00:00Eu vou extrapolar um pouquinho o teu negócio.
00:02Eu queria falar da atualidade.
00:07A gente tem visto, hoje, não dá para sair disso.
00:12As pessoas hoje se comunicam de uma forma mais direta.
00:19As celebridades, as autoridades, as pessoas comuns,
00:24todas estão, de alguma maneira, na mesma arena.
00:29As redes sociais.
00:32E, muitas vezes, você tem pessoas desconhecidas
00:35que se tornam conhecidas, vão lá, fazem um tweet diferente,
00:38produzem um conteúdo diferente, enfim.
00:40E aquilo viraliza numa rede
00:44e a pessoa acaba tendo uma exposição
00:47que, de repente, ela nunca imaginou ter.
00:50Por que estou dizendo isso?
00:51Porque toda essa dinâmica de relacionamento
00:54que tem a ver com a autenticidade,
00:56e que acaba interferindo no teu posicionamento político,
01:00se você se expressa, se você pede voto para alguém hoje ou amanhã,
01:05você corre o risco de ser cancelado pela outra parte,
01:09porque também a gente vive num ambiente muito radicalizado,
01:13e que as pessoas ainda não conseguiram lidar com essa nova realidade.
01:17É muita exposição, é muita informação, é tudo muito rápido,
01:23há muito desejo de simplificação,
01:26embora a humanidade seja muito mais complexa,
01:28os nossos desejos sejam muito múltiplos,
01:31as nossas vivências, etc.
01:33E ali, naquela coisa binária das redes sociais,
01:36a busca pela simplificação é corrente,
01:40e isso muitas vezes nos faz tomar decisões erradas,
01:44ou nos expressar de forma errada e tal.
01:47Estou fazendo esse preâmbulo só para introduzir o seguinte tema,
01:50que nos chama muito a atenção,
01:51que é assim, há também hoje uma cobrança,
01:53em função desses posicionamentos políticos,
01:56uma cobrança das marcas, de posicionamento das marcas.
02:00Então, a gente vê aqui no Brasil,
02:02que até foi um movimento importado dos Estados Unidos,
02:05o Sleep Giants,
02:06que faz essa busca incessante,
02:10cobra nas redes de forma incessante
02:13de grandes marcas
02:14um posicionamento politicamente correto.
02:17Então, isso é muito subjetivo.
02:20Claro que tem coisas que são claramente criminosas,
02:24posições que são criminosas,
02:26às vezes o sujeito comete um crime,
02:28comete uma falha grave,
02:30um erro crasso,
02:32mas muita coisa do debate público é subjetivo.
02:38Então, a gente percebe aí,
02:42é uma cobrança que corre o risco de virar um assédio.
02:48E muitas empresas, às vezes,
02:49têm tomado decisões,
02:50às vezes, de deixar de apoiar um atleta,
02:52de deixar de apoiar,
02:55de deixar de anunciar
02:59num veículo de comunicação,
03:00por causa desse assédio
03:04e aquilo acaba tendo um efeito negativo
03:08que talvez seja pior
03:11do que simplesmente a exposição da marca
03:13vinculada à A, B ou C.
03:17Esse é um dilema muito presente
03:19na tua área, de uma maneira geral.
03:23Como é que você enxerga isso?
03:24Que tipo de...
03:25Até de orientação que você dá
03:28como um cara especializado nisso,
03:30que tem uma vivência global,
03:32que entende diversas culturas,
03:35como elas devem,
03:38como as pessoas devem lidar com isso?
03:40Que tipo de sugestão
03:42você colocaria nesse debate, Ricardo?
03:46Perfeita a pergunta.
03:48Eu morei seis anos na China
03:49e a China me ensinou muito isso.
03:50Porque a China não é como o resto do mundo.
03:54A China é única no mundo, na minha opinião.
03:56Por mais que eu vivi na Inglaterra,
03:57nos Estados Unidos,
03:58no México, no Brasil,
03:59apesar de ter diferenças,
04:01é tudo mais ou menos parecido.
04:02A China realmente é um negócio à parte.
04:03Lá na China, pela primeira vez,
04:04eu vi o mundo de uma outra forma.
04:07Porque o chinês vê dois mundos.
04:08Ele vê o mundo dele e o mundo dos outros.
04:10E aí os outros é todo mundo.
04:12Então, ali você começa a entender um pouco
04:14como é complexo realmente.
04:16Não é tão simples assim.
04:18E é uma ótima pergunta.
04:19Porque, na minha opinião,
04:20as marcas cometem muitos erros aí.
04:22E a primeira sugestão que eu daria
04:24para as pessoas é a seguinte.
04:24A marca tem valores.
04:26E a marca tem que seguir esses valores.
04:29Independentemente se for agradar todo mundo ou não.
04:33Porque é impossível você agradar todo mundo no mundo hoje.
04:36A religião não conseguiu fazer isso.
04:38O futebol não conseguiu fazer isso.
04:40nada no mundo vai ter, na minha opinião,
04:44100% de aderência.
04:45Então, o risco que uma marca corre
04:47tentando ser 100% para 100% das pessoas
04:50é que ela corre o risco de ser 0% para 0% das pessoas.
04:55Porque ela nunca vai ser nada.
04:57Então, eu, particularmente,
04:59acredito que a polarização no mundo do marketing,
05:01por isso que muito do mundo político
05:03acaba sendo utilizado no mundo do marketing de marcas.
05:07Eu, particularmente, acredito que a escola do marketing político
05:11é excelente para você usar no mundo dos negócios,
05:15desde que seja ética e idônea, obviamente.
05:18Mas a polarização que está ali pautada
05:21é algo que acontece no mundo das marcas.
05:25Seja porque os consumidores pedem isso
05:28ou porque a competição pede isso.
05:31Qualquer marca que está no mercado
05:32que tem mais de uma marca competida
05:34vai ter que lidar com a polarização.
05:36Então, eu, particularmente, vejo a polarização
05:38com ótimos olhos.
05:40Eu acredito que a marca não deve se esconder disso.
05:44Então, se a marca acredita que ela é de esquerda,
05:46ela tem que se posicionar na esquerda.
05:48Se ela acredita que ela é de direita,
05:49ela se posiciona na direita.
05:51Se ela não acredita nem esquerda ou direita,
05:53ela tem que encontrar uma maneira
05:54de se comunicar com as pessoas.
05:56E a boa notícia é que eu acho que
05:58no mundo da publicidade e do marketing
06:00e da criação de negócios,
06:02isso não é tão grave e agudo
06:06como as pessoas imaginam.
06:09Você deu o exemplo de dois artistas
06:11na música brasileira
06:12que defendem lados opostos da política nacional
06:15e eu ousa dizer que nenhum deles
06:18foi prejudicado na música por causa disso.
06:21Pelo contrário, eu acredito que
06:24muitas vezes as pessoas
06:26acabam separando isso bem.
06:29Isso não afeta, na minha opinião,
06:32o desenvolvimento de um negócio, de uma marca,
06:34desde que elas sejam sinceras a respeito.
06:37Como você mesmo falou,
06:39como uma pessoa, uma marca, no final do dia,
06:41é sobre transparência, honestidade,
06:43verdade, autenticidade
06:44e eu acredito muito nisso.
06:46Então, eu seguiria essa linha.
06:47Você foi falando, eu fui lembrando aqui
06:52das competições históricas,
06:54de Coca-Cola com Pepsi,
06:56aqui no Brasil de McDonald's com Bob's
06:58e como ficou complexo isso.
07:02Porque se antes era uma discussão
07:04puramente assim,
07:05o meu produto é melhor que o seu,
07:07hoje não,
07:09hoje tem essa carga política envolvida.
07:12Hoje, olha, o meu produto
07:13é mais democrata que o seu.
07:15eu apoio um hambúrguer progressista.
07:22Olha, a gente escalou numa discussão
07:25que assim, o Fernando Haddad, por exemplo,
07:27agora essa recente aqui em Davos,
07:30ele falou publicamente sobre isso,
07:33sobre boicote de produto,
07:35boicote de consumo,
07:36boicote de marca.
07:37Ele mesmo fala,
07:38ah, eu não vou comer no hambúrguer,
07:39na hamburgueria tal,
07:41não vou comprar na empresa de varejo X, Y, Z.
07:46E recomendou que as pessoas façam o mesmo.
07:52É uma loucura.
07:53Mas sabe o que é legal?
07:54A boa notícia é que sobre...
07:58A gente estava falando de influenciadores,
07:59de influência, de credibilidade.
08:02Eu não acho que...
08:03Eu respeito ele como pessoa e como profissional,
08:06mas eu particularmente não olharia para ele
08:08para pegar dica de gastronomia.
08:11Então, eu, quando ele fala isso para mim,
08:12sabe, o impacto é muito pequeno.
08:15É que o valor político disso é maior,
08:17mas o fato é que nenhuma rede de hamburgueria
08:20vai ganhar ou perder,
08:21porque ele falou isso, na minha opinião.
08:23Entendeu?
08:23Mas você tem toda a razão.
08:25As pessoas agora estão usando isso
08:27para fazer um marketing,
08:28que, na minha opinião, não tem valor.
08:30O que é o marketing que não tem valor?
08:32É o marketing que não vende.
08:35Entendeu?
08:35Então, está tudo bem.
08:37Deixa cada um falar,
08:38porque eu realmente acho que não afeta o negócio
08:41de uma forma que as pessoas...
08:44Tão profunda quando as pessoas acreditam que afeta.
09:05E aí?
09:06Tão profunda quando as pessoas acreditam que afeta.
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