- há 9 horas
Produtor musical e jornalista, Edu Henning entrevistou 260 artistas e personalidades culturais durante a quarentena provocada pela pandemia do novo coronavírus. Confira no canal do vocalista da icônica banda Big Beatles lives que abordam desde a trajetória musical a questões curiosas de importantes nomes da música brasileira.
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NotíciasTranscrição
00:11Opa, entrou! Opa! E aí, mano? Você tá bem? Graças a Deus, cara, tudo certo aqui?
00:21E como é que tá aí? Trancafiado em casa, em São Paulo? Bastante trancado, muitíssimo bem
00:27quarentenado, né? Como o meu trabalho já era bastante caseiro, fora a parte do trabalho
00:34que consistia em fazer os shows, então, óbvio que mudou tudo, mas pelo menos eu consigo
00:41fazer minhas coisas de casa, né? Eu fico feliz em saber que vocês estão bem, né?
00:47Isso é o principal, né, cara? O problema é manter a casa de pé, né? Que é só eu,
00:53minha mulher aqui e minha filha também, então, o tempo fica muito apertado, assim,
00:58né? Porque tudo isso era super terceirizado aqui, agora é a gente fazendo tudo, né?
01:04Então, mas não tenho muito do que reclamar, não, fora a condição geral da humanidade,
01:10mas eu não tenho muito do que reclamar, não.
01:12Sua filha tá pequena, tá pequenininha ainda, né?
01:14Quatro aninhos, mas já dá um trabalho bom.
01:17Aham, já dá desde sempre.
01:20É, é menos do que no começo, né? Se fosse um recém-nascido, assim, talvez
01:23seria uma treta maior, né? Mas a gente, a gente, ela tá numa idade super de criatividade,
01:33então, tá desenhando o tempo inteiro várias brincadeiras, a gente tenta estimular a parte
01:37física, assim, né? Que é o que mais fica parado, tá trancado aqui, não tô na escola,
01:41mas algumas vezes a gente mora numa casa, então tem algum espaço pra fazer uma brincadeira,
01:45um negócio assim.
01:46Ótimo, maravilha. Vamos lá, nossa conversa, a minha intenção sempre ao conversar, tô
01:51aqui fazendo um levantamento, essa é a entrevista de número 74, desde que a gente começou essa
01:58história de quarentena. Você, rapaz, caí pra trás, comecei a contar essas coisas a
02:04partir dos últimos três, quatro dias, e tô um pouco assustado com quantas pessoas de
02:09tantas vertentes diferentes que você vai conversando e vai. A minha intenção ao conversar é
02:15entender como que você chegou a ser o Lucas Silveira. Isso depende de uma série de momentos
02:22da sua vida e começa lá no princípio. Você é criado no Rio Grande do Sul, mas você
02:29nasceu em Fortaleza. Como é que você sai, em que momento você sai de Fortaleza, carregado
02:34pelos pais pra Porto Alegre?
02:38Bom, pra mim, eu acho que a carreira musical, né? O caminho musical de qualquer pessoa, ele
02:46é feito pelo que tu encontra nesse caminho, né? Eu poderia muito bem ter sido exposto a
02:54outras, tanto influências musicais, né? Como exposto a outras influências na minha
02:59vida, influências que talvez até teriam desviado a minha carreira da coisa musical,
03:03né? Porque eu acho que todo ser humano nasce com uma musicalidade inata e os que se tornam
03:11músicos ou ouvintes mais atentos, eles simplesmente mantêm essa musicalidade, dão um nome pras coisas
03:19e desenvolvem isso, porque todo mundo nasce igual, né? Mas o meu lar foi muito musical,
03:27minha mãe não é musicista profissional nem nada, mas ela tocava violão, a gente ouvia
03:32muita música e o meu pai também é super cantor, também tocava violão, só que eu não
03:39vivi com ele na minha infância, assim, então eu não tenho essa memória, mas a minha mãe,
03:43meu Deus do céu, sempre tinha um violão na casa, um teclado na casa, então tudo aquilo
03:47era muito natural e todo tipo de música a que eu era exposto, quando você é criança,
03:54você é uma esponjinha, né? Tu vai só absorvendo, absorvendo, absorvendo, absorvendo, absorvendo,
03:58absorvendo, absorvendo e quando tu começa a espremer essa esponja, saem as músicas, saem as
04:04coisas que a gente faz, que é uma mistura, né? De tudo, assim, então, obviamente tem toda essa
04:09coisa da primeira infância, onde eu ouvia o que minha mãe ouvia basicamente, muito
04:14MPD, muito pop, muito solido amassada, né? Tipo, aquelas coisas que estavam lá nos
04:2080, mas que eu já entendia, já tinha um discernimento, sabia, putz, isso aqui é uma
04:24música boa, né? Tinha músicas que me faziam feliz e músicas que o lugar onde elas, para
04:32onde elas iam musicalmente, eu me lembro, eu tinha esse termo assim, ah, essa música não
04:35é feliz, mas não era necessariamente porque a música era animada. O lance que eu falava
04:40feliz era porque a música era do que eu queria que ela fosse, assim, e eu me lembro que eu
04:46tinha essa percepção criança, antes de me musicalizar, né? Eu fui musicalizado tarde,
04:53eu sempre toquei tudo de ouvido, mas eu fui musicalizado, assim, de aprender uns acordes,
04:58aprender o que eu estava fazendo, eu tinha já 14 anos, e aí foi quando eu já estava
05:04ouvindo o punk rock, o hardcore, essas coisas mais alternativas, que foi o que me, de fato,
05:12desviou para a música, assim, porque até então eu achava que eu ia ser, eu gostava
05:16de desenhar, eu sempre fui das artes, mas eu não achava que eu ia ser músico quando
05:21eu tinha 10 anos ou 12 anos. Foi com 14, 15, começou a ligar isso e aí virou uma obsessão,
05:28né?
05:28Foi uma obsessão. Você colocou um negócio aí muito interessante, você aprende a tocar
05:35sozinho?
05:37É, porque tinha os instrumentos na minha casa, e a gente não tinha condições de fazer aula
05:43de música, porque não tinha condições, e na época era muito caro, muito inacessível,
05:48não tinha internet, então minha mãe nunca, minha mãe também só tocava de ouvido, então
05:52ela não conseguia me ensinar, ah, isso aqui é um fá, isso aqui é um sol, mas ela também
05:56tocava, tocava bem, assim, ela sempre tocava tudo, de ouvido, e eu também, eu achava
06:01que esse, inclusive, era o único jeito de se tocar uma coisa, e o teclado é um instrumento
06:05melhor para tocar de ouvido, porque as teclas estão ali, tu aperta, sai um som, né?
06:09Agora um violão, uma flauta, já existe uma técnica para fazer sair o som dele, então...
06:16Entendi, claro isso.
06:18Foi isso, tinha um teclado, era aqueles órgãos, tipo, era tipo aqueles órgãos eletrônicos,
06:26que era meio que o móvel, assim, aqueles Gambit, Gamasonic, é nacional, era super tosco,
06:33assim, mas tinha ritmos e tinha essas coisas, e eu ficava muitas horas, isso quatro, cinco
06:38anos, uns cinco, quatro, cinco anos de idade, ficava ali apertando, e eu acho que a influência
06:43de família aí foi o fato da minha mãe simplesmente deixar eu fazer isso, né?
06:47Talvez se ela tivesse dado aquela noiada, assim, não, agora eu vou fazer aulas de piano,
06:51talvez eu tivesse até...
06:54Travado.
06:55...crianças que travam um pouco, assim, porque deixa de ser livre a tua expressão ali, né?
07:02Então, acho que a musicalidade que eu herdei dos meus pais foi muito de ter... de estar
07:09no meio daquilo.
07:10Então, para mim, a música era uma coisa muito normal, mesmo quando eu não queria ser
07:14um cantor ou um cara de banda, era muito normal, eu achava que para todo mundo, achava que
07:20em todas as casas tinha violões por tudo quanto é lado, e que todo mundo tocava, todo mundo
07:24cantava.
07:25Foi aí que eu fui percebendo que não era realmente assim, e que se eu desenvolvesse
07:30aquilo, mas a obsessão mesmo, assim, de ficar horas, o dia inteiro com violão, com
07:36guitarra...
07:37Era violão, né?
07:37Porque a gente nem tinha guitarra, porque eu pegava uma guitarra, eu já era quase maior
07:39de idade.
07:40Então, era o violão mesmo que a gente pegava.
07:43Mas aí você sai dessa fase, Lucas, e entra no colégio.
07:47É no colégio que você se descobre músico, você começa a curtir música, festival, conversa
07:55no pátio, você sabe tocar o quê, eu sei tocar isso, você já aprendeu aquilo, foi
07:59ali que a coisa começou a borbulhar?
08:02Foi no colégio, já foi no segundo grau.
08:05Eu sempre fui muito musical, então, assim, quando tinha uma história no colégio,
08:10que envolvesse música, eu estava envolvido, mas eu não era um dos músicos da minha
08:15turma quando eu estava na sexta, sétima, oitava série.
08:17Foi mais quando eu fui para o segundo grau, ali, para o ensino médio, que eu comecei a
08:23ter essa inclinação musical e teve um passeio do colégio, né?
08:28Uma viagem da turma que foi definitiva, assim, que a gente foi para o Paraná, na Ilha
08:34do Mel.
08:34Então, era uma viagem de 14, 15 horas de ônibus com um monte de adolescente, né?
08:38Se foi no primeiro ano, eu tinha 14 anos.
08:41E tinha os carinhas do violão, eu não era um desses caras, porque eu não tocava
08:45ainda.
08:46Mas eu ficava sempre na volta deles, porque a gente ficava cantando, todo mundo cantando.
08:51E aí, na minha turma, tinha uma colega minha que falou, nossa, cara, tu canta bem, não
08:55sei o quê.
08:55E nunca ninguém tinha falado para mim que eu cantava bem, porque eu não sabia que eu
08:59cantava bem.
09:00Aí, depois, eu fui traçando para trás, assim, aí eu me lembro que lá mais atrás,
09:05quando eu tinha 8, 9 anos, estava super na moda do pagode.
09:09E aí, eu lembro que tinha um pessoal que tocava pagode na praia, com meus irmãos também,
09:12que gostam de tocar.
09:14E aí, eu lembro que os caras gostavam.
09:15Oh, Lucas, os caras cantam bem os pagodes, não sei o quê.
09:18Então, assim, mas eu não enxergava isso.
09:19Eu achava que era normal cantar, né?
09:21E é o que devia ser, inclusive.
09:24E aí, foi quando eu fui sendo trazido, assim.
09:28E nesse passeio, eu voltei, assim, tá, mas eu preciso aprender a tocar violão, porque
09:31eu não posso ficar precisando de alguém tocar para eu cantar.
09:35Eu não gostava disso.
09:36Eu queria saber tocar as coisas do momento ali.
09:39Na época, o Jota Quest era uma banda mais popular, assim.
09:43E aí, eu me lembro que eu cheguei para o meu irmão e falei, ensina a tocar fácil,
09:46extremamente fácil, né?
09:48Aquela música.
09:49Aí, o meu irmão, que tocava mais ou menos um violão, arranhava, assim.
09:53Ele já teve que ter uns 17, 18 anos.
09:55Aí, ele me ensinou os acordes, assim.
09:58Alguns acordes, que tinha uns que ele meio que não sabia, né?
10:00Tinha uma pestana ali, que ele já fugia.
10:03E dali, dali do fácil, extremamente fácil.
10:07Aí, eu comecei a aprender a ler uma cifra.
10:10Aí, foi embora.
10:11Naquele ano, que eu estava passando para o segundo ano,
10:14foi o ano em que eu decidi que eu tocava.
10:17No final daquele ano, já tinha Fresno.
10:20Já era uma banda que existia, assim.
10:22Rápido, assim?
10:23Rápido?
10:24É, porque a gente montou a banda, porque eu estava começando a tocar guitarra, né?
10:28Eu estava aprendendo a tocar violão e já querendo pegar uma guitarra.
10:31Aí, no primeiro ensaio da Fresno, que na época não tinha nome,
10:34mas ainda já era eu, já era o Vavo.
10:37Tinha um outro vocalista na época.
10:39Foi a primeira vez que eu peguei uma guitarra elétrica e coloquei,
10:41pisei num pedal de distorção.
10:43E isso é um negócio que mudou a minha vida, assim.
10:47Porque eu gostava de tocar violão, né?
10:49O violão é a linguagem universal.
10:50Tu leva ele para uma praça, leva ele para um colégio, toca nele.
10:53Mas a guitarra elétrica plugada com uma distorção,
10:56e tu perceber que aquilo que tu toca pode ser amplificado ao teu infinito,
11:02isso foi um negócio que eu falei,
11:03ah, então é isso.
11:05E aí, a gente começou a tocar.
11:07E nessa época eu já compunha também.
11:09O Lucas tocando, ele nasceu junto com, fazendo música, assim.
11:14Eu vi uma música que era bonita.
11:16Eu, ah, isso aqui é bonito.
11:17Por que será que isso aqui é bonito?
11:18Ah, fazer uma música parecida.
11:19Normalmente eu acabava fazendo uma música igual,
11:20uma música que eu gostava.
11:22Mas nessa aí, então, peraí.
11:23Nesse momento que...
11:25Quero me situar para pegar o teu desenho.
11:29Aí você começa a tocar a guitarra,
11:30se junta com os amigos,
11:32e começa a tocar o que?
11:34Naquele momento vocês reproduziam o som de quem?
11:37Ou você já começou a partir para o seu próprio som?
11:41A gente tocava...
11:43A gente não tinha...
11:44A gente nem se...
11:45Assim, quando eu comecei a fazer as músicas,
11:47eu ainda nem colocava elas para a banda.
11:50Vamos tocar a minha música que eu fiz.
11:51Ainda não tinha que tocar muito no começo.
11:53O nosso objetivo no começo
11:55era tocar no festival de bandas do colégio.
11:57Então tinha que ser um show de covers, assim, né?
11:59Coisa que todo mundo conhece.
12:01E na época, a gente se enxergava muito
12:07como uma banda de punk rock, né?
12:08Porque a gente gostava muito de punk rock.
12:10Na época, estava muito em alta
12:12essas bandas tipo Blink-182.
12:15E no Rio Grande do Sul também
12:17tem algumas bandas punk
12:19que fizeram muito sucesso local no Rio Grande do Sul,
12:21tipo Tequila Baby, Los Vatos.
12:23E a gente ficava tirando essas músicas, assim.
12:26A gente gostava disso, né?
12:27Porque a gente andava de skate.
12:30Então, era fazer parte de um universo, assim.
12:33Os vídeos de skate também tinham
12:34muito hardcore e muito punk.
12:36Aí, um ano depois, saiu aquele jogo
12:38Tony Hawk's Pro Skater,
12:39que era um jogo de skate de PlayStation
12:42que a trilha toda é punk rock, assim.
12:44Então, são coisas que te fazem
12:45sentir pertencente a um universo.
12:47Eu ligava o rádio e eu não gostava de nada daquilo.
12:49E isso, aliado a uma rebeldia natural
12:51do adolescente, assim,
12:53me fazia sentir que eu pertencia a um mundo.
12:56e me fazia muito bem
12:57pertencer a um mundo
12:58que não era o mundo de todo mundo, né?
13:00Então, foi aí que eu descobri
13:01que existia o Underground,
13:03que são as bandas que ninguém conhece,
13:04que tocam em lugares
13:05para, às vezes, 100 pessoas,
13:07mas aquele público é muito mais passional
13:09do que o público que, às vezes,
13:10lota uma arena.
13:11E aí, isso foi me fazendo
13:13me sentir pertencente.
13:14Aí, começa a me sentir
13:15numa espécie de gangue, sabe?
13:17Tipo assim, de, ah,
13:18aquele cara ali conhece também.
13:20Aí, vai vendo quem é o cara
13:21que conhece coisas mais obscuras,
13:22mais estranhas.
13:23E aí, e nisso também
13:26já estava fazendo música.
13:27E muito cedo,
13:29na história da Fresno,
13:30muito cedo,
13:31as minhas músicas
13:32foram virando músicas da banda
13:33e a gente foi trocando
13:34esse set list que era de covers,
13:36tipo Charlie Brown Jr.,
13:37Raimundos,
13:38o rock da época ali.
13:41Foi trocando
13:42para essas músicas próprias, assim.
13:44Que era tudo uma música
13:45de amor, assim,
13:46de sofrimento,
13:47porém, usando a linguagem
13:48que eu gostava,
13:49que era a linguagem
13:50do punk rock e do hardcore.
13:51ver se eu estou muito errado
13:53aqui no meu desenho.
13:54Aí, a partir desse momento,
13:56vocês começam a ganhar um corpo
13:58como um grupo local,
13:59porque o que a gente,
14:01tem muita gente
14:01que está nos assistindo
14:02de outros cantos
14:03e talvez não tenha noção,
14:05Lucas,
14:05da cena gaúcha
14:07que sempre foi
14:08muito poderosa
14:10em termos de rock,
14:11independente de qual estilo.
14:13A cena gaúcha,
14:14ela é atípica.
14:16Tem coisas que acontecem
14:17no Rio Grande do Sul
14:18que não acontecem
14:19em nenhum outro canto
14:20do Brasil
14:20e que é sucesso,
14:22são idolatrados,
14:24fazem suas tribos no Sul
14:26e do Sul não saem.
14:27É uma coisa muito maluca
14:28a força da música
14:31no Rio Grande do Sul.
14:32Aí você fazia parte
14:33desse grupo.
14:33Chegou o momento
14:35que o Fresno
14:36deu dois, três, quatro
14:38degrauzinhos a mais
14:39e encontrou o seu caminho
14:40à sua tribo
14:41dentro do Rio Grande do Sul.
14:43E aí você já tinha lançado
14:46um ou dois ou três discos
14:48quando resolvem sair de Porto Alegre
14:52a partir do momento
14:53em que começou a bater uma luz
14:56em cima de vocês.
14:57O Brasil começou a olhar o Fresno.
14:59Esse é o passo que as bandas gaúchas
15:02normalmente não dão.
15:04Porque como tu bem falou,
15:06nos anos 80 e 90,
15:08principalmente,
15:08se estabeleceu no Rio Grande do Sul
15:11um mainstream local.
15:13Então são bandas que tocam no rádio
15:15tanto quanto o Charlie Brown tocava.
15:18São bandas que enchem arenas
15:20do tamanho da arena
15:21que enchia o Cidade Negra
15:22ou Raimundos.
15:24Só que são bandas locais.
15:25Então existe a distância
15:26da fama local.
15:27Então tu toca do lado de casa,
15:28tu toca duas horas de casa,
15:29ganha um cachê bom
15:30e as bandas iam ficando
15:32nessa coisa também.
15:33E o som também,
15:35ele acabava sendo um tipo de música
15:36que não se comunicava exatamente
15:37com o resto do Brasil
15:38porque ele tinha muita referência local.
15:40E tipo assim,
15:41quase todo lugar tem uma cena local.
15:42São Paulo tem uma cena local.
15:44Mas tipo assim,
15:45as grandes rádios são aqui,
15:46a Globo é aqui,
15:47no caso era no Rio de Janeiro.
15:48Então assim,
15:49as bandas da cena local
15:50do Rio de Janeiro
15:51estavam tocando Rock in Rio
15:52e faziam sucesso no Brasil inteiro.
15:53E o Rio Grande do Sul
15:54foi cada vez mais se insulando
15:56nesse sentido.
15:57Mas a gente inclusive
15:59veio para São Paulo
16:00porque nessa cena gaúcha
16:02que acontecia muito
16:03junto com rádio,
16:04a gente nunca,
16:05a gente não fazia parte, né?
16:07Então para a gente sair
16:08do Rio Grande do Sul
16:08a gente não estava
16:09abandonando nada.
16:10A gente estava de fato
16:11abraçando um cenário
16:12que era muito fértil para a gente
16:14e que estava olhando para a gente
16:15com mais atenção
16:16que era a MTV.
16:17A gente veio para São Paulo
16:18por causa da MTV.
16:19Perfeito.
16:19A gente veio morar do lado da MTV.
16:20A gente morava do lado da MTV.
16:22E durante o ano ali
16:23de 2006, 2007,
16:24a gente ficou na MTV
16:25assim,
16:26qualquer matéria
16:27que tinham que fazer
16:27precisavam de uma banda
16:28dar liga para o Fresno lá
16:29que os caras estão disponíveis.
16:30Está aqui do lado.
16:32Agora, nessa saída
16:34para São Paulo,
16:35eu fico imaginando...
16:36Você tinha quantos anos?
16:38Eu tinha...
16:39Ah, já tinha feito 20.
16:40Tinha 21 anos.
16:4120 anos.
16:4220 anos.
16:43A rapaziada tinha entre 19 e 21 anos
16:47por aí.
16:49Cara, coragem, né?
16:51Coragem de fechar a porta atrás
16:53e aí encarar São Paulo.
16:55Alguém chegou para trás?
16:57É coragem,
16:58porque pensando agora de longe,
17:01três anos antes,
17:03dois anos...
17:03Quatro anos antes,
17:05eu estava aprendendo a tocar violão, né?
17:06Então, assim...
17:07Exatamente.
17:08De aprender,
17:09de pedir para o meu irmão
17:10para me ensinar fácil,
17:11extremamente fácil,
17:12até eu já estar sonhando
17:14com casas de show
17:15e com...
17:16Foi muito rápido.
17:18Três anos.
17:19É, foi assim...
17:21Foi...
17:21A banda começou a rigor em 2000, né?
17:24Foi em dezembro de 1980.
17:25O nosso primeiro show foi em 2000.
17:27Em 2003,
17:29a gente já veio tocar em São Paulo
17:30a primeira vez,
17:31no Hangar 110.
17:32Em 2004,
17:33a gente já estava ficando
17:34quase mais em São Paulo
17:35do que em Porto Alegre.
17:37Em 2006,
17:39tínhamos uma casa em São Paulo,
17:40éramos uma banda
17:41que estava tocando na MTV
17:42e já tinha, assim,
17:43lugares que estavam indo
17:44mil pessoas viajantes.
17:46Mas, assim,
17:47muito rápido.
17:48Mas eu acho que grande parte
17:50isso se deve
17:51ao fato de a gente
17:52não pensava.
17:54Assim,
17:55só vai...
17:56Inclusive,
17:57esse crescimento
17:57se deu em uma velocidade
17:58tão avassaladora
18:01que não foi todo mundo
18:02que acompanhou, não.
18:03Em 2006,
18:04quando a gente
18:04fincou
18:05o pé em São Paulo,
18:07o baixista,
18:08que era o Bruno,
18:09o Leso,
18:10ele já ficou em Porto Alegre.
18:11Porque ele já estava
18:12pegando emprego,
18:13mas tinha se formado
18:14em Direito
18:17e também a pressão
18:19de ser de uma banda
18:20e de tocar.
18:21Tipo assim,
18:22agora isso aqui
18:23virou série.
18:23Para mim,
18:24aquilo era tudo.
18:25Para mim,
18:25aquilo era 100%.
18:27Tipo assim,
18:28não tinha uma outra coisa,
18:29não tinha um outro emprego,
18:30uma outra coisa
18:31que eu pudesse pensar assim,
18:32qual vai ser o meu caminho?
18:33Eu não tinha essa dúvida.
18:35Eu vejo muitas pessoas
18:35que sofrem com a dúvida
18:36e eu não consigo...
18:38Eu tenho empatia por elas
18:40porque eu não saberia
18:41o que fazer
18:41se eu tivesse alguma dúvida
18:42do que eu quero da minha vida.
18:43mas eu não tinha essa dúvida.
18:45Então,
18:46quem também estava claro
18:47nesse rolê,
18:48se eu não tenho dúvida,
18:49ficou em São Paulo.
18:51Foi junto.
18:51Perfeito.
18:52Tanto que quando
18:54o Bruno saiu da banda,
18:55completamente amigável,
18:57amigão nosso até hoje
18:58e foi muito bom
18:59porque ele virou
18:59um procurador da justiça
19:01e muito importante
19:03o que ele está fazendo,
19:04sabe,
19:06nos meandros da justiça
19:07do Brasil.
19:08Ele é um cara
19:09que eu acho
19:10muito foda,
19:11a gente se comunica bastante.
19:12E aí entrou,
19:13quando ele saiu,
19:14eu chamei o Tavares,
19:15que era um cara
19:15que tinha produzido
19:16um disco nosso
19:17e que ele estava
19:19tocando na noite
19:19lá em Porto Alegre,
19:20cover,
19:21e ele tinha já
19:21uma banda de músicas próprias.
19:23E aí eu falei
19:25para o Tavares,
19:26ele tocava guitarra
19:2870 vezes melhor que eu,
19:29só que eu falei,
19:30ó,
19:30abri uma vaga na fresta
19:31para tocar baixo.
19:33Tipo assim,
19:34tu vem
19:34e no dia seguinte,
19:37ele estava em São Paulo,
19:38literalmente assim,
19:39então ele largou tudo,
19:41ele meio que nem avisou
19:41as pessoas,
19:42assim,
19:43porque ele era um cara
19:43que queria muito
19:44o negócio,
19:45tanto é que
19:46no dia seguinte ele veio
19:47e a energia que ele colocou
19:48naquela fase da banda
19:51ajudou muito assim,
19:52porque ele já entrou
19:53muito pilhado, né?
19:54A gente já estava,
19:55não cansado,
19:56mas a gente já tinha
19:57uma estrada ali,
19:58já pensava demais
19:58nas coisas,
19:59tudo parecia ter
20:00uma dimensão maior.
20:02E aí ele veio,
20:03tipo assim,
20:04com muita pilha, né?
20:06Imagina, Lucas,
20:08estou te ouvindo
20:08e pensando assim,
20:09acho que o outro momento
20:10difícil para vocês,
20:11estou falando de,
20:13pontuando momentos,
20:14porque a história
20:15é muito grande,
20:16muito longa,
20:16mas é tão complicado
20:18quanto foi largar
20:20o Porto Alegre
20:23em cara a São Paulo,
20:25talvez foi quando
20:26vocês começaram
20:27a ganhar o Brasil
20:29e deixar de ser
20:30uma banda underground
20:32e começar a ser
20:34uma banda
20:35de respeito
20:37e reconhecimento
20:38brasileiro,
20:39nacional,
20:40até internacional
20:41e alguns prêmios
20:43que você andou
20:43ganhando depois.
20:44Eu acho que
20:45esse segundo momento
20:47de passar
20:48para um corredor
20:50mais largo,
20:50para uma área maior,
20:52também foi difícil
20:53porque os seus
20:54admiradores,
20:55aqueles fãs
20:56da tribo
20:59começam a olhar
21:00vocês como
21:00os caras ficando
21:01muito distante
21:02e vou quase dizer
21:05assim,
21:05traindo a causa,
21:06porque o cara gosta,
21:08ele gosta do pequeno,
21:11as tribos gostam
21:12da identificação
21:14imediata,
21:15então a partir do momento
21:15que você começa
21:16a fazer um sucesso,
21:17você está
21:18traindo a causa.
21:20É um passo
21:21que se tem que dar,
21:23não tem que dar,
21:24é um passo
21:24que se tem que dar
21:25quando você tem
21:26claro na sua cabeça
21:28o objetivo.
21:30eu me via
21:33quando a gente
21:34começou a tocar,
21:35embora a gente
21:35usasse a linguagem
21:37do hardcore,
21:39do HC,
21:41e a gente
21:41não conseguia
21:42inclusive obter
21:43uma sonoridade
21:44de HC,
21:44então tudo
21:45que se chama
21:46de identidade musical
21:47da gente,
21:48era a gente
21:48tentando fazer
21:49uma coisa
21:49e não conseguindo
21:50fazer,
21:51e virou aquilo
21:52que era
21:52o nosso som,
21:54então assim,
21:55tudo que a gente
21:56fazia,
21:57eu visualizava
21:58muito,
21:59eu quero ser
22:00o cara
22:01que vai tocar
22:01no Rock in Rio,
22:04na verdade esse sonho
22:05ele ia aumentando,
22:06porque eu ia
22:07conseguindo uma coisa
22:08e eu percebia,
22:08agora eu quero
22:09tal coisa,
22:10então assim,
22:10sempre teve
22:11esse mais,
22:13porque a gente
22:14não via motivo
22:15para parar,
22:18talvez se no Brasil
22:20existisse
22:20uma cena underground
22:21onde uma banda
22:22consegue talvez
22:23sendo independente
22:24tocar em lugares
22:26sempre sabe,
22:27tudo certo,
22:28ninguém quer luxo,
22:28tudo certo,
22:29bonitinho,
22:30toca lá,
22:31som sem barulho,
22:33sem chiado,
22:34e tu vai lá
22:34e recebe um cachê
22:35e volta para a tua casa,
22:36compra outras coisas,
22:37mas como o underground
22:38ele não nos oferecia
22:40uma maneira
22:41de sobreviver
22:42100% da nossa música,
22:44a gente sempre percebeu
22:45como está,
22:46isso aqui é um estágio
22:47da banda,
22:48a gente não se via
22:49como um ponto final,
22:50a gente até tinha
22:51uma comodidade
22:53no underground,
22:54porque de fato
22:54nós não éramos
22:55exatamente adultos,
22:57então se eu conseguia
22:58comprar uma guitarra
22:59com aquele meu show
23:00já parecia tipo assim,
23:01nossa,
23:02mas ao mesmo tempo
23:03nós morávamos
23:03cinco pessoas
23:04numa mesma casa
23:05e rachava lá
23:06200 reais para cada um,
23:07então assim,
23:08aquilo ali duraria
23:09por um tempo,
23:10eu não conseguia estar ali
23:10com 38 anos
23:11fazendo aquilo,
23:12né,
23:14então assim,
23:15a gente se via
23:16acomodado no underground,
23:17mas ao mesmo tempo
23:18tinha esse salto
23:19que a gente queria dar
23:19e óbvio,
23:20cara,
23:20foi muito rápido também,
23:21porque a gente chegou
23:22em São Paulo,
23:23começa a aparecer muito
23:23na MTV,
23:24aí tu começa a ganhar
23:24um público que é diverso,
23:26aí algumas rádios
23:27já começam a tocar
23:28tua música
23:28no meio
23:29de uma programação
23:30pop popular
23:33e tu vê que
23:34aquele música
23:35que tu achava
23:35que era super alternativa,
23:37ela vai ressoando
23:37com outras pessoas
23:38que ouvem todo tipo
23:39de som
23:41e é basicamente
23:43isso que o cara busca,
23:43né,
23:44no meu caso,
23:46eu quero fazer
23:47uma música
23:48que todo mundo
23:49saiba
23:49e que ela
23:50significa alguma coisa,
23:51que ela seja foda
23:54e foi isso que aconteceu,
23:55assim,
23:55então,
23:56mas teve sim
23:58uma parcela
23:59do público
23:59que ficou
24:00com uma síndrome
24:01de underground
24:02que a gente fala,
24:03mas eu vou te dizer
24:04que a grandissíssima maioria
24:05se via tão
24:06parte daquilo,
24:08né,
24:08o público se via
24:09tão culpado
24:10pela banda
24:11estar fazendo sucesso
24:12no sentido de,
24:13tipo assim,
24:14a gente conseguiu fazer
24:15a Fresno virar,
24:17empurramos esse povo
24:18para o sucesso,
24:20então,
24:21assim,
24:21os fãs que eram
24:22mais fãs,
24:23eles tinham
24:23essa sensação,
24:25né,
24:25o cara que ouvia
24:26a gente porque
24:27ele ouvia só
24:28as coisas underground,
24:29ele ficou assim,
24:29agora os caras
24:30não são mais underground,
24:31mas a maioria
24:32se via assim,
24:33ah,
24:33conseguimos até,
24:35tanto que o mesmo fã
24:36que foi lá
24:37e pedia a gente
24:38para tocar no Hangar 10
24:39ou ia vender
24:40no festival,
24:41dois anos depois,
24:42ele estava pedindo
24:42para,
24:43votando para a gente
24:44ganhar o VMB
24:45de 2009
24:47ou, tipo,
24:48votando para a premiação
24:49internacional,
24:50então,
24:51a gente sempre conseguiu
24:53levar esses fãs
24:54junto,
24:55assim,
24:56sabe,
24:56porque tem aquela coisa
24:58do,
24:58quando faz um sucesso
24:59estrondoso,
25:00tu entra naquele público
25:01que é um público geral
25:02que curte basicamente
25:04o que está tocando
25:05no momento
25:06e ele não necessariamente
25:07vai te seguir depois
25:09para ver qual é
25:09o teu próximo single,
25:11o teu próximo single
25:11vai ter que ser tão estourado
25:12quanto foi o primeiro
25:13e,
25:14a rigor,
25:15ele nunca é
25:16porque não é mais
25:17uma novidade,
25:17o popular,
25:18ele vive da novidade
25:20e, tipo,
25:20assim,
25:21a gente nunca teve
25:22este single
25:23o absoluto estourado
25:25que o Brasil inteiro
25:26sabe,
25:26a gente teve músicas
25:27que foram nos charts
25:28lá em cima,
25:29mas, assim,
25:29não teve aquela coisa
25:31que, às vezes,
25:32outras bandas tiveram
25:33e que, às vezes,
25:33eles meio que
25:34ficaram moldados
25:35por aquilo
25:36e se vêem
25:37até artisticamente presos
25:38porque teve um sucesso
25:39tão grande
25:40que ficou tão
25:40a cara da banda
25:42que, às vezes,
25:42não se sente mais
25:44como sair daquilo.
25:44Ótima leitura.
25:47Ótima leitura.
25:48Muito boa.
25:49Nunca ter bombado,
25:51assim,
25:51tipo,
25:52é que parece,
25:53eu falando,
25:54eu falo,
25:54parece uma reclamação,
25:56mas é um agradecimento.
25:57a gente nunca ter bombado
25:58tanto nos deu
26:00muita liberdade
26:01e também nos deu
26:03muita noção
26:04de que, putz,
26:05tem muito mais
26:06o que fazer, né?
26:07E, querendo ou não,
26:09eu ainda busco,
26:10esse cara meio que
26:11inconscientemente
26:11ainda busca
26:12aquela música
26:13que o universo
26:14jamais vai esquecer,
26:16né?
26:16Então,
26:17isso é um negócio
26:18que...
26:19Olha só,
26:19você está falando,
26:20desculpa,
26:21você está falando
26:22dois pontos
26:22que eu estou,
26:23como eu te disse,
26:24estou aqui entrevistando,
26:25você é o número 74,
26:26eu estou ligando
26:27duas respostas
26:28que nós tivemos agora,
26:29um do Carlos Cola,
26:30Carlos Cola,
26:31que é um compositor
26:33extremamente popular,
26:34que compõe
26:35para o Roberto Carlos,
26:36para um monte de gente
26:37que chegou aqui
26:38e falou que a música,
26:39ele levanta todo dia,
26:41compõe uma música
26:42por dia,
26:43porque ele está
26:44atrás da...
26:45Olha só que loucura!
26:46Está atrás
26:47da música perfeita,
26:49que é o que você
26:50acabou de falar,
26:50um dia ele vai encontrar
26:51a música perfeita.
26:52E a outra pessoa
26:54que...
26:55o Sérgio Dias
26:56dos Titãs,
26:58dos Mutantes
26:59em Los Angeles,
27:01numa conversa
27:02que nós tivemos aqui
27:02há umas três semanas,
27:04ele diz o seguinte,
27:05que o orgulho
27:06que ele tem
27:07é que os Mutantes
27:08nunca ganharam
27:09um disco de ouro.
27:12Quer dizer,
27:12ou seja,
27:13é mais ou menos
27:13o que os dois pontos
27:15são mais ou menos
27:16o que você acaba
27:17de desenhar
27:18agora aqui para a gente
27:19nessa resposta.
27:19Agora,
27:20um ponto.
27:20você sempre conseguiu
27:24fazer que o Fresno
27:25seja a sua janela
27:28principal,
27:28mas você tem
27:29várias portas
27:30abertas na sua vida.
27:32Você produz muita coisa,
27:33você é muito produtivo,
27:34você é criativo,
27:36você escreve,
27:37você compõe,
27:38você produz,
27:40você é multifacetado
27:42e faz bem feito.
27:43Independente
27:44do que você esteja
27:45se propondo a fazer,
27:48você faz
27:48com muita qualidade.
27:52Mas é verdade,
27:54isso é muito prazeroso
27:56para você
27:57como ser humano
27:58e como artista,
27:59não tenho nenhuma dúvida
28:01com relação a isso.
28:02Mas eu acho
28:03que é um ponto
28:03que você se dedica
28:04que é o lado
28:08da produção,
28:09porque nós temos hoje
28:12vários produtores,
28:15mas personalidades
28:16na produção,
28:16nós temos alguns
28:18que a gente pode contar
28:19nas mãos.
28:20Fala um pouquinho
28:21sobre o seu lado produtor,
28:23você tem agora
28:24de um certo momento
28:25para frente,
28:26você começou a produzir
28:27os próprios discos
28:28da banda,
28:30da Fresno
28:32e tem o do Capital,
28:33que eu acho que foi
28:34o marco
28:35para qualquer um
28:36produzir o disco
28:37do Capital
28:39é sensacional.
28:40Fala um pouquinho
28:40sobre o seu lado
28:41de produção.
28:44A produção
28:45na minha vida
28:47é muito ligada
28:51à necessidade,
28:52porque
28:53vamos supor
28:54que eu tivesse
28:55feito a música
28:56que virou sucesso
28:57quando eu tinha
28:5716 anos,
28:59a gente teria ido
29:00para um estúdio grande
29:01mais cedo.
29:03Acho que quando a gente
29:03foi a primeira vez
29:04para um estúdio
29:04de fato,
29:05de verdade,
29:06aquele que tem um console,
29:07isso não é estúdio de verdade,
29:08mas enfim,
29:10o estudião,
29:10aquele que dá
29:12um frio na barriga
29:13do cara,
29:13a gente tinha
29:14oito anos de banda,
29:14quando a gente
29:15foi gravar
29:16pela Universal,
29:17o Redenção.
29:18Até então,
29:19era sempre
29:19nas casas das pessoas
29:21e o que não
29:23interferiu em nada
29:24o som,
29:24porque o som
29:25do disco
29:25que é anterior
29:26ao Redenção,
29:27que foi o disco
29:27que a gente gravou
29:27no SSL,
29:29o som do disco
29:30anterior a ele
29:31é muito melhor,
29:32porque
29:33as horas
29:35homem
29:36dedicadas
29:37daquele
29:37do disco
29:37anterior
29:38foram muito
29:38mais horas,
29:39e o som
29:40que a gente faz
29:41ele não é
29:43um tipo
29:44de música
29:45natural,
29:46ele é um tipo
29:46de música
29:49não é exatamente
29:50artificial,
29:51mas é um tipo
29:51de música
29:51que
29:52para soar
29:53da maneira
29:54que soa
29:55ele exige
29:55muita
29:56pós-produção,
29:58sabe?
29:58O próprio,
29:59por exemplo,
30:00quando as bandas
30:00começaram a ficar
30:02mais pesadas,
30:03quando surgiu
30:04o Sabá,
30:05por exemplo,
30:06as bandas
30:07foram ficando
30:07mais pesadas,
30:08aí foram percebendo
30:09que não se ouvia
30:09mais a bateria,
30:10porque a guitarra
30:11estava cobrindo,
30:12ou o baixo
30:13foi ficando distorcido,
30:14putz,
30:14não tem mais grave,
30:15ou a guitarra
30:16foi ficando
30:16cada vez mais alta,
30:17então assim,
30:17quando as pessoas
30:18foram começando
30:18a deixar o som
30:19mais extremo,
30:20foi começando
30:21a se precisar
30:21de ter uma tecnologia
30:22que acompanhasse,
30:23que viabilizasse
30:24aquele som,
30:24tanto que hoje
30:25houve um metal
30:26do final dos anos 70
30:28e houve um metal
30:29do final dos anos 80
30:30e você ouve
30:31o que está sendo
30:31feito hoje
30:34num dubstep,
30:35numa coisa eletrônica,
30:36porém metal
30:37no sentido de peso
30:39e de intensidade,
30:40assim,
30:41é a tecnologia
30:41trabalhando junto
30:42e eu percebia
30:45que isso era
30:46muito parte
30:46da composição,
30:47assim,
30:47eu não podia
30:48simplesmente
30:49tocar uma música
30:50no violão
30:51e falar assim,
30:51essa é a minha
30:52composição,
30:53porque a ideia
30:53que eu tinha
30:54do que eu queria
30:55passar,
30:55e música
30:56é um sentimento
30:57que não é só
30:58a letra,
30:58não é só
30:59o que você está
30:59cantando,
30:59não é só a melodia,
31:00não é nada,
31:00é o retrato
31:02que aquilo
31:03pinta
31:04na cabeça
31:05das pessoas
31:06e esse retrato
31:07passa por timbre,
31:08passa por
31:09a velocidade
31:10da música,
31:11que tamanho
31:12vai ser a introdução,
31:12que tamanho
31:13não vai ter,
31:13que hora eu canto,
31:14que hora eu não canto,
31:15então, assim,
31:15isso já é produção,
31:16então a composição
31:17minha sempre foi
31:18muito produzida
31:18e aí,
31:19quando eu queria
31:20passar a ideia,
31:21eu precisei começar
31:21a fazer demos
31:22melhores
31:23e aí,
31:24fazendo demos,
31:25eu fui vendo
31:25que eu estava
31:26produzindo,
31:26chegou um momento
31:27que eu comecei
31:27a gostar mais
31:28das demos
31:28do que do trabalho
31:30finalizado,
31:31e eu falava assim,
31:31cara,
31:32se eu mixasse
31:32essa demo aqui
31:33com um cara
31:34que sabe mixar,
31:34que é já um trabalho
31:35já não tão artístico
31:37e mais de engenharia,
31:38eu falava assim,
31:39pô, se eu mixasse
31:40essa demo aqui,
31:40tem mais sentimentos,
31:41porque a ideia
31:42porque a ideia está ali,
31:42eu percebi
31:43quando nós todos
31:45tocávamos juntos,
31:47a coisa ficava limitada
31:50pelo que eu conseguia
31:51cantar tocando,
31:52ou às vezes eu esquecia
31:54uma ideia que tinha
31:55na demo,
31:55que talvez fosse
31:56a cereja do bolo
31:57da canção finalizada,
31:59e aí eu fui,
32:00eu tenho que começar
32:01a produzir essas coisas,
32:04e treinando,
32:05e para treinar
32:06essa minha produção,
32:07eu fazia projetos,
32:09solos,
32:09ah, vou gravar
32:10uma musiquinha aqui,
32:11e eu percebia
32:12que quando eu fazia
32:12uma música
32:13de um projeto solo,
32:13eu não tinha
32:14nenhuma pressão
32:15para aquilo ter
32:16um resultado fantástico,
32:18porque, ah,
32:18a música que eu fiz solo,
32:19então eu gravava,
32:19mixava,
32:20materializava,
32:20pum, subia,
32:21as pessoas falavam,
32:22nossa, que legal,
32:23aí eu percebi,
32:24por que que para a fresa
32:25eu tenho tanto medo
32:25de fazer isso, né,
32:27se o que eu ouço
32:28eu acabo gostando,
32:29e se eu gostar,
32:30a chance de alguém
32:32mais gostar
32:33é maior do que
32:34se eu ouvir um bagulho
32:35que eu fiquei,
32:35hum,
32:36de eu sentir que aquilo
32:36não está me traduzindo
32:37perfeitamente,
32:38então eu falei assim,
32:40pô, cara,
32:40eu tenho que começar
32:41a produzir,
32:41mas isso foi ao longo
32:43de muitos anos,
32:44o primeiro disco
32:44da fresa que eu produzi,
32:48apesar de todos
32:48terem uma produção
32:50grande minha,
32:51porque a pré-produção
32:52toda,
32:52como vai ser aquela música,
32:53qual é o teclado
32:54que vai entrar,
32:55mas o primeiro disco
32:56que eu assinei
32:56uma produção
32:56foi o Infinito
32:57em 2012,
32:58mas foi porque
32:59a gente não estava
33:00mais na gravadora,
33:01a gente não tinha
33:02mais dinheiro para fazer,
33:03e quem nem sonhava
33:05em, sei lá,
33:06ter um dinheiro
33:07para contratar
33:07um produtor
33:08que a gente respeitasse
33:09quem a gente quisesse,
33:10e era muito mais isso,
33:12a gente precisa fazer
33:13esse disco agora
33:14para mostrar
33:14que a banda está viva,
33:16para mostrar
33:16que a gente não sumiu,
33:18porque quando a gente
33:18saiu da gravadora
33:19rolou um papo assim,
33:21e já era,
33:22porque é o normal,
33:23as bandas têm
33:24um grande boom,
33:25e o sucesso delas,
33:27a longevidade depende
33:28de qual é a profundidade
33:29do teu vale,
33:31tipo assim,
33:32se teu vale for muito fundo,
33:34some do radar,
33:34e aí vira aquela banda
33:35que ninguém mais sabe
33:36que existe,
33:38tudo bem,
33:38porque o que importa
33:39é o que a gente está fazendo,
33:40mas a gente não queria
33:41que isso acontecesse,
33:42embora dia sim,
33:44dia não,
33:44chegue um cara
33:44que a empresa ainda existe,
33:46e tudo bem,
33:47porque o cara está procurando
33:48em outro lugar,
33:49mas a gente não queria
33:50que esse vale fosse
33:52tão grande,
33:54então por isso que foi muito rápido
33:56a produção do Infinito,
33:57foi um disco que eu botei,
33:58talvez o disco que eu mais botei
33:59esforço de horas minhas,
34:01porque eu tinha uma missão
34:02de me provar como produtor,
34:03e foi um disco que foi
34:04muito bem aceito,
34:06ele soa muito bem até hoje,
34:08e tanto assim,
34:09ele é cheio de orquestras,
34:10ele é cheio de coisas,
34:11ele é muito megalomaníaco
34:12na produção,
34:13porque eu me sentia
34:15que eu podia,
34:16e eu fui,
34:18e obviamente tudo isso
34:21completamente apoiado
34:22pela banda inteira,
34:24quando às vezes eu falo
34:24na primeira pessoa,
34:26porque a gente vai fazendo
34:27as coisas,
34:28e tipo assim,
34:29em todos os estágios
34:30isso é conversado
34:31entre nós,
34:32inclusive se alguém
34:33estiver muito se opondo
34:34a alguma coisa,
34:36é porque talvez
34:37aquilo não esteja traduzindo
34:38tanto quem somos
34:39nós quatro,
34:41perfeito,
34:42mas então em 2012
34:43eu fui produzir
34:44o primeiro negócio,
34:45a primeira música
34:46que saiu da Fresno
34:47que eu assino
34:47uma mixagem,
34:49por exemplo,
34:49foi agora em 2020,
34:51sabe,
34:52então,
34:53porque a gente fica
34:54testando em outros projetos
34:56e esses projetos talvez,
34:57os projetos paralelos,
34:58as produções que eu faço
34:59para outros artistas,
35:00eles servem para que
35:01entre um álbum
35:02e outro da Fresno
35:03eu tenha experimentado
35:04tanto
35:06que a evolução natural
35:08da banda
35:08de um disco para o outro
35:09ela é muito maior,
35:11porque eu produzi
35:12tantas coisas
35:12entre um disco e outro,
35:14normalmente um artista
35:14que tem só a sua carreira ali,
35:16ele tem aquela evolução
35:17daquela carreira dele,
35:18ele faz um disco,
35:19daqui a dois anos
35:20ele faz outro,
35:20daqui a dois anos
35:21ele faz outro,
35:21só que eu terminei um disco
35:23e eu estou fazendo
35:25dez álbuns
35:26entre um e outro,
35:27então,
35:27são dez referências novas
35:29que eu ouvi,
35:29dez coisas que eu tentei
35:30experiência,
35:31vai acumulando experiência,
35:32e aí foi quando eu foram me chamando
35:37para produzir as coisas.
35:39O Dinho gosta muito de você,
35:42você deve saber disso,
35:43ele elogia você,
35:46e ele certamente conversando comigo
35:48falou que copiou na casa dele,
35:51fez um estúdio igual ao seu,
35:53Igual,
35:54100% igual,
35:55com todos os equipamentos.
35:56Ele chegou a anotar,
35:58falou assim,
35:58anotou,
35:58pediu,
36:00anotou e fez exatamente igual ao seu,
36:02quer dizer,
36:02isso já é uma prova
36:03de que você está no caminho certo,
36:05né, cara?
36:06É,
36:07porque o Capital
36:08vem de uma geração de bandas
36:11em que gravar
36:12era uma cerimônia,
36:14era um negócio difícil,
36:17inclusive o sucesso
36:18que eles fizeram
36:18na época em que eles fizeram
36:21significava
36:21vamos para Los Angeles
36:2310 pessoas
36:24ficar numa casa
36:26e ficar 45 dias
36:28trancado num estúdio
36:29para ir da demo
36:31até o disco masterizado
36:33e, obviamente,
36:35tudo o que isso custa, né?
36:36Para chegar num resultado
36:38que nos anos 80 e 90,
36:40principalmente,
36:42o Brasil não tinha uma tradição
36:43de gravar rock, né?
36:45As produções eram muito
36:47medrosas, assim,
36:48no sentido de
36:49porque a gente vinha
36:50de uma tradição
36:50de sons aveludados
36:53e super agradáveis, né?
36:54Então, quando chegava
36:55um cara fazendo um bagulho
36:56que é desagradável
36:58de propósito, né?
36:58Que o rock,
36:59ele tem que arranhar um pouco,
37:02os caras não sabiam gravar,
37:03então as produções de rock
37:04ficavam muito aquém
37:05das produções gringas, né?
37:07Tu vai ouvir muito pouca coisa
37:08brasileira de rock
37:09nos anos 80
37:09que tem um vocal distorcido
37:11e os Beatles
37:12que inventaram o pop
37:15já tem vocal distorcido, sabe?
37:16E o brasileiro sempre
37:18teve muita resistência
37:19a artifícios do tipo
37:20artifícios, assim,
37:21que hoje são muito normais,
37:23tipo o delay, reverb, sabe?
37:24Sempre se usou pouco
37:26ou se usou com cautela
37:27porque, sabe?
37:29Eu lembro de ir
37:29para estúdios grandes
37:30e quando o ponteiro
37:31começava a encostar
37:32no vermelho,
37:33os caras,
37:33oh, tá encostando
37:34no vermelho.
37:35Só que dentro do vermelho
37:38é onde mora o rock.
37:39É do vermelho
37:39e de preferência
37:40todo o rock.
37:42É ali que comprimiu,
37:46é ali que começou a esquentar, né?
37:50O que um show de rock ao vivo
37:52causa na gente,
37:53um show bom.
37:55Oi, filha.
37:57Peraí.
37:57Opa, bota ela aí,
37:58bota ela aí,
37:59manda um beijo para ela.
38:00O que foi, filha?
38:05Daqui a pouquinho.
38:06Eu giro para te dar
38:07daqui a pouquinho.
38:08Tá bom?
38:10Tá.
38:11Mas, ó,
38:12é muito daqui a pouquinho.
38:13Você não estava assistindo
38:13na TV?
38:17Tá, não.
38:18Eu já vou lá.
38:19Ó, pega.
38:21Tá bom.
38:23Que ódio.
38:24Tá.
38:25A coisa que você vem aqui
38:25é que a mãe está fazendo
38:27um negócio lá em cima
38:28e eu estou fazendo
38:28um negócio aqui embaixo
38:29e ela está, tipo...
38:30Ela, ela...
38:31Você disse que ela está
38:31com quatro anos.
38:33Quatro anos.
38:35Sky é o nome dela,
38:36não é isso?
38:39Ela fez uma amiga hoje
38:41que é a Siri, né?
38:42Que é a Siri do tablet.
38:44Aí ela falou agora...
38:46Eu não vou fazer nada
38:46perigoso, pai,
38:47só vou falar com a Siri.
38:50Que ódio.
38:50Meu tempo é meio
38:51Black Mirror isso, né?
38:52Super Black Mirror isso, tipo...
38:56O casamento...
38:57O casamento mudou tua vida, cara?
39:01O casamento não necessariamente,
39:03mas o que muda é a...
39:06a criação, né?
39:07Tu criar uma criança,
39:10o senso de responsabilidade
39:12que isso te impõe,
39:16literalmente,
39:16do dia para a noite,
39:18é muito extremo.
39:19É tipo assim,
39:20eu não tinha essa preocupação
39:22e agora ela existe.
39:23E isso faz...
39:24Isso redimensiona
39:26todos os aspectos da vida, né?
39:28Tipo assim,
39:28tudo...
39:29tudo o que eu penso,
39:30tá,
39:31isso em relação ao fato
39:32de eu ser pai.
39:34Desde coisas assim...
39:35Sei lá,
39:36eu não tinha medo
39:36de morrer há quatro anos atrás.
39:38Hoje eu fico assim,
39:39parai, meu senhor morrer,
39:40fodeu, né?
39:40Do pai, né?
39:41Fico aí.
39:42E eu, tipo assim...
39:44Então,
39:45são várias coisas
39:45que isso seria...
39:46O lance do morrer
39:47é porque é um argumento
39:48muito tão duro, assim...
39:49Não, não, não,
39:50mas...
39:51É um pensamento natural
39:53do pai, cara.
39:54É.
39:55É fácil de visualizar.
39:57Você quer estar ali preparando,
39:59fazendo com que tudo
40:00seja o melhor possível.
40:02E isso também mudou muito
40:04como eu passei a enxergar
40:06a minha infância,
40:07a minha criação
40:07e as coisas que me mostraram
40:09e que deixaram de mostrar.
40:12E aí me deu uma noção
40:14de melhorar de fato.
40:15Putz, eu acho...
40:16Eu não me lembro
40:17de ficar pensando,
40:18há cinco anos atrás,
40:20o que eu poderia ser melhor?
40:22Eu estava simplesmente vivendo
40:23e estava evoluindo,
40:25mas assim...
40:26Mas eu não tinha esse pensamento,
40:27eu não tinha nada
40:28me forçando de fato
40:29a ser uma pessoa melhor,
40:30não um cara de mais sucesso,
40:32um cara que ganha mais dinheiro.
40:32Sim, sim.
40:33Ser humano melhor.
40:35É.
40:37E normalmente essas coisas
40:38que te estressam
40:39no sentido de...
40:40Que dão uma torcida
40:42em ti, assim,
40:45são as coisas que de fato doem
40:47e que vão te transformar
40:48na pessoa melhor.
40:48Só que dói, né, cara?
40:50É difícil.
40:51No caso,
40:52o caso mais óbvio
40:53é tipo assim,
40:54porra,
40:54eu tenho uma grande paixão
40:55que é a música
40:56e é o que eu faço
40:57e várias vezes
40:59eu me vi numa situação
41:00de, ok,
41:01tem uma pessoa aqui
41:01que precisa de mim
41:02e eu precisando
41:03colocar isso
41:04num segundo plano,
41:05mas isso mudou
41:06a relação que eu tenho
41:07com a música,
41:07que é tipo assim,
41:08ok, agora eu estou fazendo música,
41:09então eu me sinto
41:10muito mais presente,
41:11eu aproveito aquele tempo
41:12muito mais,
41:13o meu tempo de estúdio
41:13ele é muito mais
41:15frenético,
41:16porque eu sei que
41:17daqui a pouco
41:18eu tenho que botar lá
41:18para dormir,
41:19daqui a pouco
41:19eu tenho que jantar.
41:20Perfeito.
41:21Agora na quarentena...
41:23Desculpe,
41:24desculpe,
41:24você quer ver
41:25esse cara crescer também,
41:27você quer estar perto,
41:28né, cara?
41:29É uma doideira,
41:30mas você quer estar perto.
41:31Agora eu sempre te achei
41:32um cara muito tímido,
41:34muito introspectivo,
41:35você consegue arrumar um...
41:37Você é malandro,
41:38você arruma as formas
41:39de se colocar mais,
41:42se expor mais,
41:43mas eu acho você tímido.
41:45A chegada de uma filha,
41:48muda você,
41:49muda a sua forma de compor,
41:51mexe com o seu texto?
41:55Ah, acho que sim, cara.
41:57Eu acho que sim,
41:58é uma coisa que perguntam bastante,
41:59ah, já fez alguma música
42:00para a tua filha,
42:02umas coisas assim,
42:03e eu percebo muito assim,
42:04cara,
42:04eu acho que fica claro
42:06em algumas músicas
42:08que não é exatamente
42:09para a minha filha,
42:10mas são músicas feitas
42:10por um cara
42:11que agora é pai
42:12e que tudo tem
42:14um peso diferente.
42:15Eu não conseguiria compor
42:17a canção de amor
42:18que eu escrevia
42:18quando eu tinha 16 anos
42:20de novo,
42:22eu poderia emular aquilo,
42:23mas eu não conseguiria fazer
42:24porque aquilo que parecia
42:26que estava me matando,
42:28hoje já não me mata mais,
42:29então eu vou...
42:30Tem outras coisas,
42:31entre aspas,
42:32me matando,
42:33então,
42:35eu acabei
42:36às vezes aprofundando
42:37ou falando sobre
42:38coisas mais sérias,
42:39falando sobre uma...
42:40Até uma melancolia
42:42mais séria,
42:43mais profunda,
42:44mais doente,
42:45assim,
42:45porque eu fui encontrando,
42:48né,
42:48a gente sempre fala,
42:49pô,
42:49o rock, né,
42:50sobre o que nos incomoda,
42:52né,
42:52sobre o que nos tira do eixo,
42:55assim,
42:55então,
42:56fui ficando mais sério,
42:58na verdade,
42:59nesse sentido de...
43:00As coisas que eu fui falando,
43:01fui, às vezes,
43:02até um pouco mais pesado,
43:03porque as coisas que me afetavam
43:06e que me destruíam
43:07há um ano,
43:08há dez anos atrás,
43:08não se traem mais.
43:09O que foi, filha?
43:19A Ciri te falou
43:20que só vai chover um dia.
43:22Que só vai chover um dia.
43:24Ela te mostrou a previsão
43:25do tempo.
43:27Caramba,
43:28esse cara.
43:29Rapaz,
43:29é uma gata
43:30essa figura,
43:31cara.
43:32e a cabeça
43:34é bizarra, né?
43:37Agora,
43:38e o disco novo,
43:40que saiu no ano passado,
43:43do Fresno,
43:44como é que...
43:44como é que é a concepção
43:46desse disco?
43:47Porque as pessoas,
43:48as críticas foram muito
43:51favoráveis ao disco, né?
43:52Todo mundo,
43:53muita gente dizendo
43:54que era o...
43:54Esse negócio é melhor,
43:56melhor obra,
43:56esse é meio louco, né?
43:58Mas muita gente apontando
44:00os fãs dizendo
44:01que esse resultado final
44:03foi completamente diferente
44:05dos anteriores
44:06e que o disco está
44:07com a cara nova
44:08que acho que está dentro
44:09da maturidade da banda,
44:12está dentro desse quadro
44:13que você acabou de mostrar
44:14para a gente do pai.
44:15Deve estar dentro disso
44:16do conceito
44:17que todos cresceram, né, cara?
44:20Foi...
44:20Eu acho que foi um processo
44:22muito lúcido de produção
44:24e que só uma banda
44:27em 20 anos
44:28poderia ter feito
44:29porque se eu impusesse
44:31um processo parecido
44:32com esse
44:33para a Fresno
44:34do começo da carreira
44:35não teria acontecido, sabe?
44:37É pensar num álbum
44:39como um álbum
44:40e não como
44:42um álbum
44:44da nossa banda, sabe?
44:46Porque quando a gente vai...
44:47Quanto mais discos
44:47você vai tendo na bagagem,
44:48mais peso você tem,
44:50mais material para comparar
44:52e você vai...
44:52É muito normal
44:53você ir se engessando
44:54e às vezes,
44:55principalmente se você faz
44:56muito sucesso,
44:56vai acabando fazendo
44:58meio que o mesmo disco sempre
44:59porque fica engessado, né?
45:01Então, a gente...
45:03Pessoal, vamos fazer...
45:05A gente estava vindo
45:06de três trabalhos
45:08que tinham uma característica
45:09parecida
45:10que é pesado,
45:11é muito orquestrado,
45:12é muito rico melodicamente.
45:14Vamos fazer uma outra coisa.
45:17E aí foram surgindo músicas
45:19que tinham o peso,
45:22mas que era de outro jeito.
45:25assim, eu queria usar coisas
45:26mais sintéticas,
45:26eu queria não...
45:27Aí a gente começou
45:28a botar regras,
45:29assim, ó,
45:29esse disco não vai ter
45:29nenhuma orquestra,
45:30esse disco não vai ter
45:32isso, não vai ter aquilo,
45:33esse disco não vai ter
45:33nenhuma música
45:33com mais de quatro minutos.
45:34Aí a gente começou a fazer...
45:35Aí limitando o projeto
45:38para que ele ficasse
45:41muito tratado
45:41como um disco, assim.
45:42Vai ser assim,
45:44o que a gente quer causar
45:44nas pessoas.
45:45E aí foram surgindo
45:46as músicas.
45:47Quando a gente pensou nisso,
45:48não tinha exatamente
45:49todas as músicas.
45:50E aí teve uma semana, assim,
45:52que eu tive um surto
45:53criativo maior,
45:54que eu fiz umas seis músicas,
45:56que aí eu mostrei
45:57para os caras da banda
45:58e eu mostrei do tipo, assim,
45:59eu nem sei se isso aqui
46:00é fresno, exatamente.
46:02E aí o Guerra,
46:03o baterista,
46:04ele ouviu e falou,
46:04man,
46:05o que tu estiver cantando
46:06é fresno, man.
46:08E aí ele falou uma coisa
46:09que eu achei tão...
46:10É, tá certíssimo, cara.
46:11Ele falou uma coisa tão foda
46:12que hoje vários artistas,
46:14quando eu estou produzindo,
46:15vêm com esse mesmo papo.
46:16Eu acho que não tem
46:16muito a minha cara.
46:17Quem está cantando isso aí?
46:18Então tenha a tua cara,
46:19para com essa parada.
46:21O artista,
46:22ele é muito...
46:22Ah, meu conceito,
46:24minha música.
46:25Basicamente,
46:26ninguém presta atenção nisso.
46:27É só o cara
46:27que presta atenção nisso.
46:28É só a gente.
46:29No caso,
46:29como eu estava produzindo
46:30a fresa,
46:30talvez eu não estivesse vendo isso.
46:32Só eu que estou
46:32prestando atenção nisso.
46:33A galera que ouveu
46:34uma música boa,
46:35se ela vir na linguagem
46:36que for,
46:37ele vai ouvir ela uma vez.
46:38Se naquela primeira vez
46:39ele sentir alguma coisa,
46:41é que é.
46:42Então...
46:42É a tua cara, vejo.
46:44Então, assim,
46:44isso ajudou a dar
46:45a cara do disco.
46:48E aí a gente foi...
46:50Mas, assim,
46:51o que explica,
46:52talvez,
46:53o sucesso que teve
46:55foi que foi
46:56tudo bastante
46:57de caso pensado.
46:58A gente já fez discos
46:59que foram muito
47:00esporrados,
47:01reflexo de uma coisa
47:02que estava acontecendo.
47:03E esse disco, assim,
47:04as músicas maturaram
47:05muito tempo.
47:06Então,
47:07teve muita edição, assim,
47:08eu vou tirar esse pedaço
47:09inteiro dessa música
47:10porque eu percebi
47:11que não precisa.
47:12Eu percebi que a mensagem
47:13pode ser mais resumida aqui.
47:15Então, aí a gente foi
47:16fazendo uma experiência
47:17de audição
47:18que a música
47:19vai emendando
47:19uma na outra
47:19e quando tu vê
47:20a música já deu...
47:24Já está na próxima
47:25porque tu vai conduzindo
47:26a pessoa
47:27num túnel, assim,
47:29sem saída
47:30e quando vê
47:30terminou o disco,
47:31um disco de 30 minutos.
47:32Então, a gente tinha
47:33tudo isso como objetivo.
47:34A gente queria fazer
47:34uma obra que não fosse densa,
47:36mas que conseguisse
47:37descascar
47:37e ter sentido
47:39até o fim
47:40e também
47:41de lançar isso
47:42com um conceito
47:43muito definido
47:44de visual, assim,
47:46que todo mundo
47:47que visse algo
47:47que remetesse aquilo
47:48falasse,
47:49olha ali,
47:50é o disco da Freia.
47:51Então, assim,
47:51teve toda essa coisa.
47:54Mas foi basicamente
47:56porque o disco
47:56envelheceu
47:57na nossa mão, assim.
47:58Poderia ter sido ruim, né?
48:00Poderia ter, tipo assim,
48:00aqueles caras
48:01que não conseguem lançar
48:01porque nunca terminam
48:02o negócio.
48:03Mas, não,
48:04foi porque a gente
48:05teve calma, eu acho.
48:08E a calma...
48:09Maturidade.
48:10A calma é uma coisa
48:11que está começando,
48:12não tem.
48:13Eu não tinha calma
48:14em 2004.
48:15Ele falava assim,
48:15lança logo essa coisa.
48:17E, tipo,
48:19e agora, não,
48:20a gente falou assim,
48:20não, calma,
48:21o momento certo
48:22era para ter sido lançado
48:24em fevereiro
48:26e eles foram lançados
48:27lá em julho.
48:28Aí os shows
48:29começaram lá em novembro.
48:30Então, assim,
48:31tudo...
48:32Hoje em dia
48:32tem tanta informação
48:33circulando no mundo
48:34que tudo tem que ser
48:36muito forte
48:37e muito focado
48:40e depois tu...
48:41Tanto que
48:42no mercado de pop,
48:43nas divas,
48:44tem muito isso.
48:45Ah, o comeback
48:46da não sei quem.
48:47Como se a pessoa
48:48tivesse ido embora, né?
48:49Quando tu lança o disco
48:50é uma avalanche, assim,
48:51e depois tu literalmente
48:53some.
48:53E hoje as pessoas
48:53conseguem trabalhar
48:54esse sumiço
48:55a seu favor, né?
48:56Porque estar sempre presente
48:57é ruim também, sabe?
48:58É tipo assim,
48:59ah, putz,
48:59não aguento mais esse cara.
49:02E a gente trabalhou isso.
49:04A gente deu uma sumidinha
49:05e depois fez o disco.
49:07Aí agora a gente estaria
49:08exatamente numa...
49:10Numa dessas sumidas
49:11porque, obviamente,
49:12tem coisa saindo aí
49:13logo mais adiante
49:15que, graças a Deus,
49:16a gente já conseguiu
49:16deixar preparado
49:17antes de toda essa pandemia aí.
49:20E tem realmente
49:21uma avalanche de coisas
49:23que está sendo preparada
49:23desde o ano passado.
49:24Quando a gente lançou o disco,
49:26já estava sendo começado
49:29o trabalho que viria depois, né?
49:31E eu acho que está
49:31tudo isso tomando
49:32um corpo agora.
49:34Agora é legal
49:35porque você está
49:36mais uma vez
49:37mostrando claramente
49:38um pouco
49:39para a gente
49:40da sua personalidade,
49:41mas você sobre...
49:42Você sempre soube
49:43administrar muito bem
49:44a sua vida artística,
49:46sua carreira.
49:47Porque administrar
49:48não é estar no estúdio
49:50gravando.
49:51Administrar é postura,
49:53entrevista,
49:54posicionamento,
49:56administração,
49:57relacionamento
49:58com outras bandas,
50:00com outros músicos.
50:01Isso,
50:03para ser sucesso,
50:05também tem que saber
50:06trabalhar fora do palco.
50:10Concorda?
50:10Eu acho que é
50:11o mais importante, né?
50:12É mais importante
50:13do que a qualidade
50:14da tua música.
50:14A gente costuma dizer
50:16o contrário,
50:17mas eu falo
50:17para todo mundo.
50:18Saber trabalhar
50:19o que tu tem
50:20é mais importante
50:21do que ser bom
50:22porque a gente vê
50:23muitas coisas
50:23fazendo muito sucesso.
50:24Fala assim,
50:24não sei se isso é...
50:27Outro,
50:28assim,
50:28isso não tem diferencial
50:29nenhum,
50:29isso é muito qualquer coisa.
50:30Mas assim,
50:31a qualidade
50:31que vai,
50:33de fato,
50:34te fazer
50:35ter um sucesso
50:36comercial
50:37na tua carreira
50:37é um misto
50:39muito de foco,
50:41de conduta,
50:42de cara de pau.
50:43E se tudo isso
50:45for invólucro
50:47de uma música
50:48boa,
50:49a qualidade
50:50da tua música
50:50talvez ela influa
50:51na longevidade
50:53do trabalho.
50:54Não necessariamente
50:56no sucesso
50:56que tu vai ter.
50:59Uau, Skies!
51:01Nada.
51:0318 coisas úteis
51:04que a Siri
51:04pode fazer
51:05por você.
51:07É,
51:08fica aí.
51:09Amigo,
51:10olha só,
51:12te agradecer muito,
51:13desejar a você
51:14mais sucesso.
51:16Só avisando
51:17ao pessoal
51:18que está nos acompanhando
51:19que amanhã
51:19temos uma outra conversa
51:21aqui no arroba
51:21Clube Big Beatles
51:22oficial e amanhã
51:23vai ser com
51:23o Haroldo Ferretti
51:24do Skank.
51:26Hoje foi com
51:28Lucas.
51:29Os meus fãs estão aqui,
51:31tem que seguir
51:31o Clube Big Beatles
51:32para depois
51:34eles vão descobrir
51:34a banda
51:35fora que vocês são
51:36e o projeto
51:37incrível
51:37que vocês fazem.
51:39Mas agora...
51:40É a melhor banda
51:42do meu prédio.
51:43Mas assim,
51:44os serviços
51:44que vocês estão fazendo
51:45agora,
51:46o conteúdo
51:46que você está gerando
51:47agora,
51:48entrevistando
51:48todas as pessoas
51:49que você conheceu
51:49ao longo da vida,
51:51isso é muito foda,
51:52cara.
51:53E a oportunidade
51:54de falar,
51:54né?
51:55As pessoas querem
51:55muito que a gente toque,
51:56as pessoas querem
51:56muito que a gente...
51:58Que às vezes a gente
51:59fale sobre o nosso trabalho,
52:01o que está ali no momento,
52:02mas assim,
52:02a oportunidade de conversar
52:04longamente,
52:04esse papo aqui
52:05de poder ficar três horas
52:07e tipo assim,
52:08conversar longamente
52:08sobre o próprio trabalho
52:09é uma coisa que é rara
52:10e que a gente
52:11quase nunca tem
52:12essa oportunidade.
52:13Por isso que a gente
52:13fica muito à vontade aí
52:15falando contigo,
52:16tá ligado?
52:16E quando quiser de novo,
52:19muita saúde para você,
52:21para a esposa,
52:21para a filha,
52:22muita paciência,
52:23muita calma,
52:24que é o momento
52:25da gente fazer
52:26a prisão domiciliar.
52:28Muito prato para lavar,
52:29muita varanda para varrer
52:30e vamos para frente.
52:31Eu faço varrendo aqui.
52:33Falou, meu.
52:34Obrigado, hein?
52:34Um abraço.
52:35E aí,