então, normalmente, o que a gente tenta é fazer o transplante com menor tempo de isquemia,
10:01ou com menor tempo de isquemia fria, para que a gente tenha um melhor resultado no pós-operatório.
10:07O número de transplantes caiu em todo o mundo em 2020 e 2021, em decorrência da pandemia de Covid-19.
10:15Enquanto alguns países paralisaram os programas de transplantes,
10:19O Brasil manteve 60% dos procedimentos e atividades de doação.
10:24Em 2024, o país atingiu uma marca histórica e ultrapassou a casa de 30 mil transplantes.
10:32De acordo com os dados do Ministério da Saúde, os órgãos mais transplantados no ano foram
10:37rins com 6.320, fígado, córnea e medula óssea, sendo 85% dos procedimentos realizados pelo SUS,
10:49que destinou mais de R$ 1 bilhão à área apenas em 2024.
10:55E apesar do crescimento de 22% em comparação ao ano de 2022,
11:00a fila de espera chega na casa de 78 mil pessoas.
11:03Outro desafio é a recusa familiar, já que 45% das famílias contatadas recusaram as solicitações de doação.
11:12E todo o processo formal de doação só pode ser iniciado com autorização de familiares,
11:19mesmo que o doador tenha manifestado interesse ainda em vida.
11:23O Sistema Único de Saúde anunciou medidas como
11:26a prova cruzada virtual, que é uma expansão da prova cruzada real,
11:32que mistura antígenos do doador com o soro do possível receptor.
11:37Para acelerar a compatibilização entre doadores e receptores,
11:41a tecnologia vai permitir, à distância, avaliar a possibilidade de rejeição do órgão doado.
11:48Atualmente, esse exame é feito apenas em quatro estados.
11:51São Paulo, Rio Grande do Sul, Piauí e Pernambuco.
11:56O correio transplante, medicação imunossupressora, quais são os cuidados que um transplantado tem que ter?
12:05Para você poder dizer, o paciente transplantado pode voltar à vida normal, trabalhar, atividade física.
12:12Quais são os tempos para tudo isso?
12:14O grande benefício do transplante é devolver aquele indivíduo à sociedade, de forma plena.
12:22Mas, normalmente, esse paciente passa por um período de três meses de adaptação ao órgão
12:28e de ajuste na imunossupressão.
12:32Então, esse paciente precisa realmente ter uma questão de autocuidado muito importante.
12:39ele precisa se envolver no tratamento e nas medicações utilizadas.
12:46Mas existe muito mito com relação ao transplante hoje em dia.
12:49A imunossupressão melhorou muito.
12:51Então, hoje a gente consegue transplantar o paciente
12:53e o paciente, depois de três meses, volta a ter uma qualidade de vida normal,
12:58completamente normal.
12:59Pode voltar a trabalhar, pode voltar a viajar.
13:01E não existe grandes alterações que impeçam esse paciente a voltar a ter uma vida plena.
13:09Quando você olha o cenário de saúde brasileiro,
13:13você acha que a questão do transplante é uma questão de natureza econômica, financeira,
13:17para viabilizar o projeto?
13:20Ou é algo que envolve muito mais uma cultura de doação que o Brasil deveria estimular?
13:26Quem sabe até com uma legislação diferente.
13:28Ou seja, não é doador quem não se manifesta e todo mundo seria doador?
13:33Eu acho que as duas coisas.
13:34Nós temos questões estruturais e eu acho que nós temos questões de financiamento
13:39e também questões culturais.
13:41Eu acho que nós precisamos investir muito na questão estrutural,
13:47descentralizar os centros de transplantes para as regiões mais distantes aqui do Sudeste.
13:54Ainda tem uma concentração muito grande.
13:56Existe um projeto que a gente também desenvolve junto com a nossa instituição
14:00de tutoria para levar o transplante de fígado, por exemplo, para outros centros.
14:07Este é um investimento que o governo precisa ter muita atenção.
14:11Existe uma questão que é de estimular novos profissionais.
14:15Esta é uma atividade que é muito desgastante.
14:18Então, hoje, os profissionais mais novos não querem se aventurar na área de transplante.
14:24Mas existem várias outras frentes.
14:27A gente precisa muito de investir na informação.
14:30Na informação básica, nas escolas, no trabalho.
14:36Precisa discutir muito sobre doação.
14:38Hoje, a legislação no Brasil, ela exige que só pode doar quando o seu familiar autorizar.
14:45Então, do ponto de vista de legislação, não adianta a gente ter no documento, por exemplo, que eu sou um doador.
14:52Isto aconteceu há uns 15 anos atrás, que houve um período em que todo brasileiro seria doador,
15:02a não ser que ele colocasse no seu documento de identidade que ele não era doador.
15:07Infelizmente, por questões culturais, isto foi um...
15:12Nós tivemos um viés e a maioria dos indivíduos colocavam no documento de que eles não queriam ser doadores,
15:20com medo, com receio de que eles pudessem sofrer algum tipo de lesão durante uma internação.
15:27O que é inimaginável e é impossível, porque o processo de doação envolve um cenário muito complexo
15:36e é muito regulamentado pelas centrais de transplantes no Brasil.
15:40Vamos falar de transplante interespécie, xenotransplante.
15:45Isso é promissor, já é uma realidade? Como é que você enxerga esse cenário?
15:49Bom, o xenotransplante é o que tem de mais inovador no cenário do transplante.
15:55Existe muita expectativa para que isso vire uma realidade, ainda não é utilizado na prática clínica.
16:03Nós tivemos aí o primeiro transplante de coração com o coração de um porco geneticamente modificado em 2022
16:10e agora em 2024 o primeiro transplante de um rim de um porco modificado.
16:17Existem ainda muitos desafios nesse cenário.
16:20Primeiro, a gente ainda precisa avançar um pouquinho mais na questão imunológica,
16:25como tornar esses órgãos imunologicamente competentes, aceitáveis.
16:31Além disso, existe uma questão de transmissão de zoonoses,
16:35que é um risco realmente real nesse tipo de transplante,
16:39mas isso tem caminhado muito rapidamente nos últimos 10 anos
16:42e eu acredito que seja a solução, sim, para o déficit de órgãos que a gente tem para os próximos anos.
16:49Cada vez mais a população está envelhecendo.
16:51Nós estamos entrando agora num cenário que é muito interessante,
16:55que é a utilização de transplantes no cenário oncológico.
16:59Então, nós vamos precisar de mais órgãos para beneficiar mais pacientes
17:03e, com isso, nós vamos ter uma demanda muito grande por órgãos
17:06que venham de outras fontes, como, por exemplo, o xenotransplante.
17:10Você fez um registro importante para quem está nos assistindo,
17:13que muitas vezes a pessoa manifesta em vida que ela é doadora,
17:17mas a família tem que confirmar quando acontece o óbito.
17:21Mas eu queria ir além.
17:22Nós tivemos a pandemia, o COVID, isso impactou o cenário dos transplantes?
17:26Muito, muito.
17:28O COVID teve um impacto em todas as áreas médicas.
17:32O COVID retardou o diagnóstico de pacientes que precisariam de transplante.
17:38O COVID atrapalhou a realização de transplantes com doador falecido
17:42e, no Brasil, quase zerou o transplante intervivos,
17:46naquele período de 2020 até 2023.
17:50A gente tem registros da Associação Médica e da ABTO
17:53de que houve uma queda de 15% no número de doadores
17:57e de 20% no número de transplantes.
18:00E isso tem um impacto muito grande na mortalidade.
18:02Então, morreram mais pacientes em lista de espera nesse período.
18:06Eu conheço o Marcelo bem e é uma pessoa, além de um cirurgião muito competente,
18:11é um ser humano absolutamente único.
18:15Como é que você vê a abordagem de uma família
18:18num momento em que está perdendo ou perdeu já um ente querido
18:23para que seja sugerido o ato da doação?
18:27É complexa essa linguagem?
18:29Muito complexa.
18:30Muito complexa e exige treinamento e muita empatia.
18:35O segredo nesse cenário que eu acredito,
18:40eu vivi muito tempo também trabalhando na doação
18:44e o que eu percebia, e acho que isso acontece ainda,
18:48é de que se nós não nos preocuparmos com o atendimento básico daquele indivíduo,
18:55um indivíduo que tem, por exemplo, um AVC ou um TCE
18:59que chega num pronto-socorro,
19:00se ele não tiver o atendimento adequado,
19:03se a família não se sentir acolhida naquele momento,
19:07se esse paciente chegar lá na frente em morte cefálica,
19:10a maioria dos familiares serão contra a doação.
19:14Então a gente precisa trabalhar aqui no começo,
19:16oferecer tudo que é de melhor,
19:18de atendimento para tentar resgatar aquele indivíduo.
19:22A família precisa ter essa percepção
19:24e se por ventura a gente tiver a infelicidade
19:28de que aquele indivíduo evolua com morte cefálica,
19:31a chance dessa família se tornar doadora é muito grande.
19:34Além disso, quem faz a entrevista precisa ter muita empatia realmente.
19:42É muito importante primeiro ter o tempo do diagnóstico,
19:47ter o tempo da notificação e do aviso para a família,
19:51acolher a família para só depois falar sobre a doação.
19:55Quando a gente faz isso de uma forma muito cuidadosa,
19:59a chance da família ter a percepção de que ela pode transformar
20:03aquele momento de dor num momento de muita solidariedade
20:07com muitas outras famílias é muito grande
20:09e ela pode experimentar uma forma diferente
20:13daquele momento do óbito doente.
20:15A gente acompanha pós-operatório e sabe que a imunossupressão
20:19praticamente acontece de forma concomitante ao procedimento.
20:24Mas a rejeição, ela costuma acontecer em quanto tempo de pós-operatório?
20:30Então a rejeição, nós temos três tipos de possibilidades de rejeição.
20:34Nós temos a rejeição hiperaguda,
20:36a gente tem a rejeição aguda e a gente tem a rejeição crônica.
20:40A rejeição hiperaguda é aquela que é mediada por estímulos antes do transplante.
20:45O receptor já tem anticorpos preparados.
20:48Por exemplo, um indivíduo que tomou muitas transfusões,
20:52então ele já tem um sistema imunológico reativo àquele órgão que ele está recebendo.
20:58Na maioria das vezes são rejeições muito graves
21:00e com uma chance de perder um enxerto muito grande.
21:03Por sorte, esse tipo de rejeição é muito pouco frequente,
21:08menos do que 2% dos pacientes.
21:10A gente tem a rejeição aguda, que é a mais frequente,
21:13mas graças aos avanços na imunossupressão,
21:16hoje as rejeições agudas são facilmente tratadas.
21:20No fígado, por exemplo, mais ou menos 25% dos pacientes
21:23podem ter algum episódio de rejeição,
21:26mas só o ajuste da imunossupressão é capaz de resgatar esse paciente.
21:30E a rejeição crônica, que é tardia, pouco frequente e de fácil resolução.
21:37Entretanto, a gente tem pacientes que às vezes para de tomar o imunossupressor
21:41e isso é um alerta importante.
21:42O paciente transplanta, resgata toda a qualidade de vida
21:46e a longo prazo talvez pare de tomar o imunossupressor
21:49e aí ele tem uma rejeição crônica e pode perder aquele enxerto.
21:52Então a gente tem casos de necessidade de retransplante
21:56por perda do enxerto, por rejeição.
21:58E quem decide se aceita aquele órgão?
22:01O cirurgião responsável pelo procedimento
22:03ou a central que capta o órgão?
22:07O aceite é pela equipe que vai transplantar,
22:11mas o sistema primeiro, ele seleciona o doador,
22:16o potencial doador
22:17e só depois de exames de conformação de morte cefálica
22:23muito bem realizados por dois médicos diferentes
22:27com exames comprobatórios da morte cefálica
22:30é que aquele potencial doador, ele entra no registro como um possível doador.
22:35Quando ele entra no registro, no sistema,
22:37ele gera um ranque e ele é ranqueado e direcionado para um receptor.
22:42Quando a gente recebe a oferta, eu recebo uma oferta
22:48e eu tenho a prioridade ou a capacidade para avaliar
22:53desde o histórico daquele doador,
22:56a gente tem informações sobre o histórico médico daquele doador,
23:00os exames laboratoriais, as sorologias daquele doador
23:04e baseado nestes parâmetros é que a gente aceita ou não aquele órgão.
23:13Então, a gente vai até o hospital onde está o potencial doador
23:17e inicia a cirurgia de extração.
23:20Em algumas situações, a gente pode ou confirmar aquele órgão
23:24ou eventualmente, mesmo tendo informações muito boas,
23:27esse órgão talvez não seja utilizável.
23:29E aí a gente cancela o transplante e esse paciente volta
23:33para primeiro na lista para esperar por uma nova oferta.
23:37Marcelo, privilégio.
23:39Um prazer muito grande poder conversar com você.
23:42Eu me sinto privilegiado por ter você, não aqui,
23:45mas ter Marcelo Bruno como meu colega e meu amigo.
23:48Muito obrigado.
23:48Eu que agradeço, doutor Claudio.
23:50Para mim é um privilégio estar aqui falando para uma população
23:54que merece escutar sobre o transplante,
23:56mas principalmente tendo esse privilégio de estar junto com o senhor,
24:00que para mim é uma das maiores lideranças da medicina no Brasil.
24:02O programa de hoje foi sobre transplantes,
24:05um assunto extremamente interessante,
24:08mas que não tem que ser só percebido dentro da lógica da tecnologia,
24:14mas acima de tudo tem que ser percebido dentro da lógica da compaixão,
24:19do sentimento da solidariedade,
24:21saber como transformar um momento de dor e de tristeza
24:24na possibilidade de estender a vida a alguém.
24:26O check-up fica por aqui.
24:29Tivemos o prazer de estar com o doutor Marcelo Bruno,
24:33ele que é cirurgião docente do Hospital Israelita Albert Einstein
24:37e diretor de seu programa de transplantes.
24:40Se você tem alguma dúvida, quer sugerir alguma coisa,
24:43quer escrever
24:43No check-up de hoje, você viu
24:51como funciona a doação de órgãos no Brasil,
24:55a realização dos transplantes em diferentes idades,
24:59as inovações nos procedimentos cirúrgicos
25:02e os cuidados pós-operação.
25:04CICAP Jovem Pan
25:10Condutor Cláudio Lotenberg
25:12A opinião dos nossos comentaristas
25:17não reflete necessariamente
25:19a opinião do Grupo Jovem Pan de Comunicação.
25:26Realização Jovem Pan
25:28CICAP Jovem Pan