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Donald Trump anunciou tarifa de 100% para filmes estrangeiros, alegando que a indústria americana vive uma "morte muito rápida". Marianna Souza, presidente da Apro e gerente da FilmBrazil, analisou os impactos da medida no mercado audiovisual global.

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Transcrição
00:00E o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou uma tarifa de 100% sobre filmes produzidos fora do país.
00:07A gente até comentou sobre esse assunto ontem aqui no Agora.
00:10Segundo ele, a indústria cinematográfica americana passa por uma fase de morte muito rápida
00:16devido a incentivos que outros países oferecem para atrair produções.
00:22A gente vai entender como que essa medida impacta o mercado audiovisual
00:26com a Mariana Souza, que é presidente da Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais, a APRO,
00:33e gerente executiva da Filme Brasil.
00:37Oi, Mari. Bom dia para você.
00:39Muito obrigada por participar ao vivo com a gente aqui do Agora.
00:42Mari, essas tarifas, como que elas realmente funcionariam, hein?
00:46A gente ainda não sabe, porque o Donald Trump, mais uma vez, soltou ali a bomba,
00:51mas não exemplificou exatamente como que isso aconteceria.
00:54se seria sobre receita de bilheteria, custo de produção, né?
00:58Ou, de repente, quanto a pós-produção, edição.
01:01Não dá para a gente saber, né?
01:04Olá, bom dia.
01:06Agradeço aí o convite.
01:08Sempre um prazer estar aqui com vocês.
01:11Então, exatamente.
01:13A gente não sabe o que está vindo por aí.
01:15A gente não sabe se são filmes que são produzidos fora, né?
01:18Existe um mercado que a gente chama que é o mercado de cash rebate,
01:25que é quando uma produção vai para outros países,
01:28ela tem esse desconto, né?
01:31Às vezes é em cima do imposto, que é gasto no país,
01:34às vezes é em cima do valor de produção.
01:36Então, tem alguns países com cash rebates
01:38super agressivos nesse sentido, né?
01:42Você vê, por exemplo, o Uruguai, que aqui do nosso lado,
01:44oferece cash rebate de 20%,
01:46inclusive para produções publicitárias,
01:48a Espanha, né?
01:50Que oferece um cash rebate de 30%.
01:52Então, a gente vê um leque desse mercado
01:56que acaba atraindo produções.
01:58Então, esse é o que a gente chama de production service,
02:00que é quando uma produção é deslocada para um outro país.
02:05E aí, não só por causa da questão, obviamente, de incentivo, né?
02:10Mas também questões de locação, questões de elenco, enfim.
02:13Uma série de variáveis que impactam aí a decisão
02:16de onde produzir uma obra audiovisual.
02:21Além disso, a gente tem uma outra questão
02:24que influencia muito a decisão de onde se fazer a produção, né?
02:29De onde viabilizar a obra.
02:33É a questão dos streamings, né?
02:35Vários países, hoje, têm uma legislação específica
02:40para produções que vão para o streaming.
02:43E alguns países também, com políticas mais agressivas,
02:47outros menos, mas tudo isso para dizer que existem cotas,
02:52que esses grandes streamings,
02:54eles são obrigados a produzir localmente
02:57para garantir produção local no catálogo desses streamings.
03:02Então, tem essa discussão também na mesa,
03:05que aí vai ser curioso para saber
03:07como é que ele vai conseguir balancear, né?
03:10Os interesses dos estúdios com esses grandes streamings
03:13que o mercado se organizou de uma outra forma hoje em dia.
03:16Então, enfim, é uma grande incógnita.
03:18A gente não sabe se vai ser em cima,
03:20essa taxação se vai ser em cima de produções
03:22que estão filmando fora,
03:23se vai ser em cima de bilheteria,
03:25se vai ser em cima só de filmes
03:27que são veiculados no cinema,
03:29ou se vai ser em cima de produções
03:32que estão no streaming também.
03:35Enfim, eu acho que agora é aguardar um pouco
03:37para ver o que vem por aí,
03:38mas a gente está acompanhando de perto.
03:41Agora, esse tom de aguardar
03:45é uma coisa que o Trump tem feito em vários setores,
03:48mas isso tem efeito, acaba tendo,
03:50por mais que você esteja aguardando,
03:51gera uma insegurança.
03:52As ações de alguns streamings,
03:54Netflix, por exemplo, caíram ontem, né?
03:56É um pouco em reação a essa possibilidade
03:59que é uma possibilidade que, no limite,
04:01ela encarece de maneira mais geral a produção.
04:05Considerando todos esses imbricamentos da indústria,
04:09quer dizer, a própria Hollywood,
04:11que o Trump estava dizendo que queria salvar,
04:14vários diretores, produtores de Hollywood,
04:17foram ao público e falaram,
04:18olha, a indústria é muito misturada,
04:20a gente escolhe produzir fora,
04:22mas é a indústria americana produzindo fora.
04:24Então, assim, não é bem assim.
04:27Não precisamos ser salvos dessa maneira.
04:29Então, eu queria que você comentasse um pouquinho mais,
04:31quer dizer, essa insegurança que ele gera,
04:34tem potencial de algum salvamento?
04:36Ou o resultado mais concreto que se pode imaginar
04:40é só essa turbulência que gera insegurança
04:44e talvez até uma redução dos investimentos
04:46e dos projetos que vão acontecendo na indústria?
04:48Obviamente, eu acho que vai ter um impacto financeiro
04:52que nenhum grande estúdio estava esperando,
04:55porque é isso, a gente está falando de cash rebates
04:58super atrativos para quem trabalha com produção audiovisual.
05:02Então, eles fazem a diferença na hora de fechar a conta, né?
05:08E, além disso, a gente vive num mundo globalizado, né?
05:13Então, enfim, é complexo você pensar no mundo de hoje
05:16onde a gente está inserido, com tanta diversidade,
05:19não só de pessoas, né?
05:20De cash, mas de locações e tudo mais.
05:24E isso não está refletido em frente das câmeras, né?
05:28Então, eu acho também esse desafio criativo,
05:32eu acho que para os diretores, para os roteiristas, enfim.
05:36Agora, eu acho que vale a gente voltar uns passinhos para trás
05:41para tentar entender um pouquinho do porquê dessa taxação.
05:46Eu acho que tem um que de proteger a indústria,
05:49porque, obviamente, é a indústria que mais fatura,
05:52mas, certamente, não é...
05:54Boa parte dos filmes não são produzidos lá nos Estados Unidos,
05:58são produzidos em outros países, enfim.
06:00Eu acho que isso é, de fato, verdade.
06:02Mas eu acho que o que está aí por trás, ali,
06:06escondido dessa atuação aí do Trump
06:08é um pouco do que a gente chama de soft power, né?
06:11A gente vê que os Estados Unidos, ao longo dos anos,
06:14eles soubeem usar isso de maneira muito precisa.
06:18Lá atrás, Segunda Guerra Mundial, enfim.
06:21A gente viu que eles disseminaram a cultura brasileira, né?
06:25A cultura do fast food, a cultura do jeans, enfim.
06:30Todos esses elementos da cultura norte-americana
06:33hoje fazem parte da vida de boa parte da população mundial
06:37por meio dos filmes que eles levaram para o mundo afora.
06:40Então, pensando um pouco nessa política externa americana,
06:45faz sentido ele retroceder nesse sentido
06:47de trazer de volta o Make American Great Again.
06:52Então, eu acho que faz um pouco sentido
06:54quando você olha sobre essa perspectiva de política de Estado.
06:59Acho que ele tentando resgatar um pouco aí
07:02o que foi feito no passado,
07:04mas, obviamente, esquecendo que hoje a gente vive
07:06num mundo completamente globalizado.
07:08É complexo falar disso sem levar em conta
07:11esses outros elementos que a gente já falou aqui um pouco.
07:14Mari, ontem eu e a Mari também comentamos sobre esse tema.
07:18A gente, inclusive, teve reportagens sobre isso.
07:20Agora, não significa que impor essas tarifas
07:23vá, de fato, proteger a indústria de Hollywood,
07:26a indústria cinematográfica?
07:27Porque, da mesma maneira como ele tem falado
07:30e tem empregado aí para tantos outros segmentos
07:32que as tarifas são uma forma de proteção
07:34para a própria indústria norte-americana,
07:37não é o caso, né?
07:39Com certeza.
07:40Eu acho que vai ser complexo, de novo,
07:43para fazer essa conta fechar.
07:45A gente viu pelo reflexo das ações aí na Bolsa.
07:49Eu acho que boa parte desses grandes estúdios
07:51tem capital aberto, enfim, se não todos.
07:53Então, vai ser, é uma conta aí desafiadora
07:56para entender como é que vai ser equilibrada, né?
08:01Eu achei interessante o que você estava trazendo
08:03sobre a questão do soft power.
08:05E aí, queria te ouvir um pouquinho mais,
08:07porque, de alguma maneira,
08:08a expansão da indústria norte-americana
08:10para outros países
08:11também é levar um pouquinho desse América
08:15para outros lugares, como você bem disse.
08:17E não necessariamente produzindo só dentro dos Estados Unidos,
08:20mas produzindo fora com o Made in America, né?
08:23Assim, está fazendo fora, mas está levando para fora
08:26o projeto, a tecnologia, a visão,
08:30que é de origem americana.
08:33Então, tem uma...
08:35Isso, os Estados Unidos fez isso muito, né?
08:37Então, ele foi também produzindo fora
08:39e a indústria se expandiu,
08:40influenciando as outras indústrias.
08:42Essa ideia de voltar,
08:44será que realmente é uma retomada?
08:45Como é que você vê essa dupla forma
08:48de fazer esse soft power que você mencionou?
08:51Seja indo para fora
08:52e colocando seus perfis nas outras indústrias
08:54ou tentando voltar e fazer isso de dentro?
08:57É só para dentro agora?
08:58Tem essa mudança de público?
09:01Então, eu acho que,
09:03quando você vai para fora,
09:04você perde um pouco os elementos internos, né?
09:08Então, quando eu falo de elementos internos,
09:10de locações mesmo emblemáticas americanas, né?
09:13Então, você perde um pouco essa identidade
09:18muito fácil de identificar
09:21do que quando você está fazendo localmente, né?
09:25Então, eu acho que Nova York,
09:28por mais que você rode Nova York,
09:30finja que seja Nova York e outros lugares,
09:33tem locações emblemáticas
09:35que você sabe que você está em Nova York.
09:37Então, eu acho que boa parte aí, né?
09:40É, de novo, tentando entender
09:41do porquê essa tarifa,
09:43porque a gente já falou aqui
09:44que em termos de salvar a indústria cinematográfica,
09:47talvez não seja o melhor caminho.
09:49Talvez, se ele fizesse uma política
09:51de cash rebate
09:52dentro dos Estados Unidos Nacional,
09:54fosse uma iniciativa muito mais propositiva
09:58do que taxar os filmes estrangeiros.
10:00Então, eu fico imaginando
10:01que talvez seja um pouco isso, né?
10:04Enfim, tentando pensar um pouco
10:05com essa cabeça Trump,
10:07que é complexo a gente chegar
10:08no que ele imagina ali,
10:12mas ontem, né?
10:13A gente aqui discutindo
10:15sobre o impacto dessa medida,
10:19e aí houve essa reflexão de,
10:21puxa vida, talvez ele esteja ali no fundo
10:24tentando resgatar aquele momento
10:27de Make America Great Again,
10:29das pessoas se verem ali
10:31representadas nos filmes,
10:33enfim,
10:33e fortalecer essa indústria localmente.
10:38Enfim, não sei se é o melhor caminho,
10:40sigo com essa grande interrogação,
10:43porque, de fato,
10:45a indústria se beneficiou muito, né?
10:48Dessa saída
10:49para filmar em outros países,
10:51e alguns países
10:53basicamente dependem dos Estados Unidos,
10:56não é o nosso caso,
10:57mas México, por exemplo,
10:59é um país que basicamente,
11:01a indústria cinematográfica mexicana
11:03basicamente vive, né?
11:04Para atender Hollywood,
11:06então, enfim,
11:07vai ter um impacto pesado aí
11:09em alguns países
11:10que dependem dessa demanda americana.
11:14É, e a gente segue acompanhando, né?
11:16Porque, mais uma vez,
11:17cada dia é uma surpresa diferente,
11:19ele vai atacando por todas as frentes, né?
11:21Agora foi a indústria cinematográfica.
11:23Ela sempre querendo entender
11:24a cabeça do Trump, viu, Mariana?
11:25Ela fica aqui, dia após dia.
11:28É, eu fico tentando
11:29para a Mari,
11:29Mari, mas o que será
11:30que ele está pensando, Mari?
11:31O que será que ele está pensando?
11:32Joguei para você também,
11:33mas, enfim,
11:34acho que a gente nunca vai entender isso, né?
11:36Muito obrigada, viu?
11:38Mariana Almeida,
11:39presidente da Associação Brasileira
11:40da Produção de Obras...
11:42Desculpa,
11:43confundi aqui,
11:44é que são duas Marianas, né?
11:46A Mari Almeida
11:46e Mariana Souza.
11:48Perdão, Mari.
11:49Então, Mariana Souza,
11:50presidente da Associação Brasileira
11:52da Produção de Obras Audiovisuais
11:54e gerente executiva da Filme Brasil.
11:56Muito obrigada, viu,
11:57pela gentileza
11:58de participar ao vivo com a gente.
12:00Uma ótima semana para você.
12:03Eu que agradeço,
12:04sempre uma honra,
12:05ainda mais estar dividindo
12:06com duas mulheres maravilhosas.
12:09Então, prazer estar aqui com vocês.
12:10A gente que agradece.
12:11Bom dia.
12:12Obrigada.
12:13Obrigada.

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