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  • há 17 horas
Produtor musical e jornalista, Edu Henning entrevistou 260 artistas e personalidades culturais durante a quarentena provocada pela pandemia do novo coronavírus. Confira no canal do vocalista da icônica banda Big Beatles lives que abordam desde a trajetória musical a questões curiosas de importantes nomes da música brasileira.

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Transcrição
00:11Boa tarde para você que está nos assistindo de tarde, boa noite para você que está nos assistindo à noite,
00:17bom dia para você que está curtindo a nossa conversa durante o dia, durante a manhã.
00:22Hoje o Felemos, que é baterista, membro, fundador do Capital Inicial,
00:32teve ali em alguns instantes importantes da história da música,
00:35participou do Aborto Elétrico, uma banda de punk rock de Brasília,
00:41só do Aborto Elétrico saíram duas grandes bandas, de um lado Legião Urbana, do outro lado Capital Inicial,
00:48só esse foco do Aborto Elétrico já é um foco muito interessante e importante.
00:56Schaefer!
00:59Salve!
01:00Salve, compadre, você está bem?
01:02Tudo tranquilo.
01:04Que bom, obrigado pela sua atenção, boa vontade, carinho e disponibilidade de conversa.
01:09Pô, já vi que você é que nem eu, gosta dos disquinhos, né?
01:14Colecionador de discos, sim.
01:17Tudo em ordem alfabética, separado, rock, eletrônico, música brasileira, jazz.
01:25Aí você me sacaneou.
01:28Agora eu me senti humilhado, porque essa organização não tem o mesmo, cara.
01:32Tá tudo em ordem alfabética, cara.
01:36Quando eu montei esse escritório aqui na minha casa, eu pensei assim,
01:42eu estou fazendo tipo uma espécie, é o museu, museu do século XX, porque essas coisas são coisas do século
01:49passado, né?
01:50Que a gente comprava CDs, vinil, enfim.
01:53E provavelmente muitos desses CDs, eu não sei quando é que eu vou ouvir de novo.
01:57Então, é, virou um arquivo, né? Uma história, né? Uma parte da minha história.
02:01E você, com essa quarentena, você está recuperando algumas audições, está ouvindo algumas coisas em particular?
02:10Ou o ritmo foi para outro caminho?
02:13Porque eu estou ouvindo algumas músicas novamente, então eu estou te perguntando o que está acontecendo comigo, algumas coisas.
02:22Olha, na verdade, eu, quando começou a quarentena, né, que foi em meados de março, né, a partir do dia
02:3120,
02:32eu, nesse primeiro mês, eu foquei muito em dar continuidade à produção do meu terceiro disco,
02:41do meu projeto Hotel Básico, que eu tinha começado no ano passado.
02:44E eu não podia mais me encontrar com a Mel Ravazio, que é a cantora que está nesse projeto comigo,
02:52né?
02:52Então, eu trabalhei nesse primeiro mês o que eu podia fazer sozinho.
02:57E, enfim, depois eu acabei fazendo uma longa viagem, fiquei fora de São Paulo mais de dois meses.
03:06Então, nessa viagem, eu fiz uma live chamada DJ Bom para Cachorro,
03:12onde eu resgatei músicas do Capital Inicial, né?
03:16Eu toquei muita coisa antiga do Capital, eu recebia pedidos da galera pelo Instagram,
03:23e eu fiz uma série, acho que foram uns 12 programas desse, né, do DJ Bom para Cachorro,
03:29durante mais ou menos o mês de maio inteiro até meados de junho.
03:35Então, assim, realmente de voltar e pesquisar na minha discoteca, não.
03:40Eu, a partir desse trabalho, após a minha volta a São Paulo,
03:46eu retomei já os trabalhos com a produção do disco do Hotel Básico.
03:50Então, eu tenho, assim, infelizmente pouco tempo para pesquisar,
03:55e, pô, olha esse disco que eu não ouço há tanto tempo.
03:58Isso, infelizmente, não aconteceu.
04:01Ué, você é a minha entrevista 209.
04:04Eu estou há 209 dias conversando com uma pessoa bacana, legal, com algo...
04:09Aí, eu acho que Capital Inicial é algo que a gente já conhece essa história de cabo a rabo.
04:16Eu conheço desde o tempo que eu tinha cabelo.
04:18Então, vamos falar um pouquinho o seguinte.
04:22Você nasce dois anos antes da inauguração de Brasília.
04:25Você vai para Brasília com cinco anos de idade.
04:29Na verdade, eu nasci dois anos depois da inauguração.
04:33Eu nasci em 62.
04:3562, dois anos depois, desculpe.
04:37Como é que foi? O que que seu pai fazia?
04:40Seu pai era aquele tipo de pessoa que foi para Brasília em busca de uma nova...
04:44De uma oportunidade nova.
04:47Porque teve uma mudança radical dos profissionais para Brasília.
04:50Na tentativa de melhorar financeiramente, povoar Brasília, oportunidade profissional.
04:57Isso aconteceu com o teu pai.
04:58E qual era esse trabalho do seu pai?
05:01Sim, eu acho que...
05:05Soube fazer resumir bem o que aconteceu com a minha família.
05:11Nós éramos três crianças, nascidos no Rio de Janeiro.
05:15Eu em 62, meu irmão em 63 e minha irmã em 66.
05:22Então, com o nascimento da minha irmã, bebê ainda em 66, meus pais trabalhavam no centro do Rio de Janeiro.
05:31Meu pai já era nessa área de biblioteconomia.
05:35Minha mãe também estava nessa área de biblioteconomia.
05:39E eu acho que o que aconteceu, meu pai recebeu um convite para lecionar biblioteconomia na Universidade de Brasília.
05:46Que estava uma universidade que estava iniciando, que estava começando.
05:51Era um projeto utópico, Darcy Ribeiro, enfim.
05:54Tinha todo um lado político na criação da Universidade de Brasília.
05:59Em termos, talvez, de um novo projeto de educação superior, enfim.
06:03Eu não sei dos detalhes.
06:05E, ao mesmo tempo, a vida dos meus pais estava difícil, por causa com três crianças pequenas.
06:11E os dois trabalhando no interior do Rio.
06:14E nós morávamos no subúrbio.
06:16Então, eles perdiam três horas por dia, digamos, de trânsito para ir e para voltar.
06:23Então, eu acho que Brasília se apresentou, meus pais, como uma oportunidade de começar uma nova vida, entendeu?
06:34Tipo um sonho, né?
06:35Assim, pô, a nova capital do Brasil.
06:38Um projeto educacional revolucionário.
06:42A possibilidade de ter uma vida familiar mais próxima.
06:47Por exemplo, meu pai, a gente foi morar dentro do campus universitário.
06:51Então, meu pai ia para o trabalho de bicicleta.
06:55Você pode ver almoçar em casa.
06:58Nunca podia ter pensado em fazer no Rio, né?
07:02Imagina, no centro do Rio para Sulacap, que era lá nos cofins da Zona Oeste do Rio de Janeiro,
07:09que é onde a gente morou no Rio de Janeiro.
07:11Então, era muito difícil no Rio de Janeiro, já naquela época, os anos 60,
07:17esse transporte da periferia, dos subúrbios para o centro.
07:21Então, acho que houve essa conjunção de fatores que propiciou a nossa mudança para Brasília.
07:28E eu acho que foi uma mudança acertadíssima em termos de qualidade de vida para a família
07:35e de desenvolvimento profissional para os meus pais também.
07:39Aí você chega numa Brasília e cresce com mais liberdade do que Rio de Janeiro,
07:48podendo andar de bicicleta, podendo jogar bola, podendo correr atrás de pipa, jogar bola de búdica.
07:53Quer dizer, uma vida saudável, intelectualmente falando e fisicamente se colocando.
07:58Uma vida completamente diferente do Rio de Janeiro, cara.
08:02Sim, a gente na Colina, a minha infância e adolescência na Colina foram,
08:08eu acho que o sonho de qualquer garoto ou garota daquela época, dos anos 70,
08:16porque a gente tinha total liberdade, né?
08:21A gente vivia no meio do mato, era assim, literalmente tinha os quatro prédios,
08:26os quatro conjuntos de prédios, o conjunto de quatro prédios, que era a Colina,
08:31e era cerrado, saindo assim, para o resto, para onde você andava, era o mato.
08:39Fê, Fê, Fê, Fê, aquela terra vermelha, aquela terra vermelha por lá.
08:45Meu, a gente, o campus da UNB era um grande playground, que tinha muitas obras,
08:50então imagina, cara, moleque entrando em obra, cara, e explorando,
08:55e a gente brincava nos, por exemplo, perto de onde eu morava,
09:00tinha um lugar que a gente chamava de Buracão.
09:04O que que era?
09:04Foi o começo de uma obra que parou, então eles só cavaram a terra e deixaram aquele buraco,
09:11e aquilo com as chuvas enchia de água, então, meu, era escorrega de lama,
09:16era fazer caverna, era catar o talango, né, que são os lagartos do cerrado,
09:22ou ir atrás de nascente, onde tinha peixinhos coloridos.
09:25A gente tinha uma vida, assim, que era difícil de uma criança, hoje em dia,
09:30imaginar uma vida na cidade grande, como a gente viveu em Brasília.
09:36Foi muito especial essa infância.
09:39Com todos os jogos, você falou bolinha de gude, futebol, todos os piques, pipa,
09:45era, a vida era ao ar livre, bicicleta o tempo inteiro,
09:50eu sempre andei muito de bicicleta, e em Brasília era muito tranquilo, né,
09:54então você atravessava a cidade, corrente era muito comum,
10:00eu ir de um lado ao outro na cidade de bicicleta, assim como meus amigos.
10:04Então, foi uma época muito especial.
10:06Eu andei fazendo umas ligações hoje para pegar uns bastidores sobre você
10:10com alguns amigos que nós temos em comum,
10:13e teve um que disse que você, quando o moleque,
10:17e eu queria que você confirmasse isso ou desmitisse,
10:19você já tinha uma...
10:21Porque o baterista, que é um instrumento que a gente vai falar aqui daqui a pouco,
10:26ele tem muito... é um instrumento cheio de tralha, né,
10:30aperta aqui, empurra lá, carrega aquele troço,
10:33mas parece que quando você era moleque,
10:35você já mexia, gostava de desmontar uma bicicleta inteira,
10:40limpar a bicicleta e montar outra vez,
10:43que a gente já era uma projeção da linha de conduta do baterista, cara.
10:52Sim, esse era um dos hobbies da gente lá na colina, né,
10:56a gente gostava, e eu particularmente gostava muito,
11:00eu desmontava a bicicleta inteira, velho,
11:02tirava todos os cubos de roda, as bilhas, né,
11:07tontava, ficava só o quadro da bicicleta,
11:09tirava tudo, aí depois ia montando, montava tudo,
11:13os freios, as rodas, enfim, eu gostava disso,
11:16eu passava dias, tinha uma varanda no meu quarto, assim,
11:20que virava meio uma oficina, né,
11:23entre aspas, né,
11:24e a gente fazia ali a bagunça da gente, né.
11:28E engraçado isso da bateria,
11:30que uma das primeiras coisas,
11:31quando eu percebo que existe, né,
11:33esse instrumento, a bateria,
11:36uma coisa que me chama a atenção, me deixa fascinado,
11:38são os mecanismos da bateria, né,
11:40aquele chimbal que o prato bate um no outro,
11:43tem uma mola, o pedal,
11:44o pedal do bumbo que tem uma mola também,
11:46e você tem vários parafusos
11:49e pra afinar e montar,
11:52eu falei, pô, que legal,
11:53eu me senti em casa, né,
11:55com essa tralha toda, cara.
11:57E você tá falando,
11:58quando eu comecei a tocar a bateria,
12:01deixa eu me atenção.
12:03Nós estamos falando de uma bateria arcaica,
12:05que quando você comprou a sua primeira bateria,
12:07ela não devia ter recurso nenhum,
12:08até porque naquele momento a tecnologia
12:10para as baterias era muito simplória,
12:13hoje a bateria tem recursos,
12:15as molas são melhores,
12:17tem mais facilidade,
12:19mais confortável.
12:21Naquele tempo era na pedra e no fogo, né,
12:24cara, a bateria dura.
12:26Inclusive,
12:27a pele da bateria, né,
12:29era realmente uma pele,
12:31era couro,
12:32era couro de animal,
12:35pra você trocar a pele,
12:37era todo um processo,
12:39entendeu?
12:39Você te soltava o aro, né,
12:41aí vinha a pele presa num aro menor de madeira,
12:46que você te soltava desse aro de madeira,
12:50aí você pegava a pele nova,
12:51molhava,
12:52pra ela ficar flexível,
12:54colocava no aro de madeira,
12:56aí era um aro menor e um aro maior,
12:58ele se prensava assim,
13:00e aí você deixava secando no sol,
13:03ele dava uma contraída, né,
13:06ficava mais firme,
13:08e aí que você prendia na bateria,
13:10e no aro mesmo de metal, né,
13:12a parafusava,
13:13e aí você ia afinar.
13:15Então era um processo,
13:16assim,
13:16você não trocava pele, né,
13:18de bateria.
13:19Uma pele de tambor,
13:20de tom-tom,
13:21de surdo,
13:22de bumbo,
13:23durava anos,
13:24sabe?
13:25Não era comum,
13:26como hoje em dia,
13:27a gente troca as peles, né,
13:29da bateria, às vezes,
13:30de mês em mês,
13:30dependendo do uso que você tem,
13:32o que dá para o instrumento.
13:33Naquela época, meu,
13:35as baterias eram,
13:36você via aquelas peles
13:37que tinham, assim,
13:38décadas,
13:38que estavam no instrumento,
13:40assim, já machucadas, né,
13:42manchadas,
13:43mas você não trocava a pele,
13:45porque à medida que você ia usando,
13:46ela ia dando um timbre melhor também.
13:49Vou falar,
13:50vou voltar,
13:50vou voltar,
13:52vou voltar para a sala de visita
13:54da sua casa.
13:55Aí a sua família vai para Brasília,
13:58você chega lá com cinco anos de idade,
14:00fica lá,
14:01quanto tempo até a sua família
14:04te carregar para a Inglaterra?
14:07Eu queria entender também
14:07por que é da Inglaterra,
14:09pós-graduação da família,
14:11oportunidade também do seu pai
14:13estudar um pouco mais,
14:15como é que foi o motivo,
14:16qual foi o motivo
14:17e o período que você sai para a Inglaterra,
14:20com que idade você vai para a Inglaterra
14:21e quanto tempo você fica por lá?
14:24Então,
14:27ah, melhorou.
14:32Então, de Brasília,
14:34vamos falar,
14:35eu cheguei em 68,
14:37em 72 estava com 10 anos,
14:39no meio da meninice lá,
14:41dessa história toda de bicicleta,
14:43dos jogos,
14:43da vida na colina,
14:44e com 12 anos,
14:49em 74,
14:50eu comecei a estudar inglês,
14:52entrei na cultura inglesa,
14:54eu estava fazendo,
14:56eu estava estudando nos colégios públicos,
14:58eu estava em 74,
15:00devia ser a sexta série,
15:03ou quinta série,
15:04em 75,
15:06até que em 75,
15:08foi quando eu estava com 3 anos de idade,
15:10eu me interessei pela bateria,
15:12e acabei comprando a bateria do meu amigo,
15:14lá da colina,
15:16que era o cara que tinha uma banda,
15:19um cara mais velho,
15:20e eu comprei a bateria dele,
15:22e em 76 comecei a tocar na colina mesmo,
15:25com alguns amigos,
15:26a gente fez a Colinas Band,
15:28era um trio,
15:30e a gente ficava tocando uns riffs de hard rock,
15:34que o guitarrista criava,
15:36e era uma banda instrumental ainda,
15:38enfim,
15:38mas foi minha primeira banda,
15:40experiência de tocar com baixista e guitarrista,
15:44e isso em 76,
15:45com 14 anos,
15:46eu também entrei na escola de música de Brasília,
15:48já pensando em aprender música,
15:52como uma profissão talvez,
15:55embora eu fosse muito criança ainda,
15:57mas eu tinha essa paixão por música,
15:59e eu gostava muito de rock,
16:01a ideia de aprender música,
16:04música clássica,
16:06era estranho,
16:07mas eu falei,
16:09se o caminho para a música é esse,
16:11vamos lá,
16:12só o que aconteceu em 76,
16:14foi que meu pai resolveu fazer a pós-graduação,
16:17e ele escolheu a Inglaterra,
16:19a Universidade de Loughborough,
16:20que é uma cidade,
16:24dentro da região que eles chamam de Midlands,
16:27que é que fica umas três horas e meia de Londres,
16:30assim,
16:30no sentido oeste,
16:32é bem no centro da Inglaterra,
16:34por isso que chama Midlands,
16:36terra do meio,
16:37e a cidade principal das Midlands,
16:39a capital é Leicester,
16:41inclusive tem um time,
16:42escreve Leicester,
16:43e tem um time na primeira divisão de futebol,
16:46inclusive foi campeão,
16:47há dois, três anos,
16:49três anos atrás,
16:52então,
16:53embora a universidade fosse em Loughborough,
16:55que era uma cidade menor dessa região,
16:58a cidade principal era Leicester,
17:00que era onde eu ia,
17:02que era onde eu comecei a sair,
17:04comecei a ver shows,
17:06então,
17:06a ida para a Inglaterra foi quando eu fiz 15 anos,
17:10em 1977,
17:11e foi por causa do meu pai,
17:13que resolveu fazer pós-graduação,
17:16ele ficou dois anos na Inglaterra,
17:18ele viajou em meados,
17:20que o ano letivo lá começa em setembro,
17:22então ele foi em setembro de 76,
17:24e aí ele organizou,
17:27ele alugou uma casa,
17:29matriculou os filhos nas escolas próximas,
17:32cada um teve que ir para uma escola diferente,
17:34por causa da idade,
17:36e no final do ano,
17:38minha família,
17:39eu e meus irmãos e minha mãe,
17:41nos mudamos para a Inglaterra,
17:43e aí passamos esse ano na Inglaterra,
17:45de 77 inteiro,
17:46voltei para o Brasil em 78,
17:48no início de 78,
17:49e meu pai voltou em julho de 78,
17:52após completar os dois anos de pós-graduação.
17:55Vamos continuar na Inglaterra,
17:57porque o menino Antônio Felipe,
18:00moleque de 15 anos de idade,
18:02chega na Inglaterra,
18:04vindo de um país,
18:06que as pessoas não sabem,
18:07em 77,
18:09não sabia nem onde é que ficava o Brasil,
18:11até hoje também,
18:12se você chegar lá e perguntar,
18:13eles ficam meio perdidos,
18:14Mas vamos lá,
18:15o moleque de 15 anos de idade,
18:17em 1977,
18:21chegando para estudar,
18:22o Antônio Felipe,
18:24perdido,
18:25sem rumo,
18:26com pouco inglês,
18:27um inglês de colégio,
18:29como é que foi essa adaptação
18:31ao universo ali,
18:33a entender o que estava acontecendo
18:35ao seu redor,
18:36que você tinha essa oportunidade,
18:39como é que foi esse momento de chegada,
18:41depois nós vamos falar do momento de volta,
18:43porque também você era um gringo lá,
18:45e deve ter sido um gringo aqui na volta,
18:47mas vamos falar primeiro de lá.
18:50Olha,
18:52a gente chegou aí na Inglaterra,
18:55e foi engraçado que era dezembro de 76 ainda,
19:00quando pousamos em Londres,
19:02e tinha nevado,
19:04e não era muito comum,
19:05acho que não é muito comum neve,
19:08em Londres,
19:09enfim,
19:10aí estava,
19:11vai ser um Natal branco,
19:12White Christmas,
19:13e assim,
19:16era tudo muito novo,
19:17claro,
19:17eu nunca tinha ido para fora,
19:19e eu encarava tudo com uma curiosidade,
19:24uma vontade de aprender,
19:26e absorver cada detalhe daquela vida nova,
19:31que eu estava vivendo,
19:33e muito grande,
19:35e eu senti aquilo como uma coisa muito boa,
19:38tipo um presente do destino,
19:40na minha vida,
19:42na vida da minha família também,
19:44essa possibilidade de poder viver um ano fora do Brasil,
19:48e eu já falava um pouquinho de inglês,
19:50eu tinha estudado na cultura inglesa,
19:52eu já tinha quatro anos de inglês,
19:55então,
19:56o que aconteceu foi logo...
19:58É um bom tempo,
20:00quatro anos de inglês para a cultura,
20:01dá para chegar falando,
20:03o passado,
20:03o presente,
20:04o futuro,
20:05eu já sabia conjugar os verbos,
20:07entendeu?
20:07Mas, assim,
20:08eu não tinha fluência,
20:09mas o que aconteceu?
20:10Eu entrei na escola,
20:12numa escola inglesa,
20:13lá da região,
20:14que só tinha inglês,
20:16e os únicos estrangeiros eram os paquistaneses,
20:20naquelas coisas do Reino Unido,
20:24então,
20:24o Paquistão fez parte da Inglaterra,
20:27então,
20:27recebeu famílias paquistanesas,
20:29mas eles não se misturavam,
20:31os ingleses e os paquistaneses eram assim,
20:35quem era paquistanês não falavam quem era inglês,
20:38quem era inglês não falavam...
20:39Mas, assim,
20:39então,
20:40eu me integrei rapidamente à minha turma,
20:44e o que foi engraçado é que eu tinha uma bagagem de rock já,
20:48eu era,
20:49eu gostava de hard rock dos anos 70,
20:52eu conhecia Led Zeppelin,
20:53Black Sabbath,
20:53Purple,
20:54enfim,
20:54todo rock dos anos 70,
20:56eu já tinha essa bagagem,
20:58então,
20:59eu me integrei a um grupo de amigos que também curtia rock,
21:03e eu fiz uma amizade muito forte com um amigo
21:07que era de um ano maior,
21:08um ano à frente do que o meu,
21:10eu entrei na quarta série,
21:11fourth form,
21:12que eles falavam,
21:14e o Jeremy,
21:15era o nome dele,
21:16era do quinto form,
21:17do quinto ano,
21:19a gente se encontrou num show que eu fui,
21:21um show do Leonard Skinner,
21:22eu comecei a ir em shows,
21:24e o primeiro show que eu vi foi do Leonard Skinner,
21:26com a formação original,
21:28o Ronnie Van Zandt,
21:29cantando descalço,
21:30os três guitarristas...
21:31Caraca,
21:32que demais,
21:33e foi engraçado,
21:35que eu não conhecia nada,
21:36então eu comprei cadeira,
21:37e eu fiquei na última cadeira,
21:40na última cadeira do balcão,
21:41lá em cima,
21:43mas nesse show,
21:44eu encontrei esse cara,
21:45que a gente já tinha se visto no ônibus da escola,
21:48e aí a gente começou a conversar,
21:50e aí ele falou,
21:51o próximo show você vem aqui embaixo,
21:53que é muito mais legal,
21:55aí eu falei,
21:56ok,
21:56e aí a partir daí eu só vi o show em pé,
21:58eu esqueci,
21:59nunca mais fui nas cadeiras,
22:01e aí que a coisa aconteceu,
22:03porque eu vi muitos shows,
22:06e na escola eu me integrei rapidamente com a minha turma,
22:09entendeu,
22:10então em questão de um ou dois meses,
22:13eu já estava sonhando em inglês,
22:16eu só falava português dentro de casa,
22:18quando eu colocava o pé na rua,
22:20era inglês de manhã até de noite,
22:22então rapidamente a língua deixou de ser um problema,
22:26e a história do rock,
22:28de eu começar a ir nos shows com esse amigo que eu fiz,
22:31também favoreceu muito a minha integração,
22:35lá na comunidade,
22:36com os amigos dele,
22:38aí eu passei a frequentar o centro social da escola,
22:42onde a gente jogava um carteado,
22:44valendo um centavo,
22:47a rodada,
22:50então eu rapidamente já estava junto com os malucos da escola.
22:54Agora,
22:55malucos,
22:56escola,
22:56Inglaterra,
22:5876,
22:5977,
23:00vem uma porrada na molecada,
23:02que é o punk rock,
23:04se foi impactante para o mundo inteiro,
23:06deve ter sido um juntão,
23:08essa porra do punk rock,
23:10na Inglaterra,
23:11e você era o moleque que chegou e levou esse soco na boca do estômago,
23:16como é que foi a chegada do punk rock naquele momento,
23:19e como é que isso impactou a sua vida pessoal?
23:23Pois é, meu velho,
23:26foi exatamente isso que você falou,
23:29eu comecei,
23:31a coisa de rock,
23:32eu cheguei lá na pátria,
23:34digamos,
23:35o rock foi inventado nos Estados Unidos,
23:37mas foi lá na Inglaterra que eles deram um nó no pingo d'água,
23:40então eu comecei a ler o Melody Maker,
23:42o New Music Express principalmente,
23:44que era o jornal de música mais alternativo,
23:47o Melody Maker era mais tradicional,
23:50os medalhões,
23:51e o New Music Express já estava indo para o alternativo que estava acontecendo,
23:57e na época começou a se falar do tal de punk rock,
24:01ele começou a chegar na mídia,
24:02e eu comecei a ler,
24:04fiquei curioso,
24:05mas assim,
24:06o que mudou a minha cabeça foi descobrir um programa na rádio,
24:09na Rádio 1,
24:10BBC,
24:11na Rádio 1,
24:12que era o programa de um DJ chamado John Peele,
24:15o John Peele foi o DJ,
24:18o DJ inglês,
24:20ele é o cara,
24:21o DJ mais famoso na Inglaterra,
24:22ele é uma pessoa assim,
24:24que é celebrada,
24:25de 10 em cada 10 ingleses,
24:28ouviram o John Peele,
24:29o John Peele veio dos anos 70,
24:31ao final dos anos 60,
24:32se eu não me engano,
24:33e ele passou os anos 70,
24:3580,
24:3690,
24:362 mil discotecando,
24:38trazendo músicas novas,
24:40discos novos,
24:41bandas novas,
24:42no programa dele,
24:43e quando eu descobri esse programa no rádio,
24:46era todo dia das 8 às 10 da noite,
24:49de segunda a sexta,
24:50eu parava tudo,
24:51lá que eu estava fazendo em casa,
24:54pegava o som lá,
24:55que meus pais tinham comprado,
24:56alugado,
24:57enfim,
24:57e colocava na Rádio 1,
24:59e ficava ouvindo,
25:00porque era um programa de rock,
25:01e era engraçado que eu vinha do Brasil,
25:04não tinha rock na rádio,
25:05o rock nos anos 70 no Brasil,
25:08era um gueto,
25:09era música para poucos,
25:12era uma elite branca,
25:14que eu via rock no Brasil,
25:16e você conseguia alguns discos,
25:18não eram todos discos que chegavam,
25:20programas de rádio de rock no Brasil,
25:22nos anos 70,
25:23eram inexistentes,
25:25na televisão tinha o Sábado Som,
25:27daquele gordinho,
25:29que era legal para caramba,
25:31e era a única coisa,
25:33que a gente via assim,
25:33era meio uma,
25:34quase que uma coisa assim,
25:36sabe,
25:36sociedade secreta,
25:38aí eu vou para o lugar,
25:39onde o rock é,
25:40é a música de fato da galera,
25:42embora tenha naquela época,
25:43discoteca também,
25:44o pop,
25:45enfim,
25:45mas,
25:48o John Peele,
25:49foi determinante,
25:50porque foi no John Peele,
25:51que eu comecei a ouvir,
25:53que eu ouvi pela primeira vez Ramones,
25:55e pela primeira vez Sex Pistols,
25:57e,
25:57e,
25:59eu fui ficando,
26:00é aquela coisa,
26:01você de repente,
26:03quando eu vi,
26:04eu comprei meu primeiro disco dos Ramones,
26:07e,
26:07aí eu comprei meu primeiro disco do Sex Pistols,
26:10e quando eu vi,
26:11eu já estava ouvindo só punk rock,
26:12e eu estava completamente fisgado,
26:15pelaquela nova música,
26:16pela atitude,
26:17pela ideia,
26:18de você poder fazer uma música mais simples,
26:21mais contundente,
26:23sabe,
26:23falando não sobre problemas abstratos,
26:28ou rock progressivo,
26:29aquelas que eu adorava,
26:30eu gosto até hoje,
26:32mas a urgência do punk rock,
26:35foi,
26:35a coisa visceral,
26:37do punk rock,
26:38foi determinante,
26:40assim,
26:40realmente,
26:42da noite para o dia,
26:44eu virei um punk,
26:45eu fui o primeiro punk lá da escola,
26:47inclusive,
26:47eu queria,
26:48vamos falar sobre,
26:49eu virei um punk,
26:51Fê,
26:51como é que,
26:52como é que,
26:53você muda a cabeça,
26:54você leva uma porrada,
26:55você tem um disco em jovem,
26:57de oito às nove da noite,
26:58que,
26:58na BBC1,
27:00que te dá esse,
27:00tal,
27:01mas você estuda,
27:03num lugar fechado,
27:04hermeticamente tradicional,
27:06você tem uma família brasileira,
27:08que,
27:09fica,
27:10preocupada,
27:11que o filho,
27:12seja,
27:12integrado na sociedade inglesa,
27:14o máximo possível,
27:15e ao mesmo tempo,
27:16você tem,
27:16uma onda,
27:17que é o punk rock,
27:18que muda o cabelo,
27:19muda a roupa,
27:20muda a postura,
27:21você conseguiu encontrar,
27:22equilíbrio,
27:23entre a pressão da escola,
27:25a necessidade da família,
27:27se manter,
27:29harmonizada,
27:29na sociedade inglesa,
27:31você vestia punk,
27:33você rasgava a roupa,
27:34você tinha uma postura,
27:35visual punk?
27:37Claro,
27:38é,
27:39não era graça,
27:40ser punk,
27:40e não usar roupa rasgada,
27:42meu,
27:42eu fiz minha camisa,
27:43eu fiz uma camisa,
27:44pintada a mão,
27:45assim,
27:46eu fiz,
27:47stencil,
27:48né,
27:48Sex Pistols,
27:49The Clash,
27:50sei lá,
27:51e aí eu usava essa camisa,
27:52era uma camisa que era do meu pai,
27:54ela foi,
27:54ela foi apodrecendo,
27:56e eu ia remendando ela com,
27:57com,
27:58com alfinete,
27:59entendeu,
28:00e eu tinha um casaco de jeans também,
28:02que a gente,
28:02tinha aquela moda dos patches,
28:04que eram,
28:05eram pequenos bordados,
28:06né,
28:07que você,
28:08você,
28:09você costurava no seu casaco,
28:10então o meu tinha cheio de bandas,
28:13coladas atrás,
28:13além de bandas de rock mais antigas,
28:16tinha ali coisas novas,
28:17e eu adorava meu casaco,
28:19aqueles bótons também,
28:20com nome de banda,
28:21meu casaco era cheio de bótons,
28:23e eu usava durante,
28:25eu ganhei uma coleira de cachorro,
28:26de uma amiga minha da escola,
28:28com pontas,
28:29que eu usava aquela coleira,
28:30saia com ela,
28:32para ir para os shows,
28:34quando eu voltei para o Brasil,
28:36minha mãe olhava para mim e falava,
28:38não,
28:38não é possível,
28:39né,
28:39porque eu fui,
28:40entrei no avião completamente punk,
28:42rasgado,
28:42com alfinete,
28:43tudo mais,
28:44então eu,
28:46adolescente,
28:4715 anos de idade,
28:48né,
28:48sabe,
28:50você chuta o pau da barraca,
28:51né,
28:52para mim foi assim,
28:53foi realmente,
28:55e ao mesmo tempo,
28:56na escola,
28:57eu ia muito bem,
28:59eu não tinha nenhum problema,
29:00com as matérias,
29:02que eu estava estudando lá,
29:03era um bom aluno,
29:05pô,
29:05para mim era bico,
29:08eu tirava tudo de letra,
29:10com isso você,
29:11o fato de você tirar boas notas,
29:14não precisava ser um gênio,
29:16já amenizava essa relação com a mãe,
29:18com o pai,
29:19com a roupa,
29:19com o colégio,
29:20também dava uma certa harmonia ali,
29:22você tocava bateria na Inglaterra,
29:24chegou a tocar bateria lá,
29:26como é que foi esse período na Inglaterra,
29:27em termos de músico?
29:28Então,
29:29eu não cheguei,
29:30eu fiz aula,
29:32eu entrei numa escola de música lá,
29:35eu fiz aula durante uns,
29:37dois ou três meses,
29:39mas era uma escola que era um nível,
29:42para um nível iniciante,
29:43e eu já sabia tocar,
29:45então,
29:46sabia tocar o básico da bateria,
29:48claro,
29:49veja bem,
29:49eu não sabia tocar jazz,
29:51ou ritmos compostos,
29:52enfim,
29:53polirritmia,
29:54essas coisas,
29:55assim,
29:56não,
29:56não,
29:56mas,
29:57para o propósito da escola,
29:58eu já sabia o suficiente,
30:00então,
30:00o professor me aguentou lá,
30:02um mês,
30:03dois meses,
30:04até que ele viu que quando eu ia,
30:05ficava sozinho lá na sala,
30:07para treinar,
30:07eu descia a mão na bateria,
30:09fazendo um barulho,
30:09aí ele meio que falou,
30:10olha Felipe,
30:11você já sabe tudo,
30:12obrigado,
30:13tchau,
30:14tchau,
30:15e meio que me expulsou,
30:16né,
30:16da escola,
30:17assim,
30:17para eu parar de fazer barulho,
30:20e o meu amigo,
30:21esse Jeremy,
30:22por minha influência,
30:23ele comprou uma bateria,
30:25olha só que engraçado,
30:26então,
30:26às vezes,
30:27eu tocava lá,
30:28nas casas da Inglaterra,
30:30tem uma edícula no fundo,
30:32né,
30:32que é para guardar material de jardinagem,
30:34eles levam jardinagem muito a sério,
30:36né,
30:36então,
30:37nessa edícula,
30:38ele montou a bateria dele,
30:39mas isso foi mais já para o final dos 77,
30:42né,
30:42os últimos meses,
30:43assim,
30:43mas de vez em quando eu tocava um pouquinho,
30:45mas eu não fiz banda,
30:47infelizmente,
30:47eu não tive,
30:49eu não pensei nisso,
30:51engraçado,
30:52em fazer uma banda lá,
30:54em tocar com alguém,
30:56foi uma,
30:56enfim,
30:57sei lá,
30:58nessa época,
31:00eu só queria ir nos shows,
31:02enfim,
31:02e tinha,
31:03a minha escola era das nove da manhã,
31:04às quatro da tarde,
31:06e eu pensava,
31:08eu não sei,
31:10exatamente,
31:10mas não foi algo que me ocorreu.
31:13Eu acho que,
31:13eu acho que a efervescência ao seu redor,
31:17era tão grande,
31:19que você se sentiu completo,
31:22a partir do momento que você é pego pelo colarinho,
31:25pelo punk rock,
31:26pode ir a shows,
31:27acho que isso é natural,
31:28né,
31:29quando você está procurando alguma coisa,
31:31você se enfia no quarto com violão,
31:33ou pega a bateria para descarregar um pouquinho,
31:35eu estou falando de moleque,
31:36moleque de 12,
31:3813,
31:3814,
31:3815 anos,
31:39acho que você se completou,
31:41mas eu fiquei imaginando agora uma cena,
31:43que é a volta,
31:44a volta ao Brasil,
31:45você volta ao Brasil,
31:46volta para Brasília,
31:49completamente fora do eixo de Brasília,
31:51os filhos de papai,
31:53filhos de mamãe,
31:54filhos de funcionário público,
31:55filhos de embaixador,
31:57ministro,
31:58não sei o que,
31:58chega aquela porra daquele brasileiro,
32:00com roupa rasgada,
32:01com coleira,
32:02você caiu também na contramão do visual do momento,
32:07como é que foi a volta?
32:09Olha,
32:10é,
32:11independente da questão da roupa ou não,
32:14né,
32:14porque aí,
32:15eu,
32:16enfim,
32:17eu voltei,
32:18entrei no primeiro ano do segundo grau,
32:20né,
32:20eu usava alguns detalhes punks,
32:22né,
32:22na minha roupa,
32:23mas não era igual na Inglaterra,
32:26que eu realmente ia,
32:27mas eu sempre usava um bottom de banda,
32:30né,
32:30no meu casaco,
32:33eu parei de usar a coleira,
32:35mas eu usava uma corrente,
32:37uma corrente de metal,
32:38de aço comum,
32:40presa com alfinete de segurança,
32:42então era,
32:43e aquilo foi ficando enferrujado,
32:45era bonito,
32:46imperigoso,
32:48aquele alfinete aqui na garganta,
32:50assim,
32:50qualquer coisa,
32:51qualquer problema,
32:52pá,
32:52tinha me furado,
32:54mas,
32:54o que,
32:55o principal choque na volta,
32:58foi a questão da música,
33:00porque,
33:01quando eu reencontro os meus amigos da colina,
33:03né,
33:04todos já estavam um ano mais velho,
33:05né,
33:06por exemplo,
33:06um já tinha mudado de voz,
33:08o cara,
33:08quando eu saí,
33:09parecia um bebê,
33:10já estava com barba,
33:11entendeu,
33:12e eu também tinha mudado,
33:13né,
33:13já tinha crescido pelo no meu rosto,
33:15enfim,
33:16todos já estavam bem na adolescência,
33:19indo para os 16 anos,
33:21então a mudança é muito rápida,
33:23mas o que foi,
33:24assim,
33:25que eu me lembro que marcou,
33:26foi que,
33:27de repente,
33:27a música que eu ouvia,
33:29que para mim fazia sentido agora,
33:31não era mais,
33:32os medalhões do hard rock dos anos 70,
33:35era já essa nova música,
33:37o punk e o pós-punk,
33:39né,
33:39que aí já vem o The Cure,
33:41vem o Joy Division,
33:42Talking Heads,
33:43que é a New Wave também,
33:45e quando o punk passa para essa transformação,
33:51eu fico mais misturado ainda por esse som,
33:55né,
33:56porque ele incorpora um pouco de música negra,
33:59né,
33:59começam a vir as coisas mais dançantes,
34:01os sintetizadores,
34:02o synth pop,
34:03e eu sou meio fisgado por isso também,
34:06entendeu,
34:07eu,
34:08aquela raiva e aquele som de três acordes de guitarra,
34:11rápido,
34:12estilo Ramones,
34:13ele,
34:14ele,
34:14eu,
34:15o meu gosto,
34:16aquilo nunca mais deixou de fazer,
34:18fez parte,
34:19faz parte de mim até hoje,
34:20mas as coisas novas que estavam vindo,
34:22a partir desse chute na porta que os punks deram,
34:26e valia tudo,
34:27né,
34:27você podia inventar bandas com sonoridades incríveis,
34:30toda essa,
34:32essa novidade,
34:34esse,
34:34esse sopro de vida,
34:37né,
34:37que houve no rock,
34:38na música jovem,
34:41contemporânea,
34:41sei lá,
34:42que,
34:42mas é rock,
34:43enfim,
34:43né,
34:43a gente colocar,
34:45isso foi algo que me,
34:48essa foi a diferença,
34:48que eu queria ouvir isso,
34:49e não tinha ninguém ouvindo,
34:51então,
34:52meus amigos lá da colina,
34:54ninguém estava nem muito ligado em rock,
34:56entendeu,
34:57e quem era mais ligado em rock,
34:59que era,
34:59talvez,
35:00até alguns amigos mais velhos,
35:01eles ainda estavam ouvindo o seu velho e bom Led Zeppelin,
35:03o Creedence Clearwater Revival,
35:05o Grand Funk Railroad,
35:07que foram coisas que eu adorava,
35:09mas eu já não queria ouvir,
35:10então,
35:11eu me lembro desse impacto,
35:12que eu chegava e mostrava meus discos,
35:15e as pessoas falavam,
35:15mas que que é isso?
35:17Eu me lembro do Toninho Maia,
35:18né,
35:18o guitarrista pegou a capa do Iggy Pop,
35:20Raw Power lá,
35:21né,
35:21que o Iggy Pop tá tudo,
35:22é,
35:23assim na capa,
35:23ele falou,
35:24cara,
35:24não deve ter algum parafuso a menos,
35:26sei lá,
35:27e eu falava,
35:28cara,
35:28esse é o Raw Power do Iggy Pop,
35:30do Sturges,
35:31cara,
35:32e ninguém,
35:33essa minha empolgação,
35:34as pessoas olhavam para mim e falavam,
35:35meu,
35:36que isso,
35:37que música é essa?
35:38O que é que aconteceu com você,
35:39Fê?
35:40Amigo,
35:41eu quero te agradecer muito,
35:42Fê,
35:42por esse momento agradabilíssimo,
35:44e desculpa não ter tido tempo de falar certas coisas,
35:46como seus trabalhos na internet,
35:49e um monte de coisas que você está fazendo,
35:50mas eu acho que vale a pena te seguir,
35:53te acompanhar,
35:54observar o que vocês têm,
35:55você tem feito recentemente,
35:57utilizando muito bem as redes sociais,
35:59apesar de você não ser muito fã dessas redes sociais,
36:01mas você está sabendo usar com muita esperteza,
36:05parabéns.
36:06Muito obrigado,
36:07muito obrigado pela oportunidade aqui de conversar com você,
36:10com todos os seus seguidores,
36:13e por esse papo tão agradável nesse domingo,
36:16amanhã a gente tem um longo dia aqui,
36:19nós estamos gravando um pequeno documentário
36:21para um canal de TV que vai entrar,
36:24vai aparecer aqui no Brasil,
36:26e nós estamos também contando um pouco dessa história do começo,
36:29é muito bacana estar podendo revisitar esses momentos,
36:31e essa entrevista também...
36:33É uma história tão importante,
36:35importante para a gente,
36:36não é importante só para você,
36:37é importante para o Brasil,
36:39para a história da música brasileira,
36:41essas duas bandas e você estava ali no bolo,
36:43são foda.
36:45Obrigado, meu irmão,
36:46obrigado por tudo que você faz para a gente,
36:48muito obrigado,
36:49um abraço.
36:50Eu que agradeço.
36:51Grande abraço.

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