- há 3 horas
Produtor musical e jornalista, Edu Henning entrevistou 260 artistas e personalidades culturais durante a quarentena provocada pela pandemia do novo coronavírus. Confira no canal do vocalista da icônica banda Big Beatles lives que abordam desde a trajetória musical a questões curiosas de importantes nomes da música brasileira.
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NotíciasTranscrição
00:12Edu, querido, muito feliz em te ver, te ouvir, oh querido, feliz estou eu, feliz estou eu,
00:21obrigado pelo convite, viu? Como é que você está levando esses dias aí, está trabalhando,
00:25conseguindo administrar as coisas, saindo ou trancafiado, produzindo mais, que às vezes
00:31também tem isso, acaba rendendo. Rapaz, eu tive fases e fases nesses, em primeiro lugar,
00:40obrigado pelo convite, obrigado a você, assisti em suas outras entrevistas, algumas, parabéns pelo
00:48teu programa, que eu acho isso um programa, todo o que acontece é um programa, então,
00:54parabéns. Eu vou ser sincero que eu não tinha pensado assim não, mas eu acho que você tem razão.
01:02Rapaz, eu tive momentos e momentos, sabe, durante essa pandemia, logo quando começou a pandemia,
01:10eu fiquei muito angustiado e acho que todo mundo ficou, ninguém sabia o que a gente estava enfrentando,
01:16ainda não sabe, ainda não sabemos direito, mas nós já temos uma noção do que estamos enfrentando,
01:22então a angústia diminui um pouco. E quando eu estou angustiado, Edu, eu não costumo ser muito criativo
01:30no sentido de composição, eu não sei criar na angústia, eu sei criar na tristeza, eu sei criar na alegria,
01:38na angústia é um barco que não me leva, sabe.
01:42Ou talvez um momento novo, porque a gente às vezes fica angustiado por um período mais curto, né,
01:48a gente dessa vez, a angústia teve um espaço maior na nossa vida, e talvez a gente não saiba ainda
01:55administrá-la de forma mais comum, como administra a alegria, que não deixa ser excessiva,
02:01e a mesma coisa como consegue administrar a tristeza, mas ficar livre logo e seguir a vida.
02:08A angústia é uma novidade.
02:11É, eu acho que quando a gente está lá em cima ou lá embaixo, né, a gente ali, a gente
02:18consegue
02:21tentar se expressar melhor para sair, ou para traduzir isso, né, ou para sair, no caso, na tristeza.
02:28Mas a angústia, você não tem resposta para ela, né, ela fica ali e você não consegue,
02:35eu realmente, eu na angústia, não consigo ser muito criativo, mas no início de tudo,
02:42quando a gente começou a viver tudo isso, eu precisei também do remédio da música,
02:50eu sempre falo, né, que arte é um remédio, é uma cura, né, e eu estava precisando ser curado,
02:56e vi que tinha muitas pessoas que precisavam também viver um pouco essa cura, e eu, por ser
03:03artista, eu queria usar disso, tanto para as pessoas quanto para mim mesmo, e vi que estava
03:09funcionando muito bem, então eu fiz, fazia uma live por semana, peguei músicas minhas
03:16antigas, que há muito tempo que eu não cantava, e que as pessoas também ainda não conheciam,
03:21porque não estava em nenhum dos meus álbuns, então comecei a fazer vídeos em casa, cantando
03:27elas, e comecei a lançar, e aí na próxima live eu cantava aquela música que eu tinha
03:31lançado um vídeo, e fui criando um movimento que foi me curando, que foi me fazendo bem,
03:37e que eu senti que estava fazendo bem para as pessoas, e mantive isso.
03:42E aí depois teve um outro momento, que foi um momento que quando Aquarupe, que é a gravadora
03:49que é minha parceira, me propôs, né, da gente fazer músicas novas, lançar músicas novas,
03:58minhas, né, viu que eu estava fazendo esse movimento, falei assim, pô, então vamos lançar
04:03músicas novas suas em parceria com Aquarupe, eu falei assim, vamos, e aí chamei o Dudu Viana,
04:09que é o produtor desse novo trabalho, um grande, você conhece o Dudu Viana, o trabalho dele?
04:13Conhece, resultado fenomenal.
04:17Maravilhoso, maravilhoso, um querido, um artista, um compositor de produção, né, no sentido
04:27de produção, um cara criativíssimo e muito inteligente no que ele faz.
04:33Aí chamei ele, e a gente começou a fazer esse novo trabalho, e aí foi o segundo momento,
04:38foi o momento que aí eu já estava lançando minhas coisas, construindo um outro momento,
04:43aí deixei de lado um pouquinho as lives, e tantas coisas foram surgindo, assim, meu trabalho
04:49infantil, depois de quatro meses parado, que eu estava fazendo trabalho infantil, a gente
04:53começou a gravar em janeiro, ninguém sabia dessa pandemia, começamos a gravar em janeiro,
04:59combinei em outubro do ano passado, outubro, novembro, com o Ben Gil, que é o produtor desse
05:03trabalho infantil, e ele chegou pra mim e falou assim, Chiari, vamos fazer em janeiro?
05:09Porque ele falou o seguinte, ele falou assim, cara, se a gente conseguir fazer em janeiro,
05:13olha isso que ele falou, ele falou assim, o ano vai ser muito pegado pra mim, porque
05:18aí eu vou ter shows com a Adriana Calcanhoto na Europa, aí o ok, ok, ok do meu pai, a
05:23gente
05:23também tá fazendo shows, então, o mês que a gente tem com mais tranquilidade...
05:29Mal saber que o mês dele foi até dezembro...
05:34Cara, eu ainda nem sentei com ele pra gente conversar sobre isso, porque a gente voltou
05:39já a fazer esse projeto infantil de novo, mas não da maneira que a gente vinha sentando
05:45e conversando por todos os motivos, né?
05:48E aí, cara, quando foi em janeiro, a gente fez a base inteira da música, eu comecei a
05:52colocar voz em fevereiro, logo depois veio a pandemia, e tudo parou, então assim, agora
06:00nessa segunda fase é que eu tô fazendo essas músicas novas, a gente tá construindo, a
06:05cada dois meses a gente lança uma música nova, e voltando um pouco com o trabalho infantil
06:11também, conversando com o Ben, dentro das possibilidades, voltando com ele.
06:15Deixa eu entender um pouco da sua musicalidade, você nasce da família que há, eu quero saber
06:21da onde vem esse... da onde é a sua família?
06:26Chiara é o quê? Espanhol é o quê?
06:29Então, vamos lá. A minha família, eu sou do interior da Paraíba.
06:34Sim, isso eu sei, mas a família é de... a Chiara vem de que origem?
06:39Porque o nome...
06:40Vem do italiano.
06:41Ah, italiano.
06:42Só que o...
06:43Isso.
06:44Só que o Chiara italiano é com CH.
06:48Ah...
06:48É Chiara com CH, né?
06:52Mas, quando eu...
06:54Bom, quer dizer, esse nome é da minha família, né?
06:58Vem da minha família, mas não é o meu sobrenome.
07:01Eu fui escolhendo, dentro dos nomes da árvore genealógica da minha família, uma...
07:10Uma...
07:11Um nome que coubesse pra mim, que eu encontrasse um significado e que eu sentisse força na palavra.
07:19E aí eu fui, procurei, procurei Luiz Nascimento, aí pensei, que tem nascimento também na minha família.
07:25Poxa, vão talvez me associar ao Milton e eu não tenho...
07:31Queria muito, mas não tenho...
07:32Todos nós, todos nós.
07:34Mas não é só você não, compadre.
07:37E aí fui procurando.
07:39Aí, quando chegou, quando eu falei Luiz Chiari, eu falei assim...
07:43Bateu.
07:44Esse tem força, cara.
07:46Esse tem...
07:47Esse é o seu tipo.
07:48Você nasce em Campina Grande.
07:49Fala um pouquinho sobre a sua...
07:52Sua atmosfera musical familiar.
07:54Número de irmãos.
07:56Como é que era a sonoridade dentro de casa?
07:58Como é que era a música?
07:59O que você ouvia na primeira infância, vamos dizer assim?
08:03Você foi atingido de que forma?
08:05É, eu tive...
08:07Eu sou o sexto de sete irmãos, de sete filhos dos meus pais.
08:14Três deles são cegos, né?
08:16Três desses meus irmãos são cegos.
08:18Eles, da primeira infância que você falou, né?
08:22O primeiro contato que eu tive com a música foi através do meu pai e do meu avô.
08:27Meu avô sempre...
08:30Todo dia de manhã ele ouvia...
08:31Eu morei com o meu avô, né?
08:33Meu pai cuidou dos meus avós na belice deles.
08:37E meu avô todo dia de manhã ele tinha um radinho de pilha, cara.
08:40Que ele acordava às cinco e meia da manhã, quinze para as seis, pá, ligava ali.
08:46E a gente já acordava com as músicas, com os repentes, as músicas de viola.
08:52Aquela coisa bem regional, nordestina, né?
08:55E eu fui crescendo nisso, cara.
08:56Ele, tanto nesse aspecto, como também com a música religiosa.
09:02Ele era muito religioso, meu avô sempre foi muito religioso.
09:05Então, aquilo foi a toada da minha vida.
09:09Meu pai, um agricultor,
09:13sempre trabalhou na lavoura.
09:15Então, o que meu pai...
09:18Acho que talvez...
09:19Eu nunca perguntei isso para ele, mas provavelmente sim.
09:22Eu acho que o que ele mais gostava de fazer era trabalhar cantando ou assoviando.
09:28O assovio do meu pai é ainda, né?
09:31Uma coisa maravilhosa.
09:32Você tem na memória ele assoviando e você na lavoura com ele, com os irmãos?
09:39Você tem isso ainda como algo memorável para você?
09:43Tenho, cara.
09:44Tenho, porque era lindo.
09:46Era bonito de ouvir.
09:48Era bonito de ouvir.
09:49Ficava ouvindo...
09:50Ficava escutando ele e pensando, né?
09:53Como é que ele...
09:54Ficava...
09:55Meu pai assovia tão bonito.
09:57Como é que ele conseguiu chegar?
10:01Então, basicamente, foi isso.
10:03Isso é tão forte na minha vida.
10:04O assovio do meu pai é uma coisa tão forte na minha vida
10:06que agora no CD infantil, eu falei para o bem.
10:10Eu falei, bem, olha, esse trabalho é muito linkado à minha infância.
10:15Porque são músicas de um trabalho infantil.
10:16Então, todas as músicas que eu construí para esse trabalho,
10:20eu busquei na minha infância, nos momentos da minha infância.
10:23E em muitos momentos, estava meu pai assoviando.
10:27Então, essa coisa melódica...
10:29Não pode faltar.
10:30Eu vou ouvir procurando assovio do seu velho, bicho.
10:34Exatamente.
10:35E aí, eu falei assim, o que a gente pode fazer?
10:37Ele falou assim, cara...
10:40O nosso baterista, né?
10:46Ele falou assim, cara, o Rafael, Rafael Rocha,
10:49ele falou assim, é de um assovio, tem um bico de ouro.
10:54E o cara tem, velho.
10:56O cara fez uma música, eu pedi para ele fazer um assovio,
10:58uma música chamada Brisa.
11:01E eu queria ter aquela coisa da Brisa.
11:07Aquele soco bonito da Brisa.
11:09E ele fez isso com maestria, cara.
11:12Ele fez de uma maneira muito bonita.
11:13E eu falei para ele, assim,
11:14isso tanto representa essa música,
11:16como representa também essa imagem,
11:18essa lembrança, memória.
11:19Você lembra do momento que você começa a pegar o violão?
11:24Que o violão começa a fazer parte da sua vida?
11:27Que você começa a se interessar em tirar um som ao violão?
11:30Que a música deixa de ser atmosfera
11:33e você começa a pensar em produzir alguma coisa?
11:36Você lembra dessa idade?
11:38Você me passa essa informação
11:40que eu tenho curiosidade para falar sobre os seus três irmãos.
11:43Então, aí essa parte aí já entra os meus três irmãos.
11:47Porque quando eu tinha 10 anos de idade,
11:51eles já estavam indo estudar em João Pessoa, na capital.
11:56E no colégio que eles foram estudar,
11:58estudaram muita música, instrumentos,
12:00flauta, violão, piano.
12:04Mas trouxeram muito para casa.
12:06Primeiro a flauta.
12:07Foi o primeiro instrumento que eu conheci através deles.
12:10Foi a flauta.
12:11E logo depois,
12:13uma prima nossa deu um violão
12:15para a Luciene, minha irmã mais velha,
12:17dos três irmãos cegos.
12:19E eles começaram a levar o violão para casa.
12:21Aí, cara, quando eles chegaram em casa com aquele violão,
12:24que começaram a cantar e tocar,
12:25e para mim aquilo...
12:28Foi...
12:29A janela abriu.
12:30A janela abriu.
12:31Agora, eu fico pensando o seguinte,
12:34com o maior amor e consideração e respeito possível.
12:40Cara, três irmãos que não enxergam dentro de casa.
12:45Isso deve ter sido uma lição para qualquer ser humano.
12:48Porque além do amor que você sente
12:52por aquela criatura que está com você,
12:55porque esse é um irmão,
12:57você aprende, cara.
12:58Você aprende como esse cara consegue vencer,
13:01como é que ele consegue ver sem enxergar,
13:03como é que ele consegue tocar sem saber
13:05onde estão as cordas,
13:06como é que ele sabe onde é que está a roupa dele,
13:09como é que ele sabe que está...
13:10Quer dizer, é uma lição de vida
13:13que você, moleque,
13:16cresce acompanhando três caras,
13:19se virando,
13:20e você...
13:21Acho que provoca maior sensibilidade no ser humano,
13:25provoca maior interesse pelos outros humanos,
13:28mais respeito,
13:30mais amizade,
13:30mais carinho,
13:31mais amor pela humanidade,
13:32a partir de três irmãos dentro de casa
13:35que não enxergam nada,
13:37enxergam melhor do que a gente se der bombeira,
13:39entendeu?
13:39Enxergam mais do que a gente.
13:42Rapaz, isso foi uma experiência,
13:45assim,
13:46é difícil,
13:46porque eu só conheço essa experiência,
13:49então é difícil falar das outras,
13:51mas é lógico que a gente vai vivendo,
13:54vai ganhando experiência,
13:55vai ouvindo as histórias das outras pessoas
13:57e você vai vendo aonde a tua encosta
14:00e aonde a tua se difere da outra.
14:06Cara,
14:08eles são pessoas muito sensíveis,
14:11muito sensíveis,
14:12e sensibilidade que nos assusta as metas.
14:15Eu ficava assustado,
14:16eu falava assim,
14:16meu Deus,
14:17vou te dar um exemplo,
14:18meu irmão sabia quem chegava pelo andar.
14:21Caraca.
14:23Ele entrava,
14:24ele sabia quem estava chegando,
14:25se era eu,
14:25se era o Nino,
14:26se era meu pai,
14:27se era minha mãe,
14:28pelo andar,
14:28pelo arrastar da chinela,
14:32detalhes pequenos que ele sabia.
14:36E quando eu cheguei no Rio de Janeiro em 2001,
14:39meu irmão,
14:39ele é atleta,
14:40o Roberto é atleta,
14:42ele é paralímpico,
14:43ele joga golbol pela seleção brasileira.
14:46E quando eles vieram,
14:48treinar no Rio de Janeiro,
14:49aqui em São Gonçalo,
14:50uma fazenda aqui em São Gonçalo,
14:53eu soube que ele estava lá,
14:54e fui lá visitar.
14:56E eu pedi para o técnico dele
14:58não dizer que eu estava chegando.
15:01Não dizer...
15:02Seu sacana,
15:03seu sacana,
15:03você queria saber
15:04se ele ia reconhecer seus passos
15:06até chegar a ele?
15:08Rapaz,
15:09ele foi mais do que isso,
15:10porque o que acontece,
15:11ele estava no almoço,
15:13todo mundo lá sentado,
15:14aquela barulheira,
15:15não sei o que lá,
15:17e eu cheguei,
15:18ele estava sentado,
15:19ele falou assim,
15:19o irmão está ali,
15:20chega lá onde está ele.
15:21E eu estava com um amigo meu,
15:24e eu falei para ele,
15:25eu falei assim,
15:25vou chegar,
15:26vou tocar nele,
15:28vou deixar ele me pegar
15:30para saber quem é,
15:31porque ele sabe também
15:32pelo braço, né?
15:36cara,
15:36quando eu cheguei,
15:37que eu bati nas costas dele aqui,
15:39bati aqui, né?
15:40E dei uma apertada assim,
15:42ele fez assim,
15:42ele me chama de Lula, né?
15:43Quando eu apertei,
15:44ele fez Lula?
15:45Cara,
15:48não precisou
15:49de mais nada, cara.
15:52Meu amigo olhou para mim
15:52e falou assim,
15:53cara,
15:54como é que ele sabe
15:54que é você?
15:55Eu falei assim,
15:57não me pergunte, cara.
15:59Essa é a lição que ele nos dá,
16:02que um deficiente visual,
16:04auditivo,
16:05alguém que não fala,
16:07eles provocam umas lições malucas.
16:09Agora tem uma outra coisa
16:10que me chama a atenção
16:11no seu trabalho.
16:12Primeiro,
16:13o violão,
16:14que é meio folk,
16:16é meio mouro,
16:18sabe?
16:18Tem uma levada de country,
16:20uma coisa menestrel,
16:23uma levada,
16:24porque o violão é muito bonito,
16:25é muito meio tocado,
16:26é muito limpo.
16:27O seu violão tem uma sonoridade limpa,
16:29esse é um ponto.
16:30E a outra,
16:31o seu timbre vocal,
16:32que é muito,
16:34muito peculiar.
16:36Eu queria falar
16:37sobre o seu violão.
16:38O que você tem ali
16:40de referência
16:41de audição?
16:43Tem folk music?
16:45Tem música caipira?
16:47O que tem ali
16:48que se eu perguntasse para você?
16:50Como é que você pode
16:51identificar o seu violão
16:52para facilitar
16:53o meu cadastro
16:53aqui na memória?
16:55Como é que você faria isso?
16:58Olha,
16:58tem muito,
16:59muito do autodidata ali, né?
17:03Eu acho que durante o tempo,
17:05se eu te falar
17:05da minha construção musical,
17:07eu ouvi de tudo,
17:08do rock
17:09ao sertanejo.
17:11Então,
17:11tudo está em mim.
17:13Tudo está em mim.
17:14E eu acho
17:15que eu fui pegando referências
17:17no meio disso tudo
17:18e fui aprendendo sozinho.
17:20E quando você aprende sozinho,
17:23ele exige de você
17:24ter uma dedicação
17:26maior
17:27do que
17:28quando você tem
17:29um professor, né?
17:31Então,
17:32eu sempre tive
17:32muito cuidado.
17:33Quando eu ouvia
17:34alguém tocando
17:35com um violão muito limpo,
17:36muito bonito,
17:37cheio de sentimento,
17:38eu falava,
17:39é isso que eu quero fazer.
17:41E eu começava
17:42a seguir aquilo.
17:43Aí eu ouvia
17:44outro cara tocando,
17:45eu falava assim,
17:46aí eu ouvia,
17:46sei lá,
17:48o Eric Clapton,
17:49por exemplo,
17:49tocando aquela coisa
17:51limpa,
17:51bonita,
17:53gostosa.
17:53Aí depois eu ouvia,
17:54sei lá,
17:54eu sou fanzaço
17:55do Jeff Beck.
17:56Então,
17:56eu ouvia o Jeff Beck
17:57tocando aquela guitarra dele
17:59perfeita,
18:00cheia de sentimentos,
18:01cheia de coisas bonitas.
18:03Aí eu ouvia
18:04amigos meus,
18:05grandes violonistas,
18:06tocando também.
18:07Eu falava assim,
18:07nossa, velho,
18:08é isso que eu acho bonito.
18:10Então,
18:11eu tinha,
18:11na minha cabeça,
18:13sempre tive
18:13e continuo tendo,
18:14porque eu não
18:15cheguei ao meu fim,
18:17eu continuo estudando.
18:18Com certeza,
18:19com certeza.
18:20Eu sempre fico tentando
18:22alcançar essa excelência
18:23de som.
18:24Vou chegar lá um dia,
18:26talvez,
18:26mas eu continuo buscando,
18:28continuo buscando
18:29essa excelência de som,
18:30porque eu acho
18:31que quando a gente,
18:32um instrumento,
18:33quando a gente canta com ele,
18:34ele tem que ser teu parceiro
18:36e te dar a cama perfeita
18:37para você deitar,
18:38né?
18:38Então,
18:39eu sempre tento buscar isso
18:40para que meu timbre de voz,
18:42junto com o meu violão,
18:44se abracem
18:45e consiga transmitir
18:46aquilo que eu quero passar
18:47com a poesia
18:48que eu musiquei.
18:50Então,
18:50basicamente,
18:51é isso.
18:52Parabéns.
18:52Você vai
18:53Campina Grande,
18:54vai para João Pessoa,
18:56com que idade,
18:56passa quanto tempo
18:57para o João Pessoa
18:58antes de ir
18:59para o Rio de Janeiro
19:00com 19 anos de idade?
19:01Qual foi
19:04esses tempos
19:05que você passou
19:06nesses lugares?
19:07Não,
19:08não teve João Pessoa.
19:09Eu fui direto
19:11direto
19:11de Pau Ferro,
19:12que é
19:13aonde eu moro,
19:15que é o sítio
19:15chamado Pau Ferro,
19:16a região onde eu moro,
19:17o direto de Pau Ferro
19:19para o Rio de Janeiro.
19:20Que mudança radical, hein?
19:22Muito radical.
19:23Só não foi
19:24tão radical
19:25porque eu estudei
19:26até os meus...
19:27Olha só,
19:28porque não foi tão radical.
19:30Eu estudei
19:31até os meus 13 anos
19:33em Genipapo,
19:35que é o povoado
19:36do lado
19:36de Pau Ferro,
19:38onde tinha
19:38a escola municipal
19:40e dali
19:41eu saí para Campina Grande
19:42e fui estudar
19:43no Estadual da Prata.
19:44Lá
19:45foi o meu contato
19:46maior com a civilização
19:47que eu já tinha tido.
19:51De lá...
19:51Aí
19:54quando surgiu
19:55a proposta
19:57do meu tio
19:58para vir para o Rio de Janeiro,
19:59uma proposta
19:59do meu tio
20:00para cuidar de um negócio
20:01com ele no Rio de Janeiro,
20:02foi em 2001,
20:04aí dali
20:05foi uma decisão
20:05que eu tomei
20:06de vir direto
20:06para o Rio de Janeiro.
20:08Já tinha ido
20:08em João Pessoa?
20:09Sim,
20:09poucas vezes.
20:10Já tinha ido,
20:10mas assim,
20:12minha experiência
20:13foi muito pequena.
20:14E aí
20:15é onde você falou.
20:16Essa diferença,
20:17esse contraste social
20:18foi tão grande
20:19que eu passei
20:20por uma depressão
20:21assim que eu cheguei
20:21no Rio de Janeiro.
20:22Porque imagina,
20:25são realidades
20:26muito diferentes,
20:27muito diferentes.
20:28Então,
20:29eu cheguei aqui
20:29com a doçura
20:30de um menino
20:31do interior,
20:32com a ingenuidade
20:33do menino
20:33do interior,
20:35e aí percebi
20:36que existiam coisas
20:37que eu não conhecia.
20:39E aí você vai tomando
20:40aquelas pancadas da vida
20:41e aí chega uma hora
20:42que isso,
20:44para você ter ideia,
20:45quando eu tive depressão,
20:46eu nem sabia
20:46o que era depressão,
20:47porque eu nunca tinha
20:48escutado falar
20:48o que era depressão.
20:50Eu tive depressão
20:51e saí dela
20:52sem ir no profissional,
20:53não indico isso
20:54para ninguém.
20:55Com certeza.
20:56profissão profissional.
20:57Mas eu saí
20:58porque eu não sabia
20:59o que era que eu tinha.
21:00Eu só sabia
21:01que eu não conseguia
21:02ter alegria na vida,
21:03ficava buscando.
21:04E aí,
21:04sabe o que me ajudou?
21:06Vai naquilo,
21:07vai em dois pontos.
21:08Vai na música,
21:09porque foi quando
21:10eu comecei a compor
21:11e isso foi me tirando
21:12desse buraco,
21:14e a música como cura,
21:15e é por isso que eu falo,
21:16que a arte,
21:17eu sempre uso essa frase,
21:19que a arte nos cure,
21:20porque ela tem esse,
21:22ela tem esse viés
21:23de cura, né?
21:25E também foi
21:27um exercício meu
21:29de pensar
21:30por que eu me maltrato tanto,
21:32por que eu acho
21:32as coisas tão difíceis,
21:34por que eu olho
21:35para as coisas
21:35com tanta dificuldade
21:36se os meus irmãos
21:38que têm as deficiências deles
21:42enfrentam a vida
21:43com o peito aberto
21:43como eles enfrentam.
21:45Então há algo em mim
21:46que eu preciso melhorar,
21:47que eu preciso observar,
21:48que eu preciso sair daí.
21:50E aí, cara,
21:51foi que casa naquilo
21:52que você falou, né?
21:54O que dos teus irmãos
21:55te levou,
21:57você traz na vida?
21:58Cara, se tem uma coisa
21:59que eu levo
21:59dos meus irmãos na vida,
22:01é a forma corajosa
22:04que eles enfrentam a vida,
22:05cara.
22:05A forma corajosa,
22:07eles nunca se limitam.
22:08Minha irmã mora em Curitiba,
22:09uma irmã minha mora em Curitiba,
22:11a outra mora em João Pessoa,
22:12a outra mora em Brasília.
22:13Foram os três primeiros,
22:15foram os três irmãos
22:16que primeiro saíram de casa.
22:19Sem chegar um palmo pela frente
22:21com a coragem de um gigante.
22:24Exatamente, exatamente.
22:26Eles pegavam os instrumentos
22:28e eu acho que isso me ajudou muito,
22:29porque eles não tinham medo
22:31de mostrar o que eles tinham aprendido,
22:32eles não tinham medo
22:33de mostrar as dificuldades
22:35que eles tinham em aprender.
22:37E aí,
22:38eu volto àquilo que você falou,
22:41de surpreender.
22:42Eu ficava pensando,
22:43eu falava assim,
22:43cara,
22:43como é que eles tocam isso tudo
22:45sem olhar,
22:46sem ver, né?
22:47E eu ficava aqui olhando
22:49e não conseguia executar
22:50como eles executavam.
22:52Então,
22:52essas coisas
22:53que meus irmãos
22:54me foram
22:56acendendo,
22:57sabe,
22:57na vida,
22:58luzes que eles foram me dando
22:59e até hoje me dão
23:00essas luzes.
23:02Todos eles têm filhos,
23:03todos eles são casados
23:04e todos eles enfrentam
23:05a vida
23:07de uma maneira
23:07muito bonita.
23:08E é uma lição, né, cara?
23:10A gente aprende
23:10com essas lições.
23:12Aí o cara entendeu
23:13um outro ponto.
23:14Você vai para a depressão,
23:15por chegar
23:17no Rio de Janeiro
23:18e começa a compor
23:20e a música
23:20começa a te salvar,
23:22a música começa
23:23a te trazer
23:24quase parecido
23:25com esse momento
23:26que a gente conversou
23:27no começo
23:28com a pandemia,
23:29lógico que
23:30uma situação
23:31bem menos agressiva
23:33do que
23:34essa depressão
23:35lá no começo.
23:37E aí o que?
23:38Você está no disco número?
23:41Cara,
23:41eu estou fazendo
23:42o três e o quatro
23:44juntos agora, né?
23:46Primeiro foi o três,
23:47o segundo foi o que dentro
23:48do infantil
23:49e esse outro álbum
23:50agora que eu estou construindo.
23:51Então vamos falar do três
23:52que está aí
23:53para a gente curtir.
23:55Desse momento
23:56até o terceiro,
23:59qual é a sua diferença?
24:00Porque você construir
24:02músicas
24:02que você está saindo
24:05do processo
24:06de depressão
24:07e construir músicas
24:09anos depois,
24:10a sua cabeça mudou,
24:12o seu jeito
24:13de compor
24:13modificou,
24:14o seu tema
24:15é outro,
24:17talvez mais exteriormente
24:19falando do que
24:20interiormente
24:21sentindo.
24:22Teve uma mudança
24:23no seu texto,
24:24teve uma mudança
24:25na forma de compor
24:26daquele moleque
24:28do interior,
24:29que veio do interior
24:30da Paraíba
24:31que ficou deprimido
24:32no Rio
24:32e esse hoje
24:33que está,
24:34não vou falar,
24:35ninguém está consolidado,
24:36mas está mais seguro.
24:38Qual é,
24:39você consegue avaliar
24:41essas diferenças?
24:44Sim,
24:45consigo,
24:46consigo
24:46e tem muitos pontos
24:48que eu posso falar
24:50em relação
24:50a essas diferenças.
24:52A primeira delas
24:54é a seguinte,
24:54quando eu comecei
24:55a compor,
24:56aquilo era muito novo
24:57para mim,
24:58eu comecei a compor
24:59já no Rio de Janeiro,
24:59eu não era compositor
25:00na Paraíba não.
25:02Quando eu tive a depressão
25:03foi quando eu comecei
25:04a me descobrir compositor
25:05porque eu conheci
25:06amigos meus
25:07que já compunham
25:07suas próprias músicas,
25:09então isso foi me abrindo
25:10portas dentro de mim.
25:12receber que eles construíam
25:14aquilo que eles cantavam
25:15para mim foi
25:16uma coisa,
25:18mudou a minha vida.
25:19Foi quando eu falei assim,
25:20eu quero fazer isso
25:22e comecei a compor.
25:24E aí,
25:24quando eu comecei a compor
25:26existiam dois motivos,
25:27compor,
25:27me tirar para a depressão,
25:28como você falou,
25:29então eu queria compor
25:30uma música atrás da outra
25:31para me afastar
25:32cada vez mais daquilo
25:33porque me curava,
25:35então eu não queria
25:35parar de compor,
25:36então eu compunha muito.
25:38E aí,
25:39eu percebi
25:40que eu não tinha
25:42um armário
25:43de palavras,
25:44um estante de palavras
25:46tão diverso assim,
25:48né?
25:48Então,
25:50foi quando eu percebi
25:52que o que eu tinha recebido
25:53de educação,
25:54que eu tinha estudado
25:56lá no interior da Paraíba,
25:57não alcançava
25:59aquilo que eu gostaria
26:00de dizer
26:00e que eu precisava
26:04refazer esse armário
26:05em encher de mais palavras.
26:07E aí foi quando
26:08eu comecei a ler.
26:10E é por isso
26:11que hoje
26:11eu tenho uma
26:13luta,
26:14uma luta não,
26:14mas um processo constante
26:17de dizer às pessoas
26:18que leiam,
26:18porque ler
26:20constrói a gente,
26:21ler nos dá
26:23liberdade,
26:24ler nos põe
26:25mais afiado
26:26com a vida,
26:27ler no...
26:27A gente,
26:28às vezes,
26:28não percebe que lendo
26:29você já está questionando
26:30o que está sendo lido
26:31com você mesmo
26:32e sobre outras...
26:33Ou seja,
26:33você está num diálogo
26:35com você ali dentro
26:36que você é muito grande
26:37que vai construindo
26:38seus pensamentos,
26:39sua forma de ver a vida,
26:40sua forma de dizer as coisas.
26:42E aí foi quando
26:43eu comecei a ler mais,
26:45frequentei uma faculdade
26:46durante dois anos e meio
26:47como ouvinte,
26:48eu só ia lá como ouvinte
26:50e ia lá ouvir
26:51o que os professores
26:52tinham que ser.
26:52Isso é muito legal, hein?
26:54E te aceitaram bem
26:55na faculdade
26:56você entrar como ouvinte?
26:58Quando eu comecei,
26:59ninguém sabia
26:59que eu estava como ouvinte,
27:00achava que eu era aluno,
27:01mas eu nunca aparecia
27:02na lista
27:02e aí chegou
27:04uma hora que
27:05eu falei,
27:06ô Luiz,
27:07você nunca está aqui?
27:08Mas aí eu já estava
27:10como ouvinte,
27:11os professores já estavam
27:12mais amigos
27:13e aí a coisa
27:15dali para...
27:16E era o que?
27:17Filosofia?
27:19História?
27:19Era alguma coisa?
27:21Era letras,
27:22mas dentro de letras
27:23tinha literatura comparada,
27:27poética,
27:29filosofia,
27:30tinha uma série
27:30de coisas ali dentro
27:31que era muito mais
27:32um pensamento
27:33do que uma construção
27:36sabe,
27:37de...
27:37Cara,
27:37que história maluca sua,
27:38Luiz,
27:39que coisa fenomenal,
27:41quer dizer,
27:41pô,
27:42para para pensar
27:42um negócio desse,
27:43cara.
27:44você se sente
27:47ausente de alguma coisa,
27:49você vai buscar,
27:50bate na porta
27:51de uma faculdade,
27:52deixa eu entrar aí
27:53como ouvinte
27:53que eu quero
27:56absorver essa informação
27:57porque isso vai me fazer bem,
28:00vai me fazer crescer
28:01como no que eu estou
28:02me propondo
28:03a realizar na vida
28:04que é compor.
28:06Cara,
28:06que coisa bacana isso.
28:08Parabéns.
28:09E aí eu não tinha,
28:11e aí eu volto
28:12naquele ponto
28:13que eu te falei,
28:13os meus irmãos
28:14me ensinaram muito isso,
28:15não tenha medo
28:16de expor suas fragilidades,
28:19de mostrar para as pessoas,
28:20falar assim,
28:20olha,
28:21aqui está o que eu faço,
28:22e a pessoa falar assim,
28:23olha,
28:24isso está bacana,
28:25mas isso aqui pode melhorar.
28:26Então eu não tinha
28:27nenhum,
28:29como é que eu posso dizer,
28:30receio
28:30de mostrar
28:31aos professores
28:33acadêmicos,
28:34professores,
28:36puxeu,
28:36Eucanaan Ferraz
28:37foi o meu professor,
28:39que é um grande mestre,
28:41o Manuel Antônio de Castro,
28:44um baita de um professor,
28:45esse foi um dos maiores
28:46que eu tive assim,
28:47um cara com pensamento
28:48completamente poético
28:49na vida,
28:50estudava muito
28:51sobre o ser,
28:53sobre a construção
28:54que nós temos
28:54a cada dia
28:56com a gente mesmo,
28:57então isso também,
28:58esse aprendizado
28:59de vida,
28:59de humanidade
29:00com eles também,
29:01foi também me ajudando
29:02a me compor
29:03como ser humano
29:04e isso vai melhorando
29:05a minha composição,
29:06enfim,
29:07foram muitas coisas
29:08e eu não tinha medo,
29:09eu chegava e falava assim,
29:10o que você acha?
29:11Ele falava assim,
29:11tem um erro aqui,
29:13isso aqui você pode
29:14melhorar a métrica,
29:15isso aqui não sei o que lá,
29:16isso aqui é um erro
29:17de português,
29:18melhora isso aqui,
29:19isso aqui não pode,
29:20então aquilo foi
29:22me dando caminho,
29:24sabe?
29:25Grandes professores
29:26para a sua arte.
29:28Sim,
29:29eles me apresentaram,
29:30eu até mandei,
29:31até falei para o
29:33Padre Fábio,
29:34que é um grande parceiro meu,
29:35o Padre Fábio de Mello,
29:36amigo,
29:37parceiro,
29:37a gente tem até uma música
29:38que a gente vai lançar
29:39esse mês agora,
29:40que é uma música minha e dele,
29:41aliás,
29:41um grande poeta,
29:43grande poeta,
29:44grande letrista,
29:45cara,
29:45faz coisas lindas,
29:47quando ele mandou
29:47a primeira vez
29:48uma poesia para mim,
29:49uma letra para eu musicar,
29:50eu falei assim,
29:50meu Deus,
29:52é um crime
29:53botar a música aqui,
29:54é um crime
29:54botar a música aqui,
29:58que responsabilidade,
29:59né?
30:00Mas então,
30:01mas ele...
30:02Você falou um ponto
30:03aí que me chamou
30:04a atenção,
30:04falou do Padre,
30:07teve um momento
30:07quando você chega
30:08no Rio,
30:09vindo da Paraíba,
30:09que você vai
30:10para esse nível
30:11de depressão,
30:14sem entender muito bem
30:15o que é depressão,
30:17e que você começa
30:18a dar aula de violão,
30:19eu acho muito interessante,
30:20porque você é um autodidata,
30:22um cara que se virou,
30:24que aprendeu no tranco
30:26e no barranco,
30:27e acaba dando aula
30:29a partir do momento
30:30em que você se envolve
30:31com a igreja,
30:32porque também não deixa
30:33de ser uma forma
30:33de você se segurar
30:35numa berola de piscina,
30:37a religião te ajuda nisso,
30:38independente de qualquer religião,
30:40de qualquer coisa,
30:41na hora desse desequilíbrio emocional
30:45que as pessoas que passamos,
30:46não é só você,
30:47eu,
30:48o mundo,
30:49a berola de piscina
30:50pode ser uma religião,
30:51pode ser uma música,
30:52tem outros que caem na bebida,
30:54tem alguns que pulam na droga,
30:56e aí cada um tem um
30:57que está mais próximo.
30:58No caso,
31:00você começa a dar aula
31:01de violão
31:02para algumas pessoas
31:03ligadas à comunidade religiosa
31:06que você fazia parte.
31:08Isso é muito interessante,
31:10porque também é uma forma
31:12de mostrar o quanto você
31:14tinha coragem,
31:16que você não
31:18não era um didato.
31:19Não tem que ser com ninguém, né?
31:20Cara,
31:23parabéns,
31:23como é que foi esse ponto aí
31:25que também eu acho genial.
31:27Rapaz,
31:28quando eu te falei,
31:29que eu vim trabalhar
31:30com o meu tio,
31:31no que eu vim trabalhar
31:31com o meu tio,
31:33a empresa que ele montou,
31:34que era uma empresa de bebida,
31:35passou seis meses
31:36e não foi para o lugar
31:37onde ele queria.
31:39E aí ele falou assim,
31:40olha,
31:40eu estou saindo.
31:43O cara que comprou a empresa
31:44queria me colocar
31:46como gerente
31:46da empresa dele.
31:48E aí,
31:49para mim,
31:49já não fazia tanto sentido,
31:50porque eu tinha deixado
31:51minha família
31:52e eu tinha deixado
31:53meus amigos,
31:54eu tinha deixado
31:55toda a história
31:55construída até os meus
31:5619 anos lá no Nordeste
31:58e tinha vindo para o Rio de Janeiro
31:59para ficar no Rio de Janeiro
32:00tentando alguma coisa
32:01que não fosse ligada à música,
32:02porque quando eu vim para cá
32:03eu não vim pensando em trabalhar,
32:04eu vim pensando,
32:05eu vou me aproximar
32:07mais da música
32:07no Rio de Janeiro,
32:08porque Rio de Janeiro
32:09é o berço da música.
32:11De lá que a gente tem,
32:13todos os artistas
32:13que eu conheço,
32:14músicos que eu conheço
32:15que são grandes,
32:16a maioria deles moram lá.
32:17E eles estão lá
32:18construindo a arte deles lá
32:20e eu quero construir
32:20a minha lá também.
32:22E aí,
32:23quando eu soube
32:24que não ia ser mais assim,
32:25eu falei assim,
32:25eu vou embora.
32:27Vou voltar para a minha casa.
32:29Não estou aqui
32:30para fazer isso.
32:31Eu vim com outros intuitos.
32:34Então,
32:36aí vem a parte da igreja
32:38que me ajudou muito.
32:39Por quê?
32:39Eu já tinha feito amigos
32:40nessa igreja
32:42e eles falaram assim,
32:43Kiari,
32:44você vai embora?
32:45Vai não, meu amigo.
32:46O que você quer fazer?
32:48Eles falaram assim,
32:49cara,
32:49eu vim para batalhar pela música,
32:52mas eu não estou conseguindo.
32:52Ele falou assim,
32:53você já deu aula de violão?
32:55Ele falou assim,
32:55cara,
32:56dei para os meus primos,
32:57para os amigos.
32:58Então,
32:58você vai ser professor de violão.
32:59Vamos criar uma parada aqui
33:00para você.
33:01Você topa?
33:02Eu falei assim,
33:02topo,
33:03vamos embora.
33:03Aí foi quando
33:04eu comecei a deixar
33:06de ser gerente
33:07de uma empresa
33:08e comecei a ser professor de música.
33:10Só que...
33:10Dentro da igreja.
33:11Dentro da igreja.
33:12Dentro da igreja.
33:14Aí,
33:14desculpa,
33:15desculpa,
33:16botaram aquele cartazinho,
33:17aula de violão,
33:18professor no esquiar.
33:21Escreva-se aqui na diretoria.
33:24Legal isso.
33:25E,
33:25cara,
33:26foi a melhor escola de música
33:29para mim,
33:29foi eu ser professor.
33:31porque eu tive que aprender,
33:33cara.
33:33Eu tive que aprender,
33:34então eu tive que correr atrás,
33:36eu tive que entender
33:37como funcionava,
33:38como passar,
33:39de que forma explicar aquilo,
33:41de que forma levar aquilo
33:42de uma maneira leve,
33:43que a música não se tornasse
33:44uma obrigação,
33:45mas que a pessoa tentasse,
33:46dentro do que ela gosta,
33:47absorver o máximo de música.
33:50A maioria dos alunos
33:51que eu dava aula para eles,
33:53eles não eram pessoas
33:54que queriam ser músicos na vida.
33:56Eles queriam música
33:56para ser uma alegria para eles,
33:59um momento de descontração.
34:01Então,
34:02era nesse sentido
34:03que eu queria deixar
34:04que a música continuasse
34:05sendo na vida dele.
34:05E foi aí que eu comecei
34:07a estudar ainda mais
34:08sobre música,
34:09o que eu tinha aprendido
34:10de conhecimento,
34:11de formação de acordes.
34:13Teve um amigo meu
34:14um dia que falou assim,
34:15Luiz,
34:16nunca esqueça disso.
34:18Acordes são tríades,
34:19são três notas
34:20que formam acordes.
34:22Isso foi um amigo Ângelo,
34:23lá no Nordeste,
34:23que me falou isso.
34:25Tônica, terça e quinta.
34:26E essa terça e essa quinta
34:28vão variar,
34:29e de acordo com a variação
34:30dessa terça e essa quinta
34:31você vai ter outras tríades.
34:33Então,
34:34você tem quatro tríades,
34:35maior ou menor.
34:36Aí começou...
34:36E ele falou assim,
34:37e no violão é assim,
34:38quinta, tônica e terça.
34:40A maioria das vezes é isso,
34:41quinta, tônica e terça.
34:42E aí, cara,
34:43eu comecei a procurar
34:44todas as quintas,
34:45tônica e terça
34:45de todos os acordes.
34:47Todos os acordes.
34:48E aí, bicho,
34:49o mundo começou
34:49a se abrir na música para mim.
34:51E aí,
34:52quando eu fiz faculdade de música,
34:53que eu fiz faculdade, tá?
34:55De música não,
34:55mas de produção fonográfica,
34:59eu, lá,
35:00eu dei nome aos bois,
35:01porque os bois
35:02eu já conhecia,
35:03só não sabia que nome tinha.
35:06Ótimo!
35:07Eu já tinha estudado
35:08o braço do violão inteiro,
35:10cara,
35:10eu já sabia exatamente
35:11onde estava
35:11quinta, tônica e terça,
35:12o que era a sétima maior,
35:14onde ela estava,
35:14de cada acorde,
35:15qual era a forma.
35:16E isso, cara,
35:17foi a melhor coisa
35:18para mim como compositor.
35:19Por quê?
35:20Porque hoje,
35:22eu não,
35:23eu sempre falo isso
35:24para as pessoas,
35:25eu não uso da matemática,
35:27e música é matemática,
35:28mas eu não uso
35:28da música,
35:29da matemática,
35:30como uma forma objetiva.
35:33Eu uso a sensibilidade
35:34que eu tenho
35:35junto com o que o instrumento
35:37me oferece
35:37e crio as melodias
35:39que eu acho bonita,
35:40que estão na minha cabeça.
35:42Só que eu não penso
35:42isso é uma sétima,
35:43isso é uma sexta,
35:44isso é não sei o que lá.
35:45Eu crio,
35:46depois eu analiso.
35:48Depois eu penso
35:49que coerência
35:50isso tem.
35:51Produção fonográfica.
35:56Para mim,
35:57isso é um canudo
35:59que você recebeu,
36:00é um caldeirão
36:04de resultados,
36:05porque quando você vai
36:07em busca
36:08de um aprendizado
36:09e você resolve
36:11juntar tudo
36:12que você acumulou
36:14até então,
36:15para que dali para frente
36:16você possa apresentar
36:18para as pessoas
36:19resultados,
36:20mas essa produção
36:21fonográfica
36:22é simplesmente
36:22observando você
36:24um encontro,
36:26uma junção,
36:27uma organização
36:28de tudo que você
36:29vinha colhendo
36:30daquele momento
36:31para trás.
36:31Como você disse,
36:32não sabia os nomes
36:33dos bois,
36:34mas os bois
36:35estavam no seu pasto,
36:37estavam dentro
36:38da sua fazendinha.
36:39Então,
36:40quer dizer,
36:41a sensibilidade
36:43dos seus irmãos,
36:44a determinação
36:45dos seus irmãos,
36:46a sua determinação
36:48de aprender
36:49os acordes,
36:51a forma,
36:53os termos,
36:55as didáticas
36:55para poder repassar
36:57para as pessoas
36:57nas aulas
36:58dentro da igreja.
37:00A forma
37:01de você buscar
37:02mais informações
37:02numa faculdade
37:03para poder
37:04aumentar a sua capacidade
37:06de fazer texto.
37:07isso tudo
37:08está dentro
37:09da produção fonográfica.
37:11Está tudo ali.
37:13Sem dúvida nenhuma.
37:15E eu falo isso,
37:16eu falo,
37:16eu hoje,
37:17eu me formei,
37:19não exerci
37:20a profissão
37:21de produtor fonográfico
37:22para o outro,
37:23mas eu usei demais
37:24para mim.
37:25Demais para mim.
37:26Porque eu entendi,
37:27por exemplo,
37:28quando eu fui fazer
37:29o meu primeiro CD,
37:30o 3,
37:31ou quando eu fiz
37:32outras coisas,
37:33eu sabia o que pedir
37:34para o produtor.
37:34Eu falava assim,
37:35cara,
37:35eu quero um gate
37:36aqui nesse negócio,
37:37olha,
37:37eu quero um reverb
37:38melhor aqui,
37:39olha,
37:39eu quero um delay nessa...
37:40Eu sabia os termos
37:42a serem usados
37:43e sabia o que eu não gostava.
37:44Quando alguma coisa
37:45aparecia,
37:46falava assim,
37:46ó,
37:46esse flange aqui
37:47não está legal não,
37:48cara,
37:48tira isso daqui,
37:49entendeu?
37:49Então,
37:50eu comecei a usar
37:51todos os termos
37:51que eu conhecia
37:52e que eu estudei
37:53para me formar
37:56como produtor fonográfico
37:56que eu usei
37:57completamente para mim.
37:58Completamente.
37:59Até hoje eu uso.
38:00O Dudu,
38:01Dudu Viana,
38:02eu não,
38:02por exemplo,
38:03há muito tempo
38:03que eu não pegava
38:04em Protus,
38:05por exemplo,
38:06porque eu estudei
38:07com o Protus,
38:07né?
38:08Então,
38:08há muito tempo
38:09que eu não pegava
38:09no Protus,
38:10mas passaram-se
38:1110 anos,
38:1214 anos
38:13que eu me formei
38:15e até hoje
38:16o Protus,
38:17ele mudou,
38:18mas a linguagem
38:19é a mesma.
38:20Então,
38:20assim,
38:20os caminhos
38:21são os mesmos,
38:22a forma é a mesma.
38:24Então,
38:24eu vou relembrando
38:26esse ano
38:27eu voltei
38:27a mexer de novo
38:28no Protus,
38:29voltei a ficar
38:30de novo melhor
38:31no Protus,
38:32porque tecnologia
38:33você tem que estar
38:33sempre envolvido com ela.
38:35Se você passa
38:36seis meses longe
38:37da tecnologia,
38:38a tecnologia vai embora
38:39e tu fica, né?
38:39Então,
38:40eu aprendi muito
38:41e converso direto
38:42com o Dudu
38:43sobre isso,
38:44sobre que forma
38:44a gente vai colocar,
38:45sobre efeitos
38:46que a gente vai fazer.
38:47Ele me fala,
38:48eu compreendo,
38:48eu sei do que se trata,
38:50já jogo para a minha cabeça
38:51e imagino o som daquilo,
38:53ele não precisa executar o som,
38:54eu já sei do que se trata,
38:56entendeu?
38:56Eu já sei qual o efeito
38:57que aquilo vai causar.
38:59Então,
38:59cara,
39:00se tem uma coisa
39:00que me ajudou muito
39:03a faculdade
39:03foi para organizar
39:04a minha cabeça
39:05dentro das produções
39:06das minhas músicas.
39:07Não tenha dúvida disso,
39:09mas aí a vida
39:09te joga alguns nomes
39:11da frente, né?
39:14Você hoje é um cara
39:15que as pessoas observam assim,
39:17pô,
39:17ele faz bem feito,
39:18deixa eu me aproximar dele,
39:20ele tem bom gosto,
39:22ele tem sabedoria
39:24nos acordes,
39:25você ganhou
39:25uma notoriedade
39:28numa tribo grande
39:31e aí você se junta
39:33com uma pessoa
39:33chamada Maria Gadu,
39:34que a vida te levou
39:36a se juntar,
39:37tem disco seu
39:38com participação
39:38de Léo Gândemann,
39:39Marcos Suzano,
39:41são pessoas
39:41que estão ali no topo.
39:44É lógico,
39:44e quando você começou
39:45a se aproximar
39:47da Gadu,
39:48ela também estava
39:48no processo de,
39:50mas você tocou,
39:51rodou o Brasil,
39:52foi instrumentista
39:54dessa tribo,
39:55e isso é
39:58destino,
39:59pode ser,
40:00mas também
40:01é porque você
40:02tinha um cartão
40:03de visita
40:03para apresentar.
40:06Qualidade.
40:07Tem algumas coisas,
40:09por exemplo,
40:11conhecer a Gadu,
40:12a Gadu é,
40:13quando eu conheci,
40:14meu queixo caiu,
40:15porque ela
40:16sempre foi
40:17de um talento
40:18absoluto,
40:19assim,
40:20quando eu ouvi
40:20a primeira vez,
40:21eu falei,
40:21meu Deus,
40:22que voz é essa,
40:23que talento,
40:24ela com o violão,
40:25você fala do violão,
40:27né,
40:27a Gadu também
40:28é uma dessas pessoas,
40:29se você ouvir a Gadu
40:31tocar um voz violão
40:32para você,
40:32você fala assim,
40:33meu Deus,
40:33que coisa linda,
40:34porque ela executa
40:36muito bem,
40:37ela junta muito bem
40:38esse instrumento,
40:39sabe,
40:39a voz com o violão,
40:40ela usa o violão
40:42como cama
40:42para deitar a voz dela,
40:43ela sabe fazer isso
40:44muito bem.
40:45Então,
40:45ela também foi
40:46uma dessas referências
40:47para mim,
40:48para sempre melhorar
40:49esse conjunto,
40:50né,
40:50e aí é lógico,
40:51né,
40:51que aí você vai
40:52conhecendo outras pessoas,
40:54ela gravou o CD,
40:55minha música estava lá,
40:56aí teu leque
40:57vai abrindo,
40:58né,
40:59o Marcos Suzano,
41:00por exemplo,
41:00como você falou,
41:01né,
41:03ele gravou no meu primeiro CD
41:04e está gravando agora
41:05uma música nova,
41:07e eu liguei para ele ontem,
41:08você falou dele agora,
41:09desde o CD3
41:10que eu não falo com ele,
41:12liguei para ele ontem,
41:13né,
41:13ele falou,
41:13pô,
41:14olha,
41:14pô,
41:15que bacana,
41:16tamo junto,
41:17vamos fazer essa música,
41:18então assim,
41:18você cria laços ali,
41:20né,
41:20dentro da música,
41:21pela tua música,
41:23lógico,
41:23pelo ser humano que você é,
41:25sim,
41:25também.
41:26Fundamental,
41:26fundamental,
41:27porque músico gosta de músico
41:29gente boa.
41:33E aí,
41:34cara,
41:34a gente ficou ali,
41:36todos os músicos que passaram,
41:37cara,
41:37na minha vida,
41:39sempre deixaram coisas boas,
41:40e eu tento,
41:41dentro daquele nosso trabalho,
41:43que é profissional,
41:44sempre ter um laço de amizade,
41:46muito,
41:46muito,
41:47um laço bom de amizade com essas pessoas,
41:50né,
41:50e todos os músicos foram assim,
41:52cara,
41:52e eu tento levar isso junto com a minha música,
41:55eu acho que você,
41:57é óbvio que a arte é muito maior do que o ser humano,
42:00eu digo assim,
42:01a gente não pode limitar,
42:04a gente,
42:04dentro da nossa limitação,
42:06a gente tenta dizer o que é arte,
42:07mas a arte é muito maior do que qualquer coisa que a gente tente dizer,
42:11mas eu acho que ser humano e arte,
42:13velho,
42:14tem que andar ali em conjunto,
42:15sabe,
42:16você não pode ter uma arte assim e ser assado,
42:19sabe,
42:19você não pode ser de um jeito e tua arte ser do outro,
42:22porque senão você não está sendo sincero com a sua própria arte,
42:24ou então a tua arte não te transformou de alguma forma,
42:28para que você dialogue com ela,
42:30né,
42:30então eu sempre tento,
42:32cara,
42:32e é por isso que eu sou muito verdadeiro naquilo que eu digo,
42:35toda música minha que você ouvir,
42:37você pode ter certeza que aquilo é exatamente o que eu penso,
42:41porque eu não vou dizer o que eu não penso em prol de uma moda,
42:45ou em prol de bandeiras,
42:47ou em prol de qualquer outro tipo de coisa,
42:49eu não levanto bandeira,
42:50minha bandeira é humana,
42:51se o humano te alcança,
42:53é aí que eu vou trabalhar,
42:54cara,
42:54porque é só o que eu sei ser,
42:56então,
42:58nunca saio dessa linha,
43:00sabe,
43:01pode ser a minha linha,
43:02é,
43:03mas é a linha que eu compreendo o outro,
43:04e me compreendo,
43:06né,
43:07então é a linha que eu continuo andando,
43:09então é assim que eu ando,
43:11e continuo tentando andar,
43:13cara,
43:13sem sair dessa linha.
43:15Perfeito,
43:15agora,
43:16agora,
43:17esse ano você lança de dentro,
43:19né,
43:19de dentro,
43:20é o nome do disco,
43:21é de dentro?
43:22O de dentro foi um CD lançado
43:24pra esse cabra aqui,
43:25que tava aqui agora há pouco,
43:26Chico Lobo,
43:27esse mestre,
43:28Chico Lobo.
43:28Chico Lobo tá amanhã com a gente aqui,
43:30quem é o entrevistado de amanhã,
43:33é Chico Lobo.
43:34Ah,
43:35isso é um mestre,
43:36cara,
43:36um querido mestre,
43:37bicho,
43:38cara,
43:39esse homem com a viola dele,
43:41bicho,
43:41é uma coisa assim,
43:42fora do comum.
43:43Verdade.
43:43E o trabalho com ele,
43:45eu sou muito grato ao Chico,
43:47porque o segundo trabalho que eu fiz,
43:49eu pensei muito nesse segundo trabalho,
43:50eu queria ser o mais simples e comunicativo possível nesse segundo trabalho,
43:56porque o primeiro trabalho,
43:57a gente fez uma reunião de 13 músicas,
43:59durante toda a minha carreira,
44:01músicas de lá de trás,
44:02e aí,
44:03no segundo trabalho,
44:04eu tinha sofrido um acidente de moto,
44:07atropelei um búfalo,
44:08e...
44:09Ô,
44:09para tudo,
44:11para tudo,
44:11porque atropelar cachorro,
44:13gato,
44:14bêbado,
44:16ainda vai,
44:17o cara quer entender como é que você atropela um búfalo,
44:20cara,
44:20numa moto,
44:21onde é que você estava,
44:22onde é que estava esse búfalo,
44:23saiu de que barra,
44:24atravessou na sua frente,
44:26como é que foi essa compreensão?
44:27você tem que explicar essa porra.
44:29Cara,
44:30quando eu falei,
44:31quando eu falei disso,
44:32eu estava conversando com a Luísio Reis,
44:34que é presidente da Sony Publish,
44:36que eu sou editado lá,
44:38e aí,
44:39quando eu falei para ele,
44:40que eu tinha sofrido um acidente,
44:41ele falou assim,
44:41você estava no Texas,
44:43velho,
44:43sei lá,
44:44aí eu falei assim,
44:45não,
44:45cara,
44:45eu estava na Paraíba,
44:46ele falou assim,
44:47não,
44:47velho,
44:47para tudo,
44:48tem búfalo na Paraíba,
44:49eu falei,
44:50tem búfalo na Paraíba.
44:53Como é que foi isso,
44:54cara?
44:55Cara,
44:55eu fui lançar o CD3 na Paraíba,
44:59começando a lançar por lá,
45:00e cheguei,
45:01uma semana antes da gente começar a fazer
45:04os ensaios para o CD,
45:06e meu irmão tinha ido em uma cidadezinha
45:08chamada Esperança,
45:09que é perto de Lagoa Seca,
45:10e eu fui lá para ajudar ele,
45:11porque o pneu do carro dele tinha apurado,
45:13ele não estava conseguindo tirar,
45:14ligou para casa e pediu para meu pai,
45:16aí eu falei,
45:16pai,
45:17o senhor não vai não,
45:17deixa que eu vou,
45:18estou aqui em casa,
45:19vou lá ajudar ele,
45:21aí fui,
45:21peguei a moto do meu irmão e fui,
45:23aí,
45:24bicho,
45:24ajudei meu irmão,
45:25acertamos tudo na volta,
45:26cara,
45:27tinha um búfalo deitado no meio da estrada,
45:29na BR,
45:30e ele estava logo depois de uma curva,
45:32numa baixa,
45:33no asfalto,
45:34no asfalto,
45:35no asfalto,
45:36no asfalto,
45:36no asfalto,
45:36não era a curva batida,
45:39exatamente,
45:39quando o farol da moto estava aqui para cima,
45:41que era uma ladeira subindo,
45:42depois se fazia a curva,
45:43e descia,
45:45no que eu fiz a curva e desci,
45:46o búfalo estava deitado,
45:47eu não vi,
45:48já atropelei o búfalo,
45:49meu irmão,
45:49já,
45:50aí tive traumatismo do caniano,
45:52aí fiquei em coma,
45:53enfim,
45:55e aí quando eu voltei disso,
45:58eu falei,
45:58eu preciso voltar um pouco mais para as minhas raízes,
46:02porque o primeiro CD,
46:03ele foi um CD mais genérico,
46:06ele foi mais Brasil,
46:09e aí eu falei assim,
46:10o segundo CD,
46:10eu quero falar mais do meu Nordeste,
46:12do que está dentro de mim,
46:14daquilo que me criou,
46:16que me fez,
46:16aquilo que,
46:17como você ouviu,
46:18das minhas memórias,
46:19do que me construiu,
46:20Aí você buscou um apoio emocional do Nando Cordel.
46:26Aí foi quando eu falei com o,
46:29eu fui fazer um show em Minas Gerais,
46:31e o Chico Lobo estava nesse show,
46:34aí o Chico Lobo,
46:35quando a gente foi fazer esse show lá,
46:36que era o lançamento do 3 até,
46:38eu chamei ele para participar do show,
46:40porque a gente se conheceu através da Parup,
46:42ele ouviu meu som,
46:43entrou em contato comigo pelo Instagram,
46:44enfim,
46:45eu falei,
46:45Chico,
46:46bicho,
46:47eu sou muito fã do teu trabalho,
46:49você participaria de um show meu lá em Minas Gerais?
46:52Ele falou assim,
46:52lógico,
46:52com o maior prazer,
46:54foi lá,
46:55participou,
46:56tocou,
46:57Trenzinho Caipira,
46:58que foi uma coisa maravilhosa,
47:00e,
47:02aí ele tocou uma música chamada
47:03Sempre Que Eu Canto Chove,
47:04que é uma música do meu primeiro CD,
47:06ele falou,
47:07cara,
47:07adoro o canto de Sempre Que Eu Canto Chove,
47:08vamos tocar essa música no teu show,
47:10eu falei,
47:10vamos,
47:11pô,
47:11eu amo essa música também,
47:12então vamos tocar ela,
47:13vai ficar linda a tua viola.
47:14Aí,
47:14cara,
47:14quando terminou,
47:15o Chico Lobo falou assim,
47:16o Luiz talvez não saiba,
47:18mas a música dele,
47:19a musicalidade dele,
47:21toda pode ser traduzida em viola.
47:24Aí,
47:24aquilo ficou em mim,
47:25cara,
47:26aquilo ficou em mim,
47:26eu fiquei com aquilo durante um tempo,
47:28quando eu fui fazer o segundo CD,
47:31a Martinha que tá aqui,
47:32a Marta Geruso,
47:33ela participou desse momento,
47:34ela botou assim,
47:34nossa,
47:35me arrepio de lembrar,
47:37porque a gente,
47:38ela viveu isso tudo comigo lá,
47:39é uma grande amiga minha,
47:40participou desse momento inteiro,
47:42e de outros momentos lindos também,
47:43mas também participou desse.
47:45aí o Chico falou assim,
47:47eu falei,
47:47cara,
47:47se eu quero ser simples,
47:49se eu quero ser mais de dentro de mim,
47:52a viola tá completamente dentro da minha vida,
47:55então eu vou propor pro Chico,
47:57se o Chico topar,
47:57ser parceiro meu nesse CD,
47:59e dar a toada desse CD.
48:01E aí o Chico Lobo falou assim,
48:03lógico,
48:04Luiz,
48:04vem aqui pra Minas Gerais,
48:05que eu tenho um produtor aqui,
48:06que grava comigo,
48:07ele é o cara,
48:08vamos fazer com ele,
48:09e o Chico Lobo faz as violas,
48:11de todas as músicas do De Dentro,
48:13que acabou chamado De Dentro por causa disso,
48:15De Dentro,
48:16do interior da Paraíba,
48:17De Dentro de Mim,
48:18da coisa mais minha,
48:19De Dentro,
48:20né,
48:21e aí,
48:21bicho,
48:22foi o CD que,
48:25até hoje,
48:25Edu,
48:25quando as pessoas ouvem,
48:28que conhecem esse trabalho,
48:30todo mundo fala da viola do Chico,
48:31como a viola do Chico dá leveza pro trabalho,
48:35dá alegria pra esse álbum,
48:37e é verdade,
48:38a viola do Chico
48:39traz toda essa linguagem minha nordestina,
48:43e não para só lá,
48:44né,
48:44porque o Chico fala isso,
48:47né,
48:47que gravar esse CD foi um desafio,
48:49porque ele falou assim,
48:50Luiz,
48:50foi um desafio porque as suas harmonias não são da música caipira,
48:55então eu tive que levar a minha viola pro teu universo,
48:58e aí pra ele falou assim,
48:59cara,
49:00pra mim foi uma descoberta,
49:02que eu não sabia que eu podia chegar tão longe com a viola,
49:04indo pra esses lugares tão complexos de harmonia,
49:08e cara,
49:09foi um casamento que,
49:10eu agradeço a ele até hoje,
49:12e foi divino esse casamento,
49:14cara,
49:14e aí nasceu de dentro,
49:15todo feito com o Chico,
49:17que foi o meu segundo CD,
49:18o segundo álbum.
49:19Muito bom,
49:20muito bom,
49:21o nosso tempo tá acabando,
49:23já estamos na reta final,
49:25e eu quero te agradecer,
49:26mas antes eu queria entender,
49:28que teve trabalho seu,
49:29que você vai pro financiamento coletivo,
49:32como é que funcionou isso pra você,
49:34eu tenho muita curiosidade com relação a isso,
49:36funcionou bem,
49:38foi legal,
49:39é bom pra você,
49:41você fica devendo mais gente,
49:43entendeu?
49:44Se você faz um financiamento coletivo,
49:46talvez você tenha que entregar um disco pra cada um,
49:49daqueles que te ajudaram a fazer o projeto acontecer,
49:52aí você,
49:53durante o processo criativo de execução do trabalho,
49:56você fica pensando,
49:57cara,
49:57eu tô tocando,
49:58eu preciso entregar o disco pros outros,
50:00deve dar um nó aí na cabeça,
50:03eu tive a primeira experiência com isso,
50:06no primeiro CD,
50:07o 3,
50:08ele foi feito por financiamento coletivo,
50:10e aí eu aprendi muito com o 3,
50:13o bom de você fazer projeto por financiamento coletivo,
50:16porque o legal é que você fica completamente integrado com quem te ouve,
50:21então você sabe dele,
50:22o que ele gosta,
50:23você sabe dele,
50:24o quanto ele quer te ajudar,
50:25o quanto ele quer fazer aquilo pela tua obra,
50:29o quanto ele te apoia como artista,
50:31então você tem uma relação muito próxima com as pessoas que curtem o que eu trabalho.
50:37Aprendi muito no primeiro CD,
50:39foi lindo,
50:39todas as fotos do CD foram feitas também pelo público,
50:44o álbum inteiro,
50:45foi construção em parceria.
50:47Esse segundo,
50:48esse terceiro CD,
50:49que é o infantil,
50:50eu estou fazendo ele ainda por financiamento coletivo,
50:54só que quando eu lancei o financiamento coletivo,
50:57cara,
50:58uma semana depois,
50:59chegou a pandemia.
51:01Então,
51:02fiquei naquela situação,
51:04tipo assim,
51:04cara,
51:05como pedir as pessoas no meio de um caos como estamos,
51:08sem a gente olhar o futuro,
51:10como trabalhar isso?
51:12Pô,
51:12eu seria muito descuidado se eu continuasse nessa pegada,
51:16sabe?
51:16Então,
51:17eu deixei muito à vontade para as pessoas que querem ajudar,
51:21a gente não parou,
51:22mas eu continuo não cobrando,
51:24porque eu acho que chegou,
51:27chegou na onda,
51:28sabe?
51:28Sabe aquela coisa,
51:28tipo assim,
51:29não,
51:29não adianta mais.
51:30Está lá,
51:31quem quiser financiar,
51:32quem quiser ajudar a financiar,
51:33está lá,
51:34mas a gente vai dar outros jeitos
51:37para financiar esse CD,
51:38que não o coletivo,
51:39porque não vai se pagar,
51:41não vai se pagar por todos os motivos.
51:44Mas,
51:44cara,
51:44eu vou te falar,
51:46você falou assim,
51:46você fica preocupado,
51:47eu não fico,
51:48sabe por quê?
51:50Porque eu acho que todo mundo que ajuda um trabalho,
51:52de um artista,
51:53e sabe que ele precisa disso,
51:56ele não está ajudando para que ele tenha alguma coisa em troca,
51:59a não ser a obra dele.
52:01Então,
52:02as pessoas não te cobram em relação a isso,
52:04eles querem mais é que você,
52:06como artista,
52:07alcance outras pessoas como alcançou ela,
52:10que você produza mais coisas para que outras pessoas te conheçam.
52:13Então,
52:14está muito mais nesse lugar de parceria e de carinho pelo teu trabalho,
52:20do que propriamente por uma cobrança sobre aquilo que ele financiou e precisa receber de volta um CD ou alguma
52:25coisa.
52:26Está no etéreo,
52:27está no etéreo das coisas.
52:31Perfeito.
52:31Luiz,
52:32obrigado,
52:32cara.
52:33Você deu para a gente uma história tão bonita,
52:36história de vida,
52:37determinação,
52:38vontade,
52:39acertos,
52:39erros,
52:40tropeços,
52:41sorrisos,
52:41a vida é isso,
52:42cara.
52:43E a sua obra,
52:45o seu trabalho,
52:47que está começando,
52:48você tem um mundo pela frente,
52:50você tem uma história para construir,
52:52muito mais forte,
52:53maior,
52:53mais ampla do que você construiu até o presente momento,
52:56porque você está praticamente em 20% do espaço que você tem que ganhar nesse mercado,
53:02na vida,
53:03na obra,
53:04na criação.
53:04Então,
53:04você tem muito chão pela frente
53:06e com um alicerce emocional,
53:10pessoal,
53:11invejável.
53:12Você é um cara especial,
53:14você merece todo o aplauso do mundo
53:16e que seja bem sucedido em cada canção,
53:19em cada composição,
53:20em cada arranjo,
53:21em cada gravação.
53:22Você,
53:23como diria a minha saudosa avó,
53:25você é foda.
53:28Ô, Edu,
53:29obrigado,
53:30obrigado,
53:30meu amigo,
53:31obrigado mesmo.
53:32Eu fico muito feliz,
53:33cara,
53:33que o meu trabalho consiga encontrar as pessoas.
53:39faço ele com muito amor,
53:40sempre tentando dar o melhor de mim.
53:44O melhor de mim é isso que eu consigo entregar.
53:46E você sempre ser assim,
53:48cara,
53:48nunca vou querer menos do que isso.
53:52E como eu te falei,
53:53cara,
53:53a cada CD,
53:54a cada trabalho que eu faço,
53:56eu nunca acho que eu cheguei.
53:57Eu me esforço para continuar entregando o melhor que eu posso entregar,
54:01sabe?
54:01Se isso vai me levar a qualquer lugar de glamour,
54:09que aí as pessoas não entendem, né?
54:11Que sucesso e glamour são duas coisas diferentes, né?
54:14E para mim,
54:14sucesso é fazer exatamente o que eu já faço.
54:17Eu amo fazer o que eu faço.
54:19Eu deito todos os dias e durmo em paz,
54:23porque eu sei que eu estou dando o melhor de mim, sabe?
54:26Para onde isso vai,
54:28não cabe a mim decidir,
54:29cabe a mim fazer.
54:30e eu continuarei fazendo.
54:32Faça.
54:33Faça-o.
54:34Faça-o.
54:35Obrigado, meu garoto.
54:36Muito obrigado pelo carinho,
54:37pela atenção,
54:38muita paz,
54:39muito beijo
54:39e energia positiva para todos nós.
54:43É isso mesmo.
54:44Obrigado, Du.
54:46Prazer, querido.
54:47Amanhã eu estou de volta com o Chico Uovo às seis da tarde.
54:50Vou assistir.
54:51Vou assistir.
54:52Estarei aqui.
54:53Abraço.
54:53Tchau, meu irmãozão.
54:54Obrigado.
54:54Tudo bom.