00:00O estoque de investimentos de empresas americanas aqui no Brasil mais que triplicou na última década,
00:05passando de 108 bilhões de dólares em 2014 para 357 bilhões em 2024.
00:13Alan Gani está de volta para comentar esse assunto aqui com a gente.
00:16Gani, a partir do tarifácio, pode ser que a gente tenha aí uma redução
00:21ou essa tendência de elevação dos investimentos em empresas americanas sendo diminuído aqui no Brasil?
00:27Ótima pergunta, Nonato. Com certeza isso pode sim ocorrer.
00:31Uma questão contaminar a outra e a gente tem que separar os assuntos.
00:36Então, uma questão é a questão comercial, ou seja, o Brasil exportando para os Estados Unidos
00:41e aí tem uma tarifa de 50% para aqueles produtos que não sofreram a tal da isenção, 700 produtos.
00:50A outra questão são os investimentos, ou seja, o norte-americano investindo aqui em logística,
00:56em energia, em tecnologia. São empresas norte-americanas vindo para o Brasil, expandindo a sua produção aqui.
01:05E o Brasil fica numa situação muito delicada. Por que eu digo isso?
01:09Porque os Estados Unidos são, de fato, o nosso principal parceiro de investimentos.
01:16Mas, por outro lado, a nossa principal parceira comercial, ou seja, para quem o Brasil mais exporta, é a China.
01:22Então, o Brasil tem interesses tanto com os Estados Unidos e tanto quanto a China.
01:29E a gente fica nesse meio do caminho, nessa guerra fria aí do século XXI, nessa disputa entre Estados Unidos e China,
01:36e o Brasil, evidentemente, no meio dos dois.
01:39Só que a gente não pode nem romper com os Estados Unidos, porque senão a gente pode perder investimentos,
01:44e nem romper com a China, porque senão a gente também perde exportações.
01:49Isso exige uma habilidade muito grande, um pragmatismo muito forte da diplomacia do governo
01:57para lidar com essa questão num mundo geopolítico muito mais complicado.
02:02É uma nova era, né? Como a gente vem falando.
02:04O Trump está, basicamente, tentando acabar ou excluir com as regras do comércio internacional.
02:09Exatamente. Essa era, Soraya, que a gente conheceu como liberalismo, ou neoliberalismo,
02:16foi a retomada do liberalismo, principalmente por Reagan e Thatcher,
02:21essa era, ela dá sinais de esgotamento.
02:25Para falar a verdade, o Trump já tentou iniciar essa nova era ali em 2016,
02:31no seu primeiro mandato, não teve força, mas agora coloca para valer esse protecionismo,
02:36e é lógico que isso arrefece toda essa lógica liberal de comércio internacional sem barreiras,
02:44que foram os próprios norte-americanos que incentivaram,
02:49e isso possibilitou, evidentemente, uma melhoria de vida dos norte-americanos,
02:54à medida que os Estados Unidos conseguiam importar produtos do mundo inteiro,
02:59a preços muito baixos.
03:00Não à toa todo mundo gosta de ir para os Estados Unidos para fazer compras,
03:05e também os excedentes de dólares dos países financiavam a dívida norte-americana,
03:10e continuam financiando.
03:12Então, isso traz uma vantagem muito grande para os Estados Unidos,
03:15porque o americano médio não precisa poupar.
03:17O mundo poupa pelos Estados Unidos,
03:19e os Estados Unidos, com essa poupança do resto do mundo,
03:23consegue viabilizar investimentos, consegue viabilizar benefícios sociais,
03:30subsídio para empresas, etc.
03:32Agora, vamos ver como é que vai ser este novo mundo,
03:37com menos globalização, menos liberalismo econômico.
03:41É isso, e é muito maluco, porque eu só vejo aqui a diplomacia tentando equilibrar os pratos,
03:45porque também não dá para dispensar nenhum dos players, nem Estados Unidos nem China.
03:48E o que é, exatamente, Nonato, não dá, né?
03:51Não dá para a gente escolher um lado, caso contrário, a gente perde, né?
03:54Quer dizer, o Brasil tem que defender, eu sempre falo isso,
03:57o interesse do Brasil não é defender o Trump e não é defender a China.
04:01O interesse do Brasil é defender os interesses do povo brasileiro.
04:05Valeu, Ganeta. Até daqui a pouco, hein?
04:07Até.
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