- há 2 horas
A Maria Clara viajou até o Marajó para visitar sítios arqueológicos que atraem pesquisadores do mundo todo. Neste episódio, entenda a importância de se estudar as sociedades complexas do arquipélago paraense.
O Mundo Super é exibido todo domingo às 15h no Veja+TV, canal lançado em 2025 pelo Grupo Abril. É de graça. Basta estar conectado à internet.
No episódio de hoje: uma nova espécie de pinguim, as ruínas da escola de Alexandre, o Grande e uma entrevista sobre a nova série da Marvel, VisionQuest.
Mundo Super
Quando?
Todo domingo às 15h.
Reprises às quartas, 21h.
Onde?
Canal Veja+TV:
Samsung TV Plus (canal 2059)
LG Channels (126)
TCL (10031)
Roku (221)
App NXTV
site de Veja.
Os episódios também ficarão disponíveis no YouTube.
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Categoria
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AprendizadoTranscrição
00:03Você está vendo o caminho que o rover Perseverance, da NASA, percorreu em Marte ao longo de cinco anos.
00:10Esse robô atingiu a marca de 45,2 km no planeta vermelho em 11 de outubro desse ano.
00:17É mais que uma maratona. Essa é a maior distância que um veículo já percorreu na
00:22superfície de um planeta que não seja a Terra. 45 km pode parecer pouco, mas é bem mais do que
00:28os primeiros veículos que pisaram em Marte. O Sojourner, enviado em 1997, andou só 103 metros.
00:37Já o Opportunity, que operou entre 2004 e 2018 e era o recordista antes do Perseverance,
00:44chegou a um pouquinho mais de 45 km. Esses veículos são responsáveis por analisar a superfície marciana
00:51e enviar informações à Terra. O Perseverance, por exemplo, já encontrou vestígios indicando que o
00:57planeta já pode ter abrigado vida microscópica no passado.
01:04Olá, tá começando mais um Mundo Super, o programa semanal da Superinteressante na Veja Mais TV e no YouTube.
01:10Toda semana a gente traz para você as principais notícias da ciência, da tecnologia, da cultura e de vários outros
01:17assuntos.
01:17E nesse episódio você vai ver o maior mamífero que viveu na Era dos Dinossauros.
01:23Uma mudança na maneira como medimos o tempo. Um bate-papo sobre uma civilização antiga da Amazônia.
01:30Tudo isso e muito mais logo depois da vinheta.
01:49O mamífero enorme e misterioso caminhou pelo Brasil 130 milhões de anos atrás.
01:56Naquela época, os dinossauros dominavam a Terra e os mamíferos eram bem diferentes do que são hoje.
02:02Eles eram pequenininhos, ariscos e quase sempre acabavam nas presas dos grandes répteis.
02:08Mas tinha um mamífero com porte para encarar de frente pelo menos alguns dinos.
02:13Essa imagem que você está vendo aí na tela é um palpite de como seria o mamífero que caminhou nas
02:19dunas do que hoje é o sul do Brasil.
02:21As pegadas dele mediam mais de 10 centímetros de comprimento e 13 de largura, parecido com o tamanho das patas
02:29de âncora e de capivara.
02:30Era algo enorme para a época.
02:32Agora, pesquisadores brasileiros propõem que esse animal pode ter sido o maior mamífero a conviver com os dinossauros.
02:40As pegadas foram encontradas na formação Botucatu, na Bacia do Paraná.
02:44Há 130 milhões de anos, a região fazia parte de um deserto que se estendia pelo Brasil e pelo sudoeste
02:51da África, quando essas regiões ainda eram conectadas no supercontinente gonduana.
02:56A formação Botucatu costuma ter pegadas bem pequenas, com as maiores tendo até 5 centímetros de comprimento.
03:04O novo mamífero encontrado tem o dobro disso.
03:07Com base nas pegadas, os pesquisadores estimam que o animal tinha até 1,5 metro de comprimento, equivalente ao tamanho
03:14de uma capivara ou de um leopardo.
03:16Os cientistas também verificaram que ele tinha características típicas dos mamíferos.
03:22Patas largas, quatro dedos curtos e rastros compatíveis com uma marcha em quatro patas.
03:29Como o bicho não deixou ossos fossilizados, não dá para cravar o tamanho ou a espécie do animal.
03:35Mas os cientistas têm suas opostas.
03:37Eles acreditam que esse animal pertence ao grupo dos triconodontes, ou ao dos cladotérios.
03:43Esse último pertence à linhagem que deu origem à imensa maioria dos mamíferos vivos hoje, inclusive nós.
03:50A gente não sabe por que esse mamífero era tão maior que os outros.
03:54Acredita-se que a competição por comida com dinossauros, crocodilos e pterossauros
04:00foi o que deixou mamíferos daquela época pequenos no geral.
04:04Os grandes répteis comiam de tudo, enquanto os mamíferos ficavam com sementes e insetos.
04:10Por isso que esse mamífero do estudo é um ponto fora da curva.
04:14Foi só quando os dinossauros foram extintos há 66 milhões de anos que diferentes linhagens de mamíferos passaram até um
04:21tamanho maior.
04:22Ô Rafa, eu tenho uma informação para você.
04:25Fala.
04:25O nosso dia, na verdade, não tem 24 horas.
04:28Mentira.
04:29Pois é.
04:30Na verdade, a rotação que a Terra faz em torno do próprio eixo tem 24 horas e alguns milissegundos.
04:35Ah, tá bom. Beleza.
04:38Para lidar com essa diferença, na década de 1970, os cientistas criaram o segundo intercalar.
04:46A cada poucos anos, um segundo é adicionado aos relógios do mundo todo,
04:50para alinhar a nossa contagem do tempo com o real período de rotação da Terra.
04:55Só que mexer nos relógios do mundo todo pode causar problemas na infraestrutura de redes digitais, como GPS, voos, sites
05:06e outros tipos.
05:07Quem cuida desse tipo de problema é o Escritório Internacional de Pesos e Medidas e os padrões internacionais de tempo,
05:14peso e distância.
05:15Depois de anos de discussões, os cientistas desse escritório votaram pelo fim dos segundos intercalares.
05:22A decisão foi aprovada na metade de outubro, durante uma conferência na França.
05:27Só que isso não resolve o descompasso entre os nossos relógios e o tempo de rotação da Terra.
05:32Em vez de corrigir um segundo a cada alguns anos, os cientistas vão deixar essa diferença se acumular.
05:38E só vão corrigir os relógios quando ela chegar a uma hora de discrepância.
05:43Isso só vai acontecer daqui a vários séculos.
05:45Olha, eu já joguei alguns problemas para o futuro, mas a gente está falando de um outro nível de adiamento.
05:52Os pesquisadores consideram essa uma mudança importante, porque já rolaram problemas com o segundo intercalar.
05:59Em 2012, a adição de um segundo no ano gerou atrasos em voos e fez alguns servidores travarem, como os
06:06do LinkedIn e o do fórum Reddit.
06:09Desde 1972, 27 segundos intercalares já foram adicionados aos relógios.
06:15Desde 2022, cientistas, autoridades e profissionais das telecomunicações têm buscado uma solução para o problema do segundo intercalar.
06:25Agora, com a hora intercalar, a medição de tempo internacional vai deixar de receber ajustes frequentes e passará a correr
06:32de forma contínua.
06:34A gente vai para um breve intervalo, mas fica aí que na volta você vai acompanhar um bate-papo entre
06:39eu e a Maria Clara
06:40sobre uma reportagem que ela fez no Marajó. Fica aí!
06:50Estamos de volta com o Mundo Super, o programa semanal da Super Interessante na Veja Mais TV.
06:54Agora, eu quero convidar você a assinar a Super. Além de fazer o programa de TV toda semana, a nossa
07:01equipe também produz uma revista impressa, como essa daqui, ó.
07:06Todos os meses com reportagens e infográficos sobre vários assuntos. Se você gosta do programa, com certeza vai gostar da
07:13revista também.
07:14E para assinar e receber ela em casa, é só escanear o QR Code que está aparecendo aí na tela.
07:20Sabe quando um amigo ou parente seu viaja e depois ele quer reunir todo mundo para mostrar as fotos da
07:25viagem?
07:26É o que a gente vai fazer nesse bloco. A Maria Clara foi até o Marajó, no estado do Pará,
07:31para fazer uma reportagem sobre antigas sociedades da Amazônia.
07:36Má, algumas pessoas já sabem que você nasceu em Belém, morou no Pará até a adolescência. Você já tinha ido
07:42para o Marajó ou foi a sua primeira vez?
07:43Foi a minha primeira vez. Inclusive, eu achava um absurdo nunca ter visitado o Marajó. Eu não sabia muito sobre
07:49o Marajó. Só que eu já tinha contato com algumas coisas do Marajó.
07:55Esse daqui, eu não sabia. Eu cresci vendo esse orelhão. Eu não sabia o que era. Eu achava só um
08:00negócio esquisito mesmo.
08:02E depois, apurando essa reportagem, descobri que essa é uma representação de uma urna funerária marajoara.
08:09E aí, vocês lendo a reportagem, vendo fotos, vocês podem ver. Tem vários exemplos de urnas assim.
08:15E eu não sabia. Então, eu cresci vendo já coisas do Marajó, mas não sabia que...
08:20Eram caminhos lá de Belém.
08:21Lá de Belém, sim. Que ia me levar a, eventualmente, enfim, fazer essa reportagem e lembrar disso tudo.
08:27Então, foi bem significativo. Mas eu não sabia muito. Eu fui descobrindo muito sobre a cultura marajoara enquanto fiz a
08:33reportagem.
08:35Bom, e o que de tão incrível você descobriu sobre o Marajó que te inspirou a fazer essa reportagem?
08:41E também inspirou pesquisadores de vários séculos a irem até esse pedaço do Brasil?
08:46Então, a primeira pessoa que me falou do Marajó foi a Bela, né?
08:51Que de vez em quando aparece aqui no Mundo Super como apresentadora também.
08:54Ela já foi pro Marajó, já tinha falado coisas incríveis de lá, falando que eu tinha que conhecer.
08:59E aí, o Carbes também, outro editor da Super, falou que tinha visto algo sobre sociedades antigas do Marajó, sociedades
09:07complexas.
09:08E aí, eu fiquei interessada e como eu conheço o Pará, tenho família lá, resolvi visitar.
09:15E eu queria muito visitar um sítio arqueológico. Eu não encontrei nenhuma escavação em andamento,
09:20conversei com pesquisadores pra ver se eu achava, mas eu visitei um sítio que é o Teso dos Bichos.
09:26Isso daqui é um vídeo que eu gravei lá, chegando no Teso. O Teso é essa coisinha aqui no fundo.
09:32E o que é um Teso? Lá no Marajó, é muito ditado pela variação do nível do rio, né?
09:41Então, por exemplo, quando a água sobe, fica tudo alagado, quando a água desce, fica tudo seco.
09:47E as antigas populações que moravam no Marajó construíam esses Tesos que são elevados de terra
09:52pra poder morar lá em cima e se proteger da variação da água.
09:57Então, era uma engenharia complexa, assim, um manejo de terra muito complexo que esses povos faziam.
10:04E é por isso, inclusive, que a gente fala que eles eram uma sociedade complexa.
10:09Aqui, chegando lá no Tristezo, encontrei muitos artefatos arqueológicos, muitos cacos de cerâmicas mesmo.
10:18Era uma população, uma sociedade que fazia muita cerâmica.
10:21E aí eu fiquei em choque, porque eu jamais imaginei que eu fosse ver tanto...
10:26Isso, aqui é o Teso lá no final.
10:27Eu fui na época de seca, então dá pra ver que a região tá bem seca.
10:31Mas quando alaga, falam que você tem que chegar até aquele ponto do Teso de barco.
10:36Então, você tem que pegar uma canoa pra ir navegando até chegar no Teso.
10:40E isso daqui é um pouco do que eu encontrei quando cheguei lá no Teso.
10:43Você falou que ficou muito surpresa. Você até mandou mensagem pra gente.
10:46Sim.
10:47E era um sítio arqueológico que mais parecia um canteiro de obras, né?
10:49Sim, porque tinha muita cerâmica e uma cerâmica mais avermelhada, inclusive.
10:55Algumas tinham essas...
10:57Esses desenhos.
10:58Esses desenhos, exato.
11:00Que o povo marajoara fazia.
11:04A gente tá falando de uma população que habitou o Marajó antes da chegada de Cabral.
11:08Então, depois eu vou explicar um pouquinho mais das fases e de como que ela foi descoberta.
11:13Mas é isso.
11:15É um sítio arqueológico que eu tinha que ficar tropeçando, assim, pra não pisar na cerâmica mesmo.
11:24E é comum a galera que visita acabar levando, ir embora?
11:28Todo mundo.
11:28Todo mundo.
11:29Todo mundo.
11:29O motorista que me levou até lá falou que todo mundo leva.
11:33Você não pode levar.
11:35Esse é patrimônio do Estado, né?
11:37Do Brasil.
11:38Da União.
11:39Mas todo mundo leva.
11:41É porque é tanta cerâmica que dá vontade de falar, ah, eu vou pegar uma coisinha aqui, mas...
11:45E não é fácil de chegar.
11:46Você pegou vários modais pra chegar lá, né?
11:49Sim.
11:49Eu saí de Soury, que é a cidade mais turística do Marajó.
11:54E demorei umas três horas até chegar nesse teso.
11:57Passando por duas balsas.
12:01Eu cruzei um rio descalça.
12:03Eu até tirei foto do meu pé em Lamaçado, mas não quis colocar aqui, né?
12:06Porque é obrigado a fazer isso.
12:10E passei por dois rios em Lamaçado.
12:13Tive que tirar o tênis pra passar.
12:15Foi bem difícil e um calor terrível, né?
12:18O Marajó é muito quente.
12:20Mas valeu muito a pena, assim.
12:22Foi uma das experiências mais significativas que eu já tive.
12:25Nunca achei.
12:26Porque a gente sempre escreve sobre arqueologia, né?
12:28Na Super.
12:29Já escrevi muito sobre pesquisa.
12:31Só que geralmente a gente lê o paper, vê as imagens, conversa com os pesquisadores,
12:34mas não está lá, de fato, onde são feitas as descobertas.
12:38Então isso foi muito bacana da reportagem.
12:41Legal.
12:41Vou pedir pra produção colocar a linha do tempo que você tinha mencionado.
12:46E, enquanto isso, eu queria que você explicasse...
12:49Você falou várias vezes que são sociedades complexas.
12:52E aí eu queria entender se essa complexidade é por causa das coisas que eles faziam,
12:56da cerâmica e tudo mais, ou se tinha algo além na organização deles, assim.
13:01Então, conversando com arqueólogos, a gente tem que tomar muito cuidado
13:04pra não usar a palavra complexa como se fosse sinônimo de evolução, sabe?
13:10Porque essa era uma visão que existia antigamente de que, ai, tais povos são mais evoluídos
13:16do que outros e, hoje em dia, essa não é uma visão aceita pela arqueologia moderna.
13:22Quando a gente fala de sociedade complexa, a gente está falando de uma sociedade que tinha uma divisão de trabalho.
13:28Então, as pessoas que estavam ali, tipo, ah, tinham as pessoas especializadas em fazer cerâmica,
13:33tinham as pessoas especializadas em construir os tesos, em manejar os lagos, a pesca.
13:40Então, é isso que a gente fala quando...
13:43Dessa divisão do trabalho e organização política também.
13:46Porque, provavelmente, existiam cacicados, não só no Marajó, mas em outros lugares da Amazônia,
13:52em que um cacique, uma família, controlava não só a própria aldeia, mas outras ao redor.
13:59E essa daqui são as fases da cerâmica.
14:02A gente estuda muito a cerâmica pelas fases delas,
14:06porque quando a gente pensa em aldeias, elas não deixaram...
14:10Não tem aldeias para a gente estudar, por exemplo, ocas ou algo assim,
14:16porque são materiais orgânicos que acabam se degenerando, né?
14:22Com o tempo.
14:23Mas a cerâmica fica.
14:25Então, quando encontraram a cerâmica pela primeira vez no Marajó,
14:30tem um casal de pesquisadores chamado Betty Maggers e Clifford Evans,
14:37que foram um dos primeiros grandes pesquisadores da cerâmica marajoara.
14:41E aí eles fizeram essa classificação.
14:43São eles aqui.
14:44Imagina você ir num rio e encontrar isso daqui.
14:48Isso é nos anos 1950, se não me engano, essa foto.
14:52E eles encontraram muita cerâmica lá, encontraram essas urnas funerárias,
14:56e eles fizeram aquela classificação das fases, né?
14:59Que tá colocada na linha do tempo.
15:02Que teria uma cerâmica mais, entre aspas, simples,
15:07chamada nanatuba, depois passou pra mangueira, formiga,
15:11e o auge da sua cidade seria a cerâmica marajoara,
15:15que foi encontrada, que é datada, né?
15:19Um pouco depois de Cristo, entre 300 e 400 d.C.
15:23até 1300, 1400 d.C.
15:26Tudo isso antes da chegada dos portugueses no Brasil, né?
15:30Só que hoje... E aí, o que eles propunham?
15:33Eles falavam que a Amazônia era um ambiente muito hostil,
15:37que nenhuma sociedade poderia se desenvolver plenamente na Amazônia.
15:42Então, que os marajoaras seriam uma população diferente desses outros, né?
15:47Da nanatuba, mangueiras e formiga.
15:50E aí, eles teriam vindo dos Andes.
15:53Então, eles navegaram pelo rio Amazonas e chegaram ali e acabaram se...
15:59Nas palavras deles, que é algo que a gente não aceita mais hoje,
16:03mas acabaram desevoluindo ou degenerando por causa do ambiente hostil.
16:07Isso foi proposto lá nos anos 50, 60.
16:11E aí, essa visão permaneceu por muito tempo.
16:15Até que, nos anos 90, veio uma pesquisadora chamada Anna Roosevelt,
16:20que é, inclusive, bisneta...
16:22Não, é neta. Neta do...
16:24Theodore Roosevelt.
16:24Theodore Roosevelt.
16:26Sim, exato. Ex-presidente americano.
16:28E ela era arqueóloga.
16:30Se interessou muito pelas sociedades, pelas civilizações da Amazônia.
16:33E ela disse...
16:34Não, na verdade, quando a gente data direitinho as coisas
16:37e faz a estratigrafia do solo e vê a relação entre as cerâmicas,
16:45a gente vê que, na verdade, a cerâmica marajoara,
16:49ela é uma continuidade de outras cerâmicas que se desenvolveram no Marajó.
16:53Então, a gente tem esses povos habitando o Marajó
16:57desde 1500 antes de Cristo.
17:01Ou 1800, eu não lembro agora a data.
17:04Mas, muito antes de Cristo, já existiam povos ali habitando o Marajó.
17:09E eles foram desenvolvendo essa cerâmica até...
17:13E resultaram na cerâmica marajoara.
17:15Tem esse livro aqui, que eu usei muito pra minha apureção.
17:19Que é de um...
17:20Sim, é gigantesco.
17:21Foi difícil de achar, tá?
17:22Que é da Denise Chan,
17:24que é uma das grandes pesquisadoras da cultura marajoara, do Marajó.
17:29Que é dessa vertente também.
17:30Ela fala que os povos marajoaras se desenvolveram no próprio Marajó,
17:37na própria Amazônia.
17:38E que a Amazônia não é um ambiente hostil.
17:39Que haviam sociedades complexas lá.
17:42Legal.
17:42Então, depois da Ana Roosevelt surgiram outros pesquisadores com essa linha de pensamento.
17:48E que estão aí até hoje.
17:49A própria Cristiana Barreto, com quem eu conversei pra reportagem também, é dessa linha.
17:55E estuda a iconografia da população do Marajó também.
17:59O que é bem legal.
18:00Legal.
18:01Bom, você foi contando essa linha do tempo.
18:03E você conversou com muitos pesquisadores e outros profissionais ali da região.
18:10Então, eu queria entender como que é o estudo, hoje, da arqueologia marajoara.
18:15Como que é a relação das pessoas com os sítios arqueológicos, com essa cultura da ilha.
18:22Então, a maioria das escavações ocorreram no passado.
18:25Porque você precisa de projetos de financiamento pra ir lá e escavar.
18:29Não são coisas simples.
18:31Então, muitos pesquisadores, hoje, estudam objetos que já estão escavados.
18:38Já estão nos museus.
18:39Então, por exemplo, tem uma urna marajoara.
18:41E você vai estudar a iconografia dela.
18:44O que significa.
18:45Quais são os animais ali representados.
18:47Qual era a cosmologia daquela população.
18:49O que eles acreditavam.
18:51E muitas urnas estão no Museu do Marajó, inclusive.
18:55Que é um museu lá.
18:57Fica em Cachoeira do Arari.
18:59Que é super difícil de chegar também.
19:01Porque tem que passar por uma balsa.
19:04Enfim, terrível.
19:06E essas são algumas das urnas que estão lá dentro.
19:10O museu é maravilhoso.
19:11As pessoas que fazem o museu são maravilhosas.
19:15E tem essa reunião de urnas.
19:17E também de fragmentos das urnas.
19:22Essas urnas eram usadas em rituais funerários.
19:24Isso.
19:25Você primeiro enterrava a pessoa no chão.
19:29Sem nada.
19:30Esperava a matéria orgânica se decompor.
19:33E depois pegava ela e colocava dentro de uma urna.
19:37Urna fabricada.
19:37Provavelmente existia algum ritual em torno da urna.
19:40E enterrava de novo a urna.
19:43Tanto que muitas urnas são encontradas com ossos dentro.
19:47É.
19:48E aí tem várias delas.
19:49Essa daqui.
19:50Aquela ali era parecida com o próprio...
19:54É...
19:55A cabine telefônica.
19:55A cabine telefônica.
19:57Pois é.
19:57É.
19:57E aí tem muitos grafismos.
20:00Eles usam muitas...
20:01Usavam muitas formas geométricas.
20:04Como dá pra ver essas excisões assim.
20:06Uhum.
20:07Então...
20:08É...
20:08Muita gente estuda essas peças que já estão nos museus.
20:12Só que ainda tem escavações acontecendo.
20:16É...
20:16Pessoas que acabam achando.
20:18E aí eu fui no laboratório de restauração do Museu Emílio Guilde.
20:22Que...
20:23Que é um grande centro de pesquisa lá do Pará.
20:26Fica em Belém?
20:26Fica em Belém.
20:27Sim.
20:28E aí eles recuperaram algumas...
20:31É...
20:31Quando eu fui...
20:33Eles tinham recuperado alguns fragmentos de...
20:35Tinha acabado de chegar dentro de uma...
20:37De uma caixa.
20:38Vários fragmentos.
20:39E...
20:40E aí o pessoal ia aqui.
20:42Os fragmentos ficam guardados aqui dentro.
20:45E...
20:45E aí você tem que remontar a urna.
20:48Então é um trabalho de quebra-cabeça mesmo.
20:51Porque...
20:52É...
20:53É raro encontrar uma urna ou qualquer outro artefato inteiro, né?
20:56Intacto.
20:57Então...
20:58Eles tinham acabado de receber e vai fazendo esse trabalho como se fosse um quebra-cabeça mesmo.
21:02E colando.
21:03E aí tem várias técnicas de restauração que eles me explicaram lá.
21:06Eles chegaram nessa caixa aqui.
21:08É...
21:08Então foi...
21:09Foi muito bacana ver também o tanto de gente dedicada a...
21:14A manter...
21:15A preservar essa...
21:17Essa cultura e essa arqueologia mantê-la viva.
21:22Então...
21:23É...
21:23Aí eu visitei lá o laboratório de restauração.
21:27E a população local também se preocupa muito em...
21:31É...
21:32Em...
21:32Manter a cultura da...
21:36E a tradição da cerâmica viva.
21:38Uhum...
21:40Então...
21:40É...
21:40Tem ateliês...
21:41Hoje em dia tem muitos ateliês de cerâmica.
21:43Que se inspiram naquela estética.
21:45Sim, exato.
21:47Exato.
21:47E acaba sendo uma fonte de renda pra população de lá.
21:50Eu cheguei a visitar um ateliê.
21:52Aqui eu fiz um pouquinho de cerâmica.
21:55Aprendi...
21:55É...
21:56Com...
21:57Com...
21:58Com o pessoal lá.
22:24É...
22:25Que eles fazem lá.
22:26Gostei muito de visitar.
22:28E eles fazem ainda com as mesmas...
22:31Com técnicas que a gente acredita que os povos marajoares faziam.
22:34Então, por exemplo, a tinta não é tinta sintética.
22:37É tinta de...
22:39Que você pega no chão mesmo.
22:41O...
22:41Tem um óxido específico.
22:43Um minério específico.
22:44É...
22:45De ferro.
22:46Que...
22:46Que você amassa e se torna a tinta.
22:49Então tem tinta branca.
22:50Tem tinta vermelha.
22:52E a preta, principalmente.
22:54E...
22:54Enfim.
22:55E aí o...
22:57O...
22:57Os...
22:58Artesãos lá.
22:59É...
22:59Me falaram como que eles fazem as decisões.
23:01Qual é a lógica que eles seguem pra cada peça.
23:03E...
23:04E...
23:05Eu nunca fui num lugar em que eu percebi que a população conhecia tanto sobre a própria história.
23:11Porque você vê aqui em São Paulo ou em outras regiões.
23:15A gente sabe pouco sobre o que existia no nosso território.
23:18Os povos indígenas no nosso território.
23:21É...
23:21Antes da...
23:22Da colonização, por exemplo.
23:24E lá eles tentam manter isso muito vivo.
23:26Então...
23:27Foi muito bonito.
23:28Foi uma viagem muito significativa pra mim.
23:30E a reportagem também foi muito...
23:32Muito incrível.
23:33Eu descobri histórias que eu não fazia ideia.
23:36Descobri...
23:36Conheci pessoas maravilhosas que...
23:39É...
23:40Se esforçam próprio...
23:41No próprio Museu do Marajó.
23:42Tem uma história belíssima.
23:44É...
23:44As pessoas que moram em Cachoeira do Arari.
23:46Todas conhecem o Museu do Marajó.
23:48A história do Museu do Marajó.
23:50Que é belíssima.
23:50Escrevi também o texto pra Super.
23:52Sobre...
23:52Só sobre o museu.
23:53Que já é uma história...
23:54Assim...
23:55A parte.
23:56E...
23:57E...
23:58Muita gente faz parte da associação de manter o museu vivo.
24:01E vão muitas escolas pra lá.
24:03Do próprio Marajó.
24:04Então eu acho que...
24:05Que é uma região muito rica em...
24:08Em conhecimento.
24:10Cultura.
24:11É...
24:11Enfim.
24:12Vale muito a pena...
24:13É...
24:14Conhecer o Marajó.
24:16E...
24:16E também conhecer a história.
24:17Caso...
24:18Não dê pra ir até o Marajó de fato.
24:20E tem...
24:21E tem um movimento...
24:22Da ilha de tentar trazer de volta...
24:25Peças marajoárias que estão expostas pelo mundo, né?
24:28Tentar...
24:28Sim.
24:28Retomar o seu lugar de origem, né?
24:31Sim.
24:31Porque o que acontece...
24:32É que...
24:33Lá nos anos...
24:34Sei lá...
24:35Final do século 19...
24:37Início do século 20...
24:39As escavações eram mais...
24:41Saques, assim.
24:42Porque não existia regulamentação do que está saindo do Brasil.
24:45É...
24:45Então muitos pesquisadores acabavam vindo pra cá.
24:49É...
24:50Não existia uma legislação de artefatos arqueológicos.
24:54Não existia o IFAM na época, por exemplo.
24:56É...
24:57No final do século 19...
24:58Início do 20...
24:59Então...
25:00É...
25:00Os pesquisadores e museus acabavam tirando muitas peças.
25:03Que hoje estão espalhadas pelo mundo todo.
25:05E que na época eram tratadas muito como curiosidades.
25:08Tipo, nossa...
25:09Povos da Amazônia.
25:10Uma coisa meio...
25:11Exótica.
25:12E que...
25:13E que hoje em dia a gente consegue estudar com mais metodologia.
25:16É...
25:17De uma forma mais...
25:18É...
25:18Respeitosa também.
25:20É...
25:20Só que muitas peças acabaram saindo nessa época.
25:23Muitas peças grandes, importantes...
25:25Que estão em museus da Europa.
25:26Estão em museus dos Estados Unidos.
25:28E existe um manifesto de pesquisadores e da população local.
25:32Que foi construído.
25:34É...
25:34Pra que esses artefatos voltem pro Brasil.
25:38Hoje a gente tem o Museu do Marajó que pode abrigar esses artefatos.
25:41A gente tem o próprio Museu Guild.
25:43É...
25:44Museus em São Paulo até.
25:45Preferencialmente esses artefatos ficariam no Marajó, né?
25:49Ou pelo menos no Pará.
25:50Mas...
25:51Trazê-los pro Brasil...
25:53É...
25:53É um movimento...
25:55Repatriá-los, né?
25:56É...
25:56É...
25:57Exato.
25:57Com fósseis e outras coisas.
25:58É...
25:59A gente tem visto muito esse movimento com fósseis que saíram do Brasil ilegalmente.
26:02E que estão sendo repatriados, né?
26:04Então também existe esse movimento com os artefatos do Marajó.
26:09Legal.
26:09Má, obrigado por compartilhar pelas fotos.
26:12Uhum.
26:12Se vocês quiserem ler a reportagem completa da Maria Clara, tá na edição de outubro
26:18da Super Interessante.
26:19Essa aí.
26:20E também no site da Super.
26:22Uhum.
26:25O Mundo Super vai ficando por aqui, mas semana que vem tem mais.
26:29O programa vai ao ar às três da tarde, todo domingo, na Veja Mais TV.
26:33E se você quiser assistir a esse e outros episódios do Mundo Super,
26:37é só acessar o canal da Super Interessante no YouTube.
26:40Valeu e até semana que vem.
26:42Até.
26:42Tchau.
26:54Tchau.
27:00Tchau.
27:02Tchau.
27:02Tchau.
27:08Legenda Adriana Zanotto