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  • há 4 horas
Produtor musical e jornalista, Edu Henning entrevistou 260 artistas e personalidades culturais durante a quarentena provocada pela pandemia do novo coronavírus. Confira no canal do vocalista da icônica banda Big Beatles lives que abordam desde a trajetória musical a questões curiosas de importantes nomes da música brasileira.

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00:10Fico muito honrado e feliz porque quando essa história de live começou a primeira pessoa que
00:17a gente procurou foi o Andrés Kircher e agora a gente a gente vai conversar com Dinho Ouro Preto
00:28se tudo escorrer bem.
01:04O Andrés postou uma foto linda, acho que foi ontem, do John Deacon, do Queen, com a camiseta
01:12do São Paulo, quando eles eram tocando aqui, eles estavam passando som, eu não sei se
01:17ele deu show com a camiseta, mas a foto é muito boa.
01:19Primeiro eu te agradecer a sua disponibilidade de estar aqui comigo nesse instante, que eu
01:23sei que a sua vida está uma doideira.
01:24Não, a minha vida até que está bastante tranquila, porque está todo mundo confinado
01:28em casa, não tem o que fazer, mas basicamente, olha, o que a gente tem feito aqui, eu estou
01:36filmando, estou aqui dentro do meu estúdio, vou mostrar para vocês onde eu estou.
01:41legal isso.
01:44Você passa bom tempo aí, não é, Dinho?
01:47Olha, eu voltei, sim, passava, e eu estou voltando, na verdade, ao estúdio agora, que
01:54eu estou me recuperando do que me aconteceu.
01:58meu, eu, eu, eu, eu, no começo eu não consegui fazer nada, não consegui tocar, tinha dificuldade
02:06de me concentrar, eu, eu, eu, eu, eu tive o vírus, né?
02:08Eu tive o...
02:09Eu sei, eu acompanhei.
02:11Eu peguei o coronavírus, eu tive, vai, uma, não fui hospitalizado, mas foi uma paulada
02:18e tanto.
02:18Minha voz até agora não voltou, eu ainda estou meio rouco, assim, eu consigo cantar, já
02:23fiz algumas lives, fiz live pro Capital, fiz live sozinho, mas não está 100%, assim, as notas
02:28mais algumas eu tenho dificuldade de alcançar ainda.
02:31Então, agora eu estou começando a, eu, eu, a frequentar de novo aqui o estúdio, o estúdio
02:37na verdade é dentro da minha casa, né?
02:40Mas eu tinha um pouco de dificuldade de cantar de novo, de pegar um violão, de começar
02:48a programar aí coisas novas, estou voltando a fazer isso agora.
02:52Era só, eu fiz um levantamento de algumas, eu tenho, eu tenho, eu tenho a tua ficha médica
02:56aqui, depois eu vou ler a tua ficha médica aqui.
03:00É engraçado o seguinte, você, a gente vê o Dinho do universo de Brasília, do Planalto
03:08Central, mas Dinho nasce em Curitiba, vai pra Brasília e termina a história dele, em
03:15termos de giro, por Brasília, né?
03:18Porque você é filho do embaixador Afonso Celso de Ouro Preto, neto do Conde de Afonso
03:26Celso, bisneto do Visconde de Ouro.
03:28Como é que é isso?
03:30São mais gerações, é mais longínquo isso.
03:32É ainda?
03:33Meu avô, eu não conheci, ele morreu quando meu pai era jovem, mas ele era diplomata
03:40também, morreu no exterior, meu pai acabou ficando por lá, meu pai foi criado na França
03:47e ele volta pra fazer o Rio Branco aqui no Brasil.
03:52É uma família de diplomatas, meus tios também eram diplomatas, os irmãos dele, ambos eram
03:57diplomatas também.
03:58E a gente, eu cresci viajando, cresci em trânsito.
04:03E aí o que acontecia era que quando meu pai era transferido de volta pro Brasil, nós
04:08éramos mandados pra Brasília.
04:10E lá em Brasília foi meu contato com o que viria a ser, o embrião do que viriam a ser
04:21essas bandas todas de Brasília, inclusive os Paralamas, eu vi que o João Fera tava aí.
04:28A minha introdução à música foi com a minha mãe, meu pai era completamente indiferente
04:35à música, quase importou muito, mas a minha mãe não, a minha mãe ouvia muito Bob Dylan
04:41em casa, João Baez, a gente cresceu muito com, as minhas referências musicais mais remotas
04:48são folk.
04:56Eu cheguei a ver a João Baez mais tarde na minha vida, eu fui, eu lembro já adolescente
05:01de meus pais me levarem, minha mãe me levar pra ir ver, bastante impressionante, eu ver
05:06ela, eu cresci ouvindo.
05:11Principalmente esses dois, João Baez e...
05:13E Dila.
05:14E Dila.
05:15E mais tarde, quando eu vou morar, quando meus pais são transferidos pra Brasília, de
05:20volta pra Brasília, eu passo um período de tempo bastante longo da minha infância
05:26fora do Brasil e eu volto pra Brasília com uns, acho que 10 anos, por aí nessa idade
05:35de 10, 11 anos eu conheço o Ebert e o Bi, que já andavam juntos, já eram colados um no
05:40outro, já com essa idade.
05:41Eu devia ter, quer dizer, eu devia ter isso, 11, o Ebert deve ser 2, 3 anos mais
05:49velho do que eu, então o Ebert devia ter 13, 13, 14 anos.
05:54E eu ouvia...
05:55Mas aí você vem de um giro qualquer, porque você rodou, Estados Unidos, Áustria, Suíça,
06:03antes de se fixar em Brasília.
06:05É onde também?
06:06Não, esses são os países que eu morei com meu pai, mais tarde, depois meu pai continuou
06:12a carreira dele, mas eu já era, já estava grande demais pra ficar viajando, precisava
06:17fixar raízes, né?
06:19E aí ele segue adiante, ele vai morar na África, é bastante bacana a carreira dele,
06:26porque ele se mete em umas coisas que eu considero hoje, em retrospecto, bastante heróicas.
06:30Ele abre a Embaixada Brasileira, por exemplo, em Angola, logo durante a Guerra Civil, logo
06:35depois da Independência.
06:37Barra pesada.
06:38Barra pesada, chegou a morrer de proatas, quando ele está lá, ele fica fora de casa
06:43durante muitos meses.
06:46Lá ele pega uma série de doenças, pega malária, pega escorbuto.
06:50Quando ele volta depois, ele fica uns 6 meses fora do Brasil, lá na África, em plena
06:57Guerra Civil, quando volta, ele está tão transformado, meio famélico, ele perde não
07:01sei quantos quilos, volta com uma barba espessa.
07:04E quando ele entra em casa, eu lembro até hoje, eu devia ter 12 anos, eu não reconheço
07:09o meu pai.
07:11Não reconheço, ele entra em casa, demora um pouco até eu entender quem era.
07:16E ele acaba adquirindo um gosto pela África e acaba sendo, mais tarde, um posto para onde
07:27ele é transferido com, justamente, olha só como a vida é cheia de ironias, ele acaba
07:32sendo transferido, ele acaba casando com a mãe do Dado, que você vai entrevistar amanhã.
07:38Você é meio irmão do Dado.
07:41Nós já éramos, nós, é incrível, e nós já éramos melhores amigos.
07:48Que doideira isso.
07:50É muito doido, é o que acontece nessas duas famílias.
07:54O Dado e a família dele já eram muito chegados na minha família.
08:02O pai do Dado que faleceu, infelizmente, há pouco tempo atrás, algumas semanas atrás,
08:07o pai do Dado faleceu.
08:09Era um excelente músico.
08:13Era um pianista, na verdade, ele era também um diplomata, mas acho que a grande paixão
08:19dele, de longe, era a música.
08:22Acho que principalmente Chopin e a própria obra do tio-avô.
08:31Vila-Lobos.
08:32É, o tio-avô deles, que era o Vila-Lobos.
08:34E nossas famílias eram muito próximas.
08:39Quando a gente tem, quando eu tenho, que idade eu devia ter?
08:44Eu devia ter 17 anos.
08:45O Dado já era o meu melhor amigo.
08:47O Dado era o meu melhor amigo desde que eu tenho 11 anos.
08:50O Dado é filho diplomata como eu.
08:52O P...
08:53Desculpe, desculpe, desculpe.
08:54Só para reclamar.
08:55Você era amigo de Dado antes do pai dele, do seu pai casar com a mãe dele.
09:02Já era o meu melhor amigo.
09:04Que loucura isso.
09:06Nós éramos unha em carne, somos muito chegados até hoje da família inteira.
09:10Mas o Bi, dos Paralamas, também.
09:15Porque nós todos morávamos...
09:16O Brasil era separado pela profissão do funcionário público.
09:21No caso dos diplomatas, todos moravam muito próximos uns dos outros.
09:28Então, eu, Dado, o Bi...
09:31O Ebert morava ali, embora o pai dele fosse um oficial da aeronáutica,
09:34ele morava ali na mesma quadra também.
09:36Tinha alguns blocos que eram de oficiais da aeronáutica
09:39e alguns outros blocos que eram de diplomatas.
09:42E nós todos morávamos juntos, crescemos juntos.
09:45Então, todos nós tínhamos essa fixação com o rock.
09:50Se bem que aí a amizade transcendia o rock,
09:54mas a trilha sonora era rock.
09:56A gente ouvia, na época, eu lembro de a gente estar ouvindo o quê?
10:00A gente estava ouvindo o Led Zeppelin.
10:02Ouvindo muito o Led Zeppelin, ouvindo o Hendrix.
10:10Eu lembro Queen, muito Queen também.
10:14Queen estava muito no começo ainda.
10:16Queen ainda estava lançando discos, mas o Led Zeppelin também ainda estava lançando discos.
10:19Eu lembro do lançamento do Presence do Led Zeppelin.
10:22Eu lembro do Queen lançar o Jazz, o Queen lançar o Lose of the World.
10:30Eu lembro desses discos saírem, a gente ia às lojas comprar uns.
10:34Hoje é gozado, porque retrospectos são todos clássicos.
10:38Mas eu lembro quando eles saíram, que a gente ia para a loja ouvir esses discos.
10:42Juntava grana para comprar, bicho.
10:44É, meu.
10:45E aí hoje são obras perfeitas.
10:50Agora eu quero entender o seguinte, a Turma da Colina é essa turma?
10:55Não, não.
10:56Tem toda essa movimentação dos filhos diplomata, do embrião do que viria a ser os paralamas.
11:04Porque o Ebert já era, ele é um músico bastante dedicado.
11:10Ele tem uma concentração e uma determinação.
11:18Olha, eu vi raras vezes, porque nós éramos adolescentes e a gente queria jogar bola,
11:26queria andar de skate, sabe?
11:28A gente queria sair disso, sabe?
11:29Eu vi rock.
11:30E a gente ouvia da quadra o Ebert fazendo escalas lá na casa dele.
11:37Se dedicando mesmo.
11:38É, a gente fala, pô, Ebert, vem jogar bola, né?
11:42Para com isso, meu.
11:45E nada, o cara, tanto é que tem uma hora que ele se afasta um pouco da terra do rock.
11:51Ele começa a ouvir John McLaughlin, esses jazzistas, jazz rock, né?
11:57Ele começa a ouvir mais esses caras.
11:59E aí, inclusive, a gente fala, pô, não, cara, volte para a luz.
12:04Ouça rock and roll, meu, para com essa história de jazz, não.
12:08Não, mas não, ele entra nesse, fica obcecado com essa história.
12:13E eu acho que grande parte da explicação do exílio guitarrista que ele é hoje vem daí, sabe?
12:19Não tem dúvida.
12:20Dessa obstinação que o Ebert tinha.
12:22Enquanto isso, nós, garotos, estávamos todos ali embaixo jogando futebol,
12:26jogando na quadra de salão, que era o ponto de encontro, era na janela dele.
12:29Na frente, a quadra de salão da 104, a quadra onde nós nos reuníamos,
12:34a quadra de salão era embaixo do prédio dele, da janela dele.
12:37Ele morava em quinto andar.
12:43Nossas famílias, minha família, continua muito próxima do dado dado.
12:48Nós, as duas famílias são transferidas para o exterior,
12:52quando a gente tem uns 13 anos.
12:54O dado devia ter 12.
12:55O pai do dado é transferido para Paris.
12:57O meu pai é transferido para Genebra.
13:00Nós nos encontramos lá.
13:02Eu vou até a casa do dado, na França.
13:04O dado vem até a nossa casa, em Genebra.
13:08Era esse o nível...
13:10A relação.
13:11A proximidade dentre as famílias.
13:14Voltando...
13:15Deixa eu entender um ponto aqui.
13:17Aí vocês saem...
13:18Você já me disse agora há pouco que vocês, seu pai, as famílias iam e voltavam.
13:24Passavam um período num país, voltavam.
13:26Nesse momento que você passou um período no Brasil, você conheceu o Ebert e o Bi.
13:35A relação com o dado era sempre de muita fraternidade, irmandade e amizade.
13:41Mas teve um momento que você volta para Brasília, a família volta para Brasília,
13:45e você encontra uma outra realidade em Brasília, que é o punk rock.
13:50Então, isso vem depois.
13:52Então, primeiro, as duas famílias, a minha do dado é transferida para fora.
13:57A gente passa alguns anos fora do Brasil.
13:59Voltamos.
14:00Quando eu devia ter 15 anos e o dado devia ter 14.
14:05A turma, a minha turma, na época, era eu, o dado, e o irmão do Bi.
14:10O irmão, logo depois do Bi, que se chama Pedro.
14:17Essa turma...
14:17Queijinho.
14:18Oi?
14:20É o queijinho que você está falando, o irmão mais novo dele?
14:22Não, esse é o Nando.
14:24Esse é o...
14:25O Bi tem quatro irmãs.
14:26O Bi é uma família de quatro.
14:29O Bi, a irmã, o Pedro e o Nando.
14:32O irmão do meio era meu amigo muito próximo, e é amigo até próximo.
14:39Então, éramos nós três, os três amigos inseparáveis, os meus três amigos.
14:43Eu, dado e o irmão do Bi.
14:45Essa turma, a gente andando pelas quadras de Brasília, a gente fica sabendo, a gente ouve
14:51falar no aborto elétrico.
14:56Como, embora fosse a capital do Brasil, Brasília, já era dos anos 60, ainda havia um quê
15:04de cidade do interior, sabe?
15:06Como se fosse um lugar meio isolado no meio do mato, o que de fato era.
15:12Ainda haviam muitas quadras inacabadas, você tinha parte das da Norte ainda a ser feita,
15:18dizer, tinha...
15:21É muito diferente do que a cidade se tornou hoje.
15:23Inclusive, as pessoas que moram lá, acredito que quem não já estava lá deve ter dificuldade
15:28até de imaginar a Brasília na qual nós crescemos.
15:31Era uma...
15:32Embora a capital do Brasil, reitero, ainda era uma cidade inacabada.
15:37Então, qualquer migalha que chegasse até nós era amplificada mil vezes.
15:45Então, qualquer outro roqueiro que a gente ouvia falar, olha, tem uma cena de rock
15:48que tem alguém tocando.
15:49A gente ia atrás.
15:51A gente ia atrás das bandas.
15:53E...
15:54E assim foi.
15:55A gente viu...
15:57Alguém soprou o nome Aborto Elétrico pra vocês.
16:00Na verdade, o Aborto Elétrico, eu esbarro nesses caras tocando numa lanchonete em Brasília.
16:07Era perto da minha casa, eu devia estar voltando pra casa da escola e eu dou de cara com o
16:12Aborto Elétrico tocando.
16:13O Aborto Elétrico, na época, era o feio Flávio que toca comigo até hoje, no Capital.
16:18E o Renato.
16:20Então, o Renato tocava a guitarra e o Flávio tocava baixo e o feio tocava a bateria.
16:26Eu vejo essa formação se apresentando numa lanchonete em Brasília pra...
16:32pra ninguém, quase.
16:36Numa calçada, à tarde.
16:40Cara, que genial, né?
16:41Muito tosco, Edu.
16:43Muito tosco.
16:44Era guitarra baixo e voz em um amplificador só.
16:48Em um amplificador doméstico.
16:49Não era nem um amplificador...
16:53Não era.
16:54Ninguém tinha.
16:55Marshall, ainda era.
16:57Outra coisa que a garotada, muitas vezes, não sabe o quanto...
17:04Era restrito o nosso acesso a instrumentos importados.
17:08Os militares...
17:10O regime militar no Brasil estabelece a proibição das importações de tudo.
17:15Então, você não podia comprar nem calça leve.
17:18Existia muito menos.
17:19Mas, nesse período que vocês voltavam, as famílias...
17:22Não dava pra trazer uma guitarrazinha embaixo do Brasil, dizendo que era pessoal, não?
17:27Poderíamos ter o B.
17:28O B nos visita em Genebra e compra o primeiro baixo importado dele.
17:33O B compra um...
17:36Um Precision.
17:37Ele leva de volta pro Brasil.
17:39O pai do Hebert, numa viagem pros Estados Unidos, ele era piloto da aeronáutica, traz uma guitarra pra ele.
17:44Traz uma L6S, uma Gibson preta.
17:46E eu lembro, quando ele desce...
17:49Já é um degrauzinho em cima, né?
17:51É, mas ele, quando ele desce com essa guitarra, junta toda a gente, a molecada, a turma, pra ver.
17:56A gente nunca tinha visto uma Gibson.
17:58A gente via as fotos.
17:59Não tinha internet também.
18:00A galera...
18:01É difícil a galera conseguir projetar, imaginar o que era crescer nesse mundo isolado, sabe?
18:08E...
18:09Então, o Hebert ganha essa primeira guitarra quando ele devia ter 16, 17 anos.
18:14O B vai até Genebra, na nossa casa, ele vai com o meu irmão até Londres.
18:21Os dois adolescentes, o meu irmão devia ter 16 anos, eu acho, o B também.
18:26Eles vão até Londres e voltam com esse baixo.
18:29Bom, aí, de volta ao Brasil.
18:36Eu vejo a Porto Elétrico tocando na calçada e logo na sequência, logo depois, eles passam.
18:45Eles, a turma deles, porque eram duas bandas, era a Porto Elétrico e a Blitz 64.
18:50A Blitz 64 era uma outra banda de punk rock que era, basicamente, eles ficavam se alternando.
18:55Uma era a plateia do outro.
18:56Então, quando a Blitz estava tocando, a plateia era a Blitz.
18:59Quando a Blitz tocava, a plateia era o Aborto Elétrico.
19:02Tinha mais uma, duas garotas que andavam com eles, que era a Ana e a Cris,
19:06que acabam sendo, essas duas garotas, acabam sendo as pessoas que fazem a ponte.
19:12Porque elas moravam numa quadra perto da gente.
19:15E é através delas que a gente descobre onde seriam os próximos shows do Aborto Elétrico.
19:21A gente, mas fora isso, o Aborto Elétrico passa a turma, essa turma de punks,
19:27que deviam ser, não deviam ser mais do que 15, que essa é a turma da colina.
19:32Aí que vem o nome.
19:33Porque os pais deles, alguns dos pais eram professores universitários,
19:39dentro da Universidade de Brasília, cujo campus, dentro desse campus,
19:46os professores moravam, a parte residencial era dentro, em cima de uma colina.
19:51Dentro do campo.
19:52Perfeito.
19:54Agora entendi por que esse nome, a turma da colina,
19:57que era a turma que morava lá em cima.
20:00Que morava e se reunia.
20:03Em Brasília tinha uma cultura para adolescentes que era o seguinte,
20:07não tinha nada, Brasília, ao contrário do Rio e de São Paulo,
20:10não oferecia nada de entretenimento, não tinha nada o que fazer.
20:13Então os adolescentes todos desciam para ficar embaixo do bloco.
20:19O bloco era o prédio, a gente chamava de bloco.
20:22Embaixo do prédio onde moravam e os adolescentes só tinham aquilo, um ao outro.
20:26E talvez essa seja a explicação pela qual tantas bandas nasceram lá,
20:30não tinham o que fazer.
20:32As bandas eram uma forma de criar o seu próprio entretenimento.
20:37E também vocês eram um pouco rebeldes,
20:40porque vocês eram filhos de gente muito dura, muito séria, muito cisuda.
20:46Não.
20:46Não.
20:47Porque aí eu penso assim, filho de diplomata, filho de diretor de banco,
20:52filho de rapaz.
20:54Os pais do Renato trabalhavam para o Banco do Brasil.
20:58O pai dele, já falecido, trabalhava para o Banco do Brasil e morava ali perto também.
21:05Morava nos 303, o Renato morava.
21:12Bom, mas aí a gente vê essa turma voltando para o aborto elétrico.
21:18Eles picharam a cidade inteira com o logotipo deles,
21:22que era o A com o E.
21:25Era assim, aquele A com o E.
21:29Meio anarquista, meio...
21:31O A da anarquia com o aborto elétrico.
21:34Legal.
21:34Eles picham a cidade inteira com esse aborto elétrico.
21:38E é assim...
21:42Mostra aí para a gente.
21:44Vai ficar meio invertido, mas a gente tem uma noção.
21:48É, totalmente invertido.
21:50Esse A, E...
21:51Mas ficou claro, ficou claro, ficou claro.
21:53Claríssimo.
21:54A, E...
21:54Eles picham a cidade inteira com esse A, E.
21:58A gente vê...
21:59Eles picham, inclusive, o nosso bloco, inclusive, eles picham.
22:02A gente vê o negócio do aborto elétrico.
22:03Que porra é essa?
22:05E...
22:07Picham os pontos de ônibus.
22:09Eles picham esse A da anarquia com o Edo Abundelé pela cidade inteira.
22:13A gente fica ligado.
22:14Eu já tinha visto os caras ao vivo nessa lanchonete.
22:18As duas meninas, a gente consegue.
22:20Eu não sei bem como.
22:22Essa parte eu não me lembro.
22:24Como a gente faz contato com essas meninas.
22:26Mas elas nos dizem aonde eles vão tocar.
22:28A gente vai no próximo show, na Zanòx.
22:36O nome não podia ser mais adequado.
22:38O lugar onde eles estavam colocando se chamava Cafofo.
22:42Cafofo.
22:43O nome era perfeito.
22:44E era um Cafofo.
22:46E era um subsolo de um boteco, sabe?
22:51A gente desce lá.
22:55O aborto elétrico estava tocando.
22:57No outro dia alguém postou uma foto dessa noite.
22:59Alguém fotografou.
23:01E era pouquíssima gente, Edu.
23:04Era pouquíssima gente.
23:05A gente está falando, olha, eles, essa turma da colina.
23:09Na época, olha, eram menos de 20 pessoas.
23:13Eu acho que tem dois grupos icônicos no Brasil.
23:15Que a gente já ouviu falar.
23:18Todo mundo que gosta de rock já ouviu falar.
23:20Pouca gente já ouviu.
23:22Que é o aborto e o Vimana.
23:25Eu vejo esses dois como os dois grupos mais icônicos.
23:28Mais fantasmas.
23:30Que a gente sabe que existe.
23:32O Vimana não era o grupo do...
23:34Lulu, né?
23:34O Lulu tocou no Vimana.
23:37Lulu, Ritchie...
23:42Lobão...
23:42E o...
23:44Fernando Gama, se eu me engano.
23:46O Marcelo Sequinze tocou também ou não?
23:49Não, acho que nesse Vimana que gravou Zebra, que gravou Pela Som Livre, era Fernando Gama...
23:57A Vimana gravou?
23:59Gravou, gravou e foi rejeitado.
24:01É esse compacto aqui, olha.
24:03Deixa eu ver.
24:03Esse aqui, olha.
24:04Esse aqui, olha.
24:06Que música é?
24:09Rapaz, eu vou te falar agora.
24:11De um lado é Zebra e o outro lado é Masquerade, no lado B.
24:16Som Livre.
24:17E o Anuã?
24:20Rapaz, no tempo do rascunho da Bíblia, bicho.
24:22Velho pacacete.
24:25Deixa eu ver aqui.
24:27Pô, legal.
24:281977.
24:31Sério?
24:3277.
24:33É o que tá aqui.
24:35Uou!
24:37E o Lobão tocava na academia, é isso?
24:39Era o Lobão, Lobão, Luiz Maurício, Rich, o senhor Richard, Fernando Gama.
24:47Fernando Gama depois foi com o Boca Livre.
24:50Foi um dos caras do Boca Livre.
24:53Era boa pinta com o cabelo.
24:55Eu lembro do Boca Livre.
24:56Qual deles é o do Boca Livre?
24:57O Louro?
24:58Não, não.
24:59O Fernando Gama ficou um período no Boca Livre.
25:02Depois saiu.
25:03Eu lembro do Boca Livre em Brasília, adolescentes também.
25:06É, a Boca Livre.
25:07Eu fiz uma...
25:08Você tá bem fisicamente, você tá bem espiritualmente, você tá bem mentalmente.
25:13Você, nos últimos anos, eu acho que esse foi o grande segredo da sua vida.
25:17Você deu uma mudada no seu jeito de viver, de encarar, de comer, de andar, de beber.
25:21Você deu uma aliviada.
25:24Eu acho que se você estivesse naquele...
25:25Porque quando eu te conheci, você nem lembra.
25:27Porque você entrou no camarim dos paralamas, no show, sai sem camisa, voando.
25:32Era o cara mais elétrico que eu vi na vida.
25:35Aborto elétrico, pede pra você.
25:37Agora, olha a ficha corrida aqui.
25:39Olha a ficha corrida.
25:40Olha a ficha corrida.
25:41No dia 10 de setembro de 2009, diagnóstico para vírus H1N1.
25:48No dia 31 de outubro de 2009, sofreu um acidente durante o show.
25:53Caiu.
25:54No dia 16 de março de 2016, foi diagnóstico de dengue.
25:59E no dia 25 de março de 2020, diagnóstico de Covid-19.
26:05Puta que pariu, compadre.
26:08Eu não mereço, né?
26:09Você, ninguém merece isso.
26:12Cara, meu...
26:15Outro dia, alguém me mandou uma imagem dizendo, olha, das minhas sete vidas, quatro já foram.
26:24Eu vou te contar, né?
26:26E sabe o quê, Edu?
26:27Olha só, uma coisa curiosa, cara.
26:30As minhas duas filhas moram em Nova Iorque.
26:33Uma trabalha, a outra estuda lá.
26:35E assim que a coisa começou a ficar cabeluda por lá, eu pedi pra elas voltarem pro Brasil.
26:40A faculdade da minha filha do meio, ela tá fazendo...
26:44Ela consegue fazer online.
26:45E a mais velha que tava trabalhando lá, consegue trabalhar online também.
26:49Então eu falei, meu, venham pra cá.
26:51Venham ficar aqui, porque a coisa tá bizarra por lá.
26:55E eu achava que uma das duas tinha trazido o vírus.
27:00Que eu tinha pegado de uma das duas.
27:03Eu achava isso, Edu.
27:06Até uma semana atrás.
27:09Aí o que nós todos fizemos, a minha família inteira, nós fomos fazer os testes pra ver o...
27:16Toda a família?
27:17A família toda.
27:18A gente foi fazer o anticorpo.
27:21Pra ver se alguém, se algum de nós era...
27:26Como se fala?
27:28Imune, né?
27:29Se tivesse alguma imunidade.
27:33E pra minha surpresa, todos os testes chegaram negativos.
27:39Todos.
27:40Como é que você pegou isso, cara?
27:41Ou seja, ninguém pegou.
27:42E ninguém tem os anticorpo.
27:44Bom, duas perguntas.
27:46Duas, né?
27:48De onde eu peguei?
27:50Eu não tenho a menor ideia.
27:53E a outra coisa é a seguinte.
27:55Nós ficamos convivendo aqui na minha casa.
27:57Todos juntos.
27:58Durante a minha doença.
27:59Você podia ter transferido isso pra eles.
28:03Ninguém pegou.
28:05Ninguém pegou.
28:07E olha, Edu, eu fiquei mal.
28:09Na boa, de todas essas doenças, todas que você enumerou aí.
28:13Porque tem mais uma que você não mencionou.
28:16Deixa eu notar aqui.
28:19Dentro do hospital, porque lá eu me quebro inteiro.
28:24Eu caio do palco, quebro o maior osso, o osso mais grosso do crânio, o ocipital.
28:31Quebro três vértebras.
28:33Quebro minha mão.
28:34Quebro minhas costelas.
28:38Duas, três costelas.
28:40E quebro inteiro.
28:43E eu sou levado pro UTI.
28:45Fico monitorando a minha situação.
28:48E lá pelas tantas, eu sou transferido pra um quarto, uma semi-intensiva.
28:53Quando eu vou pra semi-intensiva, eu pego uma infecção hospitalar.
28:59Eu pego uma infecção hospitalar, eu tenho septicemia.
29:02Cara, você tá doido.
29:04Eu tenho uma infecção generalizada.
29:05Começa com o flebite, que é uma inflamação, entra pela agulha, que tá úmida no meu braço.
29:11E eu pego da flebite, vira uma septicemia e eu volto pra UTI.
29:15E essa infecção, essa septicemia que rola dentro do hospital, essa sim, essa sim é grave.
29:23Essa é um horror.
29:24É um show de horror, chamam o Davi Weep, que agora é o médico que tá sendo responsável
29:29pela condução da resposta, é o secretário de saúde daqui do estado de São Paulo
29:34e que tá conduzindo o esforço todo da luta contra o Covid-19.
29:40Se eu não me engano, ele pegou o Covid-19 também.
29:43Esse cara, o Davi Weep.
29:44E ele que cuida de mim.
29:46E isso sim acaba sendo um risco grave pra minha vida.
29:50E eu sou levado de volta pra UTI.
29:52Então, dentro de todas as coisas que você enumerou, ainda tem uma septicemia.
29:56Caraca.
29:56É uma inflamação generalizada que eu pego dentro do sírio-livanense.
30:02Você tem três vidas ainda, meu gato.
30:05É, mesmo.
30:06Você fica tranquilo.
30:07Não, duas.
30:09Duas.
30:10Olha só.
30:11Tem a queda.
30:11Tem a queda.
30:13E olha só, se você acredita em números bizarros, olha só.
30:17Eu caio do palco no dia 31, dia das bruxas, 31 de outubro.
30:22E eu pego a septicemia na sexta-feira, 13h, seguinte.
30:27Tá doido, cara?
30:28Ó.
30:30Me caia, galera.
30:32Olha só.
30:34Você tem uma ideia com esse quadro que você tá levantando aqui?
30:37Agora, recentemente, conversando com o Carlinhos de Jesus, que tem uma linha, uma qualidade
30:42de vida melhor do que a minha, talvez melhor do que a sua, porque é um cara, um bailarino,
30:50esguinho, saudável.
30:51Pegou o Covid-19.
30:53Meu nome não sabe como.
30:56Foi pro hospital, voltou, ele e a esposa, graças a Deus, tá muito bem.
31:01E essa história...
31:02Também.
31:03E não é brincadeira.
31:05Eu tô falando isso pra gente chamar a atenção dessa rapaziada que está nos acompanhando,
31:10que não é brincadeira.
31:11Por falar e acompanhar, nós estamos sendo seguidos em Taubaté, Frutal, Dubai, Rio de
31:18Janeiro, Manaus, Uberlândia, Vitória, Araxá, Monte Claros e Divinópolis.
31:22É uma pessoa legal.
31:23Demais.
31:24Eu conheço todas as cidades todas do Brasil, eu conheço.
31:28Dubai, eu conheço ainda, mas eu não conheço a Ásia.
31:35Eu conheço quatro...
31:35Dubai deve ser legal.
31:38Serra, Vila Velha, Santa Maria, Getibá, Marília, São Paulo, Belo Horizonte, Tapurá,
31:45Mato Grosso, Santos, Bahia.
31:48Legal.
31:49Mas eu conheço bem o Brasil.
31:51Eu conheço bem o Brasil, eu conheço o Brasil com poucas pessoas.
31:54O Capital é uma banda...
31:57Eu brinco assim que nós somos os proletários do rock, que a gente toca sem parar há muitas
32:04décadas.
32:05É, graças a Deus.
32:07Uma hora, eu parei até de contar, a gente tinha dado dois mil shows desde a nossa reunião.
32:13Então, é muito show.
32:14Todo fim de semana a gente passou esses últimos...
32:17Nós nos reunimos, nós ficamos separados durante um período, nos anos 90.
32:23Nos reunimos em 98.
32:25E de lá pra cá a gente fez uma turnê a cada dois anos.
32:29E de sucesso.
32:31E de sucesso.
32:32Todas foram bem.
32:34Batei na madeira, né?
32:36É.
32:37Batei na madeira, Guilherme.
32:39Valeu.
32:40E...
32:43Graças a isso, eu conheço bem o nosso país.
32:47Conheço todos os caras brasileiros tocando os caras.
32:48Apesar do capital, apesar do sucesso todo, você agora gosta de um discinho solo.
32:54Já lançou quatro.
32:55Lançou um agora, recentemente, de rock.
33:00Fala um pouquinho, porque eu não tive a oportunidade de ouvir o disco todo.
33:04Fala um pouquinho do trabalho.
33:06Olha, os dois discos, os meus dois últimos discos solo foram...
33:10Disco solo ou disco solos?
33:12Os meus dois últimos discos solo foram...
33:17Disco sem o capital, pronto.
33:19Não foram autorais.
33:23Então, eu acho que em 2013, eu fiz um de bandas e artistas gringos.
33:31Fiz esse disco em inglês.
33:32E eram só músicas de amor que eram meio tortas.
33:39Não era...
33:40Não era I love you, eu te amo.
33:42Não era nada.
33:43Era sempre alguma coisa meio bizarra.
33:45Eu gravei The Smiths, eu gravei Cure, eu gravei Joy Division, eu gravei Raconteurs, Patty Smith.
33:55Chama Blackheart esse disco.
33:58Esse último disco que eu fiz agora, faz um ano, é um tributo ao rock brasileiro.
34:07São três décadas do rock brasileiro.
34:09São os anos 70, os anos 80 e os anos 90.
34:13Vai até o final dos anos 90, porque tem CPM e Raimundos.
34:17E começa a coisa mais remota, mais afastada disso, acho que é a Rita Lee, porque eu gravei agora, só
34:24falta você.
34:26Gravei dos anos 70, gravei Raul, Metamorfose Ambulante.
34:31Aí vim para os anos 80, gravei Paralamas, gravei Lulu, gravei Kiko.
34:38Gravei Rapa dos anos 90, gravei Skank dos anos 90.
34:42E o que eu acho, Edu, todas essas músicas foram importantes para a minha vida, eu as ouvi muito.
34:50Mas eu acho que também, fora isso, tem um pouco...
34:54Às vezes, eu tenho a impressão que o rock brasileiro é muitas vezes pautado por rivalidade, em vez de colaboração
35:02e cooperação.
35:03Eu acho que eu vejo muitas vezes, é mais comum você ver uma banda detonando a outra, em vez do
35:11inverso, de dizer, olha, quanto essa banda foi influente, quanto ela foi importante para mim.
35:16E no meu caso...
35:18Desculpa, desculpa, até a concorrência entre as bandas é saudável e importante para vocês.
35:26Sim, sim, mas eu acho que eu prefiro hoje falar do quanto eu gosto do rock brasileiro, do quanto eu
35:36ouvi o rock brasileiro, sabe?
35:38Do quanto vários desses discos, eu ouvi 300 vezes, o disco do Rapa, o quanto eu ouvi o lado A,
35:45o lado B, o quanto eu ouvi o Renato, o quanto eu ouvi Skank, sabe?
35:49O quanto eu ouvi essas bandas todas, sabe?
35:52E outras bandas que não estão incluídas, não cheguei a gravar, não deu tempo, muitas coisas ficaram importantes, que eu
35:59acho igualmente importantes, mas que ficavam de fora do disco.
36:02Quem sabe eu ainda venha a gravar um outro, sabe?
36:04Fazer um volume dois, quem sabe?
36:06Fazer um volume dois. O nome disso é Rock and Roll em português. R-O-Q-U-E...
36:10É, achei ótimo.
36:15E eu vejo outros gêneros musicais no Brasil, você vê na música sertaneja, você vê no funk mesmo, você vê
36:23essa colaboração, no MPB, você vê uma colaboração, você vê um jogando confete para o outro, falando, nossa, como eu
36:29gosto da sua obra, sabe?
36:31E no rock é relativamente raro, ao menos era até relativamente pouco tempo, a geração nova não é assim.
36:39Mas olha só, vamos falar da sua geração, que é o seguinte, vocês foram moldados debaixo de uma competição enorme
36:46das gravadoras, que elas faziam tudo para que vocês acontecessem, para que vencesse a outra, que vendesse mais, e acho
36:54que vocês serem impregnados por esse espírito do departamento de vendas e o departamento de marketing dessas gravadoras é algo
37:01extremamente natural, porque era assim que era a relação.
37:04Quem vai para o Fantástico? Quem é que vai para o Chacrinha? Quem é que vai fazer o Maracanã? Quem
37:10é que vai fazer isso?
37:11Acho que essa competição das gravadoras levou durante um período, vocês jovens, vocês ainda em formação como seres humanos, e
37:20agora que estão mais velhos, estão cagulha andando para isso, meu irmão. Mudou muito.
37:26Para as gravadoras.
37:57Mais tempo, antes de ter gravado, antes de ter sido apresentado para os brasileiros, eu gostaria de ter...
38:07Quer dizer, você poderia ter sofrido mais antes de chegar ao sucesso. Sofrido, que eu falo, estúdio, carregar, tocar mais,
38:13tocar no marzinho, se fuder ali, receber o cachê vagabundo...
38:17Sim. A nossa geração de um modo geral começou muito cedo, dado, se eu... E o dado, a Legião grava
38:26antes do Capital. E o dado é mais jovem do que eu. O dado devia ter 18 anos, quando a
38:31Legião grava.
38:33Muito moleque. Muito moleque. Nós éramos muito jovens. Nós éramos adolescentes.
38:39Com as meninas gritando, com dinheirinho no bolso, com entrevistas, todo mundo babando. E aí o cara pira. Pira no
38:47sentido de perder o rumo.
38:48Ele fica babaca, ele fica... Bebe muito, cheira muito esse negocinho, põe uns trocinhos e perde o rumo. E se
38:55ferra ali na frente.
38:56Perde o rumo. Eu me vi com 21 anos, 22 anos, ganhando mais dinheiro que o meu pai. Sabe?
39:03Porra. Sabe? Aí você começa a beber, você começa a cheirar, você começa a tomar drogas, você começa a fazer
39:07tudo isso, sabe?
39:10Você perde um pouco a referência. Mas vai. Foi assim que aconteceu.
39:17Mas hoje, por exemplo, hoje eu vejo você completamente diferente. Você está muito melhor do que você era 10 anos
39:23atrás.
39:24Sim.
39:24E você está muito pior do que você vai ser daqui a 10 anos. Entendeu?
39:29É. É uma evolução.
39:30Olha, assim, Edu, olha, as coisas... Sei lá, o tempo vai passando e você fica... Você se debruça sobre a
39:38sua obra.
39:39Você quer... Você quer... Fazer um... Deixar algo de importante, sabe?
39:49Por exemplo, esse último disco do Capital, a gente foi atrás das bandas novas.
39:54A gente foi atrás de uma produção mais... Na minha opinião, mais artística. Sabe?
40:00De um disco descompromissado com tudo. Aliás, os últimos discos do Capital, eu acredito que eu tenho muito mais pensado
40:10em me afastar de... Ao menos... Não quer dizer que eu rejeite para sempre, mas de uma coisa menos popular
40:17de fazer algo mais denso conceitualmente, sabe?
40:22E esses últimos discos do Capital, todos foram assim.
40:26Talvez a gente resolva fazer, em algum momento, algo mais pop, mais popular.
40:30Mas os últimos discos do Capital, eu quis fazer algo mais cerebral.
40:36E foi que...
40:38Até porque vocês não têm que provar mais nada para ser ninguém, né, meu amigo?
40:42Chegou o momento em que vocês...
40:43Eu fico imaginando você procurando uma banda mais nova.
40:48Um compositor de uma banda que esteja no seu segundo disco.
40:53Rapaz, quem é que está falando aí?
40:56Seu Dinho, Ouro Preto?
40:58É a mesma reação que você tinha quando ouvia Led Zeppelin e ouvia Queen.
41:05Eu conheci vários dos meus heróis.
41:08Eu conheci o Robert Plante.
41:10Eu entrevistei ele para MTV.
41:11Eu conheci o Brian May.
41:13Eu encontrei o Brian May duas vezes.
41:16Ele foi...
41:17Inclusive o Abbott estava presente.
41:19Eu acho que o Barone também.
41:20Nós fomos levados para...
41:21Quando eles vieram com o Paul Rogers, do Bad Company,
41:25eles foram tocar na Arena Genesse, no Rio.
41:28E a gente foi lá e armaram um encontro para a gente no camarim.
41:31Com o Brian May, o Paul Rogers,
41:35e o Roger Taylor, o Batera.
41:40E também foi...
41:40Sensacional.
41:41E eu encontrei depois, anos mais tarde também,
41:44também pela Globo.
41:45Eu fui entrevistar o Gary Lee e o Alex Leibsson do Rush.
41:51E foi também...
41:53São pessoas que eu cresci ouvindo, sabe?
41:56Eram heróis semideuses, sabe?
41:59Que eram quase como se eles não existissem carne e osso, sabe?
42:03E é curioso como a informação era tão pouco disponível.
42:08Você não tinha...
42:09Como você não tinha internet,
42:10e os raros discos chegavam,
42:14as imagens que você tinha deles
42:16eram uns pequenos fragmentos.
42:20Sabe?
42:20Uma foto que você vinha em alguma revista,
42:22saía alguma coisa do Jimmy Page,
42:24alguma coisa do Gary Lee,
42:26alguma coisa do Brian May.
42:29Você tinha a foto deles na capa dos discos.
42:32Você não tinha quase nada.
42:34É verdade.
42:34Só chegavam migalhas até você.
42:37Chegavam migalhas.
42:38Então...
42:38E hoje essa rapaziada tem isso aqui, olha só.
42:43Está vendo uma live, está vendo...
42:44Entra na internet, pode ver.
42:46Tudo que você quiser do seu artista.
42:47Não, outro dia eu peguei o Brian May,
42:50que você está falando.
42:51Peguei um vídeo do Brian May em casa,
42:53tocando guitarra e mostrando
42:55como é que fazia o solo dele, cara.
42:57Eu vi.
42:58Olha, segura...
42:59Você viu?
43:01Rapaz, que coisa doida, cara.
43:03Muito louco, né?
43:03O próprio Brian May está explicando
43:05o Black Talk, aquela porra.
43:06Então, imagina essa garotada
43:08que vê o Brian May
43:11de não ter nada deles.
43:13Não ter...
43:14Só o álbum.
43:16Você ouvia o álbum
43:17e você tinha que projetar
43:18na sua imaginação
43:19o que você achava
43:20e você via o show ao vivo
43:21e você falava
43:21Uau, que demais a roupa.
43:23Que demais é o que ele está usando.
43:25Demais a guitarra dele.
43:28E não tem fio no chão.
43:30Eu ficava doido
43:31porque eu olhava aqueles palcos
43:32e não tinha cabo.
43:33Eu falei, como não tem cabo, cara?
43:35Como é que...
43:38Sensacional.
43:39Imagina, Du.
43:40Imagina, Du.
43:40Lá pelas coisas eu conheço.
43:41Eu me conheço.
43:42Eu encontro.
43:43Pô, está doido.
43:44Está doido.
43:44O Hush, o Led Zepp
43:46e o Robert Cash
43:47eu entrevistei.
43:48Fiquei uma hora com eles.
43:49Mas o Brian May
43:50os barrei
43:52nos camarins.
43:53Uma vez no Rock in Rio
43:54e a outra vez
43:55na Helena Junesse.
43:57E eu fico tão emocionado
43:59que eu tento dizer
44:01para os caras.
44:01Falo, olha, você não tem ideia.
44:03Eu sou músico.
44:04De quanto você é importante para mim.
44:05De quanto o alcance
44:07da sua música.
44:08Que nós morávamos,
44:09embora fosse a capital do Brasil,
44:11ainda era um medo nada.
44:13Sabe?
44:13E tinha uns garotos lá
44:15que ouviam a sua música
44:16e que acabaram
44:17se tornando profissionais
44:18há mais de 40 anos atrás.
44:23Muito, muito obrigado.
44:25Muita paz, muita saúde.
44:26E continue se cuidando, meu amigo.
44:28Porque você é uma figura
44:31das mais importantes
44:32que a gente tem
44:33na história do Rock brasileiro.
44:35Um beijo para você.
44:37Tchau, tchau, gente.
44:38Valeu.

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