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  • há 14 horas
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00:08Olá, bem-vindas e bem-vindos ao Ponto de Vista.
00:12Hoje vamos falar sobre saúde e equilíbrio emocional.
00:16Como devemos nos comportar diante dos problemas que surgem na nossa vida?
00:21Como as pessoas podem aprender a se conhecer melhor e controlar as emoções?
00:26Para falar sobre isso, nosso convidado é o terapeuta e escritor Lúcio Pessoa.
00:32Lúcio, seja muito bem-vindo e obrigado por estar aqui com a gente.
00:36Eu que agradeço, Fernando, pelo convite e é um prazer.
00:38Queria começar, Lúcio, perguntando para você o seguinte.
00:41Hoje, cada vez mais, as pessoas são mais exigidas, exigem-se melhor desempenho, mais produtividade, resultados.
00:50A pressão, na maioria das vezes, é muito grande.
00:54Como enfrentar tudo isso e manter o equilíbrio emocional?
00:59Acho que tem duas coisas importantes nessa sua pergunta, Fernando.
01:02A primeira delas é como é que nós estamos vivendo a nossa rotina, distribuindo o nosso tempo.
01:08Porque quando a gente fala de pressão, normalmente as pressões, elas vêm de diversas áreas,
01:12mas muitas vezes ela está mais concentrada em uma área específica.
01:16Por exemplo, eu tenho sofrido e enfrentado muita pressão no trabalho.
01:19Só que nós precisamos levar em consideração que eu não sou só aquele profissional.
01:24Às vezes eu sou um pai, eu sou um estudante, eu sou o dono de casa.
01:27Está com problemas.
01:28Isso.
01:29Então, todos esses papéis sociais que a gente desempenha, eles precisam estar sendo bem cuidados no nosso dia a dia.
01:37E outra coisa que às vezes também é comum de acontecer é que essas pressões às vezes surgem internamente,
01:43muitas vezes por comparações que a gente faz.
01:46Então, a gente às vezes olha para o outro, para o que muitas vezes a mídia traz,
01:51e aí nós ficamos nos comparando e aí a pressão vem do lado muito mais interno do que externo especificamente.
01:58A sociedade cada vez está mais conectada, e essa conexão permanente muitas vezes deixa as pessoas também ansiosas.
02:06Como fazer para não ser consumido por essa ansiedade?
02:10Então, a primeira coisa é a gente, de novo eu volto a esse ponto, de distribuir bem o nosso tempo.
02:16Então, às vezes a gente tem um alto consumo de rede social,
02:19e na hora que eu passo 10, 8, 12 horas grudado no celular, olhando rede social,
02:26são tempos importantes que eu deixo de consumir com a minha família, fazendo atividade física,
02:33exercitando a minha espiritualidade.
02:36Então, toda essa má distribuição de tempo é uma coisa que compromete muito a nossa vida
02:41e muito o nosso equilíbrio emocional.
02:43Então, esse é um ponto.
02:44As pessoas deixam de interagir com quem está próximo,
02:47muitas vezes para se comunicar com quem ela não sabe nem quem é, às vezes.
02:51Isso, e aí é a questão do excesso.
02:53Tudo em excesso é mal, é ruim para o nosso bem-estar, digamos assim.
02:57Então, acho que esse é um ponto muito importante para a gente trazer aqui.
03:01No seu consultório, é comum as pessoas chegarem com problemas de ansiedade?
03:06Sim.
03:07Eu diria que em torno de 80% das pessoas que me procuram
03:11trazem a questão da ansiedade como o principal ponto que leva elas a procurarem ajuda.
03:16E aí a gente também precisa fazer uma distinção de dois tipos de ansiedade.
03:20Existe uma ansiedade que é voltada para o passado.
03:24Então, as pessoas sempre fazem uma relação da ansiedade com a preocupação com o futuro.
03:27Essa também existe.
03:28Mas existe uma ansiedade que ela tem relação com experiências que eu tive,
03:33experiências traumáticas do passado.
03:35Então, às vezes, quando eu estou diante de uma situação, de uma circunstância do agora,
03:40o meu inconsciente, de alguma forma, ele identifica a experiência que eu vivi lá atrás
03:45e traz todo um rebuliço emocional que é provocado pelo nosso cérebro.
03:49Então, por isso que as pessoas falam assim,
03:50Fernanda, eu tive uma crise de ansiedade do nada.
03:52E eu costumo dizer, de repente sim, do nada não.
03:55Sempre tem uma razão.
03:57E a ansiedade que tem relação com o futuro,
03:59ela tem uma relação direta com o autoconhecimento.
04:03Então, na hora que eu sei quem eu sou, as minhas virtudes, as minhas fraquezas,
04:08e eu cuido disso com um pouco mais de cautela,
04:11eu me sinto menos aflito com o que está por acontecer.
04:14Então, por exemplo, é muito como a gente ouvir as pessoas dizerem assim,
04:16eu tenho uma viagem dia 10.
04:18E aí, desde o dia 1 do mês, eu já começo a sofrer, sofrer.
04:21Então, se eu sei, por exemplo, que eu sou uma pessoa desorganizada,
04:24então eu começo a organizar minha mala um pouco antes.
04:26Eu começo a pensar em coisas que parecem clichê, mas são importantes.
04:31Eu não controlo o tempo, eu não controlo o outro, então eu sofro menos.
04:35Então, hoje a gente tem lidado com dois tipos de ansiedade bem diferentes.
04:39É comum também as pessoas não se reconhecerem ansiosas.
04:43Elas procuram você, mas não sabem exatamente o que está acontecendo.
04:48E você que identifica que ela é uma pessoa ansiosa.
04:51Sim, acontece isso também.
04:53Até porque a ansiedade, ela também atravessa o emocional e ela vai até o físico.
04:58Então, às vezes, é o que a gente chama de somatizor ou psicossomatizor.
05:03Então, a pessoa começa a ter dores físicas na coluna, palpitação, coração acelerado.
05:08E, às vezes, busca por um especialista da área médica.
05:12Então, ele chega achando, muitas vezes, que tem um problema cardíaco,
05:15um problema na coluna e, muitas vezes, não é.
05:19Então, há também esse tipo de pessoas que nos procuram sem saber ainda que é ansiedade.
05:24Como as informações estão muito difundidas, então, é mais comum que elas já saibam o que é ansiedade.
05:30Sabe o que é a ansiedade, mas não sabe o que é a ansiedade.
05:33Esse é um outro ponto importante.
05:34Tem pessoas que, às vezes, vêm 10, 8 anos de tratamento e eu pergunto, o que é a ansiedade?
05:39De onde ela vem?
05:40E as pessoas não sabem.
05:42E na terapia, é importante conhecer isso e tentar identificar de onde está vindo aquela ansiedade?
05:48Muito.
05:49Aí, eu faço sempre uma analogia com a questão física.
05:52Imagina que você começou a sentir uma dor muito forte na perna.
05:54Você vai procurar um especialista da área médica.
05:57Você já começa a pensar mil e uma possibilidades das piores possíveis,
06:01porque o nosso cérebro, ele tem uma certa aversão a vazio.
06:04Então, na hora que eu não tenho certeza, eu começo para encher esse vazio com imaginação.
06:08Então, eu penso que essa dor que eu estou sentindo na perna é algo realmente muito grave.
06:13Quando eu chego até o médico, o médico diz,
06:15Olha, Lúcio, isso aqui é uma questão muscular, você vai tomar um anti-inflamatório, vai melhorar,
06:20isso já vai te trazer um alívio.
06:21Então, as questões emocionais, do mesmo jeito.
06:23Então, quando eu entendo o que é a ansiedade, de onde ela vem, quais são as possíveis causas
06:27e o processo terapêutico vai fazer as pessoas chegarem nesse lugar,
06:31isso é importantíssimo para trazer a tranquilidade muito antes da superação do problema.
06:35Muitas vezes, Lúcio, a pessoa age com ansiedade e essa ansiedade se converte em impulsividade.
06:42As pessoas agem por impulso e, quando se age por impulso, o resultado pode não ser bom.
06:48Como controlar o impulso?
06:50Excelente pergunta essa que você fez, Fernando.
06:53A gente tem um emocional que é conectado com o físico, com o nosso corpo,
06:58através de um órgão que é o cérebro.
07:00E aí, por uma questão didática, eu costumo dizer que o nosso cérebro é dividido em três partes,
07:05como se fosse um triplex.
07:07Então, imagine que existe uma casa embaixo,
07:10essa casa embaixo está com as portas todas abertas
07:13e tem uma escada que interliga para a casa do meio
07:15e tem uma escada que interliga para a casa de cima.
07:18Essa casa de baixo é uma região do nosso cérebro
07:20onde ele recebe todos os nossos estímulos.
07:23Então, na hora em que você está aqui para conversar comigo
07:25e eu faço uma provocação que para você não foi muito agradável,
07:29essa região do cérebro tende a manifestar no seu corpo
07:33estímulos para você reagir.
07:35Depois de um tempo, esse estímulo, essa experiência que você foi provocada,
07:41ele vai para um outro lugar que a gente chama de cérebro límbico,
07:44que é a casinha do meio.
07:46É nesse lugar que eu sinto, eu sinto tristeza, eu sinto raiva.
07:50Depois de um tempo, aí essa mesma experiência vai para um outro lugar do cérebro,
07:55que é a casinha de cima, que é onde eu pondero, eu racionalizo,
07:58eu começo a pensar, ah, o outro deve estar com um problema.
08:01Então, normalmente, nós estamos preparados pelo cérebro
08:05para reagir de forma impulsiva e instintiva a qualquer circunstância que pareça uma ameaça.
08:10Então, por isso que a gente tende a reagir de forma mais agressiva,
08:13mais impulsiva, mais instantânea.
08:15Equilíbrio emocional e inteligência emocional são a mesma coisa ou não?
08:20Praticamente a mesma coisa.
08:21Quando a gente fala de equilíbrio emocional e inteligência emocional,
08:25entenda que eu sentir sem deixar ser dominado por aquilo que eu estou sentindo.
08:32Então, é eu preservar o meu bem-estar, apesar de estar vivendo uma experiência,
08:37ou uma relação, ou estar em um ambiente que, teoricamente, ou na prática,
08:42me faça me sentir mal.
08:44Agora, ter equilíbrio emocional, as pessoas às vezes confundem
08:48como uma pessoa que não se abala nunca.
08:51Não é bem isso, né?
08:53Alguém consegue isso, não se abalar nunca?
08:55Não, não.
08:56As pessoas às vezes pensam, né?
08:57Ah, eu tenho que desligar o botão do sentir.
08:59Não, o sentir é uma experiência humana.
09:01O problema não é o que eu sinto, não é o que você sente.
09:05Então, não é a raiva que você sente, não é a tristeza que você sente,
09:08é o comum, de que forma que você lida com isso.
09:11A intensidade desse sentir.
09:13Quanto tempo que eu fico mergulhado neste lugar desse sentimento.
09:18Então, o equilíbrio emocional é isso.
09:19Apesar de eu estar sentindo isso, eu tenho uma capacidade de pensar o que eu estou sentindo,
09:25nomear o que eu estou sentindo, e transformar essa experiência
09:29em uma experiência mais curta, de menor intensidade, e voltar para o meu lugar de origem.
09:33É isso.
09:34E também essa coisa de não se abalar nunca,
09:37a gente precisa ter cuidado, porque pode ser confundido também com indiferença.
09:41E não é isso, não se abalar com as coisas não é a mesma coisa que ser indiferente,
09:47porque ser indiferente também não é bom para ninguém.
09:49Não, perfeitamente.
09:51Eu lembro que há um tempo atrás, uma pessoa entrou em contato comigo,
09:55uma mulher de São Paulo, me encontrou nas redes sociais, me ligou,
09:59preocupadíssima, porque tem uma criança na família
10:01que encontrou fotos de uma pessoa da família que tinha falecido há um tempo atrás,
10:06e essa criança chorou, ficou triste, e aí eu perguntei, eu falei,
10:10quando que aconteceu isso?
10:12Não foi hoje pela manhã, absolutamente normal.
10:15Estranho seria se fosse o contrário.
10:17Agora, se com o passar do tempo essa tristeza perdurar,
10:20se começar a aparecer um baixo desempenho na escola,
10:24se aparecer uma agressividade, eu não quero comer, eu não quero fazer,
10:27aí é um sinal de alerta.
10:28Então, o sentir não é o problema.
10:30Ele é, inclusive, importante para que a gente processe as experiências
10:33que fizeram eu sentir aquilo.
10:35Você já falou uma vez que equilíbrio emocional deveria se chamar
10:42equilíbrio racional.
10:43Por quê?
10:44Porque, se a gente for pensar direitinho,
10:48muitas vezes não é o emocional que impacta no racional.
10:52Tem isso também, mas às vezes é o inverso.
10:55Então, na hora que eu pondero, que eu racionalizo,
10:57na hora que eu estou no trânsito e eu começo a pensar,
11:00a pessoa que está atrás de mim, que está buzinando, que está acendendo o farol,
11:03ele deve ter um problema, daqui a pouco o sinal vai abrir, vai avançar.
11:06Perceba que eu estou no campo da racionalidade.
11:09Então, quando eu vou para esse lugar, eu começo a equalizar, digamos assim,
11:13o que está acontecendo no meu fisiológico,
11:15o que está acontecendo no meu emocional.
11:17Então, eu não me perco diante das circunstâncias.
11:20Então, existe o fato e a partir do fato existe a sensação.
11:25Então, é óbvio que às vezes a sensação me desequilibra,
11:28mas quando eu mantenho, me desequilibra racionalmente.
11:31Mas quando eu mantenho essa racionalidade, esse entendimento dos porquês
11:34e do que está acontecendo, eu também levo o meu emocional para um lugar centrado.
11:39É por isso que eu digo que tem uma coisa aí de equilíbrio racional também
11:42que a gente precisa considerar.
11:44Você falou aí do trânsito e eu me lembrei de uma imagem muito comum
11:48no trânsito do Recife, que é o sinal abrir e já ter alguém buzinando atrás.
11:52Muito.
11:53Isso é ansiedade ou é falta de educação?
11:55Isso é as duas coisas.
11:56Isso é as duas coisas.
11:58A ansiedade no sentido de eu estou preocupado com o futuro,
12:02e eu não entendi ainda que eu não posso comandar o carro que está na minha frente.
12:07Então, eu atropelo, eu quero ter um controle sobre o tempo, sobre o outro.
12:10Então, eu fico nessa ansiedade exatamente que está voltada para esse futuro.
12:14Então, quando eu entendo que calma, em algum momento eu vou chegar lá.
12:17Posso até não chegar no horário que eu tinha planejado.
12:20Então, é isso.
12:22Dizem, Lúcio, que tudo é treino, né?
12:25Na prática, como é que uma pessoa pode desenvolver ou treinar esse equilíbrio emocional?
12:30Perfeito.
12:31Tudo é treino.
12:32Inclusive, o equilíbrio emocional é treino.
12:34É como se nós tivéssemos uma musculatura mesmo.
12:37É como ir para a academia todos os dias.
12:39E eu costumo dizer, Fernando, que ter equilíbrio emocional, desenvolver inteligência emocional,
12:44é uma jornada de início, meio e meio e meio e meio.
12:48Não tem fim.
12:49E aí, eu costumo falar de três coisas.
12:50A primeira coisa é, eu preciso me questionar sobre o que é que eu sinto.
12:56Na hora que eu digo, eu estou sentindo uma raiva.
12:58Por que eu estou sentindo?
13:00De onde é que vem?
13:01Como?
13:01Então, esse primeiro caminho, que é o caminho do autoconhecimento, ele é importantíssimo.
13:07A partir disso, eu preciso me fazer auto-perguntas.
13:12O que é que eu deveria fazer agora?
13:13Faz sentido eu agir dessa forma?
13:15Então, as auto-perguntas vai levar a gente daquela casinha de baixo que eu falei do cérebro,
13:19mais rapidamente para a casinha de cima, para a racionalidade, para a ponderação.
13:24E a terceira coisa, que eu tenho insistido muito com as pessoas em todos os lugares que eu vou,
13:29nós precisamos ter experiências de vida.
13:32Então, muitas vezes, as pessoas entram no meu consultório e traz um relato, assim,
13:36de estarem muito ansiosas, muito depressivas.
13:38E eu faço a pergunta porque faz parte da anamnese.
13:41Mas eu sei que aquela pessoa só trabalha e vem para casa.
13:45Então, nós precisamos ter experiências relacionais, de conhecer pessoas,
13:49de exercitar nossa espiritualidade, fazer exercício físico.
13:53Quanto mais a gente tem experiências novas, mais a gente vai construir novas definições,
13:58desfazer definições antigas, olhar nossas experiências por outras perspectivas,
14:03melhorar as nossas relações.
14:05Então, eu acho que são esses três pilares.
14:06Primeiro, é me autoconhecer, me fazer pergunta.
14:08E segundo, ter essas experiências para me fortalecer e dar repertório emocional.
14:12Em que lugares as pessoas costumam ser mais ansiosas?
14:16No trabalho, na família, sei lá, na reunião do condomínio?
14:22Em que situações a ansiedade aparece mais?
14:25É muito relativo, Fernando. Por quê?
14:27Porque, como eu te falei que a ansiedade, ela vem de um determinado lugar.
14:30E aí, eu acho que é importante trazer essa explicação para que as pessoas de casa entendam.
14:35Eu tive uma experiência traumática, digamos.
14:37Eu tive um assalto.
14:39Um assalto na rua.
14:41Apareceu uma pessoa vestida de preto e me assaltou.
14:44Aquele registro, aquela experiência, ela fica guardada em um lugar.
14:48E, mais adiante, se eu tiver qualquer outra experiência que seja semelhante àquilo que eu vivi,
14:54o meu inconsciente identifica, ele comunica para o cérebro e aí vem a crise da ansiedade.
15:00Então, a crise da ansiedade nada mais é um medo ou o movimento do corpo que é provocado pelo cérebro
15:06para me defender de uma situação que, na prática, não existe, mas ela é parecida com a que já existiu.
15:13Então, isso pode acontecer numa situação como essa que eu dei o exemplo de um ato de violência,
15:17mas pode ser também de uma situação do trabalho, pode ser uma situação de abandono da família,
15:22pode ser uma situação de um conflito que eu presenciei com os meus pais.
15:25Então, é muito diverso as razões que fazem com que as pessoas desenvolvam ansiedade.
15:30Muito bem, Lúcio.
15:30Hoje a gente vai fazer um rápido intervalo.
15:32Você que está acompanhando, não saia daí.
15:34A gente volta já, já.
15:48O Ponto de Vista está de volta.
15:50Hoje eu recebo aqui o terapeuta e escritor Lúcio Pessoa.
15:55Lúcio, vamos continuar a nossa conversa.
15:57A gente está falando muito em ansiedade, né?
16:00E quando a gente estava conversando, antes de começar a entrevista,
16:03você chegou a falar comigo sobre ansiedade no ambiente de trabalho,
16:07que muitas vezes a pessoa se sente ansiosa ou na presença ou na relação que ela tem com o chefe
16:14imediato.
16:15Isso é muito comum? É muito mais comum do que a gente pensa?
16:18É muito mais comum do que a gente pensa.
16:20E isso vem de dois lugares distintos, eu diria, né?
16:25Às vezes, a figura da liderança, quando traz um traço de agressividade,
16:29ou às vezes até beira ali o assédio moral, isso pode ser um reflexo ou pode ser uma imagem
16:37de uma experiência que a pessoa teve lá atrás.
16:40Ou com outro chefe, ou com um pai, ou com um professor.
16:44Então, é como se aquilo ali rememorasse uma experiência que foi ruim.
16:48Para além disso, e pode não ser absolutamente nada disso,
16:51a própria postura muito forte, muito agressiva, uma exigência muito exacerbada por meta,
16:57isso pode também desenvolver na pessoa um receio de não conseguir atingir,
17:01de não ter aquela performance, e aí aquilo passa a ser um desconforto muito grande.
17:05Então, é muito comum de acontecer, sim, Fernando.
17:07E como superar essa dificuldade com a chefia, por exemplo?
17:11Eu sempre falo que existe um caminho que a gente não pode, de forma alguma, descartar,
17:16que é o diálogo.
17:18Às vezes, você pode trazer uma fala que chega até mim como agressiva,
17:23mas não foi a sua intenção, e você não tem essa percepção.
17:26Então, a gente precisa seguir o caminho sempre do diálogo.
17:30Agora, também preciso entender que nem sempre as pessoas estão abertas ao diálogo.
17:34E aí a gente precisa, dentro da própria empresa, entender quais são as políticas,
17:39quais são os mecanismos, os canais que podem ajudar essa pessoa a buscar um suporte.
17:44E se for para além disso, se for algo que está interferindo o seu sono,
17:48a sua relação familiar, é refletir se realmente aquele ambiente de trabalho
17:52é um ambiente salutar, propício, e se ele precisa realmente permanecer nele.
17:57Para as pessoas ansiosas, você teria alguma dica, uma dica prática,
18:02que a pessoa já pudesse começar a usar a partir de hoje, por exemplo?
18:06Respiração.
18:08A respiração é algo que é simples, é gratuito, você pode fazer a qualquer momento,
18:14e ele vai começar a reposicionar o teu fisiológico,
18:17e ela vai começar também a trazer uma mensagem para o teu cérebro
18:21que ele está equivocado, você não está em perigo, você está em segurança.
18:26E aí a partir disso você vai caminhando para um equilíbrio melhor
18:29e vai controlando a sua crise de ansiedade.
18:31Então eu costumo dizer que de uma forma paliativa,
18:34existem três coisas que ajudam a ansiedade.
18:37A primeira delas é a medicação.
18:39Só que a medicação, ela é um paliativo porque ela atendui sintomas.
18:43Então você fica mais leve, as crises elas vêm com um pouco menos frequência,
18:47você vai dormir melhor, mas a causa, a origem da ansiedade,
18:51a gente precisa tratar de uma outra forma.
18:53Depois da medicação, vem a compulsão.
18:56Às vezes a pessoa que tem ansiedade, ela tende a mergulhar por um caminho
19:01de algo que dá prazer de uma forma compulsiva.
19:04Então às vezes a gente escuta pessoas dizerem assim,
19:06ah, eu tenho ansiedade e eu como muito quando eu estou ansioso.
19:08Eu jogo muito, eu fico muito na internet.
19:10E a terceira, que é a mais saudável, é a respiração.
19:14Então todas as vezes que alguém me pergunta,
19:16o que é que eu preciso fazer agora?
19:18Respiração.
19:19Quando você sentir que o coração, que o corpo está mudando, respira.
19:23Agora a pessoa pode dizer, mas Lúcio, como assim respiração?
19:26Eu estou respirando e estou ansioso.
19:28Então respirar de que forma?
19:31Consciente.
19:32Essa é a diferença.
19:33A gente está aqui conversando há quase meia hora.
19:36Você percebeu que você estava respirando?
19:38Não.
19:39Então respiração consciente é, eu paro tudo e eu me concentro no movimento do ar,
19:44que sai da atmosfera, entra no meu corpo, cumpre um ciclo, um tempo, expande o meu abdômen,
19:50depois volta.
19:52Na hora que eu me mantenho concentrado nesse movimento, que é o que eu chamo de consciente,
19:56eu não estou pensando na minha esposa, no meu trabalho, nada.
19:58E aí o meu corpo e o meu cérebro entendem isso e vai colocando os batimentos cardíacos
20:03no ritmo normal, a circulação sanguínea.
20:07E aí eu vou começando a caminhar para o lugar do equilíbrio.
20:11Quando a pessoa sente que está muito desequilibrada emocionalmente, ao perceber isso, ela deve logo
20:17buscar ajuda?
20:18O que é que ela deve fazer?
20:19Eu sempre falo, Fernando, que é importante você entender se esse desequilíbrio, primeiro,
20:25ele é muito frequente.
20:26Então, eu estouro de manhã no café da manhã com os meus filhos.
20:30Antes de ir para o trabalho, eu estouro com a mulher.
20:31É quando vai fechar o portão de casa.
20:34No trabalho, o tempo inteiro.
20:35Então, essa frequência de episódios que passa até parecer que é um estilo de vida agora.
20:39Eu estou estourando com qualquer coisa.
20:41Isso é um sinal de alerta.
20:42A outra coisa é, isso atrapalha minhas relações, isso atrapalha meu trabalho, meu sono, minha paz.
20:47Então, quando eu começo a perceber que algo está fugindo do controle,
20:51então aí é o lugar de procurar ajuda.
20:53Então, nós falamos anteriormente sobre sentir.
20:55Em algum momento eu vou explodir, você vai explodir, né?
20:58É o que a gente chama de momento do caos.
20:59Mas se isso passa a ser uma frequência muito grande e tirar a minha funcionalidade,
21:06aí é um sinal de alerta.
21:07A gente falou bastante sobre ansiedade.
21:10Eu queria agora falar de uma outra questão que é a depressão, né?
21:13A depressão que é outro mal que assola muito a humanidade, né?
21:18E muitas vezes as pessoas ficam meio sem saber como agir.
21:22Em que momento a pessoa se identifica ou ela não se identifica como uma pessoa depressiva?
21:29E em que momento quem está próximo deve começar a ajudar ou orientar aquela pessoa a buscar ajuda?
21:37Às vezes a depressão surge e quem está em volta daquela pessoa não percebe, tá?
21:43Mas é comum que se perceba com posturas, comportamentos como a pessoa passa a ser mais introvertido,
21:51não quer mais se socializar tanto, parece e demonstra não sentir prazer e fazer coisas do cotidiano que antes era
21:57prazeroso.
21:58Porque a depressão, ela é uma sobrepressão.
22:04Ou seja, eu acumulo questões ao longo da minha vida e não as resolvo.
22:09Em um determinado momento isso vai pesar no meu emocional.
22:12Então eu tenho um problema com meu pai, tenho um problema com a minha mãe.
22:14Eu tive um problema no trabalho.
22:16Eu tenho uma questão financeira.
22:17E eu vou guardando isso.
22:19Chega um momento que eu não tenho mais prazer em sair de casa, em trabalhar, em me alimentar, em cuidar
22:25do corpo.
22:26Então os caminhos pra tratar a depressão, obviamente que chega um determinado momento que você precisa de um suporte médico,
22:33de uma medicação, mas é começar por um processo terapêutico, abrir essas caixinhas desses problemas.
22:38E quem está próximo, assim que perceber, é tentar ouvir a pessoa, né?
22:43Tentar entender o que está acontecendo.
22:45Esse também é um caminho mais assertivo.
22:48Quando a gente fala em buscar ajuda, muitas vezes a gente esquece que muita gente não tem condições financeiras
22:54de pagar por uma consulta, por exemplo, né?
22:57Ou pagar por um tratamento terapêutico.
23:00Existem formas de fazer terapia também pelo SUS ou que a pessoa não pague pelo atendimento que ela está recebendo?
23:10Tem.
23:10Vou começar de trás pra frente.
23:12A primeira coisa é faça movimentos.
23:15Movimentos que você traga pra você um bem-estar.
23:19Você não precisa viajar pra Paris.
23:21Se você pode ir na praça do lado da sua casa, conhecer uma padaria diferente, conversar com aquela pessoa que
23:27era tão agradável pra você,
23:28que faz meses que você não conversa, esses movimentos, de certa forma, são terapêuticos.
23:32Já ajudam, né?
23:33Já ajudam.
23:34O segundo é, eu não consigo pagar uma consulta, mas tem alguém que você confia, que é uma pessoa que
23:39consegue te ouvir,
23:40porque a cura, ela se dá através da palavra.
23:42E existem grupos de apoio, existem movimentos, existem faculdades e universidades que têm curso de psicologia,
23:50instituições que têm formação de psicanálise, que oferecem também atendimento gratuito, suporte.
23:55Então, a gente precisa buscar esses caminhos pra gente poder se ajudar.
24:00Eu falo sempre que tratar a saúde emocional precisa cada vez mais se democratizar e as pessoas terem acesso.
24:06As universidades, muitas vezes, nos cursos de psicanálise, psicologia, elas oferecem esse tipo de atendimento também.
24:13Sim, é uma espécie de clínica escola, né?
24:15E aí você vai lá e você é atendido, supervisionado por um profissional, então há essa possibilidade também.
24:21Agora, Lúcio, nesse mês de setembro, a gente está passando pelo Setembro Amarelo, né?
24:26Que é uma campanha nacional e internacional também, né?
24:29De conscientização sobre a prevenção ao suicídio e a valorização da vida.
24:35Por que é importante se discutir isso?
24:38Cada vez mais a gente vê pessoas que, inicialmente deprimidas, depois elas podem partir pra querer pôr um fim à
24:47própria vida?
24:48Eu acho que quando a gente olha o número, sabe, Fernando, eu acho que é o que mais precisa mover
24:54as pessoas nessa direção.
24:56Eu costumo dizer que setembro é amarelo e outubro deveria ser rosa e amarelo, janeiro deveria ser branco e amarelo,
25:03o ano inteiro deveria ser amarelo.
25:05Nós estamos falando de 720 mil pessoas que são vítimas de suicídio no mundo por ano.
25:10Então é um número alarmante.
25:12Muito alto.
25:13Se a gente pensa em 720 mil pessoas, a gente precisa pensar em um número muito maior que esse,
25:17de pessoas que tentaram e que, felizmente, não tiveram sucesso, né?
25:22Sucesso em teatro, não foram bem sucedidos.
25:24Então é um número que diz muito, são pessoas, além das vítimas, que são afetadas, que são as famílias.
25:31Então a gente precisa fazer um movimento muito grande de falar mais sobre isso, quebrar esses tabus,
25:37levar esse assunto pra escola, claro, com toda a sensibilidade possível, mas a gente precisa estar muito atento.
25:43Quando eu percebo alguém próximo a mim que tem um sinal, que aparenta estar mais triste,
25:50ou às vezes já verbalizou, porque às vezes as pessoas verbalizam, e muitas vezes as pessoas dizem assim,
25:56Lúcio, eu convivo com uma pessoa que falou, que teve esse pensamento, o que é que eu falo?
26:00Converse sobre isso.
26:02A gente precisa conversar.
26:03De novo, a cura se dá pela palavra.
26:05Por que você pensa isso?
26:07Quantas vezes isso já passou pela sua cabeça?
26:09E a gente buscar também um suporte.
26:11Muitas vezes as pessoas não conseguem verbalizar, mas dão alguns sinais, né?
26:15Que sinais são esses que a gente poderia ou deveria estar mais atentos pra perceber?
26:21Muito parecido com os sinais que eu te falei da questão da depressão.
26:24As pessoas ficam mais silenciosas, as pessoas ficam mais reclusas, as pessoas não querem se socializar,
26:30mas existem também outros casos de pessoas que não aparentam absolutamente nada.
26:35Inclusive são aquelas mais felizes, mais alegres, porque a gente às vezes não consegue,
26:39às vezes não, né?
26:39A gente não consegue mesmo visualizar o que o outro está sentindo.
26:43Eu estou vendo a sua roupa, a sua aparência, mas o que você está sentindo, então às vezes é muito
26:48sutil.
26:49Então quando é sutil, se torna mais difícil, mas se é algo que é aparente, a gente precisa tratar o
26:53quanto antes.
26:54Lembrando que tem o CCVV, que é o Centro de Valorização da Vida.
26:59É o número 188, você pode ligar a qualquer momento, eles vão te dar suporte, vão te orientar.
27:04Quer seja você uma pessoa que já teve esse tipo de pensamento, ou você que convive com alguém e não
27:08sabe como agir.
27:10Então é importante que a sociedade esteja mais atenta a esse problema, com esse número tão alto aí que você
27:16falou,
27:17de 700 mil pessoas por ano, né?
27:19Sim.
27:20E aí a gente entra numa outra discussão que eu acho que é muito importante, Fernando, que é...
27:24E a prevenção disso?
27:25Isso. Então nós precisamos cada vez mais falar de saúde mental, saúde emocional, equilíbrio emocional em todas as esferas da
27:33sociedade.
27:34Os movimentos, as instituições públicas, privadas, as escolas, tratar as crianças...
27:40As empresas.
27:41As empresas.
27:42Então agora a gente está vendo um movimento muito grande com o advento da NR1, né?
27:45Que é essa norma regulamentadora do Ministério do Trabalho que obriga as empresas a tratar de forma preventiva e corretiva
27:51os riscos psicossociais.
27:53Mas, e para além disso, né?
27:55Então a gente precisa falar sobre isso muito mais.
27:59As iniciativas que a gente vê de escolas públicas e às vezes particulares, às vezes são pontuais.
28:04Então a gente precisa realmente democratizar esse assunto, porque nós vivemos uma crise ambiental e climática já há muitos anos.
28:11E não se equivoquem, há muitos anos a gente também está vivendo uma crise de saúde emocional.
28:16Então é urgente.
28:17Muito bem, Lúcio.
28:19Eu acho que abordamos vários assuntos aí relacionados a esse equilíbrio emocional que a gente busca.
28:25Eu queria agradecer a sua presença aqui no Ponto de Vista.
28:28Imagina, Fernando.
28:29Eu que agradeço.
28:29Estou sempre à disposição.
28:31E sobretudo para falar de algo que é tão importante, né?
28:33A nossa saúde emocional.
28:35A gente não tem...
28:36A gente não consegue se desenvolver nas nossas relações, nos nossos trabalhos.
28:39Se a gente não está bem emocionalmente, o nosso bem-estar não está preservado.
28:43Muito bem.
28:43Obrigado, então.
28:45Obrigado a você também que acompanhou até aqui.
28:47Obrigado pela audiência e companhia.
28:50A gente volta na semana que vem.

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