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Transcrição
00:00Gente, hoje no TN tem reportagem especial sobre um projeto que está plantando mudas
00:05e recuperando os manguezais de Guarapari.
00:08O trabalho une ciência, comunidade e educação ambiental para devolver vida a áreas degradadas
00:15e proteger um ecossistema fundamental para a natureza e para quem vive dele.
00:21E você vai ver como essa recuperação começa com uma pequena muda,
00:25mas pode fazer uma grande diferença no futuro.
00:29O manguezal é um dos ecossistemas mais ricos do planeta,
00:34mas, ao mesmo tempo em que é sinônimo de vida,
00:38ele também revela as marcas da degradação causada pelo homem.
00:43Em Guarapari, uma pesquisa que une ciência, comunidade e preservação
00:48quer mudar essa história e ajudar a devolver vida aos manguezais.
00:53A nossa equipe foi até lá e mostra agora como esse trabalho está sendo feito.
00:59A reportagem especial é da Júlia Cássia e do Diego Gama.
01:05Há pelo menos 7 mil anos, os manguezais compõem a paisagem capixaba.
01:10Na fronteira entre a terra firme e o mar, a adaptação desse ecossistema às condições de dois ambientes
01:17o torna um dos mais ricos em biodiversidade do mundo.
01:24Em todo o país, a maior porção desse ecossistema em meio urbano está em Vitória, capital do Espírito Santo.
01:32Mas é para Guarapari que a gente vai, porque é lá que nasceu uma iniciativa
01:36capaz de recuperar a vida em um ambiente ameaçado.
01:41Antes de te contar que iniciativa é essa, deixa eu te apresentar onde essa semente começa a brotar.
01:48Vizinha ao manguezal do Rio Una, no bairro Perocão, está a Associação Salva Mar.
01:53Essa sede que abriga as mudas que daqui a cerca de duas décadas se tornarão árvores de 10 metros,
02:00devolvendo a cobertura florestal desses ambientes.
02:04As mudas de espécies nativas ficam de quatro a seis meses no viveiro.
02:08Durante esse período, são por mãos como a da Marluce que a vida que habita no manguezal
02:14volta a ser sinônimo de vínculo e convivência com a comunidade.
02:22É um exemplo bem prático.
02:24Tinha o goiamum, o caranguejo, o aratuzinho, que é aquele vermelhinho.
02:28Hoje, raramente você chega aqui e encontra alguma dessas espécies aqui dentro.
02:33E olha que nós estamos bem próximos ao mangue.
02:35Mas antes mesmo de receber as mudas, a associação já tem uma relação antiga com a preservação dos manguezais.
02:42É que o Sebastião, que é presidente da ONG, conseguiu fundar o espaço graças a recursos de uma premiação.
02:48Há quase 30 anos, um projeto criado por ele e premiado internacionalmente, reduz o impacto da contaminação em áreas costeiras.
02:58Meu pai tinha barco de pesca e era comum o pescador fazer a troca de óleo.
03:05Não tinha um local adequado para depositar esse óleo queimado.
03:08Ele lançava no mar ou enterrava na areia, na praia.
03:12A maré subia e levava esse óleo por manguezal, por mar.
03:17Eu tive essa ideia.
03:17Pegar esse óleo, ao invés de o pescador lançar, levar esse óleo para a empresa, reciclar esse óleo e trazer
03:23para o pescador.
03:24Ao invés de lançar esse óleo, colocar no recipiente, esse óleo vai para o rerefino e a gente repassa um
03:31óleo novo bem abaixo do preço de mercado para o pescador.
03:36Se uma atitude individual já é capaz de causar tamanho impacto positivo, o que dizer de um esforço coletivo?
03:43E é aí que a ciência bota o pé na lama através de uma pesquisa coordenada pelo professor doutor Marlon
03:49França,
03:50que é oceanógrafo e pesquisador do IFES Campos Piúma.
03:54É o projeto Vozes dos Manguesais de Iguarapari, diagnóstico e ações para proteção e conscientização.
04:01E a nossa equipe foi a campo conferir esse trabalho.
04:05Você já comeu camarão?
04:06Isso sim, amo.
04:07Já comeu peixe, já comeu caranguejo.
04:09Eu desfruto, né?
04:10É de onde vem.
04:11Exatamente.
04:12Exatamente, de onde a gente vê, de onde esses organismos crescem e, óbvio, reproduzem também.
04:24Essa é uma etapa importante do projeto de pesquisa que envolve a construção do diagnóstico.
04:31Aqui a gente traz essa sonda, que é uma sonda de multiparâmetros, onde a gente vai conseguir coletar dados de
04:37temperatura,
04:38de condutividade elétrica, de oxigênio.
04:41As atividades começaram no início de 2025.
04:45A pesquisa abrange os manguezais localizados nas regiões dos rios Una e Perocão,
04:50além da área de reserva de desenvolvimento sustentável Concha Dostra.
04:55O diagnóstico inicial preocupa o pesquisador, em especial o do manguezal do rio Una.
05:01As principais interferências aqui, elas estão relacionadas com as ações humanas,
05:06no sentido da construção, do avanço do crescimento urbano, que tem pressionado essas áreas de manguezais.
05:13Este aqui, em especial, no rio Una, nós estamos observando um processo de assoreamento intenso,
05:21que é resultado do aumento da erosão das margens desse sistema, desse rio, que traz um grande volume de sedimentos
05:31e provoca,
05:32o assoreamento provoca o quê? Uma diminuição da profundidade do rio.
05:36E isso é maléfico para todos os organismos que dependem desse rio.
05:44Só para as pessoas entenderem, esse lugar onde a gente está pisando agora, a gente não conseguiria pisar alguns anos
05:49atrás.
05:49Era muito mais fundo, as pessoas tinham outro tipo de relação com essa água?
05:53Sim, sim. A relação com o rio, ela vai sendo modificada porque as pessoas deixam de utilizar esse espaço para
05:59um lazer,
06:00ou para navegar, ou para pescar. Então, as pessoas acabam se afastando desse sistema por conta das mudanças na paisagem.
06:08A gente tem observado uma diminuição da concentração de oxigênio dissolvido nessas águas,
06:14que pode ser já um reflexo do aumento da quantidade de esgoto que, eventualmente, esse rio tem recebido.
06:24Pensando em território, os manguezais equivalem a menos de 1% de todas as florestas tropicais do mundo.
06:32Parece uma parcela insignificante, mas é esse solo que, muitas vezes, é reduzido às suas características,
06:40por ser lamacento, ter um odor natural resultado de decomposição de matéria orgânica.
06:46Mas é justamente esse solo que é capaz de estocar de 4 a 5 vezes mais carbono do que florestas
06:54de terra firme,
06:55como a floresta amazônica, por exemplo, que absorve esse gás através das árvores.
07:00A gente está falando de um ecossistema pequeno em proporção,
07:04mas gigante no impacto ecológico e climático que é capaz de causar.
07:11Os olhos do mundo também estão voltados para os manguezais de Guarapari.
07:15O projeto já faz parte de uma aliança internacional, chamada Mangrove Breakthrough.
07:21Em português, avanço ou marco para os manguezais.
07:25A iniciativa global pretende investir bilhões de dólares até 2030 para restaurar e proteger áreas costeiras.
07:34O projeto também foi certificado durante a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas,
07:40a COP30, que aconteceu em Belém em 2025.
07:45Tamanho alcance e reconhecimento só foram possíveis através de recursos financeiros investidos.
07:52O Espírito Santo se tornou o primeiro Estado brasileiro a lançar um edital específico sobre manguezal.
07:58O financiamento de um milhão de reais veio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo, a
08:05FAPES.
08:06Para o diretor-geral, a iniciativa cumpre o papel de conectar o ambiente acadêmico aos desafios reais do meio ambiente.
08:15Esse projeto é resultado de uma chamada pública, temática, porque o manguezal era um dos temas desse edital.
08:22Eles foram beneficiados com recurso e aí com esse recurso eles estão conseguindo comprar insumos,
08:28equipamentos para poder realizar as atividades experimentais,
08:32mas também capacitar pessoas, porque mobiliza alunos que estão ajudando o andamento da pesquisa
08:37e também está permitindo as atividades de extensão, as atividades de campo,
08:42porque as atividades se dão nessa localidade do manguezal.
08:47Enfim, então, esse conjunto de atividades estão sendo, de certa maneira, apoiadas com o nosso fomento.
08:53Ainda há muito trabalho a ser feito para reparar o que a presença humana devastou,
08:59mas também há muito a ser salvo.
09:01Em cinco a dez anos, o pesquisador espera ver uma paisagem diferente, regenerada.
09:08Até agora, quase duas mil mudas já foram plantadas na área de abrangência da pesquisa.
09:14Se dessas três mil mudas germinarem, 500 mudas está bom.
09:18E se a gente conseguir a conscientização de dez pessoas, melhor ainda.
09:25A partir desse ecossistema é de onde as comunidades tiram o peixe, tiram o caranguejo, tiram o camarão.
09:34Então, nós pensamos que nós estamos, quando afetamos esse sistema, nós estamos afetando a base da cadeia alimentar.
09:41E dentro dessa cadeia alimentar, nós estamos incluídos.
09:44Nós, como seres humanos, também fazemos parte dessa cadeia.
09:48E onde a gente vê isso? Quando você vai à feira comprar um camarão, comprar um caranguejo, comprar um peixe.
09:53E aí você começa a ver a diminuição de determinadas espécies.
09:58A gente não quer inviabilizar a atividade econômica.
10:00A gente quer que essa atividade econômica seja sustentável.
10:03Mas, para isso, a gente precisa dar condições para a comunidade que explora aquele local
10:07poder resolver práticas que vão permitir, ao mesmo tempo, que eu possa manter a saúde do ecossistema,
10:13mas também permitir que eles possam explorar economicamente o manguezal.
10:19A gente também envolve a comunidade, os alunos da associação.
10:23São 180 crianças que a gente faz o atendimento aqui.
10:27E eles participam, como plantar, como cultivar, como manter esse viveiro.
10:32E a gente vai levar essa garotada para campo também, para ajudar no replantio do manguezal.
10:37Isso vai ser muito bom para eles também.
10:38É preciso que a gente tenha consciência, é preciso que a gente estude ele, é preciso que a gente entenda
10:44a importância dele.
10:45E é preciso que a gente veja, porque aquilo que a gente não vê, aquilo que a gente não conhece,
10:48a gente não sabe nem como proteger.
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